7 de abril de 2018

Capítulo dois


Os dois guardas que trouxeram Jasper para a cela de Call agora conversam um com o outro aos sussurros. Do outro lado da prisão, começaram gritos que depois cessaram de forma abrupta.
— Acho melhor eu ir nessa. — Parecendo ansioso, Jasper se levantou e olhou ao redor.
— Não! — disse rispidamente um dos guardas. — Isto é uma emergência. Nenhum visitante circula sozinho. Para sua própria segurança, você terá que nos seguir enquanto escoltamos o prisioneiro para um veículo de evacuação.
— Você quer que eu fique perto do Inimigo da Morte enquanto ele está fora da cela? — perguntou Jasper, como se tivesse algo com que se preocupar. — Como é que isso pode ser seguro?
Call revirou os olhos.
Um dos guardas desativou uma parte da parede elementar e entrou na cela de Call, prendendo-o com algemas novas.
— Vamos — chamou o guarda. — Você caminha entre nós, e o aprendiz vai na frente.
Call parou onde estava.
— Há algo de errado — declarou ele.
— O presídio está pegando fogo — disse Jasper, olhando atrás de si. — Eu diria que algo está errado, sim.
— Há semanas que ouço um bando de magos falando sobre quanto este lugar é invulnerável — prosseguiu Call. — Como nada pode invadir ou destruir esta estrutura. Não deveria estar pegando fogo.
Os guardas pareciam cada vez mais nervosos.
— Fique quieto e venha — exigiu um deles, puxando o garoto pelo braço.
— “O fogo quer queimar”— anunciou Jasper, olhando fixamente para Call.
Ele estava citando o poema, as cinco linhas de texto que descreviam a magia elementar. Os guardas o encararam. Provavelmente se lembraram dos tempos de escola.
O ar se tornava mais quente do lado de fora da cela. A essa altura, as pessoas corriam pelos corredores, gritando. Todas as outras celas foram esvaziadas, e os prisioneiros marchavam em fila para as saídas.
— Eu sei disso — disse Call. — Mas este lugar não deveria queimar.
— Fomos alertados sobre sua lábia — comentou um dos guardas, empurrando o prisioneiro para a sua frente. — Cale a boca e ande.
Pedaços de pedra e metal derretido começavam a cair do telhado. Nesse ponto, Call decidiu parar de se preocupar com o motivo e começou a se preocupar em escapar vivo. Call, Jasper e os dois guardas se apressaram pelo corredor, que estava ficando cada vez mais quente. Call continuou aos tropeços, a perna ruim lançando dores terríveis pelo corpo. Ele não andava tanto assim havia meses.
Ouviu-se uma batida. À frente, parte do chão se desintegrava em um chafariz de cinzas e pedaços de pedra incandescente. Call observou aquilo e soube que estava certo; não era um incêndio normal.
Apenas torceu para sobreviver e poder dizer eu avisei.
Os guardas o soltaram. Por um instante, Call pensou que fossem tentar uma rota alternativa pelo presídio, mas, em vez disso, ambos correram, quase derrubando Jasper. Saltaram sobre o chão que desmoronou totalmente, aterrissando em segurança do outro lado. Eles se levantaram e se limparam.
— Ei! — gritou Jasper, parecendo incrédulo. — Não podem simplesmente nos largar aqui!
Um dos guardas pareceu envergonhado. O outro apenas os encarou.
— Meus pais morreram no Massacre Gelado — disse ele. — Por mim, você pode morrer queimado, Constantine Madden.
Call se encolheu.
— Mas e eu? — gritou Jasper, enquanto os guardas se afastavam. — Eu não sou o Inimigo da Morte!
Mas eles tinham desaparecido. Jasper girou, tossindo. E olhou de maneira acusatória para Call.
— A culpa é toda sua — acusou ele.
— É bom vê-lo encarando a morte corajosamente, Jasper.
O lado bom de sua presença, pensou Call, era que Jasper jamais o fazia se sentir culpado, mesmo quando provavelmente deveria. Era impossível não acreditar que Jasper merecia tudo que lhe acontecia.
— Use sua mágica do caos! — Jasper tossiu. O ar estava denso de fumaça e fuligem. — Devore as paredes ou o fogo ou alguma coisa!
Call estendeu as mãos. Os punhos estavam acorrentados. Um mago de seu nível não conseguia fazer mágica sem as mãos.
Jasper murmurou um xingamento e girou, esticando o braço direito. O ar diante de si pareceu vibrar e, em seguida, solidificar. Uma ponte se ergueu sobre a parte ruída do chão, brilhando no ar.
Call não parou para se maravilhar com o fato de que Jasper tinha feito alguma coisa útil; não apenas útil, mas impressionante. Ele correu tão rápido quanto a perna permitia, reservando o direito de ficar impressionado mais tarde.
Nem Call nem Jasper sabiam ao certo onde ficava a saída, mas o fogo havia reduzido as opções. Correram pelo caminho desobstruído. Call cerrou os dentes por causa da dor e tentou ao máximo não tropeçar. O ar estava quente o bastante para que até abrir a boca e falar doesse.
Eles chegaram a uma porta aberta que parecia pesada, mágica e quase impossível de ser atravessada a tempo, caso estivesse fechada. Com alívio, eles atravessaram. Jasper derrubou o bloqueio, fechando a porta ao passar, e obtendo um pouquinho de alívio do calor e da fumaça.
Call arfava, as mãos nos joelhos. Pareciam estar em uma das passagens de fundos do Panóptico. Dava para sentir o cheiro de água sanitária e sabão em pó misturado à fumaça e ao fogo. Corredores se abriam em todas as direções, e não havia janelas. Um enorme pilar de fogo se formou de repente no corredor à frente.
Jasper cambaleou para trás e gritou.
Era o fim. Morreriam queimados, presos no corredor entre as chamas. Call se lembrou de ter navegado por um labirinto de fogo no ano anterior, lembrou-se de como extraiu do caos para esgotar todo o ar da sala; um ato desesperado que funcionou para apagar o fogo, mas que também acabou com todo o oxigênio que precisavam para respirar. Sem a intervenção de Aaron, teriam morrido.
Call desejou ter sua magia naquele instante, mesmo que se lembrasse do mau uso que havia feito dela.
O fogo quer queimar. A água quer correr. O ar quer levitar. A terra quer unir.
O caos quer devorar.
E a linha do poema que ele tinha acrescentado, só para fazer graça: Call quer viver.
A ideia o assombrava. Ele puxou suas amarras, mas estavam firmes como nunca, sua mágica fora de alcance. O fogo diante de si se desenrolava, como uma cobra, cada vez mais alto, espalhando-se da parte superior feito o capelo de uma naja.
Então um rosto se formou em meio ao fogo — um rosto familiar. O rosto de uma garota, feito totalmente de chamas.
— Makar — disse a irmã de Tamara, Ravan.
Ravan fora consumida pelo elemento que ali presenciavam, e continuava vivendo como uma Devorada do Fogo, um elementar com a alma de uma pessoa. Ou uma pessoa com uma alma de elemento. Call uma vez invadiu uma prisão de elementares com Aaron e Tamara, onde viu os Devorados do Ar, do Fogo, da Terra e da Água. Até onde sabia, jamais existira um Devorado do Caos. A ideia era aterrorizante.
— Não há tempo a perder — instruiu Ravan. — Através do terceiro conjunto de portas à direita encontrarão uma saída.
Seu rosto desapareceu, perdendo-se nas chamas. O fogo mudou de forma e se tornou um arco brilhante e ardente.
— O. Quê. Foi. Isso? — perguntou Jasper.
— Um elementar do fogo — disse Call, sem querer implicar Tamara quando não fazia ideia do que estava se passando. — Eu a conheço. Ela mora no Magisterium.
— Então, isso é um plano de fuga? Você me fez participar de sua fuga idiota? — gritou Jasper, com a voz falhando. — Isso realmente é tudo culpa sua, Call. Eu...
— Cale a boca, Jasper — interrompeu Call, empurrando o garoto para a terceira porta. — Você pode gritar comigo quando estiver fora do prédio em chamas.
— Mais uma vez varrido pela vassoura cruel do destino — murmurou Jasper, enquanto continuavam.
Conforme Ravan havia instruído, eles atravessaram o corredor e depois viraram à direita para duas portas duplas com uma longa barra de madeira que as fechava. Jasper agarrou a barra e a empurrou para o lado. Call se lançou contra as portas, que se abriram.
Luz do sol e ar. Jasper se jogou para fora e depois gritou. Fez-se um barulho de algo batendo.
— Degraus! — alertou ele. — Cuidado com os degraus.
Atrás de Call, tudo era fogo. Ele respirou fundo e seguiu Jasper para o lado de fora. Havia degraus, um breve lance de escadas para baixo. Jasper, já tendo descido, esfregava o joelho. Mas havia também luz do sol e ar fresco, e nuvens e todas as coisas que Call não via há muito tempo. Ele respirou com ânsia e depois respirou de novo.
— Vamos — chamou Jasper. — Antes que alguém veja você.
Enquanto se afastavam da prisão, a fumaça diminuiu. Call olhou para trás.
O Panóptico era um enorme círculo cinzento de pedras atrás dos dois, em forma de um balde de cabeça para baixo. Chamas de cor laranja saíam pelas janelas e pelo telhado.
Chegaram a um gramado verde. Não havia janelas na cela de Call, mas, se houvesse, teria sido esta sua vista: um verde liso, uma grade ao longe e árvores além.
Também era possível ver uma cena de completo caos. Grupos de prisioneiros acorrentados, cercados por guardas. Outros eram levados para vans. Magos com túnicas verde-azeitona da Assembleia corriam pela grama, balançando os braços, tentando direcionar guardas, oficiais e prisioneiros em pânico e cobertos de fuligem.
Um dos Membros da Assembleia viu Call e gritou chamando por guardas.
— Onde está meu transporte? — indagou Jasper, tossindo. — Preciso sair daqui.
— Você vai simplesmente me largar? — perguntou Call.
— Você sabe o que acontece se eu ficar com você. Vou ser arrastado para algum show de horrores, com cabeças decapitadas e Dominadas. Não, obrigado. Tenho que reconquistar Celia. Não quero morrer.
— Pelo menos tire isso de mim. — Call esticou as mãos algemadas. — Me dê uma chance, Jasper.
Os guardas vinham na direção de Call agora, falando entre si, como se planejassem uma estratégia. Mas não se moviam rápido o bastante e, com Call de costas, não conseguiam ver o que Jasper estava prestes a fazer.
— Tudo bem — aquiesceu ele, se esticando para agarrar os punhos de Call. — Espere... do que elas são feitas? Nunca vi um metal assim.
— Vocês dois. — Uma voz latiu. Call praticamente saltou para fora do próprio corpo. A voz era de uma integrante da Assembleia em seu terno branco — Anastasia Tarquin. Por um instante, Call ficou paralisado com uma mistura de alívio e medo. Os cabelos prateados estavam puxados para trás, e os olhos claros ardiam. — Venham até aqui. Agora. Agora. — Ela estalou os dedos, olhando para Call de maneira impessoal, como se não o conhecesse. — Imediatamente.
Os guardas pararam de avançar, parecendo aliviados por outra pessoa cuidar da situação.
Xingando baixinho, Jasper seguiu Call e permitiu que Anastasia os guiasse pela grama.
— Transportando o Makar — avisou ela, levantando a mão cada vez que alguém parecia se aproximar ou questionar. — Temos que tirá-lo daqui o mais rápido possível. Saia do caminho!
Uma van bege estava estacionada na extremidade oposta do gramado. Anastasia abriu as portas de trás e empurrou Call para dentro. Ele não conseguia ver o motorista.
Jasper parou.
— Não tem motivo para eu entrar em um veículo com prisioneiros...
— Você é testemunha. — Anastasia se irritou. — Entre DeWinter, ou contarei a seus pais que você não colaborou com a Assembleia.
Com os olhos arregalados, Jasper seguiu Call. A van tinha bancos dos dois lados e barras acima da cabeça nas quais algemas poderiam ser presas para manter os prisioneiros no lugar. Call e Jasper sentaram-se frente a frente. Ninguém prendeu as algemas de Call. Em vez disso, as portas se fecharam, deixando-os em uma escuridão fria.
— Estranho — comentou Call.
— Vou registrar uma queixa — retrucou Jasper, em um tom resignado. — Para alguém. Alguém vai ouvir sobre isso.
A van arrancou, fez algumas curvas e depois acelerou no que parecia uma rodovia. Call não fazia ideia de para onde estavam indo. Ele sequer sabia ao certo onde ficava o Panóptico, quanto mais o destino dos prisioneiros em situações adversas.
Ficou confuso com as presenças de Anastasia e Ravan. Anastasia lhe dissera ser mãe de Constantine Madden, e, como Call tinha a alma de Constantine, ela o ajudaria. Anastasia era encarregada dos elementares do Magisterium. Talvez tivesse armado tudo. Mas, se fosse verdade, qual seria o próximo passo? Toda a Assembleia estaria procurando por Call. Ela não poderia simplesmente levá-lo a algum lugar remoto até a poeira baixar. Toda a questão do Inimigo da Morte jamais seria esquecida.
Ele repassou o envolvimento de Anastasia, a probabilidade de isso ser uma fuga, seu medo de nunca mais voltar a ver o pai, a preocupação de que Mestre Rufus, novamente, acreditasse que Call havia mentido, e o medo de passar mal caso fizessem mais uma curva daquele jeito. Nenhuma conclusão.
Foi com o coração pesado que sentiu a van parar. As portas de trás se abriram, e a luz entrou, fazendo Call piscar.
O motorista surgiu diante das portas abertas. Tirou a boina. Tranças longas e escuras caíram sobre seus ombros, e um sorriso familiar iluminou seu rosto. O coração de Call deu cambalhotas no peito.
O motorista era Tamara.

2 comentários:

  1. Tamara rainha de mim
    É impressão minha ou vc está ajudando quem você acusou?

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  2. No começo desse capítulo fiquei imaginando se o cal fosse um vilão mesmo, ele teria quebrado as correntes e atacado os guardas além de fugir junto com o jasper, como refém provavelmente, tô no começo do capítulo ainda

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Boa leitura, E SEM SPOILER!