16 de abril de 2018

Capítulo 8

NAQUELA TARDE, CHRIS liga e pede para eu me encontrar com ela no shopping, pois quer minha opinião sobre uma jaqueta de couro, e disse que tenho que ir lá ver pessoalmente. Fico orgulhosa por ela me pedir conselhos de moda, e seria bom sair de casa e não ficar mais triste, mas tenho medo de dirigir sozinha até o shopping. Eu (e qualquer pessoa, na verdade) me considero uma motorista tensa.
Pergunto se ela não pode me mandar uma foto, mas Chris me conhece muito bem.
— Nada disso. Venha até aqui, Lara Jean. Você nunca vai melhorar se não tomar coragem e dirigir.
E é isso o que estou fazendo: estou indo para o shopping no carro de Margot.
Tenho carteira de motorista e tudo, só não sou muito confiante. Meu pai saiu comigo para treinar milhares de vezes, Margot também, e me saio bem com eles no carro, mas fico nervosa quando dirijo sozinha. Tenho horror a mudar de faixa. Não gosto de tirar os olhos do para-brisa, nem por um segundo. E também não gosto de ir muito rápido.
Mas o pior é que tenho uma tendência a me perder. Os únicos lugares aonde consigo chegar com certeza absoluta são a escola e o supermercado. Nunca precisei aprender o caminho para o shopping porque Margot sempre nos levava até lá. Mas tenho que melhorar, porque agora ficarei responsável por levar Kitty para os lugares de carro. Embora, na verdade, Kitty seja melhor com os caminhos do que eu; ela sabe ir para um monte de lugares. Mas não quero que ela precise me dizer como chegar a algum lugar. Quero me sentir a irmã mais velha; quero que ela relaxe no banco do passageiro com a certeza de que Lara Jean vai levá-la para onde ela precisa ir, como eu me sentia com Margot.
Claro, eu poderia usar um GPS, mas me sentiria idiota pegando instruções para chegar ao shopping, aonde já fui um milhão de vezes. Deveria ser intuitivo, fácil, sem nem precisar pensar. Mas me preocupo a cada curva, questiono todas as placas; vou para o norte ou para o sul? Viro à direita aqui ou na próxima? Nunca precisei prestar atenção.
Mas está tudo bem até agora. Estou ouvindo rádio, cantarolando junto e até dirigindo só com uma das mãos no volante. Faço isso para fingir confiança, porque quanto mais eu finjo, mais deve parecer verdade.
Tudo está indo tão bem que pego um atalho. Sigo por um bairro que margeia a rodovia e, enquanto passo por lá, me questiono se foi uma boa ideia. Depois de alguns minutos, as coisas não parecem mais tão familiares, e percebo que devia ter virado à esquerda em vez de à direita. Contenho o pânico que invade meu peito e tento dar a volta.
Você consegue, você consegue.
Há um cruzamento com uma placa de PARE. Não vejo ninguém, então sigo em frente. Quando percebo o carro à minha direita; já é tarde demais.
Começo a gritar que nem louca. Sinto gosto de cobre na boca. Estou sangrando? Mordi a língua fora? Checo, e ela ainda está lá. Meu coração está disparado; meu corpo todo parece úmido e grudento. Tento respirar fundo, mas parece que não consigo respirar.
Sinto as pernas tremendo quando saio do carro. O dono do outro carro já está do lado de fora, inspecionando a lataria com os braços cruzados. Ele é velho, mais velho do que meu pai, tem cabelo grisalho e está usando um short com estampa de lagostas vermelhas. Não aconteceu nada com o carro dele; o meu está com um amassado enorme na lateral.
— Você não viu a placa? — pergunta ele. — Estava mandando mensagem no celular?
Eu balanço a cabeça; minha garganta está fechando. Só não quero chorar. Tudo vai ficar bem se eu não chorar...
Ele parece perceber isso. O franzido irritado da testa começa a diminuir.
— Bem, meu carro parece bem — comenta, com relutância. — Você está bem?
Eu assinto.
— Sinto muito.
— Vocês, jovens, precisam ser mais cuidadosos — diz o homem, como se eu não tivesse dito nada.
O nó na minha garganta está ficando maior.
— Sinto muito mesmo, senhor.
Ele solta um resmungo.
— Você devia pedir para alguém vir buscá-la — diz o homem. — Quer que eu espere?
— Não, obrigada.
E se ele for um assassino em série ou um pedófilo? Não quero ficar sozinha com um estranho.
Ele vai embora.
Assim que o homem vai embora, me ocorre que eu talvez devesse ter ligado para a polícia enquanto ele ainda estava aqui.
Uma pessoa não deve sempre ligar para a polícia quando se envolve em um acidente de carro, independente da gravidade? Tenho quase certeza de que disseram isso na autoescola. Então é mais um erro que cometi.
Eu me sento no meio-fio e fico olhando para o carro de Margot. Só estou com ele há duas horas e já bati. Apoio a cabeça no colo e abraço as pernas. Meu pescoço está começando a doer. É então que as lágrimas começam a sair. Meu pai não vai ficar feliz. Margot não vai ficar feliz. Os dois provavelmente vão concordar que não devo mais dirigir pela cidade sem supervisão, e talvez estejam certos. Dirigir um carro é muita responsabilidade. Talvez eu ainda não esteja pronta. Talvez nunca esteja. Talvez até quando eu for velha minhas irmãs ou meu pai terão que continuar me levando de carro para os lugares, porque sou uma inútil.
Pego meu celular e ligo para Josh. Quando ele atende, digo:
— Josh, você pode me fazer um f-f-favor?
Minha voz sai tão trêmula que fico com vergonha.
E é claro que ele percebe, porque ele é Josh. Fica alerta na mesma hora.
— O que aconteceu?
— Acabei de me envolver em um acidente de carro. Nem sei onde estou. Você p-p-pode vir me buscar?
— Você se machucou? — pergunta ele.
— Não, estou bem. Só estou...
Se eu disser mais uma palavra, vou chorar.
— Que placas você está vendo? Que lojas?
Eu inclino o pescoço para olhar.
— Falstone — digo. Olho para a caixa de correio mais próxima. — Estou na Falstone Road, 8.109.
— Estou indo. Quer que eu fique no telefone com você?
— Não, tudo bem.
Eu desligo e começo a chorar.
Não sei há quanto tempo estou sentada chorando quando outro carro para na minha frente. Levanto o rosto e vejo que é o Audi preto com janelas escuras de Peter Kavinsky. Ele abaixa o vidro da janela do motorista.
— Lara Jean, você está bem?
Eu assinto e faço um sinal, dizendo para ele seguir viagem. Ele fecha a janela, e acho que vai realmente embora, mas Peter só estaciona. Sai do carro e começa a examinar o meu.
— Que merda — diz. — Pegou as informações do seguro do cara?
— Não, não aconteceu nada com o carro dele. — Furtivamente, seco as bochechas com o braço. — Foi culpa minha.
— Você tem serviço de reboque?
Eu faço que sim.
— Já ligou para lá?
— Não. Mas tem alguém vindo.
Peter se senta ao meu lado.
— Há quanto tempo você está sentada aqui, chorando sozinha?
Eu viro a cabeça e seco o rosto de novo.
— Não estou chorando.
Peter Kavinsky e eu éramos amigos bem antes de ele ser Kavinsky, quando ainda era só Peter K. Éramos do mesmo grupo no fundamental. Os garotos eram Peter Kavinsky, John Ambrose McClaren e Trevor Pike. As garotas eram Genevieve, eu e Allie Feldman, que morava no mesmo quarteirão que eu, e, às vezes, Chris. Quando éramos crianças, Genevieve morava a duas quadras da minha casa. É engraçado como boa parte da infância depende da proximidade. Como a escolha da melhor amiga está diretamente relacionada com a proximidade das casas; como a pessoa que se senta ao seu lado na aula de música depende do quanto seus nomes estão próximos na chamada. Era uma questão mais relacionada à sorte do que a qualquer outra coisa. No oitavo ano, Genevieve se mudou para outro bairro, e continuamos amigas. Ela sempre nos visitava, mas alguma coisa estava diferente. Quando chegou o ensino médio, Genevieve mudou. Ela ainda era amiga dos garotos, mas o grupo acabou. Allie e eu continuamos amigas até ela se mudar, no ano passado, mas sempre havia alguma coisa um pouco humilhante nisso, como se fôssemos as duas fatias que sobraram do pão e juntas formássemos um sanduíche seco.
Não somos mais amigos. Genevieve e eu, Peter e eu. E é por isso que é tão estranho ficar sentada ao lado dele no meio-fio, como antigamente.
O celular dele toca, e Peter o pega no bolso.
— Tenho que ir.
Eu fungo.
— Para onde você estava indo?
— Para a casa da Gen.
— Então é melhor ir logo — digo. — Genevieve vai ficar furiosa se você se atrasar.
Peter debocha, mas se levanta bem rápido. Eu me pergunto como é ter tanto poder sobre alguém. Acho que não quero isso; é muita responsabilidade ter o coração de uma pessoa nas mãos. Ele está entrando no carro quando, como se tivesse acabado de lembrar, se vira e pergunta:
— Quer que eu ligue para o reboque?
— Não, tudo bem — respondo. — Mas obrigada mesmo por ter parado. Foi muito legal da sua parte.
Peter sorri. Eu me lembro disso em Peter, do quanto ele gosta de ser elogiado.
— Está se sentindo melhor?
Eu assinto. E estou mesmo.
— Que bom — diz ele.
Ele tem a expressão de um Garoto Bonito de outra época. Poderia ter sido um belo soldado da Primeira Guerra Mundial, bonito o bastante para uma garota esperar por ele durante anos, tão lindo que ela seria capaz de esperar para sempre. Ele podia estar usando a jaqueta vermelha do time da escola e dirigindo um Corvette com a capota abaixada, uma das mãos no volante, indo buscar a namorada para irem à discoteca. A beleza natural de Peter parece saída de um filme antigo. Tem alguma coisa nele que as garotas adoram.
Meu primeiro beijo foi com ele. É tão estranho pensar nisso agora. Parece que foi há uma eternidade, mas tem só quatro anos.

* * *

Josh chega um minuto depois, quando estou mandando uma mensagem de texto para Chris avisando que não vou conseguir chegar ao shopping. Eu fico de pé.
— Você demorou!
— Você disse 8.109. Aqui é o 8.901!
Com confiança, eu insisto:
— Não, eu com certeza falei 8.901.
— Não, você disse 8.109. E por que você não atendeu o telefone? — Josh sai do carro e, quando vê a lateral do meu, seu queixo cai. — Puta merda. Você já chamou o reboque?
— Não. Você pode fazer isso?
Josh liga, e nos sentamos no carro dele, no ar-condicionado, enquanto esperamos.
Quase vou para o banco de trás, mas então eu lembro. Margot não está mais aqui. Já andei no carro dele tantas vezes, mas acho que nunca me sentei no banco da frente.
— Hã... você sabe que a Margot vai matar você, né?
Eu viro a cabeça tão rápido que meu cabelo bate no rosto.
— A Margot não precisa saber, não diga nada a ela!
— Quando eu falaria com ela? Nós terminamos, lembra?
Eu franzo a testa.
— Odeio quando as pessoas fazem isso, quando você pede para elas guardarem segredo e, em vez de responderem sim ou não, elas dizem: “Para quem eu contaria?”
— Eu não disse “Para quem eu contaria?”!
— Só responda sim ou não, e de verdade. Não fique impondo condições a torto e a direito.
— Não vou contar nada para Margot — diz ele. — Vai ficar só entre nós. Eu prometo. Tudo bem?
— Tudo bem.
E ficamos em silêncio, nenhum dos dois diz uma palavra. Só ouço o som do ar frio nas saídas de ventilação.
Sinto o estômago embrulhar quando penso em como vou contar para o papai. Talvez eu devesse dar a notícia com lágrimas nos olhos, para ele ficar com pena de mim. Ou eu poderia dizer alguma coisa como: tenho uma notícia boa e uma ruim. A boa é que estou bem, não sofri nem um arranhão. A ruim é que arrebentei o carro.
Talvez “arrebentei” não seja a palavra certa.
Estou refletindo sobre que palavra usar quando Josh diz:
— Então só porque a Margot e eu terminamos você também não vai mais falar comigo?
Josh parece estar brincando com amargura ou estar amargo de brincadeira, se é que existe uma combinação assim.
Olho para ele, surpresa.
— Não seja idiota. É claro que ainda vou falar com você. Só não em público.
Esse é o papel que represento com ele. O de irmãzinha irritante. Como se eu fosse igual a Kitty. Como se ele não fosse só um ano mais velho. Josh não abre um sorriso, só fica com cara de triste, então eu bato a testa na dele.
— Estou brincando, bobão!
— Ela contou para você que ia terminar? Sempre foi o plano dela? — Como eu hesito, ele acrescenta: — Pode falar. Eu sei que ela conta tudo para você.
— Nem tudo. Pelo menos, não dessa vez. Sério, Josh. Eu não sabia nada sobre isso. Juro.
Faço uma cruz sobre o coração.
Josh fica em silêncio por um tempo. Então morde o lábio.
— Talvez ela mude de ideia. É possível, não é?
Não sei se é mais cruel responder sim ou não, porque ele vai sofrer de qualquer jeito. Porque, embora eu tenha 99,9999 por cento de certeza de que ela vai voltar com ele, tem uma pequenina chance de que não, e não quero deixá-lo cheio de esperanças. Então não digo nada.
Ele engole em seco, e o pomo de adão sobe e desce.
— Não, você está certa. Quando Margot toma uma decisão, nunca volta atrás.
Por favor, por favor, por favor, não chore.
Apoio a cabeça no ombro dele e digo:
— Nunca se sabe, Josh.
Ele apenas olha para a frente. Um esquilo sobe correndo o grande olmo no jardim. Sobe, desce e torna a subir. Nós dois ficamos observando.
— A que horas o avião dela pousa?
— Ainda vai demorar.
— Ela... ela vem para o Dia de Ação de Graças?
— Não. A faculdade não para nessa época. É a Escócia, Josh. Eles não comemoram feriados americanos, sabe?
Estou provocando ele de novo, mas não de coração.
— É verdade — responde ele.
— Mas ela vem para o Natal.
Nós dois suspiramos.
— Eu ainda posso visitar vocês?
— Kitty e eu?
— Seu pai também.
— Nós não vamos a lugar nenhum — digo com tranquilidade.
Josh parece aliviado.
— Que bom. Eu odiaria perder vocês também.
Quando ele diz isso, meu coração acelera e eu me esqueço de respirar, e fico tonta por um segundo. E então, tão rápido quanto chegou, a vertigem e a estranha palpitação no meu peito desaparecem, e o reboque chega.
Quando paramos na porta da minha casa, ele diz:
— Você quer que eu vá com você quando for contar para seu pai?
Eu me animo, mas lembro que Margot disse que estou no comando agora. Tenho quase certeza de que assumir a responsabilidade pelos próprios erros faz parte de estar no comando.

5 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!