7 de abril de 2018

Capítulo sete



O café da manhã no dia seguinte foi servido por Dominados, como se Call e os outros estivessem estudando no colégio interno mais estranho do mundo. Os Dominados pousavam as louças com força, como se estivessem derrubando pedras, fazendo com que ocasionalmente a comida caísse e fosse direto para a boca de Devastação. Mesmo assim, a mesa estava farta, com torradas cheias de manteiga, bacon, ovos mexidos, suco de laranja fresco e aveia.
Tamara e Jasper estavam muito bem-comportados, aparentemente tentando convencer Mestre Joseph de que Seguiam Seu Plano. Ela usava um vestido azul-claro, com apenas parte das rendinhas arrancadas, e havia cavalos na camisa e na calça de Jasper.
Alex também estava lá, embora não tivesse comido nada, apenas tomado café preto. Call tinha a impressão de que Alex também tinha uma lista de Suserano do Mal, mas sua pontuação funcionava de outro jeito. Ele provavelmente se dava um ponto cada vez que se vestia todo de preto ou ameaçava crianças. Talvez uma estrelinha dourada se fizesse os dois ao mesmo tempo.
Após o café, Mestre Joseph levou Jasper e Tamara para as aulas na biblioteca, enquanto Alex — agitado por causa do café — e Call voltavam para a sala onde haviam deixado o corpo de Aaron.
Não se falaram no caminho. Call estava resignado quanto a ter que passar algum tempo com Alex, apesar de não haver ninguém no mundo a quem ele odiasse mais. Alex passara anos mentindo para ele, havia matado seu melhor amigo, lhe tirado Aaron. Call não lamentaria vê-lo morto. Sabia que era uma postura bem de Suserano do Mal, mas aceitava; mesmo enquanto lembrava a si mesmo de que Alex era o caminho de volta até Aaron. Ele sabia mais que Call sobre os métodos de Constantine.
Call não conseguia decidir se estava aliviado ou não quando descobriu que o corpo de Aaron tinha sido levado. Em vez dele, havia uma mesa de metal diferente na sala. Nela, pairava algo pequeno, duro e morto.
Call se retraiu.
— Eca. O que é isso?
— É um arminho comum de jardim — respondeu Alex, andando de um lado para o outro atrás da mesa. — Temos que ressuscitá-lo. Para praticar. — Ele ergueu uma sobrancelha ao ver a expressão de Call. — Isso é necromancia, Callum. Pode ser confuso e perigoso. Se o corpo de Aaron for danificado, não terá conserto.
— Como Mestre Joseph roubou o corpo de Aaron? — quis saber Call, enquanto Alex ia até uma prateleira e pegava dois pares pesados de luvas de lona. Entregou um par a Call e pegou o outro.
— Anastasia estava no Magisterium após o enterro. Ela combinou com Mestre Joseph de soltar um elemental do ar, e esse elemental veio carregando o corpo até aqui. — Alex sorriu enquanto vestia as luvas pretas. — Aposto que deu para ouvir aqueles Mestres gritando por todo o sistema de cavernas.
— Então, você não sente falta, eu suponho — disse Call, vestindo as próprias luvas. — O Magisterium. Kimiya.
— Kimiya? — Alex gargalhou. — Acha que estou sofrendo por Kimiya? Acha que me sinto mal por ter mentido?
— Suponho que teria sido constrangedor dizer a ela que você era um assassino em conluio com Mestre Joseph — argumentou Call.
Alex ergueu uma sobrancelha.
— Não vi você por aí revelando a todos o seu segredinho, Constantine.
— Bem — disse Call. — Agora todos sabem.
Alex lançou um olhar estranho para ele.
— Sim, sabem. E Kimiya sabe sobre mim. — Ele se inclinou sobre o arminho. — Então.
— Então — ecoou Call. — É hora de compartilhar sua sabedoria. Como se desperta os mortos?
— Anastasia disse que você despertou Jen Matsui — comentou Alex.
— Sim, mas ela ficou... Dominada. — Call estremeceu. — Toda errada.
— Ela conseguiu responder perguntas. Dominados não conseguem fazer isso. É um começo.
Call franziu o rosto para Alex. Claro que Dominados conseguiam responder perguntas. Eles podiam falar! Será que isso significava que Alex não conseguia ouvir os dele?
Agora que Call estava pensando no assunto, era estranho que Jen tivesse voltado e que todos conseguissem ouvi-la. Será que isso significava que Call tinha feito algo diferente com ela, algo que Alex não fazia com os próprios Dominados?
Call estendeu suas mãos enluvadas.
— Pensei que você fosse o especialista aqui. Achei que estivesse praticando com seus “métodos de Constantine”, ou seja lá o que for.
— Sei muita coisa — disse Alex, irritado. — Para começar, somos magos do caos. O caos é uma energia instável. Nosso instinto é pegar esse caos e colocá-lo em um corpo vazio, sem alma. É assim que se obtém os Dominados.
— Aham. — Call estava acompanhando, apesar de a parte do instinto ser arrepiante.
— Mas todo elemento tem acesso a seu oposto. E o oposto do caos é a alma. A parte humana que faz as pessoas serem o que são. Arminhos também. — Alex parecia estar se divertindo. — Temos que alcançar algum lugar, encontrar uma alma de furão para esse furãozinho e colocá-la de volta em seu corpo, assim como Constantine colocou a alma em você.
— Certo — concordou Call.
Ele se lembrou de como foi procurar pela alma de Jennifer Matsui. Call e Aaron tinham capturado traços da menina para fazê-la falar, mas, depois, isso começou a desbotar, voltando ao nada. Ele a tinha segurado, mas Jen se partira em pedaços. Como tinha canalizado sua magia naqueles pedacinhos brilhantes para sustentá-la.
Jen havia acordado Dominada.
— Certo — disse Alex, como se Call não estivesse ouvindo.
— Só isso? — perguntou o garoto.
Horrorizado, Call percebeu que Alex não sabia mais que ele sobre trazer algo de volta dos mortos.
E o que significava isso quando Alex deveria estar estudando os métodos de Constantine e Call tinha encontrado a mesma técnica — ou possivelmente uma melhor? Será que Mestre Joseph estava certo em relação a Call; será que ter a alma de Constantine automaticamente o fazia melhor em despertar os mortos?
Alex o encarou com uma expressão de superioridade.
— Pode achar que não é muito, mas não é tão fácil quanto parece.
Call suspirou.
— Eu já tentei.
— O quê? — Alex franziu o rosto. — Não tentou...
Call não gostava de Alex, nem de sua atitude.
— Foi assim que trouxe Jennifer de volta. Eu não pretendia que ela voltasse Dominada. Mas não tinha sobrado o suficiente de sua alma.
Por um momento, Call achou que Alex fosse lhe bater.
— Eu sei de coisas, sei segredos — disse ele, apontando o dedo para Call. Mas estava claro que não sabia de nada.
— Se o que você está falando realmente funcionasse, então não teríamos que conduzir nenhum experimento. Mestre Joseph disse que Constantine estava prestes a fazer uma descoberta, não que a tinha feito. — Call suspirou. — Quero ver seus cadernos pessoalmente.
— Por quê?
Nada naquela situação ia de acordo com a vontade de Alex, mas ele claramente não estava disposto a ceder um palmo.
Call estava cansado de discutir.
— Se você não me deixar vê-los, Mestre Joseph com certeza vai.
— Vamos simplesmente tentar trazer esse arminho de volta — declarou Alex. — Vamos... concentre-se.
— Não sei... — disse Call.
— Então, eu mesmo faço. — Alex fechou os olhos com força, como se estivesse tentando estourar uma veia na testa.
Call podia sentir a magia do caos no ar, quase podia sentir o cheiro, como um vento quente.
O animal começou a se mexer. Seu corpo inteiro estremeceu. As patas traseiras giraram. Os bigodes balançaram. E, depois, ele abriu seus olhos de redemoinho.
Dominado.
Alex abriu os próprios olhos com expectativa, mas, quando viu o que estava na mesa, socou a parede.
— Você devia ter me ajudado — acusou. — Precisamos é de mais poder!
O arminho saltou da mesa e corria para a porta quando Devastação acordou e começou a persegui-lo. Call ouviu alguma coisa bater, e, depois, um grito agudo.
— E de um arminho diferente — disse Call a Alex, jurando jamais permitir que ele chegasse perto do corpo de Aaron.


Decidiram fazer uma pausa para o almoço, apesar de Call não estar exatamente com fome. Várias horas com um arminho morto dão nisso, pensou.
Enquanto Alex ia para a sala de jantar, Call desviou até a cozinha a fim de preparar uma refeição rápida... Tudo para não ter que ver Alex enquanto comia. Ali, ele encontrou um jovem rapaz colocando material de chá em uma bandeja.
— Olá — cumprimentou o jovem.
Call, não querendo ser grosso, respondeu:
— Oi.
Ao ver a confusão de Call, o jovem riu sem malícia e disse:
— Meu nome é Jeffrey, e eu ajudo por aqui. Não passei nas provas para entrar no Magisterium, mas Mestre Joseph ofereceu me ensinar assim mesmo, em vez de cortar minha magia.
— Ah — disse Call.
Ele precisava admitir que era uma boa maneira de obter recrutas, apesar de Call não saber ao certo quanta magia podiam aprender. Mas e se a resposta fosse muita? Call pensou em Hugo dirigindo o caminhão, em todos os prisioneiros no Panóptico, e ficou imaginando quantas pessoas havia na ilha.
— Você é Callum, certo? — perguntou Jeffrey.
— Sou.
— Venha comigo. Tarquin queria que eu o levasse até ela quando saísse da aula.
Call não sabia exatamente o que Jeffrey achava que estava fazendo, mas foi até uma saleta vitoriana onde o jovem repousou a bandeja com sanduíches sobre uma mesa, entre duas poltronas grandes de veludo.
Havia uma janela grande com vista para o gramado verde, onde um Dominado guiava um cortador de grama seguindo um padrão estranho. Na saleta encontrava-se Anastasia, vestindo mais um de seus terninhos brancos. Ela indicou que Call se sentasse na poltrona a sua frente.
Jeffrey saiu, e o garoto se sentou em uma das poltronas, sentindo-se desconfortável. A bandeja prateada de bolos com coberturas e sanduíches cortados e sem casca estava entre eles. Call pegou um de salada de ovo e o segurou com cuidado.
— Você deve estar bravo comigo — comentou Anastasia.
— Você acha? — ele deu uma mordida no sanduíche. Em geral, preferia líquen. — Porque mentiu para Tamara, nos traiu e deixou que Mestre Joseph nos sequestrasse? Por que eu ficaria bravo com isso?
Os lábios da mulher se enrijeceram.
— Call, você estava no Panóptico. Precisei fazer o que podia para tirá-lo de lá. Acha que haveria liberdade para você? Não. Você teria sido perseguido pelos magos assim que se dessem conta de que você desaparecera.
— Não vejo diferença entre ser pego por eles ou por você e Mestre Joseph. Isso aqui é só uma prisão com sanduíches.
— Ao longo da vida, aprendi que alianças não importam. Você pode ser destruído por aqueles que se autointitulam bons tão facilmente quanto por aqueles que são mais claramente egoístas. Tudo o que importa para mim, Call, é que você permaneça vivo e seguro. — Anastasia se inclinou para a frente. — Obedeça Mestre Joseph. Ele vai ajudá-lo a despertar Aaron dos mortos. Depois, quando o tiver de volta, você pode ir até o Magisterium e mostrar o que fez. Realmente acha que eles rejeitarão um dom desses? Todo mundo odeia a morte, Call.
— Mas nem todo mundo tem que ser inimigo dela.
Ela balançou a cabeça.
— Você não entende. Estou dizendo que vão aceitá-lo. Receberão você como seu Makar, assim como vão receber sua magia e usá-la para trazer de volta os próprios entes queridos. Você não correrá mais perigo.
— Não sei se isso vai funcionar — murmurou Call, mas Anastasia não pareceu ouvir.
— Enchi seu quarto com seus pertences... pertences de Constantine. Sei que ainda está lutando contra quem você é. É irônico, porque Con sempre foi teimoso. — Os olhos de Anastasia estavam suaves enquanto ela o encarava. — Você passou tanto tempo enterrando quem é. Deixe as fotos e as roupas o cercarem... deixe que sua alma se lembre. — A mulher suspirou. — Queria poder ficar. Contaria histórias sobre você todos os dias, sobre o que Constantine fazia quando era pequeno.
Isso parecia a pior coisa que Call podia imaginar.
— Você vai embora? — perguntou ele, cauteloso.
— Tenho que voltar ao Magisterium e contar a eles uma boa história sobre como você foi levado, e como escapei com vida. Com sorte, serei convincente o bastante para conseguir ficar de olho em seus planos por mais um tempo.
— E se eu não conseguir fazer o que Mestre Joseph quer? — perguntou Call, pensando no corpo frio de Aaron sobre a mesa. Sim, ele queria seu amigo de volta, mas não permitiria que Alex o despertasse como um Dominado. Faria o que precisasse ser feito para garantir que isso nunca acontecesse. — Constantine não conseguiu ressuscitar os mortos... talvez eu também não consiga. Se eu fracassar, Mestre Joseph vai usar o Alkahest para tirar meu poder.
Anastasia lhe lançou um olhar penetrante.
— Mestre Joseph precisa de você. Ele só vai usar o Alkahest para extrair seu poder se ficar encurralado. Não o coloque nessa posição, Call. Ele precisa de nós... e nós precisamos dele.
— Você não se importa que ele me ameace? — perguntou Call. — Não acha que deveríamos nos preocupar?
— Se eu achasse que existisse um lugar mais seguro para ir, eu iria. Mas sua alma, essa alma inquieta, jamais foi feita para ter paz, Con. Ela foi feita para ter poder. — Anastasia se aproximou de Call. — Você é poderoso. Não pode simplesmente desistir desse poder. O mundo não permitirá. Não permitirá que você se esconda por medo de se ferir. No fim, pode ser que você chegue a essas duas opções: governar o mundo ou ser esmagado por ele.
Isso pareceu sombrio e dramático, mas Call apenas assentiu, tentando parecer pensativo em vez de assustado. Anastasia o tocou uma vez na bochecha, saudosa, e depois se levantou.
— Tchau, meu querido.
Por mais estranha que ela ficasse perto de Call, e por mais que ele não quisesse ouvi-la falar o tempo todo sobre quanto ele se parecia com Constantine, o garoto ficava um pouco triste com sua partida. Anastasia queria que ele fosse seu filho perdido, e isso não era possível, mas, pelo menos, ele sentia que ela estava mais ou menos do seu lado. Mestre Joseph não estava, independentemente de quanto fingisse. Call comeu o resto do sanduíche de salada de ovo sozinho, assistindo enquanto o Dominado empurrava o cortador de grama para o rio.
Depois disso, procurou por Jasper e Tamara pela casa, torcendo para que conseguisse persuadir Mestre Joseph a que todos tivessem lições juntos.
Como não os encontrou, voltou para a sala de treinamento. Alex estava lá com dois novos arminhos parcialmente descongelados.
Call se sentiu um pouco enjoado.
— Aqui — disse Alex, jogando violentamente um caderno preto com folhas de anotações extras sobre a mesa. — Este foi o último caderno de Constantine. E, se quiser ver os outros, não precisa ir muito longe para procurar. Estão em seu quarto, nas prateleiras, exatamente como Mestre Joseph e Anastasia insistiram.
— Obrigado — agradeceu Call, com má vontade, pegando o caderno.
— Agora é sua vez — disse Alex, apontando para as pequenas criaturas sobre a mesa.
Call olhou para os arminhos. Não tinha certeza se seria capaz. Mas queria Aaron de volta. E, se houvesse alguma chance...
Ele alcançou a magia do caos e a direcionou a uma das criaturas. Pôde sentir o frio remanescente ali, os resquícios prateados de onde a alma estivera. Alguma coisa ainda permanecia.
Tentou capturá-la, tentou aquecê-la e trazê-la à vida. Mas havia muito pouco. No desespero, tentou inflar o possível. Precisamos de mais poder, havia dito Alex.
Call respirou fundo, reunindo o caos dentro de si, alcançando na escuridão, na violência e no movimento em redemoinho que só um Makar conseguia enxergar. Ele agarrou o caos, como se estivesse fazendo isso com as duas mãos, empurrando-o desesperadamente para a alma inflada do animal, como se estivesse tentando acender uma fogueira no meio de um campo de gelo.
Call sentiu a faísca ativar e crescer...
Alex gritou. Call se abaixou quando um barulho alto ecoou pelo recinto. Quando se levantou novamente, pontos pretos dançavam diante de seus olhos. Ele se sentiu fraco e exausto, drenado de toda energia e magia.
Alex o olhou, furioso. Estava todo respingado de pedaços de algo impronunciável que Call não queria especular.
— Você explodiu o arminho — disse Alex.
— Explodi?
Call estava impressionado, mas a infeliz evidência se espalhou por todos os lados. Ele se livrara do pior indo para baixo da mesa, mas Alex e seu jeans de grife não tiveram a mesma sorte.
Alex tirou as luvas e as jogou sobre a mesa.
— Por hoje já deu.
Ele saiu irritado, e, após um minuto, Call o seguiu. Ninguém queria ficar sozinho em uma sala com dois arminhos mortos, um deles aos pedaços. Torceu para que Jeffrey não ficasse encarregado da limpeza.


— Como foi? — perguntou Mestre Joseph durante o jantar.
Todos se reuniram na sala de jantar outra vez, apesar de a cadeira de Anastasia continuar vazia. A mesa estava farta de comida: salada de batata, repolho, costelas brilhando com molho picante, grãos caramelizados, couve verdinha. Jasper já tinha comido um pedaço inteiro de costela.
— Call explodiu um arminho — contou Alex.
Ele parecia muito limpo, como se tivesse tomado um banho, e depois outro.
— Não se pode esperar acerto logo no começo — relevou Mestre Joseph, mordendo uma costela. — Mas espero que vá evoluindo aos poucos.
— Tenho certeza de que outra pessoa poderia se sair tão bem nisso quanto Call — argumentou Alex.
Ele olhava fixamente para Mestre Joseph. Parecia querer transmitir sua esperança de que o homem fosse extrair de uma vez os poderes de Call com o Alkahest para poderem dar continuidade a partir dali.
— Tenho certeza de que não — respondeu Mestre Joseph, apesar de ter enrijecido a mandíbula. Call o observou fascinado. Será que ele realmente queria usar o Alkahest e tomar a magia do Caos para si? Primeiro viveu à sombra de Constantine e, agora, estava à de Call. Será que isso o incomodava? Era difícil dizer; sua voz soou calma quando Mestre Joseph retrucou: — Nunca tivemos dois Makars trabalhando nesse projeto antes. Até Constantine fez isso sozinho.
Definitivamente estou sozinho, pensou Call. Alex era pior que nada. Mas Alex apenas lançou a ele um sorriso desagradável.
— Continuaremos amanhã — disse o garoto.
Depois do jantar, Tamara e Jasper foram para o quarto de Call trocar informações sobre os respectivos dias. Mestre Joseph os havia ensinado a formar superfícies sólidas e inquebráveis a partir de ar e água.
Mas, depois de conhecer Jeffrey, Call se dera conta de que não eram os únicos com aulas por ali. Havia outros magos, outros grupos. Hugo lecionava para dez jovens alunos, e Tamara e Jasper viram pelo menos mais quatro grupos de aprendizes; grupos maiores que os permitidos no Magisterium. Jeffrey provavelmente também estava ensinando.
— Mas ele não nos deixou fazer nada afiado — revelou Jasper. — O que acho que faz sentido, já que não nos quer armados. Achamos que tem alguma espécie de elemental do ar formando barreiras de proteção em volta do Alkahest; uma espécie de guardião. — Ele forçou um sorriso. — Mas tudo bem. Vamos dar um jeito de passar.
— E você, Call? — Tamara parecia ansiosa. — Foi muito ruim?
Call se deteve perto de uma prateleira de livros. Nela, havia inúmeros retratos de Constantine e seus amigos. Era difícil não perceber que, em todas, o rapaz aparecia rindo no centro de um grupo. As pessoas sempre o procuravam com o olhar.
— Foi tranquilo — mentiu. — Só estou fingindo mesmo.
— Vou tentar me aproximar de Mestre Joseph — revelou Jasper. — Agir como se estivesse começando a me interessar por toda essa coisa do mal, para ver se ele me conta as coisas. Até porque seu plano não pode ser simplesmente trazer Aaron dos mortos. Isso não basta para dominar o mundo.
— Acha que ele tem um exército? — perguntou Call. — Quero dizer, além dos prisioneiros e dos alunos. Um exército de Dominados?
Todo mundo acha que ele tem um exército — respondeu Jasper. — Mas todos nós achávamos que o Inimigo da Morte ainda estava vivo, criando mais e mais Dominados. Se a única pessoa que pode fazer mais deles for mesmo Alex, então, talvez, o exército não seja tão grande assim.
Call olhou para eles e viu Tamara observando uma foto em sua cabeceira: Constantine e os pais.
— É engraçado vê-los assim — comentou Tamara. — Nunca daria para saber que um desses aprendizes arrasaria o mundo dos magos.
Call olhou para o espelho. Ele não tinha se lembrado de escovar o cabelo de manhã, e havia uma mancha de molho em sua camisa. Ele também não parecia grande ameaça, mas tinha a desconfortável sensação de que as próximas semanas definiriam seu destino.
Apesar de terem se reunido no quarto de Call, foram todos para o de Tamara na hora de dormir. Enquanto os outros caíam no sono, o garoto se flagrou olhando para o teto, com seu lobo encolhido ao lado. Sua alma, dissera Anastasia. Sua alma inquieta nunca foi feita para ter paz.
Você não me conhece, pensou Call. Não conhece minha alma. Ele rolou e fechou os olhos com força, mas ainda demorou muito a adormecer.

2 comentários:

  1. eu conheço a minha alma pq sou d+

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  2. Mesmo q o Call consiga trazer o Aaron de volta, será que o Aaron quer voltar? Tipo, e se ele quiser ficar morto? Pq entende q a vida dele chegou ao fim e não tem vontade de voltar

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Boa leitura, E SEM SPOILER!