16 de abril de 2018

Capítulo 70

DO LADO DE fora, a neve cai em flocos que parecem algodão. O jardim está começando a parecer uma plantação de algodão.
Espero que neve sem parar durante o dia e a noite. Espero que vire uma tempestade de neve.
Ouço alguém batendo à minha porta.
Levanto a cabeça do travesseiro.
— Pode entrar.
Meu pai entra e se senta à minha escrivaninha.
— Então — começa ele, coçando o queixo como faz quando está pouco à vontade. — Precisamos conversar.
Meu estômago despenca. Eu me sento e abraço os joelhos.
— A Margot contou?
Meu pai pigarreia.
— Contou. — Eu nem consigo olhar para ele. — Isso é constrangedor. Nunca precisei fazer isso com a Margot, então... — Ele pigarreia de novo. — Era de se esperar que eu seria melhor nisso por ser médico. Só vou dizer que acho você nova demais para estar fazendo sexo, Lara Jean. Acho que você ainda não está pronta. — Ele parece prestes a chorar. — O Peter... ele forçou você de alguma forma?
Posso sentir todo o meu sangue subir para o rosto.
— Pai, nós não fizemos sexo.
Ele assente, mas acho que não acredita em mim.
— Sou seu pai, então é claro que preferiria que você esperasse até ter cinquenta anos, mas... — Ele pigarreia pela terceira vez. — Quero que você se sinta segura. Vou marcar uma consulta com o dr. Hudecz na segunda-feira.
Eu começo a chorar.
— Não preciso de consulta porque não estou fazendo nada! Eu não fiz sexo! Nem no ofurô nem em lugar nenhum. Alguém inventou essa história toda. Você precisa acreditar em mim.
Meu pai está com uma expressão triste no rosto.
— Lara Jean, sei que não é fácil falar sobre isso com seu pai, e não com sua mãe. Eu queria que sua mãe estivesse aqui para nos ajudar neste momento.
— Eu também queria, porque ela acreditaria em mim.
Lágrimas escorrem pelas minhas bochechas. Já é muito ruim que estranhos pensem o pior de mim, mas nunca achei que minha irmã e meu pai fossem acreditar nisso também.
— Desculpe. — Meu pai me abraça. — Sinto muito. Eu acredito. Se você me diz que não está fazendo sexo é porque não está. Só não quero que você cresça rápido demais. Quando olho para você, acho que ainda tem a idade da Kitty. Você é minha garotinha, Lara Jean.
Eu desabo nos braços dele. Não tem lugar mais seguro do que os braços do meu pai.
— Tudo está uma confusão. Você não confia mais em mim, Peter e eu terminamos, a Margot me odeia.
— Eu confio em você. É claro que confio. E é claro que você e a Margot vão fazer as pazes. Ela só ficou preocupada com você. Por isso me procurou.
Não, não foi por isso. Ela estava com raiva. É culpa dela papai ter pensado isso de mim, ainda que por um segundo.
Meu pai levanta meu queixo e seca as lágrimas do meu rosto.
— Você deve gostar muito do Peter, hein?
— Não — digo, fungando. — Talvez. Não sei.
Ele coloca meu cabelo atrás das orelhas.
— Tudo vai dar certo no fim.

* * *

Existe um tipo específico de briga que só se poder ter com uma irmã. É o tipo em que se dizem coisas e não dá para voltar atrás. Você diz porque não consegue evitar, porque está com tanta raiva que tudo sobe pela garganta e sai pelos olhos; você está com tanta raiva que não consegue enxergar direito. Vê tudo vermelho.
Assim que meu pai sai e o ouço ir para o quarto dele se aprontar para dormir, entro no quarto de Margot sem nem bater.
Margot está na escrivaninha, no laptop. Ela olha para mim, surpresa. Enquanto seco as lágrimas, eu digo:
— Você pode ficar com raiva de mim o quanto quiser, mas não tinha o direito de ir falar com papai pelas minhas costas.
— Eu não fiz por vingança. — A voz dela está tensa como a corda de um piano. — Fiz porque você claramente não faz ideia do que está fazendo e, se não tomar cuidado, vai acabar se tornando alguma estatística adolescente triste. — Com frieza, como se estivesse falando com uma estranha, Margot continua: — Você mudou, Lara Jean. Sinceramente, nem sei mais quem você é.
— Não, você definitivamente não sabe mais quem eu sou se acha por um segundo sequer que eu faria sexo em um passeio de escola! Em um ofurô, em público? Você não deve me conhecer nem um pouco! — E aí eu lanço a cartada que andei escondendo, a cartada que tenho contra ela. — Não é porque você transou com o Josh que eu vou fazer o mesmo com o Peter.
Margot inspira fundo.
— Fale baixo.
Fico feliz por tê-la magoado também.
— Agora que papai já está decepcionado comigo, ele não pode ficar decepcionado com você, não é? — grito.
Eu me viro para voltar para o quarto, e Margot me segue.
— Volte aqui! — grita ela.
— Não! — Tento fechar a porta do quarto na cara dela, mas ela enfia o pé para impedir. — Vá embora!
Eu empurro a porta, mas Margot é mais forte do que eu. Ela força a entrada e tranca a porta. Margot avança na minha direção, e eu recuo. Há uma luz perigosa nos olhos dela. Ela é a honrada, agora. Consigo sentir que estou começando a me encolher, a me acovardar.
— Como você ficou sabendo que Josh e eu transamos, Lara Jean? Ele mesmo contou, enquanto vocês dois estavam se encontrando pelas minhas costas?
— Nunca fizemos nada pelas suas costas! Não foi assim que tudo aconteceu.
— Então como foi? — pergunta ela.
Um soluço escapa da minha garganta.
— Eu gostei dele primeiro. Gostei dele durante as férias antes do nono ano. Achei... achei que ele gostasse de mim também. Mas aí um dia você disse que vocês estavam namorado, e eu aceitei. Escrevi uma carta de despedida para ele.
O rosto de Margot se contorce em uma expressão de desprezo.
— Você realmente espera que eu sinta pena de você?
— Não. Só estou tentando explicar o que aconteceu. Eu deixei de gostar dele, juro que deixei. Não pensei mais nele dessa forma, mas, depois que você foi embora, percebi que bem no fundo eu ainda tinha sentimentos por ele. E aí, a carta foi enviada e Josh descobriu, então comecei a fingir que estava namorando Peter...
Ela balança a cabeça.
— Para. Não quero mais ouvir. Nem sei do que você está falando agora.
— Josh e eu só nos beijamos uma vez. Uma. Foi um grande erro, e eu nem queria! É você que ele ama, não eu.
— Como posso acreditar em qualquer coisa que você diga para mim agora?
— Porque é a verdade. — Tremendo, eu confesso: — Você não faz ideia do poder que tem sobre mim. Do quanto sua opinião é importante. Do quanto eu admiro você.
O rosto de Margot se fecha como um punho, e ela segura as lágrimas.
— Sabe o que a mamãe sempre dizia para mim? — Ela levanta o queixo. — “Cuide das suas irmãs.” E foi isso que eu fiz. Eu sempre tentei colocar você e Kitty em primeiro lugar. Você faz alguma ideia do quanto foi difícil ficar longe de vocês? Do quanto me senti sozinha? Eu só queria voltar para casa, mas não podia, porque tenho que ser forte. Tenho que — ela se esforça para tomar ar — ser o bom exemplo. Não posso ser fraca. Tenho que mostrar para vocês como ser corajosa. Porque... porque mamãe não está aqui para fazer isso.
Lágrimas escorrem pelo meu rosto.
— Eu sei. Você não precisa me dizer, Gogo. Sei o quanto você sacrificou por nós.
— Mas aí eu fui embora, e parece que vocês não precisam tanto de mim quanto eu pensava. — A voz dela falha. — Vocês ficaram bem sem mim.
— Só porque você me ensinou tudo! — exclamo.
As lágrimas de Margot finalmente desabam.
— Desculpe — digo, chorando. — Desculpe, Margot.
— Eu precisava de você, Lara Jean.
Ela dá um passo na minha direção e eu dou um passo na direção dela e nos abraçamos, chorando, e o alívio que eu sinto é imensurável. Somos irmãs, e não há nada que ela ou eu possamos dizer ou fazer que vá mudar isso.
Nosso pai bate à porta.
— Meninas? Tudo bem aí dentro?
Olhamos uma para a outra e juntas, ao mesmo tempo, dizemos:
— Estamos bem, pai.

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