7 de abril de 2018

Capítulo nove


Quando Tamara, Jasper e Call acordaram no dia seguinte, os meninos foram para os próprios quartos a fim de tomar banho e se vestir para o café. Call acenou para Tamara ao sair, mas ela pareceu não notar.
Após um banho rápido, com desgosto ele puxou a seleção de roupas de Constantine para o dia: mais uma camisa de flanela. Desejou ter as próprias coisas para vestir.
Ao puxar sua jaqueta jeans de volta, o diário de Jericho caiu do bolso interno. Call o pegou, virando-o lentamente nas mãos. Um objeto que havia sido do irmão de Constantine. Que continha seus escritos. Jamais pensara em Jericho como uma pessoa. Nunca tinha pensado nele, e ponto. Mesmo quando esteve diante do corpo preservado de Jericho na tumba do Inimigo, Call só pensou no que Constantine devia ter sentido quando o irmão morreu.
Mas, agora, contava com o diário de Jericho para entender melhor o que as anotações de Constantine falharam em oferecer.
Ouviu uma batida na porta. Houve tempo para Call guardar o diário de volta no bolso antes de Jasper esticar a cabeça para dentro.
— Hugo esteve aqui — avisou ele, entrando no quarto de Call sem permissão. — Ele disse que eu e Tamara teremos a tarde livre quando acabarem as aulas da manhã. Ele vai a algum lugar com Mestre Joseph, e eu vou segui-los. — Cerrou os olhos para Call. — Está me ouvindo?
— Quero saber tudo o que você sabe sobre garotas — exigiu Call.
— Eu tinha a certeza de que você eventualmente se curvaria a meus conhecimentos superiores sobre romance — retrucou Jasper, convencido.
— Como fazer uma garota perceber que você gosta dela? — perguntou Call. — E, se você beija essa garota, isso significa que vocês estão em um relacionamento?
Jasper se inclinou contra a parede, a mão embaixo do queixo.
— Isso depende, cara — respondeu ele, cerrando os olhos, como se estivesse usando um monóculo. — Quão bem você conhece a dama?
— Muito bem — disse Call, lutando contra o instinto de mostrar a Jasper que ele estava ridículo.
Jasper franziu o cenho.
— É estranho que você esteja me perguntando isso agora — comentou ele. — Considerando que estamos presos aqui, no meio do nada, sem nenhuma garota por perto além de... Tamara. — Um olhar de choque cruzou seu rosto. — Você e Tamara?
Call se arrepiou.
— Parece tão improvável assim?
— Parece — respondeu Jasper. — Tamara é sua amiga. Ela não está... ela não gosta de você assim.
— Porque sou o Inimigo da Morte? — Call se irritou. — Porque sou podre por dentro e não mereço ficar com ela? Obrigado, Jasper. Muito obrigado.
O garoto olhou para Call sem falar por um longo tempo.
— Sabe por que eu e Celia terminamos?
— Ela se cansou da sua cara?
— Eu contei que ia visitar você na prisão, e ela falou que eu não podia. Disse que você era o Inimigo da Morte, que era um assassino. E que eu teria que escolher entre vocês dois.
Call piscou os olhos. Parte dele sentiu mágoa, mesmo agora, pelas palavras de Celia, uma dor profunda e distante. O restante estava chocado com Jasper.
— Você me defendeu?
Jasper pareceu arrependido de ter aberto a boca.
— Não gosto que me digam o que pensar.
Call não queria se sentir grato a Jasper, mas não conseguiu evitar. Estava extremamente agradecido.
— Obrigado, cara.
Jasper descartou o agradecimento com um aceno.
— Sim, sim, mas o que estou tentando destacar é que, quando digo que Tamara não gosta de você, não estou dizendo que você seja má pessoa. Só acho que ela... Bem, Call, só acho que ela gostava de outra pessoa, se é que você me entende.
Aaron. Ele estava falando de Aaron.
Queria protestar e dizer que Anastasia achava que Tamara gostava de Call, mas podia imaginar como Jasper responderia a isso — dizendo que, na melhor das hipóteses, Anastasia não fazia ideia do que estava falando, e que certamente não parecia especialista no amor. Somado a isso, Tamara não havia olhado para ele naquela manhã, e não tinha falado muita coisa desde o beijo. E também não havia mencionado como se sentia em relação a Call, só que achava que sabia.
Jasper pareceu pensativo.
— E se ela o beijasse, provavelmente seria por não querer morrer sozinha, e porque ela respeita Celia demais para se atirar em mim.
Não foi nada disso, Call queria dizer.
— Mas eu ainda posso pedir Tamara em namoro, certo? — perguntou Call.
Afinal, mesmo que tivesse sido um erro, talvez fosse um erro que ela quisesse repetir algumas vezes.
— Pode, se quiser ser rejeitado — respondeu Jasper. — Mas relaxe. O mar está cheio de peixes. Existe um chinelo velho para todo pé cansado. Até para o seu.
Call quis socar a cara de Jasper, o que era confuso, porque ainda se sentia grato por Jasper ter sido dispensado por sua causa.
De má vontade, Call percebeu que o conselho do garoto não faria a sensação estranha em seu estômago melhorar. Na verdade, tinha até piorado.


Os dias seguintes passaram em um borrão de teoria do caos. Mestre Joseph dava aulas para Call e Alex pela manhã, e depois os deixava fazendo experimentos durante toda a tarde enquanto ministrava aulas para Tamara, Jasper e os outros alunos.
Call precisava admitir que Mestre Joseph era um professor empolgante. Ele queria que experimentassem coisas, testassem novas ideias, e não era particularmente preocupado com riscos. Call aprendeu muito sobre o caos, aprendeu a segurá-lo nas mãos, manuseá-lo e moldá-lo. Aprendeu a trazer criaturas do caos pelo vazio e a mantê-las com ele durante todo o dia, formas escuras que passavam por suas pernas e deixavam Devastação agitado. Aprendeu a olhar para o vazio em si, um lugar de sombras para onde quanto mais se olhava, mais as sombras pareciam ser justamente o oposto, feitas de todas as cores de uma vez, girando nos olhos de Call.
À noite, jantavam juntos. Às vezes Mestre Joseph cozinhava. Outras, encomendava comida a um de seus capangas. Naquela noite, estavam comendo frangos deliciosamente fritos com muitos acompanhamentos. Call mordiscava um osso de modo pensativo. O Mal definitivamente tinha a culinária a seu lado.
— Amanhã — começou Mestre Joseph — vou passar o dia todo fora, então gostaria que vocês dois, Call e Alex, se concentrassem nas experiências. Quanto a vocês, Jasper e Tamara, lhes deixarei alguns exercícios.
Tamara buscou o olhar de Call do outro lado da mesa, mas ele não conseguia mais interpretar seus olhares. Ela provavelmente queria dizer Ótimo, Mestre Joseph vai passar o dia fora, então devemos vasculhar a casa, mas ele queria que ela estivesse dizendo Ótimo, ele vai estar fora, então podemos dar uma escapada e ficar juntos.
Não tinham mais se beijado desde o dia no quarto de Jericho, e Call estava começando a ficar um pouco enlouquecido. Ela gostava de outra pessoa, dissera Jasper. Se ela o beijasse, provavelmente seria por não querer morrer sozinha. Suas palavras assombravam Call.
Ele realmente precisava parar de pensar em Tamara quando sua fuga e suas vidas corriam risco? Provavelmente.
Jasper dava piscadelas e tentava comunicar alguma coisa do outro lado da mesa. Depois do jantar, disse ele silenciosamente. No meu quarto.
Alex olhou para eles preguiçosamente. Call jamais conseguia precisar quanta atenção Alex prestava a qualquer coisa que faziam. Ele parecia ter as próprias questões, que envolviam se trancar no quarto — que ficava no outro extremo da casa — manipulando metais pesados e colecionando casacos de grife com caveiras estampadas.
Depois do jantar, Call e Tamara seguiram para o quarto de Jasper. A maioria dos cavalos de pelúcia tinha sido guardada embaixo da cama, e o quarto parecia estranhamente vazio.
— O que está acontecendo, Jasper? — perguntou Tamara, com as mãos nos quadris. Ela usava um vestido azul pastel, e o cabelo solto lhe caía pelos ombros.
— Amanhã — respondeu Jasper. — Temos que sair por pelo menos algumas horas durante a tarde. Precisamos distrair Alex e talvez Hugo.
— Por quê? — indagou Call.
— Porque temos que ver uma coisa — respondeu Jasper. — Mestre Joseph entra e sai daqui montado em elementais, mas eles não aterrissam perto da casa. Vi um aterrissando uma noite dessas e segui para ver o local.
— Sério? — Tamara estava incrédula. — Por que não nos levou junto?
— Um lobo solitário caça sozinho — argumentou Jasper. — Além disso, não dava tempo de chamar vocês. Enfim, eu não encontrei o elemental. Mas achei outra coisa.
— O quê? — perguntou Call.
Mas Jasper balançou a cabeça. Parecia perturbado.
— Terão que ver com os próprios olhos. Não quero falar nisso aqui.
Por mais que Call e Tamara pressionassem, ele não disse mais nada, porém os fez prometer que parariam o que estivessem fazendo para se encontrar com ele no dia seguinte, antes do almoço, perto da trilha onde passeavam com Devastação.
— É melhor levarmos Devastação também — comentou Call. — Ele pode ser nosso álibi se alguém perguntar o que estamos fazendo do lado de fora.
Tamara franziu a testa.
— Você acha que consegue se livrar de Alex?
— Sem problema — respondeu Call, embora duvidasse de que, de fato, não fosse ser um problema.
— Tudo bem. Estou indo dormir, então — disse Tamara. — Estou exausta.
Ela foi para a porta, depois parou, virou e beijou a boca de Call.
— Boa noite — desejou com um pouco de timidez, e praticamente saltitou para fora do quarto.
Jasper encarou Call.
— Caramba! — exclamou, depois que a porta se fechou.
Call não disse nada. Estava chocado e em silêncio. Então, pigarreou porque todas as suas terminações nervosas pareciam expostas.
— Agora você sabe por que preciso de conselhos.
Jasper riu para si mesmo.
— Você tem problemas sérios — avisou ele. — Sinto muito por você, filho.
— Sai fora, Jasper. Você não está ajudando.
— Estamos no meu quarto — observou Jasper.
Call tinha que admitir que era verdade. Ele voltou para o próprio quarto e ficou acordado praticamente a noite inteira. Sonhando vez por outra que Aaron estava de pé outra vez, e que ele e Tamara estavam se afastando de Call para nunca mais voltar.


O dia seguinte chegou, e quis o destino que estivesse nublado, com ameaça de chuva por toda a manhã.
Alex parecia estar com um humor particularmente ruim. Call franziu o cenho para ele ao tentarem, sem sucesso, formular novas ideias a fim de ressuscitar um arminho que não fosse nem Dominado nem estivesse prestes a explodir.
Call viu uma oportunidade de se afastar. Se ao menos pudesse utilizar seu superpoder de ser irritante, Alex provavelmente se retiraria por conta própria.
A primeira coisa que Call fez foi começar a cantarolar, desafinado, para si mesmo enquanto examinava os livros de alquimia que Mestre Joseph separara para eles. Alex o encarou.
Em seguida, Call pegou um livro histórico sobre um Makar chamado Vincent de Maastricht — um dos poucos que não tinha sido relegado ao porão — e começou a ler em voz alta:
— Pouco se sabe sobre os métodos empregados por Vincent para garantir os corpos para seus experimentos, mas acredita-se que...
— Vamos voltar ao trabalho? — interrompeu Alex.
Call fingiu não o escutar até Alex lhe arrancar o livro. Depois olhou com indiferença.
— Hein?
— Eu disse que é melhor voltarmos ao trabalho — aconselhou Alex, claramente tentando lançar seu melhor olhar de Suserano do Mal a Call.
O garoto bocejou exageradamente.
— Eu estou trabalhando. Estou pensando coisas grandiosas. Afinal de contas, eu sou Constantine Madden. Se alguém vai descobrir como despertar os mortos, serei eu.
— Você? — Alex mordeu a isca, sua voz murchando. — Tudo o que você quer fazer é coisa chata. Poderíamos estar produzindo mais Dominados. Poderíamos estar tentando trazer pessoas de volta do reino dos mortos, em vez de arminhos. Poderíamos até tentar moldar carne e fabricar alguma coisa totalmente nascida do caos. Constantine Madden não passaria o dia sentado sem fazer nada. Isso é um tédio, assim como você.
— Vá catar coquinho — disse Call, sentindo-se um pouco estranho em relação ao insulto logo após verbalizá-lo. — Você não sabe o que Constantine faria.
— Sei o que ele deveria fazer — rebateu Alex, dando as costas a Call e se retirando.
Aquilo foi ameaçador o suficiente para preocupar Call, mas ele não tinha tempo para isso. Em vez disso, tinha que encontrar Jasper e Tamara. Ao que parecia, conseguira a tarde livre. Só não estava muito certo de quanto isso iria lhe custar.


Tamara e Jasper o aguardavam, olhando para a água do jardim da frente. Ao caminhar em sua direção, imediatamente pararam a conversa que estavam tendo, e Call teve a sensação desconfortável de que falavam dele. Podia apostar que Jasper tinha muito a dizer sobre ela tê-lo beijado... e nada era coisa boa.
— Tem certeza de que Alex não seguiu você? — perguntou Jasper, enquanto Devastação pulava em Call para colocar as patas em seu peito.
Call olhou nervoso por cima do ombro.
— Acho que não.
— Vamos — chamou Tamara. — Antes que alguém nos veja.
Jasper pareceu ansioso enquanto atravessavam o bosque. Ele estava tão tenso que, quando Devastação caçou preguiçosamente uma borboleta, ele deu um salto.
— Aqui — disse ele, conduzindo-os por um bosque.
Do outro lado, havia o que lembrava uma pedreira antiga. Era talhada direto no morro, com água acumulada no fundo, como se alguém tivesse conseguido perfurar através da base da ilha e o mar minasse por baixo.
— O que estavam extraindo? — perguntou Tamara. Em seguida, cerrando os olhos, ela respondeu a própria pergunta. — Parece granito.
— Tem uma trilha na lateral — avisou Jasper, apontando para uma área que descia.
Era ampla o suficiente para abarcar um veículo, mas também íngreme o bastante para Call ficar com medo de tropeçar e rolar até lá embaixo. Ele se segurou em galhos enquanto passava.
— Precisamos mesmo descer por aí? — perguntou. — Não pode simplesmente nos contar o que viu?
Jasper balançou a cabeça, sombriamente.
— Não, vocês precisam ver com seus próprios olhos.
Levaram um tempo para chegar até a água. Tamara segurou a mão de Call e o ajudou a descer, o que foi gentil e também um pouco constrangedor. Ela sabia sobre sua perna e o tinha beijado assim mesmo, então, isso não devia incomodá-la. Mas Callum não tinha tanta certeza de que não incomodasse a ele mesmo.
Assim como não tinha tanta certeza quanto ao que os beijos haviam significado. Jasper estava muito convencido de que Tamara não gostava dele, e Anastasia do oposto. Mas Tamara o beijou na frente de Jasper e isso tinha que contar alguma coisa.
Call precisava falar algo. Ele não sabia quando ficariam sozinhos novamente.
— Hum — disse ele, com sua incrível habilidade de conversação.
Tamara olhou para ele, claramente esperando por algo.
Call tentou se lembrar das dicas de Jasper, sobre como fazer garotas gostarem de alguém, mas tudo o que conseguia se lembrar era de que não devia piscar, e, como Tamara estava andando a seu lado, ele não sabia nem se ela conseguia notar.
— A gente está saindo? — perguntou Call, finalmente. Quando ela não respondeu de pronto, ele continuou: — Eu sou seu namorado?
Então, ele se deu conta de que teria que afastar a mão porque estava começando a suar. Enquanto o silêncio se estendia, Call começou a pensar que cair rolando pela colina não seria a pior coisa do mundo. Pelo menos, significaria uma mudança automática de assunto.
— Você quer ser meu namorado? — indagou por fim Tamara, olhando-o de viés através dos longos cílios.
Pelo menos, essa não seria a primeira vez que ele faria papel de trouxa na frente dela.
— Quero — respondeu.
— Tudo bem. — Tamara lhe lançou um sorriso brilhante. — Serei sua namorada.
Na resposta, Call escutou qual teria sido a pergunta certa: Quer ser minha namorada? Mas ela não parecia irritada. Simplesmente apertou sua mão e o fez sentir, por um instante, que coisas boas podiam acontecer, mesmo com ele.
Você errou!, ele queria gritar para Jasper. Ela gosta de mim, afinal! Não de Aaron, de mim!
A trilha acabou, desembocando em uma praia de areia onde a água batia contra pequenos pedaços de granito. Era bonita — ou teria sido, pensou Call, até ver o que havia embaixo da água.
Inicialmente, pareceram pedras, como o fundo raso da pedreira, exceto pelas profundezas escuras entre elas. Não. O que Call via eram cabeças, cabelos esvoaçando na corrente, como algas. Centenas — não, milhares — de corpos Dominados. Todos em fileiras organizadas, esperando pela invocação que os levaria de volta à batalha.
Call parou, fazendo Tamara parar a seu lado. Eles soltaram as mãos e encararam. Jasper já estava na beirada da água, apontando para baixo.
O vento soprou o cabelo de Call em seu rosto. Ele o afastou com a mão. Não conseguia parar de olhar.
— São muitos — sussurrou Tamara. — Como... Alex não fez todos estes.
— Não. — Jasper continuava olhando para a água. — Agora vocês sabem por que eu queria que vissem com os próprios olhos.
— Constantine fez — disse Call. — Eu sei.
Ele não conseguia explicar exatamente como sabia. Não tinha lembranças da vida de Constantine. Mas vinha lendo o que Jericho dissera sobre o irmão, e tinha os próprios sentimentos. Ele sabia.
— Durante todo esse tempo, achávamos que só existiam os Dominados que vimos — disse Tamara, com um tom preocupado na voz. — Mas há muitos mais.
— Todo mundo disse que a maioria havia sido destruída na Guerra dos Magos — comentou Jasper.
— Tenho certeza de que a maioria dos que foram para a batalha foram destruídos — disse Call. — Mas ele teria feito mais. Constantine era precavido. Ele queria um exército grande o bastante para marchar sobre o Magisterium, o Collegium, a Assembleia, tudo.
— Temos que destruí-los — declarou Tamara, com uma voz mais segura. — Se todos nós usássemos fogo elementar... mas... Não, não podemos queimá-los embaixo d’água. Talvez uma bomba?
Call sentiu uma onda de afeição por Tamara. Ela não pensava pequeno.
— Ou Call pode comandá-los a se autodestruir — sugeriu Jasper.
— Se eles realmente forem meus... de Constantine — argumentou Call, de repente tomado pela dúvida.
Então, se virou novamente para a água. Os Dominados continuavam parados, feito árvores que haviam crescido embaixo da água da pedreira. Como se já estivessem ali quando o buraco inundou; nunca tivessem saído, como aquelas cidades que submergem quando reservatórios são construídos.
Call estendeu a mão, a palma voltada para a frente.
— Dominados! — chamou. — Ergam-se! Venham até seu criador!
Silêncio. O vento frio soprou. Call já estava acreditando que tivesse errado, quando a superfície da água começou a se mexer e escurecer. Estavam se movendo. Os Dominados estavam se movendo sob a superfície.
Jasper gritou quando uma cabeça surgiu da água próxima a seus pés. Era um homem, o rosto encharcado, olhos arregalados e cegos. Ele começou a se virar na direção de Call.
Tamara pegou o braço do garoto.
— Agora não — pediu ela. — Faça com que voltem para baixo.
Call olhou nos olhos vazios do Dominado.
— Quais são suas ordens? — perguntou Call.
Quando o Dominado respondeu, Call soube que Tamara e Jasper só ouviriam rugidos e rosnados sem sentido. Mas ele ouvia palavras. A língua que compartilhava com os mortos, aquela que mais ninguém falava.
— Erguer — disse o Dominado. — Destruir.
— Call — exigiu Tamara.
Ele se virou para ela.
— Eles são perigosos.
— Eu sei — admitiu ela. — Agora faça com que voltem para baixo.
— O momento não chegou — disse Call a eles. — Voltem para a água e esperem.
Em consonância, os Dominados desapareceram para baixo da superfície outra vez. A mente de Call disparou. Ele podia ordenar que destruíssem uns aos outros. Talvez até pudesse mandá-los de volta ao vazio se abrisse um portal. Mas, com todos eles sob seu comando, poderia destruir a casa de Mestre Joseph, reduzi-la a pó. Poderia destruir tanto Alex quanto Mestre Joseph. Talvez também fosse nisso que Tamara estivesse pensando.
Tinha apenas um problema: Aaron.
— Temos que alertar alguém — decidiu Jasper. — Precisamos ir embora daqui.
— Você consegue comandar todos esses Dominados? — perguntou Tamara.
Call anuiu, mas sentiu um aperto no coração.
— Ótimo — disse Tamara, traçando planos enquanto caminhavam de volta para casa. — Iremos embora hoje à noite, e levaremos o exército de Mestre Joseph conosco. É assim que você vai limpar seu nome, Call! Ninguém poderá duvidar de você se levar a vitória à Assembleia.
Por um instante, o garoto foi induzido a se imaginar na liderança heroica de um exército de Dominados, um exército que comandara a se ajoelhar diante da Assembleia. Talvez eles realmente o aceitassem de volta. Talvez ele realmente pudesse ser perdoado.
Mas, se partissem esta noite, deixariam Aaron para trás.
E, por mais que Call tivesse aprendido muito sobre a magia do caos e muito sobre preencher almas com esse elemento, ainda não havia descoberto como despertar Aaron dos mortos. E depois que escapassem da ilha, não haveria como ressuscitá-lo.
A não ser que fizesse isso aquela noite.


Foi mais fácil se desvencilhar de Tamara e Jasper do que tinha sido se livrar de Alex. Call apenas disse que iria se encrencar se não fosse, e nenhum dos dois o questionou.
Uma vez sozinho, pegou o diário de Jericho e foi até a saleta. Se antes tinha passado os olhos em busca de experimentos e segredos, agora lia com fervor. Se Jericho soubesse de qualquer coisa que pudesse oferecer a Call alguma pista sobre como trazer Aaron de volta, então ele precisava encontrá-la. Enquanto as páginas passavam, um senso de pavor o preencheu. Então, Call chegou a uma anotação que fez seu sangue gelar:

Não existe ninguém para quem eu possa contar como me sinto, mas a cada dia fico mais cansado e tenho mais medo do futuro. Logo que me tornei o contrapeso de Constantine, parecia ser uma honra muito grande manter meu irmão mais velho em segurança. Mas nenhum de nós realmente entendia o que um contrapeso podia fazer.
Mas, então, Constantine aprendeu a extrair de minha alma regularmente, sem comprometer a dele. Ele me esgota até quase a morte, diversas vezes. Depois, devolve só um pouco de minha força, quase nem é o bastante para me manter consciente, e é pouco demais para permitir que eu realize qualquer magia por conta própria. Temo que minha alma seja inteiramente gasta antes que ele perceba o que está fazendo. Ele nem sempre foi assim, mas mudou muito no último ano, e sinto que não o conheço. Estou com tanto medo, e ninguém acredita em mim, tomados que estão pelo encanto de Constantine.

Call virou mais algumas páginas.

Detesto tudo que envolve trazer animais para os experimentos de Constantine, mas trazer corpos humanos de hospitais é ainda pior.

Call virou a página, com relutância. Era como ler um livro de terror, porém mais assustador. Um livro de terror sobre você mesmo.
Não sou Constantine, disse a si mesmo. Mas estava mais difícil agora. Anastasia achava que ele era Constantine. Assim como Mestre Joseph. A única pessoa que realmente não compartilhava dessa opinião era Tamara. Ela acreditava que ele fosse Call, uma pessoa independente. Aaron também acreditava nele. E veja no que deu...

Uma coisa terrível aconteceu. Eu estava cansado demais para trazer um corpo do cemitério para Constantine, então ele invocou um elemental do ar e nos levou para o hospital. Aterrissamos no heliporto, e ele riu disso. Ele me ajudou a descer as escadas e, por um instante, pareceu que era novamente o irmão de quem eu me lembrava, o irmão que cuidava de mim. Perguntei por que tinha me trazido com ele, e ele disse que só queria que nos divertíssemos juntos.
Passamos direto pelo necrotério e entramos no corredor do CTI. Ele utilizou magia do ar para disfarçar nossa presença para as enfermeiras. Foi arrepiante estar entre todas aquelas pessoas doentes que não sabiam que estávamos ali. Entramos em um quarto onde havia uma senhora deitada com os olhos fechados e um tubo na garganta. Os olhos de Con brilhavam. Entendi o que ele queria fazer, mas era tarde demais.
— Con, ela não está morta.
— Mas talvez essa seja a chave — disse ele. — Ela está quase morta. Talvez seja preciso colocar o caos dentro dela enquanto ainda há um sopro de vida.
— Deixe essa mulher em paz — pedi. — Ela está viva.
Fiquei repetindo enquanto ele me empurrava de lado e esticava a mão para ela. Caos sombrio derramava de seus dedos. Vi o corpo da mulher balançar e tremer. Senti alguma coisa me beliscar no peito. Engasguei e caí de joelhos no exato instante em que a senhora abriu os olhos; estavam vazios, mas girando em cores, como os olhos dos animais Dominados. Eles se fixaram em mim, e de algum modo achei que ela tivesse me reconhecido. Jericho, diziam seus olhos. Jericho.
Constantine não estava me usando só pela energia, percebi. Ele estava usando pedaços de minha alma... como se fossem pilhas, enfiando-as nos Dominados, nessa mulher, como um choque elétrico capaz de trazê-la de volta à vida.
Não vi a mulher morrer. Deu para ouvir Con exclamando irritado por ela ter morrido. Mais uma experiência fracassada. Tudo o que pude fazer foi imaginar como minha alma estava, agora que meu irmão a despedaçara.

Call deixou o diário de lado. Estava respirando tão forte que havia ficado tonto. As palavras no papel eram como um tapa na cara. Ele conhecia Constantine Madden como o Inimigo da Morte, a causa do falecimento de sua mãe, o monstro com quem a Assembleia preferia manter uma trégua por medo de recomeçar a guerra, mas, mesmo assim, isso era terrível de um modo diferente. Era pessoal — o que ele fizera com o irmão, arrancando pedaços de sua alma. Constantine não tinha feito isso para salvar alguém que amava. Não tinha matado aquela mulher por desespero. Foi um experimento. Só porque estava curioso. E era cruel.
Constantine Madden não fora levado a fazer escolhas terríveis em função da dor. Vinha fazendo escolhas horríveis desde muito antes da morte do irmão.
E, por mais que Mestre Joseph o tivesse influenciado no início, ele claramente havia se encaixado muito bem com o mal.
Call foi até a janela, olhando para o sol da tarde que tingia a grama. Temia que fosse vomitar. Sentia-se como se houvesse uma tempestade em sua cabeça.
Mas, após alguns instantes, voltou a recobrar os sentidos. E depois, alguns minutos mais tarde, algo novo lhe ocorreu. Durante anos, Call temeu ser sarcástico demais, maldoso demais e excessivamente disposto a seguir pelo caminho mais fácil. Imaginava uma linha acumulando Pontos de Suserano do Mal demais, desde não tirar o lixo ou comer a última fatia de pizza até liderar um exército de Dominados.
No entanto, ele sabia que jamais faria o que Constantine fizera com Jericho; jamais roubaria pedaços da alma de alguém que amasse. Jamais mataria alguém sem motivo. Se ser mau era isso, ele não seguiria esse caminho por acidente.
Talvez devesse parar de se preocupar com estar se tornando Constantine Madden e passar a se preocupar com Alex. Alex, que queria poder e não tinha medo de matar para isso. Alex, que poderia estar disposto a fazer tudo o que Constantine havia feito e mais.
Tamara e Jasper tinham razão: precisavam ir embora da ilha, e rápido, antes que Alex se acostumasse com o que seu poder podia fazer, antes que Mestre Joseph deixasse de acreditar em Call e utilizasse o Alkahest.
Porém, mesmo com toda a maldade, Constantine estava certo em relação a uma coisa: a morte não era justa. Aaron não devia ter morrido, e, se Call pudesse trazê-lo de volta, trazê-lo de volta à vida, não como um Dominado, então, alguma coisa boa resultaria dos terríveis experimentos de Constantine, de sua guerra terrível.
Para isso, ele precisaria decifrar o código. Ao longo dos dias em que passaram ali, Call tinha ouvido e lido sobre tantos dos experimentos realizados por Constantine. Em que ele não tinha pensado?
Tinha que haver alguma coisa, alguma pista.
Call pensou no registro que havia lido no diário, no qual Jericho falava ter-se visto espelhado no rosto da mulher; como se ela estivesse sendo animada por um pedaço de sua alma.
Tinha algo ali, algo que cutucava os pensamentos de Call.
Quando ele era bebê, Constantine devia ter feito alguma coisa bem parecida com isso — colocado toda a sua alma no corpo de Callum Hunt. Por que aquilo tinha funcionado?
Call franziu o rosto, se concentrando.
E depois, de repente, teve uma ideia. Uma ideia de fato, não uma dessas ideias tropeçando-no-escuro, talvez-funcione, do tipo que ele e Alex perseguiam com suas experiências infrutíferas.
Enfiando o diário no bolso da camisa de flanela, Call foi até a sala de experiências onde Aaron estava sendo mantido, e fez aquilo que vinha evitando: aproximou-se da mesa e removeu a coberta de cima de seu rosto.
— Espero que me perdoe — pediu.
Se ele fizesse aquilo direito, tudo ficaria bem. Todos poderiam fugir para o Magisterium, e Call eventualmente nem seria preso, considerando que não havia como prender alguém pelo assassinato de uma pessoa viva.
Retornariam triunfantes, com o exército de Dominados de Mestre Joseph. E, se Tamara só queria ser namorada de Call por estar abalada pelo luto ou coisa do tipo, como Jasper pensava, bem, então talvez ela passasse a gostar do garoto. Talvez Call pudesse convencê-la.
Desde que Aaron estivesse bem, Call tinha certeza de que ela o perdoaria pelas medidas necessárias a fim de que isso acontecesse.
A sala estava cheia de sombras. Aaron, ali sobre a mesa, tinha seu rosto morto branco como cera. Parecia Aaron e não parecia. O que quer que conferisse a Aaron sua personalidade e sua força havia desaparecido.
Sua alma, disse Call a si mesmo. Chame do que é. Ele não acreditava em almas antes de estudar no Magisterium, mas Mestre Rufus havia lhe ensinado a enxergar a de Aaron.
Call pousou as mãos no peito de Aaron. Já o tinha tocado antes, na presença de Alex, mas agora parecia estranho. Como se ele estivesse se despedindo do amigo.
Mas não estava. Muito pelo contrário. Tinha afastado sua mente dos caminhos sombrios que ela queria seguir, os caminhos que o lembravam de que estava sozinho na sala com um cadáver. Lembranças de todos os filmes de terror que já assistira competiam para assustá-lo. Esse é Aaron, lembrou a si mesmo. A pessoa menos assustadora que eu conheço.
Constantine tinha utilizado a alma do irmão, lhe arrancara pedaços para seus experimentos. Mas o que não havia feito era o que Call estava prestes a fazer. Não tinha utilizado um pedaço da própria alma.
Call manteve as mãos no peito de Aaron e vasculhou no fundo de si. Tentou se lembrar de como era ver a alma do amigo. Pensou no que o tornava ele — suas primeiras lembranças: o rosto de Alastair, as ruas da sua cidade, o asfalto rachando sob seus pés. Os portões do Magisterium, a pedra preta em sua pulseira, o jeito como Tamara olhava para ele. A sensação da magia de Aaron puxando-o a partir do peito, como era ser um contrapeso, a escuridão do caos...
Escuridão em forma de fumaça se espalhou a partir de seus dedos, derramou sobre o peito de Aaron, como tinta, contornando seu corpo.
Call engasgou. A energia parecia vazar dele através das mãos, fazendo seu corpo vibrar. Dava para sentir a própria alma pressionando o interior das costelas.
Ele fechou dedos imaginários em torno dessa alma e a pressionou. Foi como se uma faísca tivesse saltado e atravessado suas veias, penetrando em Aaron. O corpo de Aaron estremeceu; espasmos percorreram suas mãos, seus pés bateram contra a mesa de metal.
Call estava ensopado de suor, estremecendo dos pés à cabeça. A faísca estava dentro de Aaron; Call podia sentir. Conseguia até enxergar. Aaron tinha começado a brilhar de dentro, como se uma luz tivesse sido acesa em seu interior. Sua boca abriu, e ele respirou profunda e lentamente.
Callum entrou em pânico, imaginando ter jogado caos em outro corpo, lembrando-se de como os olhos de Jennifer Matsui tinham aberto e girado infinitamente com o caos.
— Por favor — implorou a Aaron. — Seja você. Lute para ser você. Por favor.
Se Aaron retornasse como um Dominado, Call jamais se perdoaria.
Eu não devia ter feito isso, pensou. Era arrogante; era arriscado demais. No entanto, depois de ler o diário, Call teve tanta certeza de que não era como Constantine... E talvez não fosse, pois nem Constantine chegou a experimentar de fato em Jericho. Até Constantine era mais sensato que isso.
O peito de Aaron subiu e desceu, como se estivesse dormindo, mas ele continuou de olhos fechados.
— Aaron — chamou Call, baixinho. — Aaron, por favor, seja você.
Então, Aaron se mexeu, passando a mão no vazio, rolando o corpo. Ele virou para o lado, se sentou e, com um tremor, abriu os olhos.
Não estavam reluzindo.
Não exibiam nada, além de um verde claro e firme.
— Aaron? — Call tinha a sensação de que mal conseguia produzir qualquer som.
— Call — disse Aaron.
Não soou como ele mesmo; ainda não. Talvez por sua garganta não ser usada há tanto tempo, mas havia um estranho vazio na maneira como falava, uma estranha falta de inflexão.
Call não se importou. Aaron estava vivo. O que quer que houvesse de errado com ele, agora poderia ser consertado. Call jogou os braços no amigo, sentiu a pele aquecer enquanto seu corpo se mexia com mais firmeza. Deu-lhe um abraço forte.
Aaron estava com um cheiro estranho, não de coisa morta ou podre, mas como ozônio, como o ar após a queda de um raio.
— Você está bem! — exclamou Call, como se dizer essas palavras as tornasse reais. — Você está bem! Está vivo e bem!
O braço de Aaron foi para as costas de Call, afagando-o no ombro. Mas, quando Call recuou, o rosto de Aaron estava pálido e tenso. Ele olhou em volta sem conseguir reconhecer.
— Call — falou com a voz rouca. — O que você fez?

3 comentários:

  1. Sobre aaron vivo: deus me livre mas quem me dera
    Sobre call e sua burrada: cara ce tem demencia?

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  2. desculpem o palavrão,mas que porra tá acontecendo nessa merda?

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  3. Quase 2h da manhã e eu lendo isso
    MANO AAAAAAA SCRR que tá acontecendo????
    Aaron voltou, já esperava isso desde que ele morreu, mas, e agora????
    Eu tô é morta

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Boa leitura, E SEM SPOILER!