16 de abril de 2018

Capítulo 60

— ACHO QUE DEVERÍAMOS fazer um recital natalino este ano — diz Margot, sentada no sofá.
Quando nossa mãe estava viva, todo Natal fazíamos o que ela chamava de “recital natalino”. Ela fazia um monte de comida e convidava amigos para irem lá em casa em uma noite de dezembro, e Margot e eu usávamos vestidos combinando e tocávamos cantigas natalinas no piano a noite toda. As pessoas ficavam andando pela sala e cantavam junto, e Margot e eu nos revezávamos ao piano. Eu odiava os recitais porque eu era a pior do grupo da minha idade, e Margot, a melhor. Era humilhante ter que tocar alguma coisa fácil como “Für Elise” enquanto as outras crianças já estavam tocando Liszt. Sempre odiei o recital natalino. Eu implorava para não ter que tocar.
Certo Natal, mamãe comprou vestidos vermelhos de veludo iguais, e dei um ataque e disse que não queria usar, apesar de ter adorado o vestido. Eu só não queria ter que tocar piano ao lado de Margot. Gritei com ela, corri para o quarto, tranquei a porta e me recusei a sair. Mamãe foi até lá e tentou me fazer descer, mas eu não quis, e ela não voltou. As pessoas começaram a chegar, Margot começou a tocar piano, e eu fiquei no andar de cima. Fiquei chorando no meu quarto, pensando em todas as pastinhas e canapés que mamãe e papai fizeram e que eu não comeria, achando que minha mãe provavelmente nem me queria lá embaixo, depois de como me comportei.
Depois que ela morreu, nunca mais fizemos um recital natalino.
— Você está falando sério? — pergunto a ela.
— Por que não? — Margot dá de ombros. — Vai ser divertido. Vou planejar tudo, você não precisa fazer nada.
— Você sabe que eu odeio tocar piano.
— Então não toque.
Kitty está olhando de mim para Margot com uma expressão preocupada.
— Posso fazer uns golpes de tae kwon do — oferece ela, mordendo o lábio.
Margot estica os braços e abraça Kitty.
— É uma ótima ideia. Eu toco piano, você faz tae kwon do e Lara Jean vai...
— Olhar — concluo.
— Eu ia dizer receber os convidados, mas você que sabe.
Não respondo.

* * *

Mais tarde, estamos assistindo à tevê. Kitty está dormindo toda encolhida no sofá, como se fosse um gato. Margot quer acordá-la e fazê-la ir para a cama, mas falo para deixá-la dormir e a cubro com uma colcha.
— Você pode me ajudar a convencer papai a dar um cachorrinho para a Kitty no Natal?
Margot geme.
— Cachorros dão muito trabalho. Você tem que levá-los para passear um milhão de vezes por dia para fazer xixi. E eles soltam bastante pelo. Você nunca mais vai poder usar calça preta. Além disso, quem vai passear com ele, dar comida, dar banho e levar no veterinário?
— A Kitty. E eu vou ajudar.
— A Kitty não está pronta para assumir essa responsabilidade.
Os olhos de Margot dizem Você também não.
— A Kitty amadureceu muito desde que você foi embora. — E eu também. — Você sabia que ela prepara o próprio lanche, agora? E ajuda a dobrar as roupas? E não preciso pegar no pé dela por causa do dever de casa. Ela faz sozinha.
— É mesmo? Estou impressionada.
Por que ela não pode simplesmente dizer Bom trabalho, Lara Jean? Esse é o problema. Queria que ao menos ela pudesse reconhecer que estou fazendo minha parte para manter a família unida desde que ela foi embora. Mas não.

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