7 de abril de 2018

Capítulo quatro


Horas se passaram, durante as quais Call cochilou e acordou. Ele estava alerta, mas também exausto. Não parava de pensar em Alastair; como seu pai saberia onde ele estava? O homem receberia as notícias da fuga de Call. Muito em breve, todos no mundo dos magos saberiam que havia um Makar à solta. Call pensou na preocupação do pai e se sentiu vazio por dentro.
Tamara não dormiu. Toda vez que Call abria os olhos, via a garota olhando arrasada para o escuro. Em dado momento, notou que lágrimas lhe escorriam pelo rosto. Ficou imaginando se estaria chateada com o fracasso de sua fuga da cadeia. Ou talvez estivesse com saudade de Aaron.
Tamara salvara a vida de Call quando Alex Strike tentou roubar sua magia do caos. Mas, ao salvar a vida dele, ela condenou Aaron... o melhor e mais gentil cara que Call já havia conhecido.
Ela poderia ter salvado qualquer um dos dois e escolheu Call. Ninguém em sã consciência o escolheria.
A pergunta de Call não era se Tamara havia se arrependido. Era quanto. Ou, pelo menos, era o que ele achava até ouvir as palavras de Anastasia.
Agora já não sabia o que pensar. Por um lado, queria acreditar. Por outro, a fonte era Anastasia, e a mulher não era exatamente confiável.
A van finalmente aterrissou com um solavanco que derrubou todos no chão. As portas traseiras foram abertas por Alex Strike. Call sentiu nojo mais uma vez ao ver Alex, e ficou imaginando se algum dia se acostumaria. Se algum dia não sentiria o impulso de fazer a cabeça do garoto inchar e explodir, como uma fruta que amadureceu demais.
Não queria se acostumar.
— Bem-vindos ao lar — ironizou Alex, recuando para que pudessem saltar da van.
Ele não estava sozinho. Havia um semicírculo de Dominados atrás dele. Mestre Joseph não estava à vista.
Acima, o sol se punha em um esplendor de vermelhos e roxos. Estavam em uma ilha, no meio de um rio largo; as margens eram visíveis dos dois lados, ao longe. Capim crescia sem aparo entre lilases.
Em frente às vans erguia-se uma enorme casa de pedra amarela com torres, como as de um castelo. Havia uma imensa entrada sob um pórtico. A construção colocava a casa de Tamara no chinelo em termos de tamanho, apesar de as ervas daninhas ao redor estarem grandes demais, e o lugar em si parecer ao mesmo tempo um pouco estranho e há muito abandonado. Devastação, livre do confinamento da van, latiu alto. Call estava prestes a mandá-lo se calar, quando um coro de latidos e uivos respondeu.
Os olhos de Tamara se arregalaram.
— Outros lobos Dominados — constatou.
O barulho era lindo e sinistro. Devastação parecia não saber o que fazer consigo mesmo; ele avançou com curiosidade, antes de se encolher novamente junto à perna de Call. O garoto fez carinho em sua cabeça.
Alex riu.
— Bicho idiota.
Tamara se irritou.
— Não fale assim dele.
— Quem disse que estou falando de Devastação? — retrucou Alex.
Ele começou a subir as escadas até a porta da frente da casa. Os Dominados começaram a se mover também, guiando Call, Jasper e Tamara para a entrada.
Eles atravessaram as enormes portas da frente e chegaram a uma entrada, também enorme. Um lustre de vitral gigantesco pendia do teto, perdido nas sombras acima. Uma ampla escadaria erguia-se a partir da entrada, levando a sabe-se lá quantos andares. Acima de uma lareira estava a máscara de prata de Constantine Madden — a mesma que Mestre Joseph usava na primeira vez que Call o viu, a mesma que permitiu que ele se passasse por Constantine por tanto tempo enquanto esperava Call crescer para tomar o lugar do Inimigo da Morte.
Acima dela, pendia o Alkahest, o ar a seu redor brilhando de forma a indicar alguma espécie de defesa mágica. Outrora criado para destruir um praticante do Caos, Alex, de algum jeito, o modificou para roubar o Caos. Ele o utilizou para matar Aaron e roubar seu poder. Se não fosse pelo Alkahest, não haveria um bando de Dominados obedecendo Alex. Se não fosse pelo Alkahest, Aaron não estaria morto.
Jasper emitiu um ruído impressionado. Tamara o encarou.
— Sim, é um belo chalezinho — disse Alex, vagamente. — Venham. E vocês — ele estalou os dedos para os Dominados —, podem ficar aqui.
Call e seus acompanhantes foram atrás de Alex até uma sala espaçosa, onde havia uma grande mesa de madeira ao centro. Mestre Joseph estava ali, mexendo no conteúdo de um enorme caldeirão com uma colher pesada de metal.
— Ah — disse ele. — Que bom que chegou. Veja, tudo aqui é muito civilizado. Não é como a prisão onde estava.
Mas ainda é uma prisão, pensou Call. Mesmo assim, ele deixou que Mestre Joseph dissesse algumas palavras sobre suas algemas e o libertasse delas.
Call esfregou a pele outrora coberta pelo metal, constrangido.
— Onde está Anastasia? — perguntou.
A mulher o deixava desconfortável, mas Call realmente acreditava que ela queria seu bem.
— Lá em cima, se preparando para o jantar — respondeu Mestre Joseph, e, então, indicou o conteúdo do caldeirão.
— Olho de salamandra? — perguntou Call. — Ensopado de pata de sapo?
— Meu famoso chili superpicante, na verdade — revelou Mestre Joseph. — Drew sempre adorou.
A menção ao filho morto de Mestre de Joseph fez Call congelar. O homem havia dito que não culpava Call pela morte de Drew, apesar de ele ter sido, pelo menos parcialmente, responsável por ela. Call tinha certeza de que parte do Mestre o detestava, e esse ódio poderia vir à tona a qualquer momento.
Mestre Joseph queria que Call fosse Constantine Madden renascido. Ele queria o Inimigo da Morte. Callum Hunt, mesmo carregando sua alma, seria uma constante fonte de decepção.
— O que quer que eu faça com Call e seus assistentes? — perguntou Alex em tom de tédio.
— Os aposentos de Call e Tamara são na Ala Vermelha — disse Mestre Joseph. — Quanto a nosso convidado inesperado... — Ele olhou para Jasper. — Acomode-o no antigo aposento de Drew.
— Ah, não — reclamou Jasper. — Isso parece sinistro.
Mestre Joseph lançou a Jasper um sorriso que era metade rosnado.
— Nós, aqueles que lutam nobremente contra a morte, já fomos acusados de sermos macabros. De ficarmos confortáveis demais com a morte. Não gostamos de dar crédito a esse tipo de falácia. Simplesmente nos recusamos a reconhecer a morte como um fim. Só isso.
Jasper não pareceu reconfortado.
— Além disso, os quartos são os únicos lugares que os Dominados não visitam — acrescentou.
— Por outro lado — disse Jasper —, isso é bom.
Mesmo assim, ele continuou olhando fixamente para Call enquanto subiam, e mexeu a boca formando a frase É tudo culpa sua antes de ser conduzido a algo chamado de Ala Verde por um Dominado silencioso.
Call e Tamara foram levados por um corredor de paredes vermelhas. Tamara foi conduzida a um quarto do outro lado do corredor, enquanto Alex levou Call pessoalmente ao dele, inclinando-se sobre o garoto para acender a luz.
— Anastasia cuidou da decoração — explicou ele. — O que acha?
À primeira vista, o quarto parecia tranquilo. Era normal, simples, com lençóis e travesseiros listrados de branco e azul-marinho. Apenas lentamente, o horror do que estava vendo se apresentou. Fotos de família preenchiam todas as superfícies: Constantine Madden, rindo com o irmão Jericho. Acenando para os pais através de uma grade. Em um acampamento com toda a família.
Fotos de Constantine sozinho, recebendo prêmios na escola, em cerimônias onde novas pedras eram postas em sua pulseira. Sorrindo no uniforme do Ano de Prata. Fotos alegres com amigos tinham sido afixadas às molduras dos espelhos, acima da cama.
Amigos que, em sua maioria, estavam mortos, assassinados na Terceira Guerra dos Magos.
— Todos os livros aqui eram os favoritos de Constantine — revelou Alex, com um tom de júbilo. — Todas as roupas no armário são as roupas que ele usava quando tinha sua idade. Estão torcendo para que isso ative algumas enxurradas de lembranças, mas não acredito que vá funcionar.
— Saia daqui — disse Call.
A seu lado, Devastação gania, inquieto. Conseguia sentir o aborrecimento de Call, mas não sabia por quê.
Alex se apoiou no batente na porta.
— Mas isso é tão engraçado.
Call se lembrou de quando admirava Alex. Achava que ele fosse apenas o assistente de Mestre Rufus, um aprendiz mais velho e legal que era gentil com Call. Mas toda aquela gentileza tinha sido falsa, como o ilusionismo que ele praticava.
— Vou me trocar para o jantar — avisou Call. — Saia daqui, ou assista enquanto eu fico pelado; a escolha é sua.
Alex revirou os olhos e desapareceu, fechando a porta atrás de si.
Call se aproximou a fim de analisar as fotos colocadas na moldura do espelho. Constantine e os amigos. Ele reconheceu um Alastair Hunt muito mais jovem, com o braço em volta de Constantine, sorrindo e apontando para alguma coisa ao longe. E lá estava a mãe de Call, Sarah, parecendo muito jovem, com o cabelo solto e um sorriso bonito. Ela estava ao lado de Constantine, e alguma coisa lhe pendia do quadril. Miri. A faca que Sarah tinha feito. Ela estava com Miri. Call sentiu o fundo da garganta começar a doer ao lembrar que a mãe usara aquela faca para talhar as palavras na parede de gelo da caverna onde morreu.
MATE A CRIANÇA.
Call foi até o guarda-roupa e abriu as portas.
As roupas lá dentro provavelmente teriam sido mais perturbadoras para alguém que não tivesse crescido com Alastair Hunt, e que, portanto, fazia compras em muitos brechós e empórios vintage. Muitos jeans pretos com joelhos rasgados e longas bermudas cargo. Ao lado, camisas de inverno, camisetas brancas e muita flanela. Havia também uma jaqueta jeans surrada. Os anos noventa tinham voltado e viviam no armário de Call.
Apesar do que Alex dissera, Call torceu para que Mestre Joseph tivesse comprado roupas de segunda mão. Isso já seria sinistro o suficiente, mas, ao examinar a jaqueta jeans, que tinha patches e coisas escritas, chegou à conclusão ainda mais sinistra de que tudo aquilo pertencera mesmo a Constantine Madden.
Call torceu muito para que as cuecas fossem novas. Ele não queria usar as roupas íntimas de um Suserano do Mal.
A porta se abriu, e Jasper entrou.
— Eu não c-c-c-consigo — gaguejou ele. — Não consigo ficar lá!
— O que foi agora? — Call estava cansado das reclamações de Jasper. Afinal de contas, nenhum deles queria ter sido sequestrado. Nenhum deles queria dormir naquele lugar. — Não pode ser mais perturbador que isso!
Jasper olhou em volta, assimilando tudo. Depois virou novamente para Call.
— Venha comigo. — Havia uma tristeza em sua voz que fez com que Call o seguisse, com Devastação logo atrás.
Eles passaram do corredor vermelho para um verde, atravessaram duas portas até chegar a uma terceira, que Jasper abriu.
Era um cômodo grande, com uma janela ampla. A luz que entrava iluminava teias de aranha ao redor. Poeira havia assentado na maior parte das superfícies. Parecia que ninguém entrava ali desde a morte de Drew. Era sinistro, Call precisava admitir. Principalmente pela quantidade de cavalos. Havia uma parede tomada de prateleiras, cada uma delas contendo centenas de cavalos. E havia pôsteres de cavalos. Cavalos na lâmpada da cabeceira. Cavalos correndo pelos lençóis.
— São muitos... — Call conseguiu falar, encarando.
— Viu? — disse Jasper. — Não posso dormir aqui!
Até Devastação pareceu um pouco assustado e farejou o ar, preocupado.
— Suponho que toda a obsessão com pôneis não fosse apenas parte do disfarce de Drew — admitiu Call, que precisou concordar: aquele quarto era, na verdade, pior que o seu.
— Eles ficam me olhando — comentou Jasper, já assombrado. — Não importa para onde vá, eles ficam olhando com esses olhos pretos de bolinha de gude. É horrível.
Tamara entrou no quarto. Atrás da garota, no corredor vermelho, uma porta estava ligeiramente aberta.
— O que vocês estão olhando... Uau! — Ela piscou os olhos para os cavalos.
— Como é seu quarto? — perguntou Jasper.
— Não importa — respondeu Tamara, rápido demais. — Totalmente sem graça.
Call cerrou os olhos para ela, desconfiado.
— Será que posso dormir lá?
Jasper pareceu muito alegre com a ideia, como se o problema da situação fosse as acomodações. Ele foi para a porta ligeiramente aberta no corredor vermelho.
— Não! — exclamou Tamara, indo atrás dele. — E não tem por que você olhar...
Mas, àquela altura, ele já tinha terminado de abrir a porta. Por um instante, Call achou que o rosto de Jasper tinha ruborizado, mas foi apenas um reflexo do interior do quarto. Era rosa. Muito, muito, muito rosa.
Tamara soltou um longo suspiro.
— Sei que temos problemas maiores, mas meu quarto é constrangedor!
As paredes eram pintadas de rosa-claro. Sobre a cama de dossel rosa-escuro caía um tecido transparente como gaze. A roupa de cama era rosa neon e coberta de laços. Em cima havia um unicórnio de pelúcia gigante, com um chifre de tecido prateado. No chão, um tapete rosa peludo em formato de coração.
— Uau! — espantou-se Call.
— Você precisa ver as roupas no armário — continuou Tamara. — Não, na verdade ninguém jamais deveria ver as roupas no armário.
Lá de baixo veio um chamado.
— Jantar!
— Acham que isso é alguma trama maligna de Mestre Joseph para se certificar de que a gente não consiga dormir? — Call quis saber enquanto desciam. — Os cultos não tentam fazer lavagem cerebral exaurindo a pessoa?
Tamara franziu o nariz, como se fosse discordar, mas não o fez. Em vez disso, parecia considerar a possibilidade.
Enquanto se dirigiam ao recinto com a mesa comprida, posta para seis e com comida suficiente para doze, Call teve que considerar que Mestre Joseph poderia ter outro esquema maligno. Além da privação do sono, os cultos não deveriam alimentar as pessoas de maneira satisfatória. Só que Mestre Joseph parecia pretender alimentá-los em excesso.
O chili borbulhava no caldeirão ao centro da mesa, parecendo delicioso com muito queijo por cima. Havia mais queijo ralado com cebolinha em um prato e um balde de sour cream. Quadrados dourados de broa de milho estavam empilhados em formato de pirâmide ao lado de um monte de manteiga, com uma faca espetada e um jarro de mel. No aparador havia três tortas — duas de nozes e uma de batata-doce. O estômago de Call rugiu tão alto que Jasper se virou surpreso, como se pudesse haver um lobo Dominado a seu lado.
Uma pessoa Dominada pousou uma jarra do que parecia chá doce com força o bastante para derramar um pouco, depois olhou para Call, a expressão vazia, inclinou a cabeça para a frente, em uma espécie de reverência, e se retirou do recinto. O menino contemplou a violência com que os Dominados se moviam. Call sempre achou que eles lutavam por serem ordenados a fazê-lo, mas talvez tivessem tendências assassinas.
Em seguida, ficou ocupado demais babando para pensar em qualquer outra coisa.
Mestre Joseph pareceu satisfeito com a reação do grupo.
— Sentem, sentem. Os outros já vão chegar.
Após muitos meses de prisão alimentando-se de uma comida nojenta, Call não precisava de incentivo. Ele tomou um assento e colocou o guardanapo na camisa, ansioso.
— Acha que pode estar envenenado? — sussurrou Tamara, sentando-se a seu lado. Jasper ficou do lado oposto, inclinando o corpo para ouvir melhor.
— Ele também vai comer — indicou Call, direcionando o olhar para Mestre Joseph.
— Ele pode ter tomado o antídoto — insistiu Tamara. — E dado para Alex e Anastasia.
— Ele não sequestraria você e Call e ofereceria quartos personalizados só para envenená-los em seguida — sussurrou Jasper de volta. — Vocês são dois idiotas. A única pessoa que ele envenenaria sou eu.
As portas se abriram, e Anastasia entrou, seguida por Alex. Call quase tinha se esquecido de que eles se conheciam bem; Anastasia havia se casado com o pai do garoto em uma tentativa de esconder sua identidade como Eliza Madden. Ela parecia uma rainha em seu terninho branco e uma camisa preta com uma mariposa na frente. Uma camisa bem legal, na verdade, e Call se pegou desejando ter uma também (por outro lado, de fato parecia algo que um Suserano do Mal poderia usar).
Alex se sentou e imediatamente começou a se servir de chili. Depois que terminou, Jasper pegou a colher, e logo todos estavam comendo (exceto Anastasia, que apenas mordiscava as pontas de uma broa de milho).
Na primeira colherada de chili, os sabores explodiram na boca de Call — doce, apimentado, defumado. Não era comida de presídio e não era líquen.
— A comida do mal é muito boa — murmurou para Tamara à sua esquerda.
— É assim que eles conquistam — devolveu ela, mas já estava repetindo a broa de milho.
— Encantador — disse Mestre Joseph, olhando em volta com uma expressão enganosamente benigna. — Eu me lembro de refeições assim com Constantine e seus amigos. Jasper, você daria um belo Alastair Hunt, e você, Tamara, seria Sarah, é claro.
Tamara pareceu horrorizada com a ideia de ser comparada à mãe de Call. A conversa deixou o garoto tão horrorizado quanto.
— Aham — disse Alex, parecendo entretido. — Então quem eu sou?
— Não é Jericho — assegurou Anastasia, secamente.
— Você é Declan — respondeu Mestre Joseph. — Ele era um bom menino.
Declan Novak era o tio de Call. Havia morrido no Massacre Gelado, protegendo Sarah. Apesar de nunca ter conhecido Declan, Call tinha certeza de que ele não tinha nada a ver com Alex.
— Eu deveria ser Constantine — murmurou Alex.
Seu olhar se dirigiu à outra sala, onde a máscara de prata e o Alkahest pendiam sobre a lareira.
— Uau! — exclamou Jasper em voz alta, interrompendo o silêncio desconfortável que seguiu-se a essa declaração. — Quem está pronto para a torta? Sei que eu estou.
Ele se levantou com o prato, mas Mestre Joseph gesticulou para que ele ficasse onde estava.
— Deixe Call escolher o primeiro pedaço — disse Mestre Joseph. — Nesta casa, tudo serve ao Inimigo da Morte.
Alex bateu com o garfo.
— Então temos que fazer tudo o que ele diz só porque tem a alma de um morto?
— Sim — respondeu Mestre Joseph, cerrando os olhos para o menino.
Jasper engoliu em seco e sentou, sem torta.
— Mas ele nem quer isso! — explodiu Alex. — Ele não se importa em fabricar mais Dominados! Não quer conduzir um exército contra o Magisterium!
— Não existe Call — afirmou Mestre Joseph. — Existe apenas Constantine Madden. É nosso dever fazer com que Callum Hunt entenda quem ele é.
— Isso não é verdade — disse Tamara, com a voz falhando. — Call é Call. O que quer que tenha transformado Constantine em alguém tão perturbado, não aconteceu com Call.
— O que deixou Constantine tão perturbado, mocinha — argumentou Mestre Joseph —, foi ter perdido o melhor amigo, seu irmão. Seu contrapeso. Está dizendo que isso não aconteceu a Call?
Com a menção a Aaron, a visão de Call foi tingida de vermelho. Ele agarrou a faca ao lado do prato e a apontou para Alex.
— Eu não perdi meu melhor amigo. Alex o matou. Ele roubou seu poder de Makar. Mas nunca será metade do que Aaron foi.
Os olhos de Alex arderam em fúria.
— Sou duas vezes mais que qualquer um de vocês! Aprendi sozinho a modificar o Alkahest e tomei o poder de comando do caos de outro mago. Sou o primeiro Makar a ter feito isso. Aprendi a criar Dominados em poucos meses, enquanto você nunca o fez!
Call pensou em como fora sua tentativa de trazer Jennifer Matsui de volta, e não disse nada.
— Você é nojento — disse Tamara. — Ter orgulho disso é nojento.
— Vocês dois! — repreendeu Mestre Joseph. — Todos vocês! Sei que vai ser difícil encontrarem um território comum, mas isso não está ajudando. Você conquistou muitas coisas, Alex, mas todas a partir das descobertas de Constantine. Vamos dar a Call a oportunidade de descobrir quem ele é; se isso não acontecer, eu arrancarei seu poder pessoalmente.
Call perdeu o fôlego, pensando no Alkahest e do que ele era capaz. Mestre Joseph tinha passado anos desejando o poder do Caos. Agora ele poderia tê-lo, se estivesse disposto a tomá-lo.
Jasper se levantou e cortou um grande pedaço da torta de nozes. Todos pararam de gritar e o observaram enquanto ele servia o próprio prato, sentava e levava uma grande garfada à boca.
— O quê? — perguntou ele, ao perceber que estava sendo observado. — Isso está ajudando. Agora eles não precisam brigar pelo primeiro pedaço.
Alex parecia prestes a saltar por cima da mesa e estrangular Jasper. Call frequentemente tinha a mesma vontade. Mas, naquele momento, a impertinência de Jasper lhe pareceu heroica.
Mestre Joseph cortou mais fatias da torta. Call comeu um pedaço enorme da de nozes e da de batata-doce, entremeando cada mordida com um olhar maligno, tentando provar seu domínio por meio de um consumo superior de torta. Alex fez uma degustação patética da própria fatia; tirou as nozes do topo e do meio, deixando a crosta no prato. Call fez uma careta para ele.
Finalmente, Mestre Joseph se levantou.
— Foi um longo dia, e me parece hora de descansar. Call, tem carne moída de hambúrguer para Devastação na geladeira. Pode pegar o que quiser. Espero que tenham percebido a tolice que seria tentar fugir. Há Dominados em todas as portas para impedir sua saída.
Call não disse nada, considerando que não havia nada a dizer. Ele era prisioneiro novamente... E, dessa vez, Jasper e Tamara também.
Anastasia se retirou com um afago breve e desconfortável no ombro de Call e um beijo em sua cabeça. Ele ficou parado, tentando não fazer careta. Jamais tivera uma mãe, mas não era assim que ele achava que deveria ser.
Uma vez que se viram sozinhos no alto da escada, Tamara voltou-se para Jasper e Call com um olhar determinado e jurou com um sussurro ríspido:
— Nós vamos sair daqui.

2 comentários:

  1. Karina obrigado por postar esse livro estava esperando ele desde o meio do ano passado!!!!

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  2. Não acredito que estou dizendo (ou escrevendo) isso, mas Jasper = melhor pessoa. Depois de Call, de Aaron, de Tamara e de Devastação

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Boa leitura, E SEM SPOILER!