7 de abril de 2018

Capítulo onze



Call se jogou contra a janela, esfregando-a, antes de se lembrar de que ela era feita de alguma espécie de magia do ar.
Quase sem pensar, ele invocou chamas em sua mão. Devastação começou a latir. Call mal conseguia prestar atenção. A cabeça parecia cheia de abelhas, zumbindo tão alto que o impediam de raciocinar. A chama mágica afetou a janela, mas estava funcionando muito lentamente. Call não tinha tempo para isso.
Ele invocou o caos, e o elemento veio rápido até sua mão, um laço oleoso e curvo de nada. Dava para sentir a fome do caos, e como ele parecia puxar alguma coisa dentro do garoto.
Você não tem alma o suficiente sobrando para isso, parte dele pensou através dos zumbidos, mas não fazia diferença. Call lançou o caos contra a janela. Ele começou a corroer a magia do ar, o vidro e a moldura do lado de fora.
Call não se importava. Quando saltou da janela para o telhado, foi através de um buraco enorme na lateral da casa.
Ao longe, viu fogo.
Seguiu até a beirada das telhas e saltou, concentrando-se em trazer a magia do ar para si. Call oscilou e, por um instante, temeu que fosse cair na grama.
Mas a magia se sustentou. Ele pairou pelo ar. Devastação, no telhado atrás do garoto, latia alto. Call virou-se para olhar em sua direção, e viu que mais duas janelas tinham sido queimadas, a madeira nas beiradas faiscando com chamas fracas.
A perna de Call havia lhe dado um motivo para treinar esse tipo de mágica, mas, como o Magisterium ficava em um complexo de cavernas e em casa existiam vizinhos, ele nunca voara de verdade. Uma coisa era flutuar um pouquinho, mas isso, no ar e bem alto, como é comum sentir nos sonhos, era novidade. Call sabia que deveria ficar mais nervoso, mas toda a sua concentração estava voltada para a cena que se desdobrava diante dele.
Call olhou na direção do fogo. Não era um fogo natural, percebeu. Era fogo elementar. Enquanto olhava, notou algo ondulando sobre uma das colinas no horizonte.
Um laço enorme e sinuoso de fogo descia por uma colina. O elemental se elevou, como uma naja, cuspindo fogo pelas extremidades, e Call se lembrou de tê-la visto nos corredores do Panóptico conforme corria ao lado de Jasper.
Ravan. A irmã de Tamara. O que significava que Tamara a invocara. Ela planejava essa fuga há muito mais tempo. Já a devia estar organizando quando se beijaram nos túneis. Ele achou que ter trazido Aaron de volta fora o que fizera com que ela deixasse de confiar nele, mas Tamara já devia ter deixado antes. Porque, se confiasse em Call, teria lhe contado que estava em contato com Ravan. Saber disso parecia um pedregulho no peito.
O ar oscilou outra vez, e a concentração de Call também. Mestre Joseph lançou um raio de magia gelada contra Ravan, que desviou com um sibilo esfumaçado.
Call pôde ouvir desprezo naquele som. Fogo explodiu no cume da montanha. Através das chamas laranja que saltavam, Call teve a impressão de ter visto duas figurinhas correndo.
Tamara confiou em Jasper, mas não em Call. Estava deixando Call, deixando-o para trás porque falara sério no quarto do garoto. Tinha apostado tudo na certeza de que ele não era o Inimigo da Morte, mas ele era. Só agora, pairando sobre a paisagem em chamas, Call percebeu quanto sempre foi importante Tamara acreditar nele.
Call foi invadido por uma dor tamanha que o fez se sentir como se estivesse engasgando.
Mestre Joseph gritava, e, no escuro, um enxame de figuras lançava mágica contra Ravan. No entanto, a Devorada era veloz e esperta, e desviava de tudo que lhe jogavam.
Call ergueu a mão. Estava se lembrando de um labirinto de fogo, de como ficou perdido até se dar conta de que sua magia do caos podia sugar o oxigênio de tudo, matando o fogo. Ele poderia matar Ravan. Naquele momento, soube que poderia.
— Call. — Era Aaron. Ele estava no telhado da casa, com a mão sobre o pelo de Devastação. Estava descalço e tinha encontrado uma camiseta para substituir a camisa do uniforme. Parecia pálido contra a escuridão. — Deixe-os ir.
Call podia escutar a própria respiração nos ouvidos. Caminhões giravam suas rodas por todo o jardim da frente da casa de Mestre Joseph, nenhum disposto a se aproximar o suficiente para que Ravan explodisse os tanques de gasolina.
— Mas...
— É Tamara — interrompeu Aaron. — Você acha que Mestre Joseph vai perdoá-la por fugir? Não vai.
Call não se moveu.
— Ele vai matá-la — disse Aaron. — E você não vai ficar bem com isso. Você a ama.
Call abaixou lentamente a mão, pairando logo acima do telhado. Sentiu Aaron esticar o braço, pegá-lo pelas costas da camisa e puxá-lo de volta para as telhas. Ele caiu meio em cima de Devastação, quase derrubando Aaron.
Quando finalmente se ajustaram, Call não conseguiu mais ver Tamara e Jasper correndo ao longe.
Lágrimas quentes se formaram nos olhos de Call, mas ele piscou para contê-las.
— Ela me deixou.
Aaron se sentou, desvencilhando-se de Call. Chegou mais para o lado nas telhas, com Devastação atrás.
— Ela nos deixou, Call.
Call emitiu um ruído engasgado que foi parcialmente risada.
— É, suponho que sim.
— Ela quer alertar o Magisterium — explicou Aaron. — É melhor não irmos até lá.
Call de repente percebeu o que havia de tão estranho na forma como Aaron falava.
— Por que de uma hora para outra você passou a odiar tanto o Magisterium?
— Não passei a odiá-los — respondeu Aaron. Ele olhou para onde a batalha devia estar se desenrolando. — Mas é como se eu conseguisse enxergá-los com mais clareza agora que quando eu estava vivo. Eles sempre quiseram apenas o que podiam conseguir de nós, Call. E não podem conseguir mais nada de mim. E vão querer puni-lo. Você provou que eles estavam errados, sabe? Eles nunca acreditaram que Constantine realmente conseguiria despertar os mortos.
Call encarou Aaron, tentando decodificar alguma coisa em sua expressão a partir do verde-claro de seus olhos, mas aquele Aaron não era facilmente interpretável. Era, sim, muito esquisito.
Mas ele acabou de voltar, lembrou Call a si mesmo. Talvez a morte se apegue a você por um tempo, bloqueando tudo. Talvez essa sombra para sumir.
— Acha que fiz a coisa certa ao trazê-lo de volta? — Depois que perguntou, Call sentiu como se não conseguisse respirar até ouvir uma resposta.
Aaron emitiu um som que não foi exatamente um suspiro. Foi como vento chiando através das árvores.
— Você sabe que não sou mais um Makar, certo? Não sou mais um mago. Essa parte de mim se foi, e tudo parece... não sei, desbotado e maçante.
Call se sentiu um pouco enjoado. Ele sabia que Alex tinha tomado o poder de Makar de Aaron com o Alkahest, mas não que Aaron poderia voltar sem nenhuma magia.
— Isso pode mudar — argumentou Call, com desespero. Sem Aaron ele não sabia o que faria. Não sabia o que se tornaria. — Você pode melhorar.
— Você deveria estar se perguntando se está satisfeito por ter me trazido de volta — disse Aaron, com um meio sorriso. — Os magos nunca mais vão aceitá-lo, e sei que você não quer ficar aqui com Mestre Joseph.
— Não preciso me perguntar nada — retrucou Call, incisivamente. — Estou feliz por tê-lo trazido de volta.
Com isso, Devastação latiu e abriu caminho entre eles com o focinho.
Aaron se esticou para afagar o lobo, e Call sentiu certo alívio na tensão em seu peito. Se houvesse algo realmente errado com Aaron, Devastação notaria, certo?
Mestre Joseph apareceu no campo visual de Call, seguido por uma falange de Dominados e dúzias de magos. Marchavam de volta para casa.
Quando o Mestre avistou Call e Aaron sentados no telhado com o buraco aberto pelo caos atrás de ambos, pareceu momentaneamente furioso. Depois sua expressão suavizou.
— Sorte de vocês dois não terem ido também — gritou Mestre Joseph.
Surgindo atrás do homem, Alex riu.
— Eles não foram convidados.
— Depois que a Assembleia souber do poder que você acessou, tudo será diferente — garantiu Mestre Joseph.
Call se perguntou se isso poderia ser verdade. Os pais de Tamara eram membros da Assembleia. Se ela estava horrorizada, não era provável que eles ficassem igualmente horrorizados, ou até mais?
Mas Call apenas fez que sim.
— Entre — ordenou Mestre Joseph, friamente. — Vamos conversar.
Call assentiu outra vez, mas não entrou de imediato. Permaneceu sentado no telhado até o sol subir mais alto no céu. Aaron também ficou ali.
Enquanto a luz amarela deixava seus cílios dourados, ele virou-se para Call.
— Como você fez isso? Pode me contar.
— Eu dei a você um pedaço da minha alma — respondeu Call, observando a expressão de Aaron para ver se ele estava horrorizado. — Por isso não tinha funcionado antes. Constantine Madden jamais teria tentado algo do tipo. Jamais teria cedido qualquer fração do próprio poder.
— Acho que entendo — disse Aaron, afinal. — Acho que consigo sentir... parte de mim, mas também não.
— E é por isso que não vai funcionar como eles queriam — prosseguiu Call. Era desconfortável falar sobre compartilhar almas. — Porque não posso ficar usando pedaços da minha alma para trazer as pessoas de volta. A alma não é... infinita. Ela pode se esgotar.
— E aí você morreria — adivinhou Aaron.
— Acho que sim. Acho que era por isso que Constantine mantinha Jericho por perto: para poder usar a alma do irmão. Eu li o diário de Jericho...
Call olhou em volta, pretendendo mostrá-lo a Aaron, até que percebeu que o diário não estava ali. Tamara o havia levado com ela. Para mostrar para o Magisterium, concluiu Call. Prova. Ele se sentiu enjoado outra vez.
— Você não sente a alma de Constantine em você, certo? — perguntou Aaron. — Você só se sente normal. Você sempre se sentiu?
— Nunca conheci nada diferente — respondeu Call.
— Talvez eu só precise me acostumar — disse Aaron, parecendo muito mais com seu antigo eu. Ele até sorriu um pouco, de lado. — Sou grato. Pelo que você fez. Mesmo que não funcione.
Mas funcionou, queria insistir Call.
Antes que pudesse falar, alguém bateu na porta. Era Anastasia, que não esperou que atendessem antes de abrir. Ela entrou no quarto de Call e, depois, parou ao ver a devastação que o menino havia causado — a parede corroída pelo caos e o sol da manhã entrando. Ela piscou algumas vezes.
— Crianças não deveriam ser amaldiçoadas com tanto poder — comentou, como se falasse sozinha.
Anastasia vestia o que parecia ser um uniforme de batalha: aço prateado quase branco no peito e nos braços e um capuz de corrente sobre os cabelos grisalhos.
Pela primeira vez, parecia pensar em Call e em Constantine como pessoas diferentes, igualmente amaldiçoadas. Call desejou que ela continuasse pensando assim, mas não se sentia particularmente esperançoso em relação a isso.
— O que está acontecendo? — perguntou ele, ficando de pé.
— Olhe. — Aaron apontou para um elemental do ar que surgiu sobrevoando o bosque em seu campo de visão. Era uma imagem clara e oscilante, em formato circular, que lembrava uma enorme água-viva. — Estamos sendo atacados?
— Pelo contrário — afirmou Anastasia. — Este é meu elemental. Eu invoquei a vanguarda de minhas tropas. Vou atrás de seus amigos para trazê-los de volta antes que cheguem ao Magisterium e entreguem nosso jogo.
— Deixe eles em paz. — Call se levantou, subindo o resto das telhas e pulando de volta para o quarto.
— Você sabe que não podemos fazer isso. E sabe por quê. Eles têm informações que podem nos prejudicar. Deveriam ter sido mais leais. Queríamos mais tempo para nos preparar antes da guerra contra as forças da Assembleia, mas, se Tamara e Jasper conseguirem voltar, a batalha começa em menos de uma semana.
Call pensou nos milhares de Dominados esperando em seu quartel submerso, pensou em como poderia tê-los levado para longe da ilha, em como a Assembleia poderia tê-lo enxergado como um herói.
Tamara queria que ele fosse visto dessa maneira. Call não podia odiá-la. Independentemente do que acontecesse, ele sabia que jamais odiaria.
— Não machuque meus amigos — implorou. — Nunca pedi muito... — Call não conseguia chamá-la de mãe. Sua garganta travou. — Anastasia. Se pegá-los, tem que me prometer que não vai machucá-los.
Ela cerrou os olhos.
— Farei o que puder, mas eles sabiam das consequências de uma fuga. E, Call, acho que eles não hesitariam em me machucar.
Com seu uniforme de guerra, Anastasia parecia pálida e terrível. Call achou que ela pudesse ter razão quanto ao que Tamara e Jasper fariam, e sentiu ainda mais medo por eles.
— Prometa que vai tentar — pediu Call, pois achou que isso seria o máximo que conseguiria dela.
Call sentia-se desamparado, mas ele não era o Inimigo da Morte? Não tinha trazido Aaron de volta e provado isso, como Tamara dissera? Não deveria ser ele a dar as ordens?
— Claro — respondeu Anastasia, com uma voz fria, que não abria muito espaço para gentileza. — Agora desçam para o café. Vocês dois têm muito a discutir com Mestre Joseph.
Aaron se levantou e foi para onde Call estava. Apesar de nenhum deles ter dormido e de Tamara ter ido embora, Call começava a se sentir esperançoso outra vez. Tinha certeza de que Aaron estava certo quanto a precisar que sua alma se ajustasse. Uma vez que Aaron voltasse a ser ele mesmo, descobririam o que fazer. Já tinham se livrado de diversas encrencas antes. Encontrariam uma saída para essa também.
Talvez.
— Certo — disse ele para Anastasia.
Call ainda estava com o pijama emprestado e não se preocupou em se trocar. Aaron parecia confortável com o que vestia. Desceram pelas escadas e entraram na sala de jantar, onde Mestre Joseph estava sentado junto a alguns magos, inclusive Hugo. Quando os dois garotos entraram, os magos se levantaram e saíram. O cabelo de Mestre Joseph parecia chamuscado em um dos lados. O rosto de Alex estava vermelho, como se uma explosão de fogo o tivesse atingido diretamente. A mesa inteira estava cheia de curativos, pomada mágica e canecas sujas.
— Sentem-se — instruiu Mestre Joseph. — Tem café e ovos na cozinha se estiverem com fome.
Call imediatamente foi até lá e voltou com uma caneca enorme de café. Aaron não quis nada, apenas ficou à mesa, esperando.
Mestre Joseph sentou-se em sua cadeira.
— Chegou a hora — anunciou, olhando para Call. — Você precisa explicar exatamente como trouxe Aaron de volta do reino dos mortos.
— Tudo bem — respondeu Call. — Mas você não vai gostar.
— Apenas diga a verdade, Callum. — Mestre Joseph soou como se estivesse tentando ficar calmo, mas o esforço em sua voz transpareceu claramente. — E tudo vai ficar bem.
Não estava tudo bem. Call viu a expressão do mago tornar-se sombria enquanto ele explicava como tinha arrancando um pedaço da própria alma e o colocado no corpo de Aaron. O amigo, que já tinha escutado a história, observou pela janela alguns animais Dominados que farejavam a grama lá fora.
— Isso é verdade? — perguntou Mestre Joseph, quando Call terminou. Alex o encarava, incrédulo. — Toda a verdade, Call?
— É ridículo! — protestou Alex. — Quem teria uma ideia dessas?
— Tive a ideia a partir do que li no diário de Jericho. — Call virou-se para Mestre Joseph. — Você sabia... Você sabia que era isso que Constantine estava fazendo? Usando pedaços da alma do irmão para trazer os mortos de volta?
Mestre Joseph se levantou, com as mãos entrelaçadas nas costas, e começou a caminhar de um lado para o outro.
— Eu supus — respondeu o homem. — Torci para que não fosse verdade.
— Então, entende — disse Aaron, desgrudando o olhar da janela. — Isso não é algo que Call possa voltar a fazer.
Mestre Joseph virou-se para eles.
— Mas ele precisa. Se Anastasia não conseguir contê-los, seus amigos chegarão ao Magisterium. Quando chegarem, quando contarem à Assembleia, podemos apenas torcer para que sejam razoáveis e reconheçam sua genialidade. Mas, se isso não acontecer, a guerra virá até nós. Temos que ressuscitar Drew antes que isso aconteça.
— Ressuscitar Drew? — engasgou Alex. — Você não disse nada a respeito disso antes.
— Claro que disse. — Mestre Joseph se irritou. — Despertar Aaron foi uma coisa, seu corpo estava aqui. Mas, se Call também for capaz de recuperar almas que já passaram para o pós-morte, a Assembleia entregará seu poder para nós. Todo o mundo se curvará diante de um poder assim.
— Hoje a Assembleia, amanhã o mundo! — exclamou Alex, animado. — Vamos aumentar os objetivos.
— Mas não é possível — argumentou Call. — Você não ouviu? Não posso continuar arrancando pedaços da minha alma. Eu vou morrer.
— Ah, não! — entoou Alex, em tom sarcástico. — Isso não!
— Você terá matado Constantine Madden — argumentou Aaron.
— É verdade — concluiu Mestre Joseph, olhando para Call de um jeito que o lembrava da primeira vez que tinham se visto: Drew havia morrido, e a expressão do mago era uma mistura de ódio por Callum Hunt e anseio pelo Inimigo da Morte preso em seu corpo. — E é por isso que precisamos de um Jericho. — Ele virou-se para Alex.
Call definitivamente não traria Drew de volta.
— Hum — resmungou ele. — Primeiro você vai precisar de um corpo e de algum traço da alma de Drew. Quero dizer, com Aaron, o corpo ainda tinha um pouco dele presente.
Aaron estava completamente parado. Call ficou imaginando o que ele achava da conversa. Call se preocupava que tudo aquilo o fizesse se sentir ainda pior por ter voltado da morte. Torceu para que não. Ele precisava de Aaron otimista. Bem, tão otimista quanto fosse possível nas condições atuais.
— Posso conseguir essas coisas — garantiu Mestre Joseph, com ansiedade.
— Tudo bem — aceitou Call. — É basicamente isso. Eu ajudaria, mas minha magia está muito limitada após trazer Aaron de volta.
— Sua magia abriu um buraco na parede da casa. Parece boa para mim — argumentou Alex.
Call assentiu com tristeza exagerada.
— Eu não tive a intenção de fazer aquilo. Está tudo fora de controle. Não quero machucar Drew acidentalmente.
Alex lançou um olhar penetrante para Call, mas Mestre Joseph pareceu acreditar no que o garoto dizia.
— Sim, dá para entender como seria perigoso. Alex, você ouviu o que Call disse. Agora teremos que recriar essa experiência. Vamos.
Alex parecia muito, muito preocupado. Call supunha que arrancar pedacinhos da própria alma não fosse algo que ele quisesse fazer, mas Call não tinha condições de ser particularmente solidário.
Com um estalo de dedos, Mestre Joseph invocou novamente os outros magos — o que sugeria que eles estiveram ouvindo a conversa.
— Vamos — disse ele para Alex, com a ameaça de ser arrastado para a sala de experiências pairando sobre ele.
Call acenou para Alex, satisfeito consigo e com o mundo pelo menos uma vez.
— Boa sorte! — desejou a eles.
Alex nem se incomodou em olhar de volta. Parecia assustado demais.
Ao encontrar uma caneca com café abandonada por um dos magos, Aaron a levou aos lábios. Call o observou, percebendo que esperava que Aaron exigisse que fossem atrás de Alex, que insistisse em salvá-lo.
— Alex é o motivo pelo qual você morreu — disse Call para a objeção imaginária. — Não ligo para o que Mestre Joseph faz com ele. Deveríamos ficar aqui e tomar café da manhã. Não me importo se sua alma for despedaçada.
— Tudo bem — concordou Aaron.
Call pegou um pedaço desprezado de torrada do prato abandonado de um dos magos. Aaron não deveria ter dito isso. Ele deveria dizer algo sobre como Mestre Joseph e Alex eram do Time do Mal, e sobre como o Time do Bem não deveria se comportar assim.
Aaron não disse nada.
Com um suspiro, Call empurrou a cadeira para longe da mesa.
— Tudo bem. Certo. Vamos verificar.
Aaron pareceu confuso, mas se levantou e seguiu Call. Juntos, foram sorrateiramente até a sala de experiências. Lá de dentro, escutaram vozes abafadas. Call fechou um dos olhos e espiou através de um buraco de fechadura, mas, apesar de funcionar nos filmes, na vida real ele não conseguia ver muita coisa.
— Se não encontrar a alma de Drew, então você não deve ser um grande Makar. — Ele ouviu Mestre Joseph falando do outro lado da porta. — Talvez você devesse ser o meio para a volta de Drew. Talvez Callum Hunt devesse colocar a alma de Drew para dentro, e a sua para fora.
— Eu sou um Makar — resmungou Alex. — Não pode fazer isso.
Call respirou fundo. Eis o verdadeiro Mestre Joseph, o que vinha tentando se esconder por trás de jantares grandiosos e gestos gentis.
— Seus poderes são roubados, e você é inferior — disse o homem, com a voz carregada de fúria. — Você nunca foi destinado a manusear a magia do caos.
— Eu consigo — assegurou Alex. — Eu consigo! — Ouviu-se um barulho de arranhão. — Só preciso de um pouco de espaço para trabalhar.
Naquele instante, Call ouviu um rugido baixo vindo da sala; um som tingido de caos.
— Mestre Joseph! — gritou o garoto, esmurrando a porta. — Deixe a gente entrar!
Um instante depois, Mestre Joseph abriu a porta. Alex, no chão, parecia espantado. Não havia mais ninguém lá dentro. Havia, contudo, um corpo sobre a mesa, sua pele azulada de frio. Call estremeceu.
— Vejo que decidiu ajudar, afinal — disse Mestre Joseph. — Mas, por enquanto, estamos bem assim. Volte à noite, Callum, depois que tiver descansado.
E, com isso, a porta se fechou para eles outra vez. A tranca foi passada.
— Bem, acho que é isso — disse Call, sentindo-se tonto.
Será que poderiam trazer Drew de volta? Call não achava que fosse possível sem que tivessem seu corpo. Até os Dominados tinham um pedacinho da própria alma preso a eles, conforme Call percebeu ao, sem querer, transformar Jennifer Matsui em uma.
Mas sua alma era a de Constantine em um novo corpo, afinal. Talvez fosse funcionar. Ele lançou um olhar a Aaron, mas este não parecia preocupado se trariam Drew de volta ou não.
Call precisava fazer alguma coisa.
— Vamos — disse ao amigo. — Podemos dar a volta por fora e espiar pela janela.
Call pegou sapatos e um casaco.
— Vamos vê-lo sofrer? — perguntou Aaron, o que não foi nem de perto a pergunta certa.
Call não respondeu.
No caminho para fora, um bando de Dominados baixou a cabeça e resmungou quando Call passou. Teatro, pensou o menino. Aaron franziu o rosto para eles, colocou as mãos nos bolsos e andou depressa.
— Olhe em volta — disse Call. — Está vendo? Esse é o tipo de encrenca em que me meto quando você não está por perto. Desde que você morreu, eu fui preso, fugi da cadeia, depois fui sequestrado e trazido para a fortaleza do Inimigo da Morte com Jasper, que passou o tempo todo me falando sobre a própria vida amorosa...
Com isso, o canto da boca de Aaron se ergueu.
— E eu beijei Tamara, que me odeia agora! Sem você, não consigo fazer nada direito. Você é a pessoa que me ajuda a entender o que é certo e o que é errado. Não tenho certeza se consigo fazer isso sem você.
Aaron não parecia se sentir particularmente feliz em ouvir isso.
— Eu não... não posso fazer isso por você agora.
— Mas você precisa — insistiu Call. Tinham alcançado um pequeno bosque. Dali, seria possível chegar sorrateiramente até uma das janelas da sala de experiências, mas, naquele momento, o que estava acontecendo do lado de dentro não parecia tão importante quanto o que se passava entre eles. — Você sempre fez.
Aaron balançou a cabeça.
— Não penso mais como antigamente.
Ele colocou as mãos nos bolsos. Estava frio do lado de fora, com um vento cortante, mas Call não tinha certeza de que Aaron conseguia sentir. Ele não parecia com frio.
— Você está bem — disse Call. — Só temos que tirá-lo daqui.
— Quando?
— Eu, Tamara e Jasper tentamos fugir antes. Eles nos pegaram e nos trouxeram de volta, mas isso acabou sendo bom, porque foi assim que Mestre Joseph nos contou sobre você. Então decidi ficar até conseguirmos trazer você de volta.
— E Tamara e Jasper concordaram? — A respiração do menino condensava no ar.
Call respirou fundo.
— Não contei a eles.
Aaron não brigou com Call, como outrora talvez tivesse feito. Não o repreendeu. Ele não estava fazendo um bom trabalho como centro moral, Call tinha que admitir.
— Achei que, depois que você voltasse, eles fossem concordar que tinha sido uma coisa boa. E achei que a Assembleia fosse pensar o mesmo. Porque fiz da maneira correta. Quero dizer, claro que eles não querem exércitos de Dominados soltos por aí, pois são basicamente zumbis, mas você está bem.
Aaron não disse nada. Eles continuaram caminhando, folhas estalando sob os pés. Tinham chegado à parte do bosque em que deveriam voltar para a direção da casa caso fossem espiar pela janela da sala de experiências, mas Call ainda não estava pronto.
— Você realmente acha que estou bem? — Aaron virou um olhar verde e assombrado para o amigo.
Acho — respondeu Call, com firmeza. Quase sentiu raiva de Aaron, o que não fazia o menor sentido, mas não deu para evitar. Ele tinha lutado tanto por isso, e ninguém entendia. E, para piorar, Aaron simplesmente não agia normalmente. — Não estou dizendo que você é igual ao que costumava ser, mas isso não quer dizer que não esteja bem.
— Não! — Aaron balançou a cabeça com teimosia. — Estou me sentindo errado. Meu corpo parece errado. Como se eu não devesse estar aqui.
— O que isso significa? — perguntou Call, perdendo o controle por fim. — Porque está parecendo que você quer morrer.
— Acho que é porque eu estou morto. — A voz de Aaron era indiferente, o que piorava ainda mais as palavras.
— Não diga isso! — gritou Call. — Cale a boca, Aaron...
— Call...
— Estou falando sério, não diga mais uma palavra!
A boca de Aaron se fechou. Seus olhos estavam fixos nos do amigo.
— Aaron? — perguntou Call, sentindo-se desconfortável.
Mas Aaron não respondeu. Ele não podia responder, percebeu Call. Como um Dominado, ele obedecia a Call cegamente.

5 comentários:

  1. Ah merda, eu tinha medo disso acontecer.

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  2. Nããããoooo!
    Estou no fundo do poço agora... Queria tanto acreditar que tinha dado certo! :(((

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Boa leitura, E SEM SPOILER!