16 de abril de 2018

Capítulo 66

MARGOT E KITTY me buscam na escola. Elas me perguntam como foi a viagem, se fiquei o dia todo na pista coelhinho. Tento responder de um jeito bem animado; até invento uma história de que desci uma pista intermediária.
— Está tudo bem? — pergunta Margot.
Hesito. Margot sempre sabe quando não estou falando a verdade.
— Só estou cansada. Chris e eu ficamos acordadas até tarde conversando.
— Durma um pouco quando chegar em casa — aconselha ela.
Meu celular vibra, e olho para a tela. É uma mensagem de Peter.
Podemos conversar?
Desligo o celular.
— Acho que vou dormir o Natal inteiro — digo.
Agradeço a Deus e a Jesus pelo feriado de Natal. Pelo menos, tenho dez dias antes de ter que voltar à escola e encarar todo mundo. Talvez eu não volte nunca. Talvez consiga convencer meu pai a me dar aulas em casa.

* * *

Quando papai e Kitty vão para a cama, Margot e eu ficamos embrulhando presentes na sala. No meio do processo, Margot decide que deveríamos fazer o recital natalino no dia seguinte ao Natal. Eu torci para ela ter esquecido essa ideia, mas a memória de Margot sempre foi infalível.
— Vai ser uma festa pós-Natal e pré-véspera de Ano-Novo — diz, amarrando um laço de fita em um dos presentes de papai para Kitty.
— Isso é daqui a poucos dias — comento, cortando com cuidado um pedaço de papel de presente com desenhos de cavalinhos. Estou tomando cuidado porque quero guardar uma tira para uma página do scrapbook de Margot, que está quase pronto. — Ninguém vai vir.
— Vai, sim! Não fazemos um há séculos; um monte de gente vinha. — Margot se levanta e começa a pegar os livros de receita da mamãe e a empilhá-los na mesa de centro. — Não seja estraga-prazeres. Acho que é uma tradição que deveríamos recuperar pelo bem da Kitty.
Corto um pedaço de fita verde. Talvez essa festa me ajude a parar de pensar em tudo o que aconteceu.
— Que tal aquela receita de frango mediterrâneo que mamãe fazia? Com o molho de iogurte e mel.
— Isso! E se lembra da pasta de caviar? As pessoas amam a pasta de caviar. Temos que fazer também. Devemos fazer canudos de queijo ou almofadinhas de queijo?
— Almofadinhas.
Margot está tão empolgada que, mesmo em meu estado atual de autopiedade, não consigo ficar irritada com ela.
Ela pega caneta e papel na cozinha e começa a fazer uma lista.
— Falamos no prato de frango, na pasta de caviar, almofadinhas de queijo, ponche... Podemos fazer biscoitos ou brownies também. Vamos convidar todos os vizinhos: Josh e os pais, os Shah, a sra. Rothschild. Quais dos seus amigos você quer convidar? A Chris?
Eu balanço a cabeça.
— Chris vai visitar os parentes em Boca Raton.
— E o Peter? Ele pode trazer a mãe, e ele não tem um irmão mais novo?
Posso ver que ela está se esforçando.
— Vamos deixar Peter de fora — digo.
Ela franze a testa e ergue o rosto da lista.
— Aconteceu alguma coisa no passeio?
Rápido demais, eu respondo:
— Não. Não aconteceu nada.
— Então por que não? Quero conhecê-lo melhor, Lara Jean.
— Acho que ele também vai viajar.
Dá para ver que Margot não acredita em mim, mas também não insiste no assunto.
Ela envia os convites virtuais naquela mesma noite, e logo chegam cinco confirmações. Na seção de comentários, tia D. (que não é nossa tia de verdade, e sim uma das melhores amigas de mamãe) escreve: Margot, mal posso esperar para ouvir você e seu pai cantarem “Baby, It’s Cold Outside”! Outra tradição dos recitais de Natal.
Margot e papai cantam “Baby, It’s Cold Outside”, e eu sempre tenho que cantar “Santa Baby”. Eu fazia isso deitada no piano usando os saltos de mamãe e a estola de pele de raposa da vovó. Mas não farei isso este ano. De jeito nenhum.
No dia seguinte, quando Margot tenta me convencer a ir com ela e Kitty entregar as cestas de biscoitos para os vizinhos, imploro para não ir e digo que estou cansada. Vou para o quarto, dou os toques finais no scrapbook de Margot, escuto só as músicas lentas de Dirty Dancing e fico checando meu celular para ver se Peter mandou outra mensagem. Ele não mandou, mas Josh, sim.
Soube o que aconteceu. Você está bem?
Então até Josh sabe? Ele nem é do nosso ano. Será que a escola toda já sabe?
Eu respondo: Não é verdade.
Ele manda de volta:
Nem precisa me dizer, não acreditei nem por um segundo.
Isso me dá vontade de chorar.
Ele e Margot têm se encontrado desde que ela voltou, mas não fizeram a viagem a Washington que Josh mencionou. Acho melhor tirar a página de Josh e Margot do scrapbook de uma vez.
Fico acordada até tarde esperando Peter mandar outra mensagem. Eu decido que, se Peter ligar ou me mandar uma mensagem hoje, vou saber que ele também está pensando em mim, e talvez eu o perdoe.
Mas ele não manda mensagem nem liga.
Por volta das três da manhã, jogo fora os bilhetes dele. Apago a foto de Peter do meu celular; apago o número. Imagino que, se eu o apagar o bastante, vai ser como se nada tivesse acontecido, e meu coração não vai doer tanto.

5 comentários:

  1. Tadinha.... Que desilusão amorosa! Acho que nem se ela fizesse outra carta ela ia se sentir melhor dessa vez por que só ia lembrar ela de como eles ficaram juntos, pra começo de conversa. 😟😔

    ResponderExcluir
  2. Ela é tão infantil pra uma menina de 16 anos

    ResponderExcluir
  3. Josh sendo um amor de amigo como sempre.

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!