16 de abril de 2018

Capítulo 71

É VÉSPERA DE Ano-Novo. Nós sempre ficamos em casa no feriado da véspera de Ano-Novo. Fazemos pipoca e bebemos sidra espumante, e à meia-noite saímos para o quintal e acendemos velas em forma de estrela.
Alguns amigos de Margot da escola deram uma festa em um chalé nas montanhas, e ela disse que não queria ir, que preferia ficar com a gente, mas Kitty e eu a convencemos. Minha esperança é que Josh também vá e eles se entendam, e quem sabe o que pode acontecer. É Ano-Novo, afinal. A noite dos recomeços. Mandamos papai a uma festa que alguém do hospital está dando. Kitty passou a camisa favorita dele, e eu escolhi a gravata e o empurrei pela porta. Acho que vovó está certa: não é bom ele ficar sozinho.
— Por que você ainda está triste? — pergunta Kitty quando coloco pipoca em uma tigela para nós.
Estamos na cozinha; ela está sentada no banco em frente à bancada com as pernas balançando. O cachorrinho se enroscou como uma centopeia embaixo do banco, olhando para Kitty com olhos esperançosos.
— Você e Margot fizeram as pazes. Que motivo você tem para ficar triste agora?
Estou prestes a negar que esteja triste, mas só suspiro.
— Não sei.
Kitty pega um pouco de pipoca e joga algumas no chão, que Jamie come na mesma hora.
— Como você pode não saber?
— Porque às vezes a gente fica triste e não consegue entender bem por quê.
Kitty inclina a cabeça para o lado.
— TPM?
Eu conto os dias desde minha última menstruação.
— Não. Não é TPM. Não é porque uma garota está triste que tem alguma coisa a ver com TPM.
— Então por quê? — insiste ela.
— Não sei! Talvez eu esteja com saudade de alguém.
— Está com saudade do Peter? Ou do Josh?
Eu hesito.
— Do Peter.
Apesar de tudo, do Peter.
— Ligue para ele, então.
— Não posso.
— Por que não?
Não sei como responder. É tudo tão constrangedor, e quero ser alguém que ela possa admirar. Mas Kitty está esperando com a testinha franzida, e sei que tenho que contar a verdade.
— Era mentira. A coisa toda. Nós nunca ficamos juntos. Ele nunca gostou de mim.
Kitty franze mais a testa.
— O que você quer dizer com foi mentira?
Suspirando, eu respondo:
— Tudo começou com aquelas cartas. Lembra que minha caixa de chapéu sumiu? — Kitty assente. — Tinha umas cartas lá dentro, cartas que escrevi para todos os garotos que já amei. Elas eram particulares, nunca deveriam ter sido enviadas, mas alguém as enviou, e tudo virou uma confusão. Josh recebeu uma, Peter também, e eu me senti tão humilhada... Peter e eu decidimos fingir um namoro para eu não passar vexame com o Josh e o Peter poder deixar a ex-namorada com ciúmes, e a história toda fugiu do controle.
Kitty está mordendo o lábio inferior com nervosismo.
— Lara Jean... se eu contar uma coisa, você promete que não vai ficar com raiva?
— O quê? Conte logo.
— Promete primeiro.
— Tudo bem, prometo que não vou ficar com raiva.
Sinto arrepios na espinha.
— Fui eu que mandei as cartas — diz Kitty em um só fôlego.
— O quê?
— Você prometeu que não ia ficar com raiva!
— O quê? — grito de novo, mas não tão alto. — Kitty, como você pôde fazer isso comigo?
Ela deixa a cabeça pender.
— Porque eu estava com raiva. Você ficou me provocando dizendo que eu gostava do Josh; disse que ia dar o nome dele para o meu cachorro. Fiquei com muita raiva. Aí, quando você estava dormindo... eu entrei no seu quarto, roubei a caixa de chapéu, li todas as suas cartas e as enviei pelo correio. Eu me arrependi logo depois, mas era tarde demais.
— Como você sabia sobre as cartas?!
Ela semicerra os olhos para mim.
— Porque eu mexo nas suas coisas às vezes, quando você não está em casa.
Estou prestes a gritar mais com ela, mas lembro que li a carta que Margot recebeu de Josh e mordo a língua.
— Você sabe quantos problemas provocou? Como pôde ter tanta raiva de mim?
— Desculpe — sussurra ela.
Lágrimas se formam nos cantos dos olhos dela, e uma cai como uma gota de chuva. Tenho vontade de abraçá-la, de consolá-la, mas ainda estou muito irritada.
— Tudo bem — digo, com uma voz que diz exatamente o contrário.
Nada disso teria acontecido se ela não tivesse enviado aquelas cartas.
Kitty salta do banco e sobe as escadas, e acho que vai para o quarto chorar sozinha. Sei o que eu tenho que fazer. Tenho que ir consolá-la, perdoá-la de verdade. É minha vez de ser o bom exemplo. De ser a irmã mais velha boa.
Estou prestes a subir quando ela volta correndo para a cozinha. Com minha caixa de chapéu nos braços.

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