20 de abril de 2018

Capítulo 6

Arcturo acordou se sentindo renovado. Apesar das rajadas frias de vento que entraram pelas janelas sem vidro, Sacarissa havia se enrolado ao redor dele como um casaco de pele levemente mal cheiroso, mantendo-o quente e confortável a noite toda.
Ela choramingou quando ele se desembaraçou dela e ficou em pé no cômodo, tremendo de frio. Ele puxou o cobertor puído debaixo dela e o enrolou em volta dos ombros.
— Vamos lá, preguiçosa. Vamos encontrar o banheiro e nos limparmos. Primeiras impressões são muito importantes.
Sacarissa levantou, então piscou seus quatro olhos para ele tristemente.
— Nada disso — Arcturo sorriu ironicamente. — Esse seu olhar de cachorrinha desamparada não vai lhe render nada aqui.
Ela bufou com uma irritação fingida antes de ir até a porta e abri-la com o focinho.
Arcturo a seguiu até o corredor, passando pelas despensas e seguindo escada abaixo. Ela cheirava o chão como se caçasse algo.
— Espero que você não esteja me levando até a cozinha — Arcturo murmurou, seguindo-a. — Nós precisamos encontrar o banheiro.
  Como se pudesse sentir o significado do que ele dizia, ela se virou e olhou para ele. Quando seus olhos se encontraram, ele sentiu a conexão entre eles se acender, e por um breve instante seus sentidos transbordaram com uma nova percepção. Os sons se tornaram mais vivos, os odores, mais intensos e vívidos. Somente sua visão padeceu; a luz azul e branca da manhã do lado de fora se transformou em sombras cinza e se deslocou de maneira estranha na frente de seus olhos.
Ele cambaleou com a sensação, segurando-se na parede. Tão rápida como a sensação veio, ela também se foi, mas não antes de ele conseguir sentir o cheiro do que Sacarissa estava rastreando.
Água.
— Continue procurando — Arcturo sorriu, empurrando-a em frente. Ele sorriu, apreciando a memória de seu novo poder. Era fascinante descobrir que Sacarissa não era capaz de ver as cores. Quem poderia imaginar?
Ela virou para a escada em espiral, levando-o até o átrio enquanto farejava o chão. Obviamente ainda era muito cedo, pois o castelo estava silencioso e sem vida como uma tumba.
Foi por esse motivo que ele quase teve um ataque do coração quando uma voz o chamou das galerias acima.
— Arcturo! — Obadiah Forsyth gritou, sua voz soando acima das grades de metal do andar acima dele. — Quem lhe deu permissão para deixar seus aposentos?
Antes que Arcturo pudesse responder, a cabeça de Obadiah desapareceu e passos ecoaram na escadaria atrás dele. Ele surgiu com o rosto vermelho, um dedo acusatório apontado para Arcturo como uma arma.
— Senhor, sinto muito, eu precisava usar o banheiro — Arcturo falou, baixando sua voz para demonstrar tanto respeito quanto conseguia. — Eu não tive a intenção de quebrar nenhuma regra.
Era quase uma resposta automática, pois ele havia aprendido no tempo em que esteve com o estalajadeiro que respeito poderia salvá-lo de uma surra, ou pior. Teve o efeito desejado, pois Obadiah parou no meio de um passo.
— Bem... creio que seja uma desculpa aceitável — ele falou de má vontade, abaixando sua mão antes de caminhar ao redor de Arcturo, examinando-o.
Arcturo baixou sua cabeça e observou Obadiah através de seus cílios, preparado para qualquer movimento repentino.  Ao invés disso, o nobre ergueu o queixo de Arcturo com um dedo e assentiu com aprovação.
— Bem, fico satisfeito que saiba respeitar os que estão acima de você. Uma conduta louvável — Obadiah disse, colocando uma mão em seu ombro e o afastando da porta. — Suas necessidades matinais terão que esperar. O rei me pediu para descobrir qual seu nível de conjurador. Venha comigo.
Arcturo segurou um resmungo e seguiu Obadiah escada acima. Sacarissa os seguiu, choramingando quando sentiu a agitação de Arcturo. Depois de um tempo, Obadiah se virou e deu um chute na direção de Sacarissa, mas ela saiu do caminho com um rosnado.
— Se você não consegue controlar o barulho infernal de seu demônio, vou calá-la para sempre — Obadiah falou com rispidez.
— Sacarissa, fica. — Arcturo disse apressadamente, apontando para o chão.
Sacarissa ergueu sua cabeça para ele, como se perguntasse: você tem certeza?
— Seja uma boa cadel... — ele se pegou dizendo — demônio e espere por mim aqui. Tenho certeza de que não demorará muito.
Ela o olhou com um olhar pidão, mas se acomodou e deitou sua cabeça nas patas da frente.
— Boa menina — Arcturo disse.
Obadiah grunhiu, então continuou seguindo pelo corredor. Eles caminharam por alguns minutos em silêncio, até que a curiosidade de Arcturo superasse seu medo.
— O que o senhor quis dizer com “nível”?
— Diferentes espécies de demônios têm diferentes níveis de energia demoníaca. Por exemplo, um Canídeo é um demônio nível sete. Isso quer dizer que, para você conseguir convocá-lo, você é, pelo menos, um conjurador nível sete — Obadiah respondeu, sem se virar.
Arcturo percebeu que eles estavam indo em direção à torre sudoeste. Quando viraram no que Arcturo esperava ser uma escadaria que levava ao topo da torre, eles entraram em uma grande câmara circular com um teto que se estendia por dezenas de metros acima deles até o alto da torre.
No centro do cômodo havia uma estranha coluna feita de diferentes segmentos de cristais multicoloridos. Era tão alta que alcançava o topo do cômodo, e Arcturo teve que inclinar o pescoço para ver sua ponta.
— Coloque sua mão no realizômetro — Obadiah ordenou, então empurrou Arcturo para que ficasse de joelhos antes que ele pudesse responder. Ele segurou a mão de Arcturo e a pressionou contra as frias pedras preciosas.
  Imediatamente, Arcturo sentiu algo sendo sugado dele, fluindo através de sua mão. Parecia frio como gelo e, para sua surpresa, ele podia ver um brilho azul cobalto ao redor da palma de sua mão.
— O que você está sentindo agora é o seu mana sendo sugado para dentro do realizômetro.
— Mana? — Arcturo perguntou. Ele podia sentir aquilo se revolvendo em seu sangue, fria sob sua pele.
— Sim, mana é o poder que você utiliza quando realiza uma magia. Você aprenderá mais sobre isso em breve, talvez ainda hoje se manter seus ouvidos abertos.
O restante de sua energia foi sugada, então o fluxo se reverteu. Mas agora era muito diferente de antes. Era quente e violento, um forte contraste com o que ele havia experimentado pouco antes.
— Energia demoníaca, do que todos os demônios são feitos. Quanto mais consegue absorver, maior o seu nível de desempenho — Obadiah murmurou, apertando o pulso de Arcturo com firmeza.
O segmento de pedras que Arcturo estava tocando se iluminou com um zunido. As outras acima se iluminaram na sequência, cada uma emitindo um som vibrante. Sete vezes o cômodo piscou com uma nova luz, então a vibração começou a diminuir. Bem a tempo, pois Arcturo se sentia transbordando com a energia cáustica. Parecia que ele estava fervendo de dentro para fora. Quando ele pensou que havia terminado, o oitavo segmento se iluminou também.
— Um conjurador nível oito — Obadiah disse, com um toque de surpresa em sua voz. — Isto é... acima da média... especialmente para um conjurador tão jovem e tão recente com seu demônio como você. O normal para um nobre não treinado que acabou de chegar à academia é sete, que é o que presumi que seria o seu caso. Acho isso muito interessante. Tenho certeza de que o rei compartilhará deste sentimento.
— O que isso significa? — Arcturo perguntou, massageando seu pulso quando Obadiah lhe soltou. Ele sentiu um lampejo de medo. Teria sido melhor se ele fosse um conjurador mais fraco?
— Significa que você é incomum somente pelo fato de ser um plebeu, nem tão alto e nem tão baixo em nível. Você recai no âmbito normal do que podemos esperar de um aprendiz. Também significa que você poderia conjurar um demônio nível um, como um Caruncho, além do seu Canídeo nível sete. É claro, conforme você for treinando nas diversas artes de conjuração, seu nível de desempenho melhorará com o tempo, e você será capaz de invocar demônios mais poderosos.
Arcturo relaxou. Normal era bom. Ele já era diferente o suficiente, sem ser algo que o rei poderia ver como uma ameaça. Quando Obadiah começou a guiá-lo para fora do cômodo, Arcturo não resistiu a mais uma pergunta.
— Um Caruncho?
Obadiah deu um suspiro exasperado, então se virou para ele. Ele colocou a mão no bolso e tirou dali um pergaminho de couro. Enquanto o desenrolava, Arcturo notou que era idêntico ao tapete de couro que ele havia encontrado nos alforjes de Charles, um quadrado marrom com um pentagrama preto em relevo dos dois lados. Obadiah o abriu no chão e tocou o couro com a ponta de seu dedo.
O pentagrama se iluminou com uma luz violeta, assim como nos estábulos. Desta vez, ao invés de uma esfera se expandindo para cima, fios etéreos de luz branca desabrocharam do símbolo brilhante, fundindo-se uns aos outros, como fios em uma tapeçaria. Não demorou até que uma forma parecida com um inseto se materializasse e o brilho branco diminuísse e revelasse as cores verdadeiras por trás daquilo.
O demônio parecia um besouro gigante, tão grande que mal caberia na mão de um homem. Sua carapaça era de uma cor vermelho-escura, com um ferrão parecido com o de uma abelha na parte de trás e um par de mandíbulas que estalavam enquanto a criatura encarava Arcturo através de dois olhos escuros. Com um bater de asas, ele foi para o ar, antes de pousar no ombro de Obadiah.
— Lindo, não é mesmo? — Obadiah disse, batendo na couraça do Caruncho. — Rubeus é um dos demônios mais fracos, mas talvez o mais útil. Ele é meus olhos e ouvidos em Vocans. Pise um dedo fora da linha e ele virá direto para mim. A não ser que eu já tenha visto, é claro.
Ele colocou a mão no bolso novamente e retirou um fragmento de cristal. Ele era liso, como um pedaço quebrado de vidro, e ainda assim Arcturo conseguia ver o cômodo refletido na superfície polida. Obadiah tocou a couraça do Caruncho com vidro, e então o ergueu para Arcturo ver. Por um momento, Arcturo pensou que estar olhando para um fragmento de um espelho, mas quando Rubeus voou, ele viu que a imagem no cristal era exatamente o que o demônio besouro estava vendo.
— A pedra de visão e o couro da conjuração são os dois itens mais importantes na caixa de ferramentas de um conjurador — Obadiah falou, guardando o cristal e enrolando o couro novamente. — Seu demônio geralmente reside dentro de seu corpo e pode ser conjurado para a existência, então infundido para dentro de você utilizando o couro. A pedra de visão permite que você compartilhe os sentidos de seu demônio, incluindo som e cheiros, apesar de precisar olhar para a pedra para conseguir ver o que eles veem. É claro que você só conseguirá ver preto e branco, com o seu. Canídeo e seus muitos primos são todos daltônicos.
Arcturo sorriu, contente em confirmar sua suspeita. Ainda assim, era estranho que ele tivesse conseguido fazer aquilo, mesmo que brevemente, sem a pedra. Ele teria que investigar mais tarde. O fato de que Sacarissa poderia de alguma maneira ser “infundida” para dentro de seu corpo o encheu de excitação e apreensão. Isso poderia ser realmente possível?
— Muito bem, isso é o suficiente para um dia. Sou seu reitor, não seu professor — Obadiah falou, balançando a cabeça como se estivesse surpreso por ter compartilhado tanto.
— Obrigado, Lorde Forsyth — Arcturo disse, estendendo a mão. — Estou ansioso em aprender mais. Permita-me perguntar, seria possível me levar até Sacarissa e então me mostrar onde fica o banheiro?
— Não sou seu criado, garoto insolente. — Obadiah respondeu, ignorando a mão e pisando forte para fora do cômodo. — Podemos pegar seu demônio porque fica no caminho, mas não há tempo para um banho agora, você terá que esperar até mais tarde. É hora do café da manhã. Anunciarei sua chegada aos outros estudantes.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!