20 de abril de 2018

Capítulo 7

Obadiah levou Arcturo até o refeitório, passando pelo átrio e por baixo do arco esculpido. Sacarissa caminhava protetoramente ao seu lado, farejando com excitação enquanto passavam pelas portas e o aroma de comida enchia o ar.
O cômodo estava cheio de mesas baixas de pedra, rodeadas por uma dúzia de criados que andavam apressadamente ao redor com travessas de comida. Alguns eram anões, com grossas barbas trançadas e longos rabos de cavalo. Ulfr estava entre eles, marcado por um hematoma roxo que deve ter surgido em sua testa durante a noite.
Uma enorme estátua dominava o centro do cômodo: um homem vestido de armadura, com uma estrutura corporal poderosa e barba curta. Seu olhar de pedra parecia fixo em Arcturo, seguindo-o enquanto ele caminhava para dentro do salão. O nível de detalhes era extraordinário, como se um gigante tivesse sido transformado em pedra.
Apesar do tamanho do refeitório, somente poucas mesas estavam ocupadas, com uma mistura de meninos e meninas que se viraram para encará-los. Arcturo podia ver uma pilha alta de bacon e ovos, o abundante cheiro enchendo suas narinas e fazendo sua boca salivar.
— Bom dia, estudantes — Obadiah falou, andando a frente de Arcturo para ficar ao lado deles. Ele fez uma pausa, olhando para eles esperançosamente.
— Bom dia, reitor Forsyth — os alunos entoaram em resposta, embora o tom parecesse ser de irritação e não de respeito.
— Eu gostaria de lhes apresentar nosso mais novo estudante... — ele fez uma pausa, e Arcturo notou que Charles Faversham estava sentado com os outros, encarando-o com ódio em seus olhos. — Ah, vejo que Charles chegou, enfim. Ele já os inteirou de tudo?
Houve vários acenos de cabeça pela mesa, e Obadiah sorriu.
— Nesse caso, devo lhes dar um breve resumo dos eventos que levaram um plebeu a entrar em Vocans. Em seu caminho até aqui, Charles perdeu seu pergaminho de conjuração. Ele foi roubado pelo jovem Arcturo aqui.
Charles se mexeu em seu assento desconfortavelmente antes de lançar a Arcturo outro olhar carregado de rancor. Arcturo percebeu que o nobre não deve ter mencionado aquela parte em sua versão da história. Obadiah não pareceu notar o embaraço de Charles e continuou alegremente.
— Por algum equívoco da natureza, ele foi capaz de convocar o demônio que Lorde Faversham havia capturado para Charles. Depois de um interrogatório apropriado, o rei Alfric decidiu que era do interesse de Hominum treinar o rapaz.
Um dos nobres se levantou, um rapaz alto e corpulento com uma mandíbula quadrada e cabelo loiro cacheado.
— Pai, como isso é possível? — o garoto perguntou, dando a Arcturo um olhar de desprezo. — O dom é passado pelo sangue, não é uma habilidade aleatória.
— Não me interrompa, Zacarias. — Obadiah disse levianamente, fazendo com que ele se sentasse novamente. — Mas você tocou no âmago da questão. O Rei Alfric me colocou essa mesma perspectiva. Na verdade, tenho um novo anúncio a fazer. Eu deixarei de ser reitor em Vocans, apesar de minha carreira aqui. O Rei exigiu que eu liderasse uma investigação a fim de descobrir se Arcturo é uma exceção ou se há outros como ele lá fora.
Arcturo olhou de Obadiah para Zacarias, repentinamente vendo a semelhança entre eles. O rosto do filho do reitor havia se tornado abatido, antes de se transformar em uma careta ao olhar para Arcturo.
— Ser reitor é muito mais importante. Esta tarefa está abaixo de você, pai — Zacarias balbuciou.
— Você acha que sabe mais do que seu rei? — Obadiah perguntou, lançando a seu filho um olhar fulminante. — Príncipe Harold, porque acha que seu pai me enviou nessa tarefa?
O coração de Arcturo deu um salto no peito quando um garoto de cabelos escuros e olhos azuis penetrantes se levantou. Sua testa era circundada por um aro prateado, ornamentado com rubis. O próprio filho do rei estava estudando na academia!
— Lorde Forsyth, há três razões. A primeira é que, na primeira rebelião dos anões, as famílias nobres sofreram diversas perdas, e isso poderia acontecer novamente se as discussões contínuas com os minérios tornar-se pior. Com plebeus para aumentar as nossas fileiras, nós poderemos nos arriscar mais, dando a eles as missões mais perigosas.
Charles sorriu com as palavras do príncipe e sussurrou no ouvido de Zacarias. Arcturo ouviu as palavras “bucha de canhão”.
— Muito bem, Harold. A segunda razão?
— Com plebeus capazes de conjurar demônios, eles se tornam uma ameaça para nós. Ao mantê-los perto, onde podemos ficar de olho, limitamos a habilidade deles de nos causar mal. — O príncipe falava com naturalidade, apesar de evitar os olhos de Arcturo, como se sentisse vergonha de suas palavras. — Esta ameaça tem crescido nos últimos tempos, desde que meu pai aumentou os impostos para cobrir nossas recentes despesas.
— Excelente! Agora, explique o motivo mais óbvio para meu filho tolo, para que ele aprenda a manter sua boca fechada — Obadiah disse, encarando seu filho.
O rosto de Zacarias ficou vermelho e ele torceu suas mãos em seu colo.
— Um plebeu ser capaz de conjurar significa que pode haver uma maneira de dar a habilidade a uma pessoa que não tem esse poder. Portanto, é possível que nós possamos transformar todas as crianças nobres em conjuradores, e não somente o primogênito. Nós já sabemos que isso é possível, dado que o segundo, terceiro e quarto filhos de lorde e lady Lovett são conjuradores, o que era altamente improvável. Nós simplesmente não sabemos por que isso aconteceu. Talvez os plebeus sejam a chave para descobrir a resposta.
Harold olhava para a mesa com um grupo de quatro estudantes, sentados um pouco afastado dos outros. Três eram garotos de cabelo escuro de diferentes idades, enquanto a outra era uma garota jovem com longas tranças escuras e olhos cinzentos que observava Arcturo com franca curiosidade. Ele lembrava que lorde Faversham havia mencionado a família Lovett, acusando-os de pagar a Arcturo para que roubasse o pergaminho de conjuração para eles. Se ele se lembrava corretamente, tinha algo a ver com não ter demônios suficientes para todos os filhos.
— Espero que sejam motivos suficientes. A partir de agora, lorde Goodwin assumirá o meu lugar como reitor, deixando seu posto como professor de feitiços. Nós traremos um novo professor para substituí-lo.
Houve um murmúrio audível pela mesa, apesar de que, se era porque lorde Goodwin era popular ou não, não estava claro.
— Arcturo, por favor, junte-se a seus colegas estudantes. Após sua primeira lição, venha me ver. Há algumas perguntas que devo fazer antes de partir. — Com estas palavras de despedida, Obadiah se virou e saiu da sala.
Arcturo ficou em pé por um momento, sob o olhar dos nobres. Havia um lugar vago entre os Lovett e Zacarias, então ele se sentou ali e colocou bacon em seu prato. Sacarissa se instalou embaixo da mesa, procurando por comida que pudesse cair no chão.
— Alguma coisa cheira mal — Zacarias reclamou, mudando de lugar. — É o Canídeo ou o plebeu?
— Ambos — Charles disse prazerosamente, tapando o nariz com os dedos. — Eles cheiram exatamente igual. Como corça molhada.
— Bafo de cão. É assim que deveríamos chamá-lo. Muito melhor que Arcticunus, ou seja lá como chame. — Zacarias gargalhou, e Charles espalhou ovo pela mesa toda. Outro garoto se juntou a eles, um garoto pálido. Tinha um rosto nobre com cabelo preto liso preso em um rabo de cavalo.
— Boa, Zac — o nobre riu ruidosamente, batendo nas costas de Zacarias.
— Ah, deixem-no em paz — o príncipe Harold se queixou, movendo seus olhos para os valentões. — Da última vez que fomos caçar juntos com falcão, vocês três estavam com o cheiro duas vezes pior, especialmente depois da viagem de volta. Suando como porcos, vocês.
Arcturo sorriu em agradecimento ao príncipe, percebendo que o jovem real era muito diferente de seu pai. Harold deu de ombros em sinal de desculpa e retornou à sua refeição. Os três o encaravam com olhar furioso, mas Arcturo os ignorou e começou a comer, tentando não devorar a comida como um animal selvagem.
Fazia algum tempo desde que havia colocado comida em sua barriga e, apesar de acostumado com a fome, ele sabia que precisava manter suas forças para os desafios dos próximos dias.
Não demorou muito até que o restante da mesa começasse a conversar entre si. Arcturo estava intensamente ciente de que precisava tomar um banho, especialmente depois dos comentários que os outros haviam feito. Ele olhou por cima de seu prato, perguntando-se se teria tempo de ir se banhar antes que os outros terminassem o café da manhã.
Um rapaz de pele clara com cabelo desalinhado estava sentado em frente à Arcturo. Ele notou o olhar do garoto e se inclinou para frente.
— Edmund Raleigh — o garoto se apresentou, cumprimentando Arcturo com um firme aperto de mão. — Todos nos conhecemos desde que éramos pequenos, então não se preocupe se algumas conversas passam por cima de você. Deixe-me apresentá-lo a todo mundo. Você já conhece Charles, Zacarias e Harold. O garoto na ponta com cabelo longo é Damian, mas todos o chamam de Rook. É seu sobrenome.
— Rook como a torre da peça de xadrez, não o pássaro — Rook disse, então torceu o nariz. — Você provavelmente nem sabe o que é xadrez.
Edmund fez uma careta para ele e então se virou para duas garotas a sua direita.
— Esta é Alice, e esta é Josephine, da família Queensouth. Não perca tempo tentando descobrir a diferença entre elas, você só ficará confuso.
— Olá! — as meninas disseram em coro.
Elas eram gêmeas, com longos cabelos loiros e grandes olhos expressivos, dando a elas uma aparência de boneca. Edmund estava certo, elas eram quase idênticas. Mas a que Edmund havia apresentado como Alice havia dado a Arcturo um grande sorriso antes de retornar a sua refeição. Edmund passou o braço em volta dela e lhe deu um beijo na bochecha.
— Nós somos namorados, então nem pense em nada. — Ele piscou, antes de se virar para os estudantes da esquerda. — Este é Baybars Saladin, o espadachim mais feroz que você encontrará — Raleigh continuou, apontando para um garoto de pele escura ao seu lado. O garoto lhe deu um educado aceno de cabeça antes de voltar para sua refeição. — Como você provavelmente já adivinhou, esses quatro são os Lovett. Este é Fergus, Carter, Arthur e...
— E eu sou Elaine! — a garota cantarolou, olhando radiante para Arcturo. — Eu amei seu demônio. É macho ou fêmea?
— Fêmea, o nome dela é Sacarissa. — Arcturo sorriu para ela. Ela parecia muito jovem para ser conjuradora, treze anos no máximo. Talvez seus pais a tivessem enviado para lá mais cedo, para estar com seus irmãos.
— Ela é tão fofa! — Elaine falou, pegando um pedaço de bacon da mesa e segurando para Sacarissa comer. O demônio guloso imediatamente esqueceu sua antipatia para com todos e comeu sem vergonha.
— Elaine, isso não é educado — Fergus falou, o mais velho dos garotos Lovett.
— Ah, tudo bem. Você é tão preocupado, Fergus — Elaine resmungou, antes de pegar uma fina fatia de bacon do prato de Arcturo e jogá-la no chão. Alguns segundos depois, Arcturo escutou barulho de mastigação debaixo da mesa.
— Está tudo bem. Ela mal come há dias. Eu nem tinha certeza se demônios comiam nossa comida.
— Nossa, você realmente tem muito a aprender — Edmund riu, ficando de pé. — É bom que esteja aqui! Vamos. É hora da nossa primeira lição do ano. Vamos descobrir quem é nosso novo professor de feitiços.

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