7 de abril de 2018

Capítulo doze


Depois disso, Call se esqueceu completamente de Alex e Mestre Joseph.
— Ordeno que nunca mais obedeça a meus comandos outra vez, tudo bem? — instruiu Call.
— Eu ouvi nas cinco primeiras vezes — disse Aaron, sentando-se em uma pedra e olhando para o rio. — Mas não sei se isso vai funcionar. Não faço ideia de por quanto tempo seus comandos têm efeito sobre mim.
Call sentiu frio por todo o corpo. Ele se lembrou de quando dissera a Aaron para não chatear Tamara, e de como Aaron imediatamente se calou. Ou de quando mandou Aaron dormir, e ele obedeceu. Você precisa se concentrar apenas em melhorar, dissera a ele assim que o trouxe de volta. E Aaron, que tinha passado por um terrível trauma, respondeu tudo bem. Como não tinha reparado?
Ele não poderia mais mentir para si mesmo quanto a isso. Aaron não estava bem, talvez sequer fosse Aaron. Esse Aaron parecia pálido, estranho e preocupado. Esse Aaron fazia qualquer coisa que Call mandasse. Talvez sempre fosse fazer. Call não conseguia pensar em nada mais terrível.
— Ok. Então você não está bem — constatou Call lentamente. — Não agora. Hoje à noite vamos até a sala de experiência para descobrir o que está acontecendo.
— E se não conseguir encontrar nada? — perguntou Aaron. — Você já teve muito mais sucesso do que Constantine Madden jamais teve. Eu estou aqui, basicamente. A única questão é que eu não... eu não deveria estar.
Dessa vez, Call não gritou para que ele se calasse, apesar de ainda querer.
— O que isso significa?
— Eu não sei — respondeu Aaron, e ele tinha mais animação na voz do que Call esperava. — Eu não... é preciso muita concentração para prestar atenção ao que está acontecendo. Às vezes eu me sinto como se estivesse escorregando. E às vezes é como se eu pudesse fazer coisas ruins e não sentir nada em relação a isso. Então, entenda. Realmente não posso ser a pessoa que diz a diferença entre certo e errado, Call. Eu realmente não posso, mesmo.
Call queria protestar, como fizera antes, mas daquela vez se conteve. Pensou no olhar vazio de Aaron, no jeito como ele não havia entendido por que deveria se importar se as pessoas no Magisterium morressem. Ele não podia continuar insistindo que Aaron estava bem. Se Aaron acreditava que alguma coisa estava errada, então ele devia acreditar no amigo.
Mas, ao menos, Aaron era capaz de perceber isso. O que tinha que significar alguma coisa. Se ele não fosse Aaron, não se incomodaria com as diferenças que sentia.
— Nós podemos consertar — assegurou Call, no fim das contas.
— A morte não é a mesma coisa que um pneu furado.
— Temos que nos manter otimistas — argumentou Call. — A gente só precisa...
— Tem alguém vindo aí. — Aaron se levantou e apontou para a casa.
A porta da frente estava aberta, e uma fileira de magos, liderados por Mestre Joseph, vinha marchando em sua direção.
Call também se levantou. Sem Tamara e Jasper, seus planos de fuga tinham se tornado vagos e incompletos. O retorno de Aaron desviara sua atenção, e Call achou que isso pudesse ter causado o mesmo em Mestre Joseph. Tinha concluído que teria mais tempo.
Quando Aaron olhou para cima, Call o acompanhou e percebeu que o céu estava cheio de nuvens cinzas e carregadas. Através delas, Call vislumbrou formas gigantescas, que giravam.
Uma delas atravessou as nuvens: um imenso elemental do ar, com asas claras e endentadas. Montada nele, vinha Anastasia, a armadura impecável agora parecendo manchada e suja.
O elemental aterrissou no campo atrás de Call e Aaron, enviando uma onda de ar que deixou a grama amassada em formato de círculo. Call percebeu imediatamente: estavam presos entre Anastasia e Mestre Joseph.
O que estava acontecendo?
— Callum! — Mestre Joseph os alcançou primeiro, e Call notou duas coisas de imediato: Alex não estava com ele, e seu casaco tinha respingos de algum fluido de aparência questionável. — Chegou a hora.
Call trocou olhares com Aaron.
— Hora de quê?
— Tamara e Jasper conseguiram chegar ao Magisterium — respondeu Anastasia, se aproximando. O elemental ficou esperando no campo atrás da mulher, ondulando um pouco com a brisa. — A Assembleia logo terá nossa localização e saberá o que você fez.
— É hora de nos revelarmos, mostrar ao mundo nosso poder — decidiu Mestre Joseph. — Hugo, você trouxe a máquina?
Call e Aaron se encararam enquanto Hugo entregava a Mestre Joseph um enorme jarro de vidro. Dentro dele, girava ar cinzento e preto.
Telefone de tornado, Call moveu a boca para Aaron, que assentiu lentamente.
Com um floreio, Mestre Joseph retirou a tampa do jarro. O ar girou violentamente em torno deles. O elemental de Anastasia emitiu um ruído de espanto e desapareceu com um estalo.
Call foi para perto de Aaron, cujos cabelos chicoteavam em volta dos olhos. O ar expandiu para fora, atacando os galhos das árvores, circulando o espaço onde estavam.
— Mestre Rufus! — gritou Mestre Joseph. — Magos da Assembleia! Mostrem-se!
Era como olhar para uma televisão sem muita definição. Lentamente, as imagens foram se tornando mais nítidas, e Call pôde ver a sala da Assembleia e os magos de túnicas verdes lá reunidos. Reconheceu alguns deles, como os pais de Tamara e, evidentemente, os magos do Magisterium — Mestre Milagros e Mestre North, Mestre Rockmaple e, sentado com os ombros encolhidos e a careca brilhando, Mestre Rufus.
Devem ter se reunido assim por um motivo: discutir como derrotar Callum Hunt, o Inimigo da Morte.
Call sentiu o estômago se apertar ao ver seu professor. Mas isso não foi nada comparado ao sentimento dentro de si um instante depois, ao ver quem estava sentado ao lado de Mestre Rufus: Jasper, com o uniforme branco do Quarto Ano, e Tamara, também de branco, as tranças impecáveis.
Seus olhos grandes e escuros pareciam encarar através da visão enfeitiçada, como se ela estivesse olhando diretamente para a alma de Call.
Foi o pai de Tamara que deu um passo adiante, com a mão em seu ombro.
— É a última vez que oferecemos a oportunidade de se render, Mestre Joseph. A última guerra nos custou, mas também pediu um preço a você. Você perdeu seus filhos, perdeu Constantine e perdeu o rumo. Se entrarmos em guerra outra vez, não haverá intermediação de paz. Vamos matá-lo, e a todos os Dominados que encontrarmos.
Call estremeceu, pensando em Devastação, que provavelmente estava se escondendo atrás de uma árvore.
— Não seja ridículo! — exclamou Mestre Joseph. — Você age como se estivesse em posição favorável, quando somos nós que temos a chave para a eternidade. Acham que estão em vantagem porque Tamara e Jasper correram para vocês com notícias de nossa fortaleza? Se eu tivesse medo de que isso vazasse, teria cortado a garganta de ambos quando tive a chance.
Tamara o encarou enquanto Jasper recuava um passo. A mãe do garoto estava a seu lado, mas Call não conseguiu ver seu pai em lugar algum.
— Você não entende — prosseguiu Mestre Joseph. — Ninguém liga para sua guerra ridícula. Magos querem seus entes queridos de volta. Querem viver para sempre. O único jeito de conseguir que o mundo dos magos fique do seu lado é negando o que tenho bem aqui do meu. — Com isso, ele apontou para Aaron, que apareceu.
— Diga alguma coisa — ordenou Mestre Joseph a Aaron.
— Não tenho nada a dizer. Não estou do seu lado.
Call esperava que Mestre Joseph gritasse com Aaron, ou tentar impedi-lo de falar, mas, em vez disso, um sorriso largo lhe tomou o rosto.
Um silêncio se abateu sobre os magos. Mestre Rufus levantou a cabeça das mãos. Seu rosto parecia envelhecido, como se estivesse com mais rugas.
— Aaron? É você mesmo?
— Eu... Eu não sei — respondeu ele.
Mas a Assembleia já tinha virado um pandemônio. Independentemente do que Tamara e Jasper tivessem contado, pensou Call, não tinham acreditado que Aaron havia sido trazido de volta. Provavelmente julgaram que o garoto tornara-se Dominado, que Mestre Joseph estava louco. Que Call... O que será que pensavam de Call?
Mestre Rufus o encarava agora. Seus olhos escuros estavam resignados. Decepcionados.
— Callum — disse ele. — Você fez isso? Despertou Aaron dos mortos?
Call olhou para os próprios pés. Não conseguia sustentar o olhar de Mestre Rufus.
— Claro que fez — respondeu Mestre Joseph. — A alma é a alma. Sua essência não muda. Ele sempre foi Constantine Madden, sempre será.
— Isso não é verdade!
Call levantou o olhar, espantado, para ver quem o tinha defendido. Tamara. Ela estava com os punhos cerrados junto às laterais do corpo. Não olhava para ele, mas tinha se pronunciado. Isso significava que ela não acreditava no que dissera antes, que ele realmente era o Inimigo?
Os pais de Tamara a fizeram calar, puxando-a para o lado e quase para fora do alcance visual de Call, exatamente quando Mestre Joseph bufou com desprezo e voltou a falar:
— Vocês são muito tolos. Acham que estaremos em número reduzido diante de um ataque, como sem dúvida Tamara e Jasper reportaram. Mas realmente acham que não tenho aliados entre vocês? Por todo o mundo dos magos existem aqueles que estiveram esperando pela notícia de que completamos o projeto de Constantine. De que vencemos a morte. As mensagens já foram enviadas. Vocês podem notar que alguns de seus membros não estão presentes...
Diversos integrantes da Assembleia olharam em volta, alguns na direção de Jasper e sua mãe, para o espaço que deveria estar sendo ocupado pelo pai do garoto.
— Vocês não vencerão — garantiu Mestre Joseph. — Muitos acreditam no que acreditamos. De que adianta nascermos com magia se somos proibidos de nos beneficiar dela, se em vez disso temos que usá-la para controlarmos elementais pelo bem de um mundo que não se importa conosco? Para que serve a magia se não pudermos usá-la para resolver o maior de todos os mistérios: aquele que a ciência jamais penetrou, o mistério da alma? Magos de todo o mundo ficarão do nosso lado, agora que sabemos que os mortos podem voltar a viver.
Alguns dos magos começaram a sussurrar no fundo da sala, apontando. Call pôde notar que a presença de Aaron, mesmo de um Aaron que tenha contrariado Mestre Joseph, tinha mexido com eles. Call ficou imaginando quantos ficariam ao lado de Mestre Joseph.
— Callum, seu pai está desesperado — avisou Mestre Rufus. — Encontre-se conosco. Traga Aaron. Deixe-nos verificar essas alegações.
— Vocês acham que somos idiotas? — gritou Mestre Joseph para as imagens brilhantes dos magos.
— Nós avisamos — interrompeu Tamara. — Ele está sendo mantido prisioneiro.
— Não é o que me parece — disse Graves, com uma fungada. — E como você esteve envolvida na fuga da prisão, sabemos que foi corrompida.
— Call pode apresentar alguns sintomas da Síndrome de Estocolmo — admitiu Jasper. — Mas Mestre Joseph o mantém contra a vontade. Também está aprisionando Aaron.
— Você está mantendo essas crianças em cativeiro? — indagou Mestre Rufus.
Mestre Joseph sorriu.
— Mantendo Constantine Madden prisioneiro? Sempre o servi, e nada mais. Call, você está aqui contra sua vontade?
O garoto considerou o que responder. Parte dele queria gritar por socorro, implorar que alguém viesse salvá-lo, mas não era como se a Assembleia fosse conseguir buscá-lo; não naquele momento. Era melhor que Mestre Joseph acreditasse que ele estava a seu lado. Se haveria guerra, era função de Call fazer o que pudesse para ajudar a Assembleia a vencer.
Pelo menos ele achava que deveria ajudar a Assembleia a vencer.
De todo modo, sua resposta foi a mesma.
— Não — disse ele, se levantando. — Não sou um prisioneiro. Sou Callum Hunt, o Inimigo da Morte renascido. E aceito meu destino.


— Não gosto daqui — confessou Aaron.
Estavam no quarto de Tamara, ou no que costumava ser o quarto de Tamara, sentados na macia cama cor-de-rosa. O aposento de Call ainda tinha buracos nas paredes, o que o tornava muito frio, e fazer reparos na casa não era prioridade de ninguém no momento.
— Não vamos ficar por muito tempo — prometeu Call, apesar de só ter o mais vago dos planos.
Aaron deu de ombros.
— Suponho que não voltaremos ao Magisterium. Não depois que você anunciou ser o Inimigo da Morte.
Call abraçou os joelhos.
— Você acha que eu falei sério?
— Não? — Os olhos de Aaron estavam sem expressão. Call ficou imaginando o que se passava em sua cabeça. Costumava conseguir adivinhar bem os pensamentos de Aaron, mas não mais. — Você venceu a morte, afinal.
— Esta noite vamos descobrir o que podemos fazer por você — revelou Call. — Depois disso, a gente foge.
Call não mencionou o exército de Dominados nem que pretendia levá-lo consigo. Se até o final daquele dia compreendesse o que estava se passando com Aaron, então poderiam ir. Poderiam marchar sobre o rio antes do amanhecer, e era impossível que Alex tivesse um número suficiente de Dominados para impedi-los.
Mas e se não conseguisse? Será que deveriam fugir assim mesmo? Ele realmente achava que o mundo dos magos o aceitaria, principalmente agora, com Aaron?
Call se lembrou das expressões nos rostos da Assembleia, e um buraco frio se abriu em seu estômago.
Pensou nas palavras de Anastasia: Você é poderoso. Não pode simplesmente desistir desse poder. O mundo não permitirá. Não permitirá que você simplesmente se esconda por medo de se ferir. No fim, pode ser que você chegue a essas duas opções: governar o mundo ou ser esmagado por ele.
Call torceu muito para que ela não tivesse razão, mas precisava admitir que Anastasia havia acertado quanto a Tamara.
— Não vai ser fácil chegar à sala de treinamento — avisou Aaron. — Tem muita gente. Está um caos aqui.
Ele tinha razão; a casa inteira era um alvoroço, Anastasia acompanhava os magos mais jovens de um lado a outro para invocar elementais; Mestre Joseph, Hugo e mais alguns marcavam símbolos de defesa em volta da propriedade.
Call queria dizer alguma coisa inteligente, como caos ser seu nome do meio, mas era triste demais. Ele podia ainda ser um mago do caos, mas Aaron não era; sua magia pertencia a Alex agora.
— Devastação vai ajudar — disse ele.
Devastação, ao ouvir seu nome, ergueu as orelhas. Correu para baixo a seu lado, parando na base da escada com olhos estreitos e emitindo um rugido baixo. O lobo jamais gostou muito dali e, quanto mais ficavam, menos parecia gostar.
— Eis o que você precisa fazer. — Call se abaixou para falar com o lobo Dominado.


Enquanto desciam as escadas, Call pôde ouvir seu plano funcionando. Devastação latia e corria em volta, levando os magos em uma caçada feliz. Estavam todos tentando entender o que o havia atiçado, certos de que a Assembleia estava atacando.
Enquanto Devastação corria, Call e Aaron foram direto para a sala de treinamento, fechando a porta e trancando-a.
Só então perceberam que não estavam a sós. Alex estava sentado no chão, com um monte de livros abertos ao seu redor, formando um estranho círculo. Tinha os olhos fundos, e a pele parecia manchada.
Em uma maca no outro extremo da sala, havia um cadáver bizarro. O corpo era de um adulto, mas com um rosto que parecia uma paródia grotesca das feições mais infantis de Drew. Parecia ter sido esculpido em carne, mas com uma faca de manteiga. Estava vestido com uma imitação de roupas infantis: uma camisa com estampa de cavalo e jeans vermelhos. Só de olhar, Call sentiu o estômago dar um nó.
— Hum — disse ele. — Desculpe. Não sabíamos que tinha mais gente aqui.
Aaron apenas olhou para Alex. Pode até ter havido um leve sorriso se esboçando nos cantos de sua boca.
Alex se ergueu, levando consigo alguns dos livros, e apontou um dedo trêmulo para Call.
— Você! Você não explicou direito o que fez. Você mentiu. — Ele tentou passar por onde Call e Aaron estavam.
— Ah, não. — Call o conteve com uma das mãos em seu peito. Alex era mais alto que eles, mas eram dois contra um, e Aaron era muito mais intimidador agora que tinha voltado dos mortos. — Você vai nos ajudar.
— Não vou fazer nada até me explicar como trouxe Aaron de volta; a verdade, não o que você disse para fazer Mestre Joseph me atormentar.
— Eu disse a verdade. Você só não consegue.
Alex olhou fixamente para Call. Pela primeira vez, o sorriso irônico deixou seu rosto. Ele parecia verdadeiramente assustado.
— Por quê? Por que eu não conseguiria fazer? Por que eu não consigo alcançar e encontrar a alma dele?
Call balançou a cabeça.
— Não sei. Eu não fiz isso. Nós tínhamos o corpo de Aaron. Você não tem o de Drew. Como vai encontrar sua alma?
O desespero no rosto de Alex era evidente, mas Mestre Joseph não deixaria de querer seu filho de volta. Mesmo que fosse impossível, ele insistiria.
— Então, não há esperança — lamentou Alex.
— Eu não sei — disse Call. — Você me ajuda com Aaron, e eu o ajudo com seu problema.
Alex estudava havia mais tempo que ele; buscava aqueles Pontos de Suserano do Mal que Call tentava combater por anos. E, se existisse alguma chance de que Alex tivesse a chave para ajudar Aaron, então, valia a pena.
Alex olhou para Aaron e franziu o cenho. Aaron se sentou no chão, onde Alex estava, e pegou um livro.
— Ele parece bem — resmungou Alex. — Ajudar com o quê?
— Ele não está feliz — tentou explicar Call.
Alex desdenhou.
— Bem-vindo ao clube. Eu também não estou feliz. Se não trouxer Drew de volta, estarei profundamente encrencado. Mestre Joseph não para de olhar o Alkahest.
— Talvez você não devesse ter sugerido que ele usasse o Alkahest em mim — respondeu Call, sem solidariedade.
Alex suspirou, sem ter uma resposta para isso.
— Então, temos que encontrar algum jeito mágico de deixar Aaron feliz outra vez?
Call franziu o cenho para Aaron, que estava sentado no chão, virando páginas como se alheio à conversa.
— Ele não está exatamente infeliz — explicou. — Ele só... não está no lugar certo. É como um cara que pegou um trem para uma estação, mas que precisou pegar outro trem de volta, porque esqueceu a mala e agora sente que está indo para o lado errado.
— Ah, sim — disse Alex, com sarcasmo. — Agora ficou bem mais claro.
Call não queria contar a Alex tudo o que Aaron tinha dito, porque o assunto parecia particular, mas tentou mais uma vez:
— Aaron está sem nenhuma magia. Sei que você lhe roubou as habilidades de Makar, mas ele deveria continuar sendo um mago, certo? E não é. O que quer que o esteja afastando de sua magia pode ser a peça que falta para fazê-lo se sentir completo.
Alex hesitou.
— Além disso, se você trouxer Drew de volta sem magia, isso não deixaria Mestre Joseph exatamente feliz.
— Isso é verdade — concordou Alex, com má vontade. — Muito bem, o que está sugerindo?
— Nós aprendemos como tocar a alma no Magisterium — disse Call. — Sinto que devo tentar olhar a de Aaron. Talvez enxergar qual é o problema.
— E por que eu tenho que estar aqui?
Call respirou fundo.
— Você é mais velho e está estudando isso há mais tempo. Então, preciso que pense o que mais devemos checar.
— E se não conseguirmos encontrar nada de errado?
— Eu poderia dar mais da minha alma a ele — respondeu Call, com a voz baixa. — Talvez não tenha sido o bastante.
Alex balançou a cabeça.
— Problema seu. Aaron, suba na mesa de experiência.
Aaron olhou para a maca com o corpo por um longo instante.
— Não. Não vou.
— Porque a maca está ocupada... — disse Call.
— Podemos jogar o corpo no chão — sugeriu Alex, enquanto Aaron o olhava com desgosto.
Para evitar isso, Call arrastou uma mesa cheia de livros de um canto para o centro da sala. Depois de esvaziarem a superfície, Aaron subiu e se deitou com as mãos cruzadas sobre o peito.
Call respirou fundo, sentindo-se constrangido, tentando se lembrar de como era enxergar a alma de Aaron antes. Aquela era a parte que teria que fazer sozinho. Alex não merecia ver a alma de ninguém, e definitivamente não a de Aaron.
Call fechou os olhos, respirou fundo e começou. Era mais difícil do que tinha sido no Magisterium. O corpo ressuscitado de Aaron parecia repelir a investigação de Call. Sua alma era cercada por uma espécie de escuridão. Call tentou se agarrar a lembranças de Aaron. Seu amigo rindo e comendo líquen sem reclamar no Refeitório, separando areia, dançando com Tamara. Mas as imagens vinham fracas. A que mais se destacava era claramente o corpo de Aaron ainda frio sobre a maca.
Call se forçou a lembrar como tinha sido colocar um pedaço de alma em Aaron — feito uma eletricidade acendendo metal na escuridão. A lembrança o dominou, e ele finalmente sentiu um caminho se abrir para a presença de Aaron. Viu a luz de uma alma, pálida e clara, com uma espécie de luz dourada, que era toda Aaron.
Mas fios escuros a cercavam, segurando-a no lugar, se enraizando como hera em prédios até a pedra ruir. Seu corpo parecia pulsar com energia do caos. Call buscou com sua mente e sentiu um frio terrível e opressor. O corpo. Havia algo de errado com o corpo de Aaron.
— O que vocês estão fazendo? — As portas da sala de experiência se abriram. Atônito, Call se apoiou na mesa, e Alex gritou, dando um pulo para trás.
Era Mestre Joseph, e ele parecia furioso.

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