7 de abril de 2018

Capítulo seis


Call ouviu o engasgo horroroso de Tamara. Jasper segurou a garota pelo braço quando ela cambaleou para trás. O próprio Call não poderia ter ajudado. Ele estava completamente congelado.
Era definitivamente Aaron na mesa. Estava deitado de costas. O cabelo louro fora penteado. Os olhos verdes estavam abertos e vazios.
Devastação inclinou a cabeça para trás e soltou um único uivo terrível de solidão, abandono e horror. Foi como se emitisse o som que Call não conseguia emitir. O uivo ecoou infinitamente nos ouvidos de Call, ali parado, seu corpo começando a tremer.
— Meu Deus, pare com esse barulho... — Era Alex Strike, surgindo com seu pijama preto de seda. Estava desarrumado, sonolento e irritado, mas a expressão logo se transformou em um sorriso. — Ah. Vejo que resolveu mostrar a eles o que realmente está acontecendo por aqui.
Tamara, Call e Jasper assistiram escandalizados enquanto ele ia até a mesa e puxava o lençol. Aaron vestia o que provavelmente planejaram que usasse no enterro — seu uniforme do Ano de Bronze. Alex tocou na pulseira que brilhava em um de seus punhos. Era ornamentada com pedras de heroísmo e pedras dos anos de Ferro, Cobre e Bronze. Além da pedra preta do caos, porque ele foi um Makar.
E que bem fez a ele, pensou Call, amargo. Alex roubara sua magia, e ele agora era apenas uma casca; uma casca que outrora guardou a vida, a animação, o caos e Aaron.
— Não toque nele — rosnou Call.
Alex soltou a mão de Aaron, que caiu pesada sobre a mesa.
— Morto — anunciou, alegremente. — Muerto.
— Acho que já entendemos — disse Jasper. — Obrigado.
— O que está acontecendo? — perguntou Tamara, com a voz engasgada. — Por que Aaron está aqui? O Magisterium vai notar que o corpo sumiu!
Da porta, Mestre Joseph os observava com uma tranquilidade sinistra. Então, veio em direção ao centro da sala, os olhos passando pelo corpo de Aaron, como se este fosse algo em uma placa de petri.
— Ah, eles já sabem. Aaron foi tirado de lá há algum tempo. Não foi divulgado porque não seria conveniente que o mundo dos magos ficasse sabendo que eles estragaram tudo nesse quesito também. Perder o cadáver de um Makar depois de terem passado três anos sem perceber que o Inimigo da Morte estava entre eles? A Assembleia explodiria.
— Em defesa de Call — disse Jasper —, não teria sido muito fácil adivinhar que ele era o IDM. Ele é muito astuto.
Depois de muito ser puxado, Call soltou Devastação. Estava entorpecido demais para se preocupar se o animal atacaria Mestre Joseph, tentando mordê-lo no rosto ou não.
Mas ele não o fez. Em vez disso, Devastação foi até a mesa onde estava o corpo de Aaron, soltou um ganido triste e se deitou ali embaixo.
— Não entendo — disse Tamara, segurando as lágrimas.— Qual é o objetivo disso tudo? Ninguém pode ressuscitar os mortos! Constantine não conseguiu, e é por isso que temos os Dominados.
— Constantine podia ter conseguido — revelou Mestre Joseph . — Ele estava a poucos dias desse avanço quando a Terceira Guerra dos Magos eclodiu. Depois, por causa do Massacre Gelado, foi forçado a recomeçar. Mas ele... você... pode fazer isso agora. O conhecimento estava em sua alma, e a alma de Constantine está aqui, em você, Call!
Call olhou para Aaron sobre a mesa. Pela primeira vez, o que Mestre Joseph estava dizendo não parecia tanta loucura. A morte era terrível; Alastair ainda sofria por Sarah, e já fazia mais de uma década desde sua morte. Call teria gostado de ter uma mãe, mesmo que ela tivesse algumas reservas em relação ao próprio filho. E todas as pessoas que o detestavam, assim se sentiam porque Constantine Madden havia lhes tirado alguém. Se ele, Callum Hunt, realmente pudesse reviver os mortos — não pela metade, como aqueles Dominados assustadores, mas de verdade, realmente trazê-los de volta à vida —, elas o perdoariam. Perdoariam qualquer coisa.
E ele poderia ter seu melhor amigo outra vez. Aaron, vivo e rindo. Aaron renascido. Tamara não teria que se preocupar com ter feito a escolha errada ao salvá-lo. Call poderia parar de sentir saudades. Tudo poderia voltar a ser como antes.
— Eis o acordo que estou preparado a fazer — prosseguiu Mestre Joseph. — Callum, você fica aqui e trabalha a fim de trazer Aaron de volta dos mortos. Alex vai ajudá-lo, considerando que ele foi o arquiteto desse acidente infeliz.
Call ia começar a dizer que a morte de Aaron não tinha sido acidente e que Alex era um assassino, mas Mestre Joseph continuou falando:
— Você terá acesso às anotações de Constantine e à minha experiência. Depois que ressuscitar Aaron, pode escolher assumir seu destino e vencer a morte... ou ir embora de vez. Se escolher ir embora, Callum, terá minha permissão. Aceitarei que não tem Constantine Madden o suficiente em você e o libertarei de sua sina.
Por um instante, Call não teve certeza se estava escutando direito. Após todo esse esforço, Mestre Joseph simplesmente o deixaria ir?
— E quanto a Tamara e Jasper? — perguntou. — E Aaron?
— Todos vocês — prometeu Mestre Joseph. — Tamara, Jasper, Aaron, Devastação. Todos podem ir. Isso é tudo que peço: você leva Aaron até a Assembleia e mostra a eles do que somos capazes. Se ainda quiserem guerra, que seja. Mas tenho a sensação de que ver uma pessoa amada ressuscitada fará com que mudem de ideia. Porque, se você puder trazer de volta seu amigo, poderá trazer também os amigos deles. Os maridos e as esposas. Os pais. Os filhos. Todo mundo perdeu alguém. Todo mundo, bem no fundo do coração, gostaria de ter um pouco mais de tempo para viver.
Tamara pigarreou. Tinha parado de olhar para o corpo de Aaron em cima da mesa, embora Call soubesse que ela queria fazê-lo.
— Parece justo — disse ela.
Call sentiu uma onda de alívio. Estava feliz por não estar sozinho. Se Tamara queria, então tudo bem ele também querer.
— Mas Callum — prosseguiu Mestre Joseph. — Se você sentir que seu coração balançou com o que fez, se concluir que os membros da Assembleia são os covardes que são, temerosos quanto a mexer nas profundezas da magia do caos e com medo de permitir que qualquer pessoa o faça, então terá que ficar conosco. Tamara e Jasper, eu os treinarei enquanto estiverem aqui. Precisamos de jovens magos inteligentes como vocês. Vocês ouviram muito sobre os seguidores do Inimigo da Morte. Provavelmente foram convencidos de que somos vilões, mas, depois que tiverem passado algum tempo aqui, podem nos enxergar de outra maneira, assim como conseguiram separar Call das histórias horrorosas que correm sobre Constantine Madden.
— Você vai nos treinar? — indagou Jasper. — Em quê?
Mestre Joseph sorriu para eles.
— Talvez você tenha se esquecido de que já fui professor no Magisterium. Desenvolvi muitos grandes aprendizes, a maioria completamente desinteressada pela magia do caos. Fui professor dos pais de alguns dos atuais alunos do Magisterium.
Call imaginava que esses pais não estariam se gabando agora de terem sido alunos de Mestre Joseph. Ficou imaginando se os filhos saberiam.
— Você aceita o acordo? — perguntou Mestre Joseph a Call.
O garoto olhou para o corpo do amigo e quis dizer sim. Se houvesse alguma chance de trazer Aaron de volta, ele queria aceitar.
Mas aquilo não representava apenas muitos pontos em sua lista de Suserano do Mal. Era basicamente a lista em si. Toda ela. Dizer sim o tornaria um Suserano do Mal. E não um Suserano do Mal qualquer. Aquilo o tornaria o Inimigo da Morte.
Mesmo assim, Tamara não tinha se oposto... e não estava se opondo agora. Nem Jasper estava falando nada contra a ideia. Eles também queriam Aaron de volta. Call sabia disso. Constantine quis trazer de volta o irmão, mas aquilo fora diferente. Porque Aaron era uma boa pessoa. Não deveria estar morto.
— Sim — respondeu Call. — Eu faço. Eu o trarei de volta.
O sorriso de Mestre Joseph foi radiante. Alex encarou Call ameaçadoramente.
— Existe apenas uma complicação que não mencionei — disse Mestre Joseph.
— Você não pode mudar o acordo — insistiu Tamara.
— Ah, não. Nada desse tipo. — Qualquer traço amigável tinha deixado de existir em Mestre Joseph. Ele parecia duro, frio e assustador, assim como quando Call o conheceu. — É só o seguinte: se fugirem outra vez, destruirei o corpo de Aaron de modo que não haverá mais chance de trazê-lo de volta. Se fugirem depois disso, mato um de vocês. Cumprirei os termos do acordo, desde que os três cumpram suas partes.
Jasper respirou fundo.
— Não pode matar Call — argumentou ele. — Você precisa dele. É seu mago do caos.
— Alex também tem o poder do caos agora — respondeu Mestre Joseph, com a mesma voz assustadora. — E nós temos o Alkahest. Não só matarei Call se precisar, como disponho dos meios para isso. E para me apossar de seu poder.
Call pensou nas palavras sinistras de Mestre Joseph no jantar: Vamos dar a Call a oportunidade de descobrir quem ele é; se isso não acontecer, eu arrancarei seu poder pessoalmente.
— Tenho certeza, porém, de que não chegaremos a tanto. Agora, vão se deitar. — A expressão assustadora desapareceu, e Mestre Joseph voltou ao normal. Ao normal dele, ao menos. — Iniciaremos nossos estudos pela manhã.
O grupo foi conduzido para longe do corpo de Aaron, e a porta, trancada ao saírem.
Com uma última olhada para trás, Call seguiu para a escada. Ao subir, sentiu-se completamente exausto. Tinha começado o dia na prisão e, no fim, concordado em fazer a única coisa que achou que jamais poderia: tentar ressuscitar os mortos.
Quando chegou ao topo da escada, se dirigiu à porta do quarto e não teve certeza se conseguiria encarar. Virou-se para Tamara, que se encaminhava para o dela.
— Posso dormir no chão do seu quarto? — perguntou. — O seu é o único que não dá arrepios.
— Eu também? — pediu Jasper, pegando carona na ideia.
Tamara sorriu timidamente.
— Sim. Seria ótimo.
Jasper desapareceu a fim de pegar suas coisas para dormir. Call fez o mesmo. Colocou um pijama e foi arrastando seu colchão até o quarto cor-de-rosa, onde o ajeitou ao pé da cama.
Tamara estava perto da janela, usando um pijama branco de rendinha. Ela levantou os olhos quando Call entrou, e ele notou quanto ela parecia abalada.
Ele parou onde estava. Tamara parecia ter perdido todo o seu espírito de luta.
— O q... o que foi? — perguntou ele.
— Aaron. É horrível que ele tenha morrido, mas Mestre Joseph roubar seu corpo... o jeito que ele estava, todo branco e frio naquela mesa...
Os pés do garoto se moveram inconscientemente. Ele não podia deixá-la ali, parecendo tão arrasada. Então, atravessou o quarto em direção a ela e esticou a mão, com a intenção de afagar seu ombro. Mas, assim que chegou perto, Tamara o abraçou e afundou o rosto em seu peito.
Call ficou chocado, mal conseguia respirar. Seu coração parecia um balão desamarrado, voando pelo peito. Ele a abraçou com gentileza, seu corpo frágil e morno. Call às vezes se esquecia de quanto ela era pequena, pois a coragem a deixava enorme a seus olhos.
Tamara cheirava a sabonete e sol. Ele queria respirá-la, mas reconhecia que isso pareceria um comportamento estranho e possivelmente assustador. Pensou nas palavras de Anastasia, e, apesar do horror da situação que tinham acabado de vivenciar, sua pulsação acelerou tanto que ele temeu que Tamara pudesse notar.
— Call — disse ela, com a voz abafada. — Tive medo de que, após a morte de Aaron, você não quisesse mais ser meu amigo.
O coração do garoto bateu forte.
— Tive o mesmo medo.
— Mas não é verdade, certo? — Ela o encarou, com preocupação. — Ainda somos amigos. Sempre seremos, independentemente de tudo.
Ele se flagrou afagando gentilmente o cabelo de Tamara. Acariciando, até. Sentia-se outra pessoa, não Callum Hunt. Alguém que merecia a consideração de Tamara Rajavi.
— Sim — assegurou, surpreso e ligeiramente apavorado com as palavras que lhe saíam da boca. — Desde que te conheci...
A porta abriu, e Tamara e Call se afastaram quando Jasper entrou apressado, vestindo um pijama com estampa de cavalo e arrastando um cobertor. Ele se enrolou na coberta ao lado da cama de Tamara, que voltou para sentar-se à beira do colchão. Call, parecendo indiferente, deitou em sua cama improvisada.
— Eu estava falando agora com Call — disse Tamara. — Precisamos ter cuidado. Muito cuidado.
— Isso é novidade? — perguntou Jasper.
— Mestre Joseph está cogitando extrair o poder de Call com o Alkahest — alertou Tamara, dirigindo-se a Call. — Pense só: Mestre Joseph poderia ser ele mesmo o Inimigo da Morte. Não precisaria tentar obrigar Call a fazer o que ele quer; ele mesmo poderia fazer.
— Mas ele valoriza a alma de Constantine — observou Jasper.
— Eu sei — disse Tamara. — Ele definitivamente acha que Call tem mais chance de despertar os mortos, do contrário já teria retirado seu poder. Por isso Call foi esperto o suficiente para fingir a Mestre Joseph que ressuscitaria Aaron.
Fingir? Call, que sentia como se estivesse flutuando, agora tinha caído de volta à Terra. Tamara achava que ele estava fingindo para Mestre Joseph, que não tinha sido sincero quando falou sobre trazer Aaron de volta? Mas isso jamais havia passado pela cabeça dele. Call achou que estivessem em sintonia. Acreditou que, pela primeira vez na vida, não estivesse fazendo a coisa errada.
Estavam tão próximos há um instante. Agora tudo parecia errado, como se ele de algum modo a tivesse enganado.
— Vamos dar um jeito de sair daqui — disse Tamara a ele. — E vamos tentar descobrir uma forma de conseguir o Alkahest. Se pudéssemos roubá-lo ou, melhor ainda, destruí-lo, você ficaria muito mais seguro. Você só precisa fingir que está tentando despertar Aaron enquanto isso.
— Sim! — disse Call, com mais força do que pretendia. — Fingir. Definitivamente. Era exatamente isso que eu ia fazer.
Mas, enquanto se permitia relaxar para dormir, com o corpo quente de Devastação ao seu lado, ele já sabia que estava mentindo. Call ainda traria Aaron dos mortos.
Talvez não fosse a coisa certa, mas, se tudo pudesse voltar a ser como era antes, se Aaron estivesse vivo e todos pudessem ser felizes, ele não se importava com certo ou errado.

2 comentários:

  1. Call, essa coisa de mentir nunca dá certo. Não lembra da promessa que você fez??
    Já tô prevendo as tretas...

    Ps: MORTA com esse momento Callmara super fofo <3

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  2. Acho que, bem lá no fundindo, o Call é realmente o inimigo da morte... Está seguindo os mesmos passos dele. Mas vamos ver, né?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!