7 de abril de 2018

Capítulo dez


— Está tudo bem — tranquilizou Call.
Ele pegou as mãos de Aaron. Estavam frias, mas não geladas. Definitivamente, eram mãos vivas. Call sabia que era preciso esfregar as mãos das pessoas para aquecê-las, então, foi o que fez.
Aaron olhou em volta. Movia-se muito lentamente, como se todos os seus músculos estivessem duros.
— Onde estamos?
— Você precisa se concentrar apenas em melhorar — disse Call.
— Melhorar? — Aaron sem dúvida soava como alguém que estava acordando após um longo sono, mas fazia sentido. — Quando eu fiquei doente?
Call não sabia como responder a essa pergunta. Em vez disso, perguntou:
— Qual é a última coisa da qual você se lembra?
— Estávamos no bosque — disse Aaron. A cor começava a voltar para seu rosto. Os olhos estavam verdes, como sempre foram, sem qualquer indício de cores giratórias. E nenhum Dominado era capaz de conversar, Call lembrou a si mesmo. Não assim, com frases completas e normais. — Estávamos procurando por Tamara...
Ele franziu o nariz, pensativo. Call soltou suas mãos, e Aaron flexionou os dedos. Mãos normais, pele corada, pulsação na garganta... o coração de Call estava acelerado. Tinha conseguido, trouxera Aaron de volta, havia conquistado o impossível...
— E, depois, Alex nos traiu — continuou Aaron. Estava franzindo mais o cenho. — Ele era o traidor, o tempo todo. Ele tinha o Alkahest. E nos fez ajoelhar...
Opa. Calma. Call notou que as coisas estavam prestes a ficar ruins.
— Aaron, tudo bem. Você não precisa...
Mas Aaron tinha começado a tremer. Não tremores leves, como se estivesse com frio, mas espasmos que faziam todo o seu corpo se encolher. Ele agarrou a borda da maca.
— Nós nos ajoelhamos — continuou ele. — Aconteceu uma explosão. Você foi jogado para longe de mim. Vi a luz branca do Alkahest. Ela preencheu o céu. Call... — ele ergueu os olhos verdes assombrados. — O que aconteceu? Por favor, me diga que não foi o que estou pensando.
Call só conseguiu balançar a cabeça. Aaron fitava as próprias mãos. Estavam pálidas e pareciam normais para Call. Mas Aaron parecia ter repulsa a elas.
Call, então, percebeu o que Aaron via: suas unhas tinham crescido e estavam longas e endentadas. Unhas e cabelos crescem após a morte, lembrou-se Call. O cabelo de Aaron também estava comprido, ondulando abaixo das orelhas.
— Call — chamou Aaron. — Eu estava... eu estava...?
Ele o interrompeu, desesperadamente.
— Não temos tempo. Precisamos dar o fora daqui. Temos que sair antes que alguém nos encontre. Aaron, por favor!
O garoto hesitou... depois, assentiu. O desespero na voz de Call pareceu ter vencido suas suspeitas. Ele deslizou para fora da maca, aterrissando sobre pés descalços.
Suas pernas fraquejaram instantaneamente. Ele caiu encolhido no chão e rolou, resmungando. Call se inclinou sobre o amigo enquanto Aaron se curvava encolhido e agoniado. Seu cabelo estava grudado de suor na testa.
— Minhas pernas... elas estão queimando...
Uma risada atravessou o recinto. Uma risada alta, dura e incrédula.
— Você só pode estar brincando.
Call se esticou. Era Alex, em mais uma de suas roupas pretas, parado na entrada. O coração de Call despencou.
Aaron se apoiou nas próprias mãos, ajoelhando. Estava com uma cor branca que parecia cera.
— Você não — disse ele. — Você não pode estar aqui. Não.
— Nunca achei que você fosse fazer. — Alex entrou na sala. — Nunca achei que teria a coragem, Constantine Júnior.
Call se colocou entre Aaron e Alex.
— Fique longe dele... de nós — exigiu Call.
— Claro. — Alex falou de maneira arrastada. — Vou apenas me retirar e fingir que você não acabou de ressuscitar um morto, coisa que literalmente ninguém jamais conseguiu antes...
Aaron gritou.
Foi um barulho horrível. Tanto Call quanto Alex recuaram ao ouvirem o uivo animalesco que saiu da garganta de Aaron. Ele arranhou o chão, com os ombros tremendo, mas não havia lágrimas em seu rosto. Não estava chorando.
— Aaron! — Call se ajoelhou. — Você precisa se acalmar. Por favor, se acalme.
Aaron perdeu a força.
— Estou morto — sussurrou. — Eu morri. É por isso que tudo parece cinzento e... e horrível...
As portas se abriram. Mestre Joseph invadiu a sala, seguido por Jasper e Tamara. Estava com a mão erguida, com um núcleo de fogo ardendo na palma. Tinha vindo em resposta ao grito de Aaron, mas agora estava parado, olhando chocado para ele. Mestre Joseph, de repente, pareceu muito mais velho, com a pele esticada demais, a boca reta.
— Meu Deus! — exclamou ele.
Alex soltou um riso amargo.
— Nada relativo a Deus aqui.
— Levante-o — pediu Mestre Joseph, com a voz rouca. — Ponha-o de pé. Preciso ver que ele está vivo.
Call deu uma volta para proteger Aaron, mas Alex já estava lá, puxando o menino para colocá-lo de pé. Aaron ergueu o rosto, olhando para além de Mestre Joseph, vendo Tamara e Jasper na entrada. O rosto de Jasper era uma máscara de surpresa, mas Tamara... Ela parecia ter sofrido uma longa queda e perdido todo o ar do corpo. Como se não conseguisse respirar.
— Tamara — sussurrou Aaron.
A garota colocou as duas mãos na boca e deu um passo para trás, quase batendo em Jasper, que a segurou pelo braço. Ela sacudia a cabeça de um lado para o outro, as tranças escuras chicoteando seu rosto. Call sentiu uma onda de enjoo.
— Tamara — começou a dizer.
— Quietos — disse Mestre Joseph. — Todos vocês, fiquem quietos.
Mestre Joseph olhava fixamente para Aaron, como se realmente estivesse vendo um fantasma. Como se jamais tivesse imaginado que seu plano poderia de fato funcionar. Como se jamais tivesse acreditado que Aaron fosse reviver.
— Você conseguiu — disse ele. Seu olhar estava em Aaron, mas ele obviamente falava com Call. — Eu tinha razão. Eu estava certo quando confiei a você a tarefa de despertar os mortos, Constantine. Você conseguiu!
— Call. — A voz de Jasper tinha se tornado um sussurro seco. — Você fez isso?
Callum percebeu que deveria ter planejado a ação muito melhor. Não devia ter despertado Aaron sem um jeito de tirá-lo dali, sem uma maneira de todos escaparem, como Tamara queria. Devia ter encontrado um modo de fazer isso quando a comoção não fosse acordar a casa inteira.
Mas ele não tinha ideia de que conseguiria. Não sabia quanto tempo ia levar, ou quanto isso o esgotaria.
De repente, Call se sentiu muito tonto.
Foi então que se lembrou: tinha perdido um pedaço da alma.
Percebeu que estava prestes a desmaiar. Instintivamente, esticou o braço para agarrar alguém, mas não havia ninguém.
Quando Call caiu no chão, caiu inteiramente sozinho.


Call acordou no velho quarto de Constantine. Assustadoramente, Anastasia estava sentada na ponta de sua cama, com um terno branco e um broche em uma das lapelas. Nele, uma pedra da lua piscou para o garoto. Call conteve um berro.
Qualquer som abafado que tivesse emitido a alertou para o fato de que estava acordado.
— O que você está fazendo aqui?
Ela ajeitou as cobertas sobre seu peito.
— Mestre Joseph me contou o que você fez. Você sabe que salvou o mundo, certo?
Call balançou a cabeça.
— Mudou o conceito de ser mago. Ah, Call, você mudou tudo. Constantine não será mais lembrado como um monstro. O legado de meu filho será honrado. Seu legado.
Um terrível tremor percorreu o corpo de Call. Ele realmente não tinha pensado nesse tipo de consequência. E ela não entendia. O que ele havia feito não era fácil de ser replicado. Ele não podia simplesmente arrancar pedaços da própria alma o tempo todo. Não fazia ideia de como o que alcançara lhe afetaria os poderes. Talvez jamais conseguisse repetir o feito.
Mas Call afastou esse pensamento para mais tarde.
— Aaron... ele ainda está bem? — perguntou.
— Está descansando. Como você estava.
— Ele está... bravo comigo?
Anastasia piscou os olhos, confusa.
— Mas, Con, por que alguém estaria bravo com você? Você operou um milagre.
Ele lutou para conseguir se sentar. As cobertas estavam firmes sobre seu corpo.
— Preciso falar com Aaron. Preciso ver Tamara.
Anastasia suspirou.
— Tudo bem. Espere um pouco. — Ela se levantou, ajeitando o terninho. Seus olhos brilhavam. — Você não sabe o que isso significa. Não sabe quem mais poderia trazer de volta. Você penetrou as barreiras da morte, Con. Existem... existem razões pelas quais as pessoas queriam os Makars mortos lá no velho continente. Mas você mudou tudo isso.
Call sentiu o estômago revirar enquanto Anastasia saía do quarto. Razões pelas quais as pessoas queriam os Makars mortos? Além do óbvio? Ele não conseguia imaginar. Precisava ver Aaron. Ele jamais ressuscitaria alguém, jamais voltaria a tocar em um pedaço da própria alma outra vez. Mas reviver Aaron tinha valido a pena. Tinha que valer.
Anastasia retornou, dessa vez com Tamara, que estava com um vestido feito de rendas brancas. Ela entrou com a cabeça baixa, sem olhar nos olhos de Call.
Anastasia foi até a porta e se retirou, apesar de Call ainda conseguir enxergar sua sombra. Ela estava no corredor, escutando.
Call decidiu que não se importava. Estava tão feliz em ver Tamara outra vez que seu corpo todo gelou e, depois, aqueceu novamente. Queria poder ver sua expressão.
— Tamara — começou ele. — Sinto muito...
Ela o interrompeu.
— Você mentiu para mim.
— Sei que está com raiva. E tem todo o direito de estar. Mas, por favor, me escute.
Ela levantou o rosto. Estava com os olhos vermelhos de choro, mas ardiam com emoção.
— Sim, você não deveria ter mentido, mas a questão não é essa, Call. E eu não estou com raiva... estou assustada.
Mais uma vez, ele sentiu um frio percorrer todo o corpo.
— Você não deveria ter feito aquilo. Não deveria ter conseguido fazer. Só existe uma pessoa capaz de manipular almas, e que até chegou perto de ressuscitar os mortos. Apostei tudo em você não ser o Inimigo da Morte. Tirei você da prisão por acreditar nisso. Mas me enganei. — Tamara balançou a cabeça. — Você é Constantine.
Call se encolheu, como se ela o tivesse acertado. Pensou nos dias em que esteve preso, acreditando que ela pudesse lhe dizer essas palavras. E agora ali estavam elas.
— Eu só queria Aaron de volta. — Call tentou explicar. — Achei que pudesse consertar as coisas.
Tamara enxugou os olhos.
— Eu também queria. Quero acreditar que ele voltou, exatamente como era antes, mas não sei...
Call começou a se levantar da cama. Suas pernas estavam fracas, mas ele se forçou a levantar, agarrando-se a um dos pés do móvel.
— Tamara, ouça. Ele não é Dominado. Usei um pedaço da minha própria alma para despertá-lo. É Aaron. Ele consegue falar. Tem lembranças. Ele se lembra de ter sido assassinado por Alex.
— Depois que você desmaiou, ele começou a gritar — comentou Tamara, secamente. — Simplesmente gritar e gritar.
— Ele está assustado. Qualquer um estaria. Ele está assustado e...
— Não parecia medo.
O rosto de Tamara lembrava uma estátua. Call não queria que ela tivesse razão, mas sentia um frio no estômago. Ela não era muito de errar.
— Ele é nosso melhor amigo — disse Call, a voz arranhando a garganta. — Eu não podia simplesmente deixá-lo.
— Às vezes nós precisamos deixar as pessoas. Às vezes acontecem coisas que não podem ser consertadas.
— Você achou que precisasse deixar Ravan. Sua família disse... todo o mundo dos magos disse que ela estava praticamente morta depois que usou magia do fogo em excesso e foi devorada pelo elemento. Mas ela foi parte do seu plano de fuga. Você confiou nela o bastante para isso. Então, deve achar que ela é sua irmã, pelo menos em parte do tempo. Você sabe que magos podem errar.
— É diferente, Call. Ela não está morta; ela foi Devorada.
— É mesmo diferente? — ele respirou fundo. — Sei que se preocupa com as implicações de meus atos, mas as pessoas odeiam Constantine porque ele foi um psicopata do mal, líder de um exército gigantesco de mortos-vivos, que tentou destruir o mundo dos magos; não porque ele queria ressuscitar os mortos. Todo mundo quer isso. Por isso Constantine teve tantos seguidores. Porque todo mundo perdeu alguém. Porque, quando perdemos alguém, parece tão sem sentido, tolo e aleatório que não existe resposta. Talvez Constantine fosse uma pessoa terrível, e talvez eu também seja. Mas posso ser a pessoa terrível que salvou Aaron.
— Espero que sim — disse Tamara. — Quero acreditar nisso. Senti tanta saudade de Aaron que tudo o que quero é acreditar que sua morte tenha sido um erro horroroso. Mas, se ele não for ele, Call, se não tiver realmente voltado, então você precisa me prometer que vai deixá-lo partir de uma vez por todas.
Call a encarou. Ela parecia triste em vez de esperançosa.
— Prometo. Eu jamais deixaria Aaron ser um Dominado. Jamais faria nada para machucá-lo.
Tamara pegou uma das mãos de Call e a apertou com força. Ele ficou tão agradecido e aliviado que queria abraçá-la, segurá-la, como tinha feito antes.
Mas se conteve.
— Se você deixar de confiar em mim, Call, então as únicas pessoas que estará ouvindo serão Mestre Joseph e Alex. E eles não são do bem. Eles não querem o melhor para você. Nem para Aaron.
— Eu sei.
— Então, precisa confiar em mim. Se eu disser que Aaron não é ele mesmo, você precisa acreditar em mim.
— Eu vou. Confio em você. Se você disser que não é Aaron, vou acreditar em você.
— É bom mesmo — disse Tamara, indo para a porta. — Porque, se não acreditar, eu também vou parar de confiar em você.
Call voltou para a cama, se inclinando para fazer carinho na cabeça de Devastação. O lobo ganiu uma vez, como se tivesse entendido o que Tamara dissera.
Depois que ela saiu, Call sentia-se cansado demais para levantar, mas chateado demais para descansar. Queria ver Aaron, se convencer de que ele estava bem e de que Tamara se enganou, mas morria de medo de que ela pudesse ter razão. E se Aaron não tivesse realmente voltado? E se o uso da alma de Call só tivesse atrasado todo o processo dos olhos com redemoinhos? Pensamentos sombrios preencheram sua mente até que Call ouviu mais uma batida na porta.
— Pode entrar — disse, certo de que seria Anastasia, com mais declarações arrepiantes sobre quão incrível ele era.
Para sua surpresa, era Alex.
Ele vestia ainda mais preto que antes, se é que era possível, e seu cabelo estava arrepiado com gel. Havia grandes fivelas de metal em suas botas, e sua pulseira da escola brilhava no punho. Em algum lugar, ele tinha encontrado alguém que colocou uma pedra preta ali, mostrando que era um Makar.
— Call, amiguinho. Hora do jantar.
Call ficou imaginando se seria desconfortável ficar na mesma casa com a pessoa que você assassinou recém-retornada do reino dos mortos, talvez planejando vingança. Torcia para que sim.
— Vamos — chamou Alex, quando Call não respondeu. — Não fique simplesmente sentado aí. Seu zumbi já está na mesa.
— Não fale assim! — ele se irritou.
Alex apenas sorriu.
Levantando-se, Call passou por Alex e desceu mancando para a sala de jantar. Seu corpo todo doía, e ele não conseguia impedir que as palavras de Tamara ecoassem em seus ouvidos, mas não podia se esconder. Não podia deixar Aaron sozinho para encarar a todos.
Tentou dizer a si mesmo que o amigo estava bem — realmente bem — e que Tamara cederia ao perceber isso, mas parte dele não tinha tanta certeza quanto gostaria.
Mestre Joseph sorriu para Callum. Ele estava à cabeceira da mesa, que parecia farta como um jantar de Ação de Graças — tinha peru recheado, vasilhas de cenouras caramelizadas e batata-doce, ervilhas e purê de batata com molho de cranberry.
Anastasia estava sentada ao lado de Mestre Joseph, luminosa. Em frente a ela, Jasper, que parecia muito tenso, e Aaron, que se encolheu quando Alex entrou. Call passou por Alex e foi para perto de Aaron, que trazia as mãos cerradas no colo. Ele olhou de um jeito estranho para Call... como se estivesse um pouco feliz em vê-lo, e um pouco não.
Sorrindo, Alex se sentou em uma cadeira ao lado de Anastasia. Distraída, ela o afagou no cabelo, apesar de estar com os olhos em Call. Olhos famintos, pensou ele, devorando-o.
— Onde está Tamara? — perguntou Aaron, enquanto Call se ajeitava na cadeira.
Call começou a se servir e depois a servir o prato do amigo. Aaron pegou seu garfo e sua faca, e Call se animou. Quando todos vissem Aaron comer, pensou, teriam que aceitar que ele era normal. Dominados não se alimentam.
— Lá em cima — respondeu Jasper, rapidamente. — Descansando. Está com dor de cabeça.
Aaron repousou o garfo.
Call se sentiu um pouco enjoado.
— Tudo bem — sussurrou, torcendo para que Aaron acreditasse nele. — Coma alguma coisa. Você vai se sentir melhor.
Aaron exalou. Tamara disse que ele andara gritando, e Call se deu conta de que tinha se preparado para isso agora, mas o garoto parecia calmo o suficiente, mesmo que chateado por conta de Tamara. Aaron pegou novamente o garfo e comeu um pouco do recheio do peru.
Seus ombros pareciam rígidos, como se ele estivesse irritado. Call ficou imaginando se Aaron o detestava. Ele tinha todo o direito, mas talvez só se sentisse chateado por causa de Tamara. Aaron estava acostumado a ser visto pelos outros como um herói; ficaria arrasado se soubesse que Tamara achava que havia algo de errado com ele.
Tamara estava enganada.
Tinha que estar.
— Não é tão fácil ter o mundo todo virado do avesso — argumentou Mestre Joseph. — Assim como ela está lutando para aceitar o que é possível, a Assembleia também o fará. E o Magisterium. Mas nosso tempo, o tempo de estruturar o poder do vazio, começa agora. Com você. — Ele gesticulou para Call. — E você. — Ele virou para Aaron.
— E quanto ao resto de nós? — perguntou Alex.
— Call conseguiu trazer Aaron de volta. Isso é só o começo. Aaron é apenas o primeiro de nossos mortos a retornar. Quando a Assembleia perceber do que ele é capaz, terá que se aliar a nós; em nossos termos. Este é o maior avanço desde que o chumbo foi transformado em ouro. Maior que isso, talvez.
— Você vai conseguir replicar esse feito, tenho certeza — assegurou Anastasia a Alex, respondendo sua pergunta.
Obviamente, Mestre Joseph tinha se envolvido tanto com os próprios pensamentos sobre o futuro que se esquecera de todo o resto.
— É inacreditável que você tenha conseguido fazer o que Constantine não conseguiu — disse Jasper a Call, depois olhou para Aaron, dirigindo-se a ele: — Como você está, cara?
Aaron olhou para Jasper com a expressão assombrada.
Por um instante ninguém falou. Call prendeu a respiração.
— Você está bem? — perguntou Jasper.
— Estou cansado. E estranho. Tudo é tão estranho.
— Se serve de consolo, eu também me sinto muito assim — comentou Jasper, se inclinando para afagar o ombro do amigo.
Call encarou a cena. Parecia um gesto tão casual... e tão inadequado.
— Eu realmente voltei? — perguntou Aaron.
Mestre Joseph sorriu para ele.
— Se consegue fazer essa pergunta, então deve ter voltado.
Aaron assentiu e voltou a comer de maneira metódica, que não era mesmo a forma como ele normalmente comia. Aaron ou era muito bem-comportado e educado, ou devorava a comida, como se tivesse medo que alguém a arrancasse dele. Call o observou, preocupado.
Mas, se Aaron tivesse acabado de sair do hospital, ele também poderia agir de modo estranho. Call tentou encarar esses sintomas como os de um pós-operatório. Alguns anos antes, Alastair teve que remover o apêndice, e, quando voltou para casa, sentia-se cansado demais para fazer qualquer coisa além de assistir TV, tomar sopa enlatada e acompanhar uma maratona inteira de fim de semana de um programa sobre antiguidades.
— Então, como foi? — perguntou Alex, rompendo o silêncio.
Aaron levantou os olhos da comida.
— O quê?
— Como foi estar morto?
— Cale a boca — disse Call, mas Alex apenas sorriu para ele.
— Não me lembro. — Aaron encarou o próprio prato. — Eu me lembro de ter morrido. Eu me lembro de você. — Ele olhou para Alex, e seus olhos verdes eram duros e frios como malaquitas. — E, depois, não me lembro de mais nada até Call me acordar.
— Ele está mentindo — acusou Alex, alcançando seu copo de refrigerante.
— Deixa ele em paz — exigiu Call, ferozmente.
— Call tem razão — disse Anastasia. — Se Aaron não se lembra...
— Mas seria muito útil ter entre nós alguém que sabe como é o pós-vida — disse Mestre Joseph. — Imaginem que informação poderosa.
Call empurrou a cadeira para trás.
— Não estou me sentindo bem. Acho melhor eu me deitar.
Anastasia se levantou.
— Tenho certeza de que ainda deve estar exausto. Eu o acompanho de volta ao quarto.
— Mas e Aaron? — perguntou Call. — Onde ele vai dormir? — O garoto tentou manter a voz calma, embora imaginasse Mestre Joseph dizendo que Aaron voltaria a dormir na sala de experiências, ou que ficaria aprisionado em algum lugar.
Não era assim que deveria ser. A volta de Aaron deveria resolver tudo porque sua morte era o que tinha feito tudo desandar. Por conta dela, Call fora exposto como o portador da alma do Inimigo da Morte, havia sido preso, passou a ser detestado pela maioria das pessoas com as quais se importava. Parte dele esperava que o mundo se equilibrasse assim que Aaron abrisse os olhos.
Ingenuidade sua, ele percebia agora.
— Há um quarto conectado ao seu — explicou Anastasia. — Jericho costumava ficar lá às vezes. Aaron pode usá-lo, certo?
Ela olhou para Mestre Joseph enquanto falava, e o olhar que ele lhe dava em resposta era impossível de ser lido. Havia um brilho profundo em seus olhos do qual Call não gostava. Agora que ele já tinha feito — agora que tinha, de fato, ressuscitado Aaron —, será que ainda seria útil a Mestre Joseph, ou ele decidiria que os poderes de Call seriam muito mais úteis se não estivessem presos ao menino?
— Claro — concedeu Mestre Joseph. — Pode precisar de uma limpeza.


O quarto precisava mesmo de limpeza, e muita. Anastasia utilizou sua magia do ar para tirar o grosso da roupa de cama e das cortinas, fazendo com que todos tossissem. Jasper pediu licença para “ver como estava Tamara”, apesar de Call desconfiar de que ele só estava tentando evitar engasgar com as nuvens de poeira.
Quando Anastasia finalmente conseguiu ser persuadida a se retirar, ficou claro que nem Jasper e nem Tamara estavam inclinados a voltar. Provavelmente estavam no quarto de um deles, conversando sobre o retorno de Aaron e sobre o que isso significava. Conversando sobre Call. Ele tentou dizer a si mesmo que estava tudo bem, e que não deveria ficar enciumado, mas não conseguiu.
Aaron deitou-se na cama, por cima das cobertas, e olhou para o teto, abraçando o próprio corpo, como se estivesse com frio.
— Quer conversar? — perguntou Call, sentindo-se desconfortável.
— Não — respondeu Aaron.
— Olhe, se está com raiva de mim...
Ouviu-se uma leve batida na porta. Ela se abriu lentamente. Tamara entrou no quarto. Usava um vestido cor de lavanda com o qual não perdera tempo arrancando a renda. Estava bonita, como se estivesse indo a uma festa no jardim.
Call piscou os olhos, surpreso ao vê-la.
— Aaron — disse ela. — Que bom que você voltou.
Aaron se sentou lentamente e olhou para Tamara. Seus olhos não giravam. Ele não era Dominado. Mas Call percebeu Tamara se encolher mesmo assim ao encontrar seus olhos, como se ele parecesse estranho. Mas é Aaron, berrava a mente de Call. Aaron estava traumatizado, é claro; não tinha como ser fácil retornar dos mortos. Call desejou que Tamara fosse compreensiva. Dava para notar que ela estava tentando. Ela se sentou em uma cadeira perto da cômoda e cerrou as mãos sobre o colo.
— Desculpe por eu ter ficado estranha antes. — Eu não sabia o que pensar.
— Eu me lembro de você chorando — revelou Aaron. — Quando eu morri.
— Ah — disse Tamara, engolindo em seco.
— E você empurrou Call para fora da rota do Alkahest. E eu acabei sendo atingido.
— Aaron.
Tamara engasgou. O coração de Call se contorcia dentro do peito.
Lembrou-se de Jasper dizendo a ele Eu só acho que Tamara... bem, Call, só acho que ela gostava de outra pessoa, se é que você me entende, e em como ele se sentiu quando Tamara disse que não tinha o menor arrependimento por tê-lo salvado.
— Ela não tinha como salvar os dois e tomou uma decisão em uma fração de segundo — argumentou Call, com a voz áspera. — Então deixe isso para lá, Aaron.
O garoto fez que sim com a cabeça. Call sentiu certo alívio, porque isso parecia mais com Aaron.
— Não estou bravo — explicou ele. — Nem com Tamara nem com você, Call. Eu só sinto como... como se tivesse que me concentrar muito para ficar bem. Tipo, tudo o que eu quero é deitar, fechar os olhos e deixar tudo escuro e quieto.
— Isso faz todo sentido — disse Call, as palavras tropeçando umas nas outras com a ansiedade. — Você só precisa se acostumar a estar vivo novamente.
Aaron assentiu.
— Acho que as pessoas conseguem se acostumar com qualquer coisa.
— É incrível — sussurrou Tamara. — Sentar aqui e ouvir você falar, falar mesmo.
— Eu vou ser um exemplo — disse Aaron. — Mestre Joseph vai me usar, e usar Call para mostrar a eles que pode vencer a morte.
— Provavelmente — endossou Call.
— Temos que ir embora — avisou Aaron. — Eles querem usar a gente, mas não hesitarão em nos machucar se necessário.
— Vamos fugir — disse Tamara. — Todos nós. Temos que chegar ao Magisterium.
Aaron pareceu surpreso.
— Por que iríamos para lá?
— Para alertá-los — explicou Tamara. — Eles precisam saber dos planos de Mestre Joseph. Precisam conhecer suas fraquezas.
— Não estaremos seguros lá — argumentou Aaron. — Estaremos sob outro tipo de ameaça.
— Mas, se não os alertarmos, eles estarão sob ameaça — rebateu Call.
— E daí? — indagou Aaron.
Tamara estava revirando as mãos no colo.
— Estamos falando de nossos amigos, Aaron. Do Magisterium... De pessoas que você conhece. Mestre Rufus, Celia, Rafe, Kai, Gwenda...
— Eu não os conheço tão bem assim — comentou ele. Suas palavras não soaram irritadas, apenas distantes. Aaron parecia cansado e longe de um jeito que jamais soara antes.
Tamara empurrou a cadeira para trás.
— Tenho que ir... ir dormir — anunciou, e foi para a porta.
Antes de sair, desviou para pegar um livro da cômoda. O diário de Jericho. Call ficou imaginando para que ela o queria. Ele ia perguntar, mas, então, Aaron falou novamente:
— Todo mundo tem que morrer eventualmente. Não sei como ajudaria se morrêssemos pelo Magisterium.
Call ouviu Tamara engolir um soluço enquanto ela procurava pela maçaneta e se retirava.
Quando Aaron virou novamente para ele, Call se sentiu mais exausto que nunca. Pela primeira vez na vida, ele não queria conversar com Aaron.
Queria ficar sozinho.
— Vá dormir, Aaron — aconselhou ele, levantando-se. — Até amanhã.
Aaron fez que sim e se deitou, fechando os olhos, caindo no sono quase imediatamente, como se não tivesse acontecido nada que pudesse atrapalhar seus sonhos.


Após uma hora ouvindo o ronco de Devastação e o silêncio sombrio de Aaron — ele não se mexeu, não se virou e mal parecia respirar —, Call percebeu que não conseguiria dormir. Ficou pensando em seu pai, em Mestre Rufus e no que os dois achariam a respeito de seu feito. Queria poder conversar com eles, pedir conselhos.
Finalmente ele se levantou, decidindo enfrentar aquela casa sinistra e os Dominados para buscar um copo d’água. Desceu as escadas e foi para a cozinha.
— Call — chamou uma voz.
Tamara saiu das sombras, e, por um instante, não pareceu possível que ela fosse real. Mas, então, Call viu quão cansada ela aparentava estar, e concluiu que não teria imaginado isso.
— Não consegui dormir — justificou ela. — Fiquei sentada no escuro, tentando descobrir o que fazer. — Tamara vestia as roupas que usava quando chegaram à ilha. Call olhou para o próprio pijama e, depois, para ela, confuso.
— Como assim?
— Você disse que, se ele não estivesse normal, você o deixaria ir — disse Tamara. — Você prometeu.
— É cedo demais. — Era verdade que Aaron estava agindo de um modo estranho, como se parte dele continuasse presa à morte. — Ele vai melhorar. Você vai ver. Sei que estava um pouco estranho hoje à noite, mas ele acabou de voltar. E às vezes ele parece ele mesmo.
Tamara balançou a cabeça.
— Não, Call. O Aaron que era nosso melhor amigo não se parecia em nada com aquilo.
Call balançou a cabeça.
— Tamara, ele foi assassinado. Não tem como voltar alegre e otimista disso!
Ela ficou vermelha.
— Não estou esperando que ele seja perfeito.
— Sério? Porque parece que está — rebateu Call. — Como se você achasse que ele tem que ser exatamente como antes, caso contrário ele estará... quebrado. Você não disse que ele não poderia estar diferente ou traumatizado. Eu não teria concordado com isso.
Ela hesitou.
— Call, o jeito como Aaron falou sobre as outras pessoas... Ele nunca foi indiferente.
— Dê alguns dias para ele — pediu Call. — Ele vai melhorar.
Tamara esticou o braço e tocou o rosto de Call com a palma da mão. Seus dedos eram macios contra suas bochechas. Call estremeceu.
— Tudo bem — respondeu ela, parecendo incrivelmente triste. — Mais alguns dias. É melhor voltarmos para a cama.
Call assentiu. Ele pegou a água e subiu de volta as escadas.
No Magisterium, Call sabia diferenciar certo de errado; mesmo que nem sempre escolhesse a coisa certa. Na prisão, tudo pareceu lhe escapar. Talvez fosse porque Aaron sempre foi seu centro moral. Ele não queria acreditar que houvesse algo de errado com o amigo, algo que não pudesse ser consertado. Queria que Aaron ficasse bem, não só por ser o melhor amigo de Call, mas porque se Aaron não estivesse bem, então ele também não estaria.
Se Aaron não estivesse bem, então, Call seria exatamente o que todos sempre temiam.
De volta ao quarto de Constantine, o garoto se jogou na cama, desejando conseguir dormir. Dessa vez funcionou.


Call acordou com uma explosão e a sensação de que pouco tempo havia se passado. Saltou da cama e foi até uma janela. Caminhões se acumulavam do lado de fora, o som quase sufocado pelos gritos.
Seu primeiro pensamento foi que a Assembleia viera prendê-los. E, por um breve momento, o medo lutou contra o alívio.
Mestre Joseph entrou em seu campo de visão ao sair na varanda, vestindo a máscara de prata do Inimigo da Morte. Sem aparentar qualquer esforço, ele voou pelo ar. Abaixo dele, reunindo-se em volta dos degraus da varanda, Call conseguiu ver um grupo de figuras: Anastasia com um vestido branco, Alex com um olhar ameaçador.
— Encontrem-nos! Encontrem os dois! — gritou Mestre Joseph.
Foi então que Call se deu conta do que via. Quem tinha provocado as explosões.
Tamara e Jasper haviam decidido. Eles tinham fugido.
Tamara e Jasper fugiram e o deixaram para trás.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!