20 de abril de 2018

Capítulo 9


Arcturo entrou tropeçando na sala de conjuração, batendo a porta atrás dele. Ele se inclinou contra ela com os olhos fechados, respirando fundo. Sacarissa o cutucou e ele afundou o rosto em seus pelos, esperando até que seus batimentos cardíacos voltassem ao normal. Depois de um momento, ele levantou a cabeça para encontrar o olhar preocupado de Elizabete.
— Sabe, quando falei para você se impor, eu não quis dizer com os professores! — ela riu, andando até ele. — Lady Faversham é a prima do rei, sem mencionar que o marido dela é o melhor amigo do rei... bem, segundo melhor, depois de Provost Forsyth. Mas então, não é como se ela fosse particularmente afeiçoada a você para começar, já que ficou o demônio do filho dela.
— Eu tinha que mostrar a todos que tenho coragem. Que melhor exemplo do que lady Faversham? — disse Arcturo, mais para si do que para Elizabete.
— Vamos apenas esperar que ela não faça de você um exemplo — Elizabete sussurrou gentilmente, levantando-o.
A sala de conjuração tinha um teto alto, com um forte assoalho de carvalho coberto por uma gama de pentagramas, variando em tamanho e forma, desde um palmo até duas vezes o comprimento de um cavalo. Haviam estantes alinhadas à parede de ambos os lados, e Arcturo podia ver luvas de couro e aventais em ganchos. A única fonte de luz vinha tochas bruxuleantes em frestas acima dos armários, dando à sala um cheiro enfumaçado.
— Elaine me disse que seus irmãos receberam a maior parte da atenção quando o pai dela ensinou sobre conjuração, e você é completamente novo com tudo isso, então penso que devo dar a vocês um curso intensivo de conjuração — disse Elizabete, mandando um fogo-fátuo no ar e deixando-o flutuar sem rumo pela sala. Elaine estava sentada de pernas cruzadas no chão, passando a mão pela carapaça de Valens.
— Elaine, por favor explique a Arcturo como criar um fogo-fátuo — pediu Elizabete, agachando-se em frente a garota.
Elaine grunhiu e soltou Valens no ar, então ficou de pé.
— Todo demônio tem uma fonte de mana dentro deles. Mana é a fonte de poder para os feitiços, e todo demônio tem uma quantidade diferente, dependendo de sua espécie e quão experientes são. — Ela falou numa voz entediada, como se recitando de um livro didático. Arcturo encarou numa atenção fascinada, tentando memorizar tanto quanto possível. Se o Rei Alfric o considerasse uma ameaça, ele poderia precisar escapar de Vocans e embarcar numa fuga.
— Um fogo-fátuo é apenas uma bola de mana bruto. O conjurador precisa transferir mana do demônio para seu próprio corpo pelo elo mental, então empurrar a energia por seu dedo, assim — Elaine continuou, erguendo um dedo no ar. Por um momento, nada aconteceu, e Arcturo se perguntou se ela sabia o que estava fazendo. Então, num piscar de olhos, houve uma explosão de luz que iluminou o teto acima dela, irradiando do seu dedo.
— O conjurador deve controlar a energia e moldá-la numa bola. Se concentrando, ele será capaz de manejar o tamanho, forma e movimento de seu feitiço, nesse caso, um fogo-fátuo. Se não o fizer, o feitiço sairá numa explosão, desperdiçando um monte de mana, como eu te mostrei.
— Muito bom, Elaine! — disse Elizabete, sorrindo para a garota e levantando a sua mão para um “toca aqui”. Elaine revirou os olhos e voltou sua atenção para Valens, que pousara em seu ombro.
— Bem... é... vamos seguir para feitiços mais avançados — disse Elizabete, abaixando sua mão com desapontamento. — Como Elaine falou, um fogo-fátuo é apenas uma luz de energia bruta, que pode ser controlado com um pouco de treino. Seu único uso real é como fonte de luz, um clarão para cegar seu oponente e, ocasionalmente, como treino de mira. A luz desaparece assim que você a toca.
Elizabete apagou seu fogo-fátuo com um estalar de dedos, o que também serviu para chamar a atenção de Elaine.
— O poder real que nós, conjuradores, exercemos, vem de entalhar. Observem de perto. Eu mando a energia para o meu dedo, ao invés de através dele. — Elizabete levantou sua mão. A ponta de seu dedo brilhou com um azul intenso, o brilho crescendo regularmente até que queimava quase branco e Arcturo teve que proteger seus olhos. — Quando seu dedo estiver energizado o suficiente, você desenha um símbolo, assim. — Elizabete traçou um estranho, um triângulo no ar, deixando brilhantes linhas azuis, como o brilho de cinzas recém-apagadas sendo levadas no ar.
— Esse é o feitiço de escudo. É um dos quatro feitiços de batalha que todo conjurador usa quando está lutando. Os outros são fogo, relâmpago e telecinesia. — Ela demonstrou desenhando cada um em sucessão, o primeiro era um símbolo curvado, como uma chama, o próximo como um raio em ziguezague e o último um redemoinho hipnótico. Arcturo queria ter papel e caneta para desenhá-los, mas se focou em memorizar o feitiço de escudo. Melhor ser capaz de se proteger do que de machucar alguém.
— Vocês devem manter seu dedo bem no centro do símbolo até que este se fixe — continuou Elizabete, colocando seu dedo no meio do símbolo de escudo. Ele pulsou uma vez, e conforme ela girava seu dedo no ar, o símbolo seguiu o padrão. Era como se estivesse fixado lá por uma moldura invisível.
Desta vez, Elaine observou de perto, seus olhos arregalados conforme ela absorvia tudo. Arcturo sorriu, feliz de que tudo isso fosse novo para a menina. Parecia que ele não estava tão atrasado, afinal.
— Vocês devem manter um fluxo constante de energia para o seu dedo, caso contrário, o feitiço desaparecerá — ela disse, acenando para os outros símbolos enquanto eles se esvaíam no ar. — A parte mais difícil é estimular o mana para e pelo seu dedo ao mesmo tempo. Assim.
Elizabete franziu o cenho com esforço, então um fio opaco saiu do símbolo, agrupando-se no ar como ovos de rã debaixo d’água. Sacarissa rosnou para o material estranho, mas Arcturo a aquietou passando a mão em suas orelhas.
— Então você molda conforme desejar, nesse caso, como um escudo. — A forma mudou, então se dobrou em uma forma oval que flutuou a sua frente. — Isso o protegerá de projéteis e outros feitiços, até de um golpe de espada.
O escudo se dissolveu em um globo flutuante de novo, então ela o sugou de volta através do símbolo.
— Vocês podem conservar a energia ao absorver o feitiço quando acabar.
— Por que não o faz maior? — perguntou Elaine, passando a mão pelo espaço em que o escudo estivera.
— Quanto mais grosso o seu escudo, mais mana tomará, antes de rachar e eventualmente estilhaçar. — Respondeu Elizabete. — Se o fizer muito largo, perde durabilidade. Muito grosso, e você desperdiça energia.
— Talvez eu possa praticar com a Saca — murmurou Arcturo, esfregando a cabeça do demônio afetuosamente. Sacarissa era a sua arma mais poderosa. Ele se asseguraria de não ser o único a se beneficiar do treinamento na academia. Ele olhou para cima para encontrar Elizabete balançando a cabeça.
— Infelizmente, escudos são inúteis contra ataque demoníaco, assim como atacar demônios com feitiços causa bem pouco dano. Se você for atacado por um demônio órquico, ou qualquer outro, por sinal, se sairá melhor usando aquele punhal que te dei do que com um feitiço.
Elaine arquejou horrorizada, colocando as mãos sobre a boca.
— Não que isso deva acontecer tão cedo — Elizabete disse depressa, quando até mesmo o rosto de Arcturo empalideceu. — Serão anos antes de vocês se formarem como magos de batalha e enfrentarem os xamãs orcs na fronteira. Sem mencionar que a maioria dos demônios deles é de baixo nível. Você e Saca não deveriam ter muitos problemas cuidando de um, mesmo agora. Você também Elaine, apesar de seu Caruncho ser bem jovem. Posso ver que ele ainda não desenvolveu seu ferrão. Quando o fizer, você será capaz de paralisar um oponente... apesar de que um orc precisar de algumas ferroadas para ser derrubado.
— Isso significa que um demônio de baixo nível é fraco? — perguntou Arcturo, lembrando que, como um Canídeo, Sacarissa era um demônio nível sete. Um Caruncho era apenas nível um.
— Sim e não. O nível de um demônio simplesmente se refere a qual nível o conjurador precisa ter para conjurá-lo: um mago nível dez pode conjurar um demônio dez, ou dois demônios de nível cinco. Como regra geral, quanto mais alto o nível de um demônio, mais poderoso ele é, tanto em mana, quanto em tamanho e força. Dito isso, conforme um demônio se torna mais experiente, eles podem melhorar em todos esses aspectos. Um Canídeo bem treinado pode ser capaz de competir com um Grifo inexperiente, que é nível dez. — Elizabete erguia seus dedos conforme dizia cada número, como se Arcturo fosse incapaz de contar. Ele a perdoou por assumir isso – havia muitos plebeus da sua idade incapazes de ler ou escrever, e mais velhos, até. — E então há o fato de que alguns demônios são simplesmente mais poderosos do que seus níveis podem indicar, mesmo que seja muito preciso. Um Felídeo de nível sete vencerá um Canídeo de nível sete quase sempre, apesar de ambos serem do mesmo nível. Ele é mesmo capaz de derrotar demônios de níveis mais altos. Há também anomalias, como Golens, que são nível oito. Quando jovens, são pequenos. Mas depois de alguns anos, podem crescer até a altura de três metros e ficar tão largos quanto, mas eles sempre serão nível oito. Então vê que é uma regra imprecisa?
— Entendo — disse Arcturo, tentando internalizar tudo. — Eu posso contar, por sinal. Você não precisa usar os dedos.
— Desculpe. — Elizabete sorriu, abaixando as mãos. — Meu marido não era muito bom com números quando o conheci. Agora, acho que é hora de você tentar produzir um fogo-fátuo. Aprender a moldar e controlá-lo é o primeiro passo para aprender feitiços. O deixará bem preparado para quando começar a usar feitiços.
— O que, agora? — perguntou Arcturo, as palmas da mão de repente úmidas. — Eu ainda nem...
— Exatamente, você nem tentou ainda. Aprender fazendo, assim são os conjuradores. No fim, tudo depende de prática; só se pode aprender até certo ponto com livros e lições. Vamos ver se você tem jeito para isso. Vou fazer assim, a Elaine pode tentar também — ela procurou pela menina e a encontrou do outro lado da sala, brincando seu jogo bobo de pega-pega com Valens de novo. — Elaine, pare de brincar com seu demônio e preste atenção!
— Isso não me faz sentir melhor. Agora vou receber demonstração de uma menina de treze anos — resmungou Arcturo.
— E? — perguntou Elizabete. — Você é mais novo nisso do que ela, é claro que provavelmente ela vai se sair melhor. O que idade ou gênero tem a ver com isso?
— Hmmm, nada? — disse Arcturo, envergonhado.
— Muito bem. — Elizabete levantou suas sobrancelhas para ele. — Agora, a maioria dos iniciantes acha mais fácil quando estão sentados na primeira vez. Por que você não senta com a Saca ao seu lado?. Sua conexão com ela não vai mudar não importa a distância, mas não vai fazer mal.
Arcturo se sentou de pernas cruzadas, e deitou a cabeça pesada de Sacarissa no seu colo. O peso era reconfortante, e ele enrolou os dedos em seu pelo preto e macio. Seus olhos azuis e gentis o olharam com confiança, antes de ela fechá-los e deixar escapar um ronco contente. Ele seguiu a deixa, esperando pelas próximas instruções.
Elaine sentou no chão ao lado dele, e ele sentiu a garota acariciar o rabo de Sacarissa furtivamente.  O demônio bufou e Arcturo ouviu seu rabo bater e um gritinho da garota.
— Está bom para você? — perguntou Elizabete, impaciente.
Ela se ajoelhou no chão atrás de Arcturo e colocou as mãos em seus ombros.
— Sinta a conexão, onde você sente as emoções e intenções de Sacarissa — murmurou Elizabete, a voz suave em sua orelha.
Arcturo procurou pelo cordão umbilical mental que o ligava a Sacarissa. Quando o tocou, sentiu Sacarissa se arrepiar, e então relaxar quando se entrelaçou gentilmente com sua mente. Instantaneamente, seu corpo começou a infundir com uma sensação ao mesmo tempo quente e fria, passando por seu sangue a cada batida de seu coração. Sua respiração se acelerou.
— É o suficiente, agora solte. É só um feitiço pequeno e você não quer drená-la. Agora, pegue a energia e empurre por seu dedo. Conforme sair, abra seus olhos e tente formar em uma bola. — A voz de Elizabete era baixa e confiante, subjugando as dúvidas de Arcturo. — Você consegue.
Ele empurrou mana por seu dedo, a energia correndo por ele como uma corredeira. veloz Ele abriu seus olhos e forçou sua mente, dispondo a energia no formato de uma esfera tremida. Luz se enrolou, lentamente, emergindo de seu dedo e girando em um globo que flutuou no ar em frente a ele.
— Excelente — Elizabete exalou, ainda atrás dele. — Agora, porque não tenta fazê-lo flutuar até o teto?
A mente de Arcturo parecia prestes a se partir, sua testa tão franzida que ele podia sentir os músculos começando a travar. Ele a cutucou para cima, e seu coração disparou quando o orbe respondeu ao seu toque. Ela girou e ascendeu, até que tocou o teto e desapareceu.
— Muito bem. Isso foi melhor do que a maioria das primeiras vezes dos outros estudantes — disse Elizabete.
Arcturo sorriu quando outra bola, mas muito menor, flutuou na sua frente.
— Eu consegui! — gritou Elaine, socando o ar ao lado deles.
Arcturo assistiu Valens voar ao redor da bola, fazendo mergulhos em direção a ela.
— Sabe, provavelmente é o suficiente para a primeira lição de vocês — disse Elizabete, levantando e se esticando com um gemido. — Eu ainda tenho que me mudar para os meus aposentos.
Arcturo se levantou, ganhando um rosnado de Sacarissa quando a cabeça dela foi para o chão.
— Isso é ótimo. Eu nem tive tempo de tomar banho ainda! — ele falou, tentando lembrar o caminho para os banheiros.
— Eu não ia dizer nada. — Riu Elizabete, tapando o nariz de brincadeira. — Vão se banhar e relaxem em seus quartos, eu me certificarei de que alguém leve almoço e jantar a vocês. Os outros estão em treinamento com lady Faversham o dia todo, de qualquer maneira.
— Quando é a nossa próxima aula? — perguntou Arcturo enquanto corria para a porta, de repente ciente do quão próximas Elizabete e Elaine estavam dele.
— Verei vocês amanhã de manhã. Auxiliarei na aula de conjuração com lorde Cipião.

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