20 de abril de 2018

Capítulo 8

Arcturo estava esperando que o levassem por uma das escadas em espiral quando saíram do refeitório, mas em vez disso eles deram apenas alguns passos pelo átrio, onde os outros pararam e começaram a conversar entre si. Estava muito escuro ali, porque um dos serventes levara as tochas. As únicas fontes de luz eram o refeitório atrás deles e uma larga coluna de luz vinda da cúpula de vidro no teto do átrio.
Enquanto ele vagava pela escuridão do lugar, os outros estudantes apontaram seus dedos no ar, liberando bolas de uma estranha luz azul que flutuavam ao redor da sala, derivando para lá e para cá como se tivessem vida própria. Elas lançaram um brilho cobalto opaco na escuridão do átrio, deslocando as sombras e iluminando a caverna sombria sobre suas cabeças.
Era a primeira vez que Arcturo via um feitiço, e ele encarou de olhos arregalados enquanto as estranhas luzes azuis planavam pela escuridão como vagalumes. Ele fitou seus próprios dedos, perguntando-se se seria capaz de criar tais maravilhas. Sacarissa choramingou, frustrada por sua falta de atenção. Ele tirou seus olhos do espetáculo e deu um uso melhor para suas mãos.
— O que acontece agora? Não deveríamos estar indo para a aula? — perguntou Arcturo, esfregando a cabeça de Sacarissa.
— Aqui é onde acontecem as lições de magia — respondeu Elaine, agachando em frente à Sacarissa e examinando-a com interesse descarado. — Eu amo os olhos dela, são tão azuis! Posso fazer carinho nela? — ela perguntou, esticando uma mão.
— Elaine! — Fergus exclamou, empurrando-a para longe. — Você sabe que não pode tocar o demônio de outra pessoa, especialmente de um menino!
— Por que não? — perguntou Arcturo, de olhos arregalados.
— Seria... inapropriado — disse Fergus, seu rosto enrubescendo.
Enquanto ele falava, Arcturo podia sentir as ondas de prazer de Sacarissa conforme coçava entre suas orelhas. Fergus estava certo. Seria... estranho... se Elaine fizesse o mesmo.
— Desculpe... — disse Elaine, chutando o chão com a ponta de sua bota.
— Vamos lá, só estou cuidando de você. Você é muito jovem e mesmo se não fosse, bem... é o demônio de um plebeu. — Fergus franziu o cenho. — Sem ofensa — ele acrescentou rapidamente.
Agora foi a vez de Arcturo de corar.
— Não ofendeu — respondeu ele, apesar de suas entranhas ferverem com raiva. Ele não tinha interesse na menina, afinal ela só tinha treze anos, e romance era a última coisa em sua mente. Ainda assim, doeu. Sua ilegibilidade como pretendente não precisava ser apontada tão diretamente.
— Por que não brinca com Valens? Você só o pegou ontem — interrompeu Edmund, indo até eles e dando um sorriso solidário a Arcturo.
— Pensei que não fosse permitido deixar os demônios para fora, a não ser em aula — disse Elaine, fazendo beicinho.
— Bom, o professor está atrasado, mas a lição começou. Tenho certeza de que não se incomodará, seja lá quem for — respondeu Edmund.
Ela olhou para Fergus em busca de permissão, que revirou os olhos antes de dar a ela um aceno exasperado.
— Brilhante! — ela sorriu, antes de alcançar seu bolso e puxar um Caruncho com metade do tamanho do Rubeus de Obadiah, marrom como uma folha de outono, mas claramente da mesma espécie.
— Ei, você precisa deixá-lo infundido, não apenas fora de vista! — protestou Fergus.
— Qual o sentido de ter o menor demônio daqui se não posso escondê-lo no bolso? Vamos lá Valens, vamos praticar caçada! — Elaine riu, deixando o demônio voar de sua palma para pairar em frente ao seu rosto.
Arcturo não pôde deixar de sorrir enquanto a garota imprudente saltava pela sala, pulando e se desviando conforme ela e seu Caruncho, Valens, jogavam um estranho jogo de pega-pega.
Quando ela se aproximou das portas da frente, elas se escancararam e bateram nas paredes de pedra, mandando Elaine correndo de volta para os outros.
Por um momento, o coração de Arcturo saltou quando ele viu o contorno de um Periton contra a luz forte do lado de fora, mas sua alegria foi breve conforme ele reconhecia a beleza gelada que o montava.
— Ah, não — murmurou Arcturo, se escondendo atrás de Fergus e Edmund.
Lady Faversham trotou para dentro da sala, suas costas retas como uma vara enquanto ela inspecionava os estudantes. Ela desmontou, depois deu um tapa na anca do Periton, mandando-o para fora das portas da frente em um trovejar de asas batendo.
— Tantos rostos familiares. Me traz muita alegria ver todos vocês de novo — disse Lady Faversham, embora seus olhos frios mostrassem apenas desdém conforme passavam por Arcturo e os Lovett.
— Tia Ofélia — disse Príncipe Harold, andando até ela e apertando sua mão. — Eu não fazia ideia de que você seria nossa recolocação! Seja bem-vinda a Vocans.
Arcturo sentiu um medo crescente conforme percebia que o príncipe tinha chamado Lady Faversham de tia, o que significava que ela era uma parenta próxima do rei. Ele sabia que era apenas a curiosidade do rei que o mantinha seguro. Se ela fosse capaz de convencê-lo do contrário, Arcturo estaria morto.
— Eu não sou sua única professora, Harold. Trouxe uma professora assistente, capitã Elizabete Cavendish. A tola conseguiu ficar grávida de um plebeu, então pode muito bem se fazer útil. Ela pode ensinar a jovem — ela acenou para Elaine — e o plebeu. O resto de vocês já está bem avançado, então vamos focar nos quatro feitiços de batalha – escudo, relâmpago, fogo e telecinesia – nas minhas aulas. Por favor, façam uma fila ali.
— Puxa, ela não está para brincadeira — Arcturo ouviu Edmund sussurrar enquanto eles se apressavam para atender seu pedido. — Ela nem desfez as malas e já está começando.
Um segundo Periton passou pelas portas da frente, rodando pelo átrio antes de pousar com um estrondo de patas ao lado de Lady Faversham. Elizabete sorriu para Arcturo antes de desmontar e mandar Hubertus para fora com um estalo de sua língua.
— Elizabete, leve a pequena e o garoto plebeu para a sala de conjuração e ensine-os o básico. Eu permanecerei com os outros estudantes.
— Eu não sou a pequena — Elaine fez biquinho, franzindo o cenho para Lady Faversham. — Eu tenho treze anos. Eu e Arcturo deveríamos ficar!
As narinas da mulher nobre se alargaram, mas antes que ela pudesse responder, Elizabete rapidamente pegou Elaine pelo braço e a guiou pelo conjunto de portas pesadas a alguns passos de distância. Claramente, Lady Faversham não gostava de ser contrariada.
— Você também — ela exclamou, estalando seus dedos para Arcturo. — E infunda seu demônio quando estiver lá. Você não sabe que não é permitido que seu demônio fique livre a não ser em seu quarto e nas aulas? Se eu pegá-lo novamente, mandarei-o para a sala de punição para pensar sobre os seus atos.
— Eu ainda não sei como infundir meu demônio — respondeu Arcturo sem demonstrar nenhuma emoção — e o quarto que me foi dado é a sala de punição.
Os olhos de lady Faversham se estreitaram e ela deu um passo adiante. Arcturo encontrou o seu olhar o mais calmo possível, apesar de seu coração trovejar em seu peito. Sacarissa se apertou contra a sua coxa, mas ele a acalmou com um pensamento antes que ela pudesse soltar um rosnado.
— Eu não gosto do seu tom, menino — ela grunhiu, apontando seu dedo para ele. — Você vai me chamar de senhora quando falar comigo. Entendeu?
— Sim, senhora. Eu deveria ir agora, senhora? Eu não gostaria de deixar a capitã Cavendish esperando, senhora. — Ele não sabia porque a estava antagonizando. Só poderia prejudicá-lo, porque ela tinha todo o poder e ele não tinha nenhum.
— Saia — ela sibilou, apontando para a porta — e leve essa vira-lata malcheirosa com você.
Arcturo se apressou para a sala de conjuração, sua coragem de repente o deixando. Ele tinha sido muito tolo por falar com ela daquela maneira. Mas tinha sido bom brigar de volta. Trate as pessoas do mesmo modo como for tratado, foi o que Elizabete tinha dito a ele.
Quando ele e Sacarissa passaram por lady Faversham, ela se lançou para frente e o puxou para perto, para que ele pudesse sentir seu hálito quente na orelha.
— A curiosidade do rei só vai durar um tempo — sussurrou lady Faversham. — E quando acabar, eu terei o couro do seu animal chicoteado, e muito mais.
Arcturo se arrastou para longe, tentando se impedir de sair correndo da sala.
— Te vejo mais tarde, bafo de cão! — falou Rook atrás dele.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!