16 de abril de 2018

Capítulo 6

VOU CONTAR COMO os dois ficaram juntos. De certa forma, eu soube primeiro por Josh.
Faz dois anos. Josh e eu estávamos na biblioteca durante o intervalo. Eu estava fazendo o dever de matemática; Josh estava me ajudando porque é muito bom com números. Nossas cabeças estavam inclinadas sobre a página, tão perto que eu conseguia sentir o cheiro do sabonete que ele tinha usado naquela manhã. Irish Spring.
E aí ele disse:
— Preciso do seu conselho. Estou gostando de uma garota.
Por uma fração de segundo, achei que era eu. Achei que ele ia dizer que era eu. Tive esperanças. Era o começo do ano letivo. Nós tínhamos nos encontrado quase todos os dias daquele verão, algumas vezes com Margot, mas quase sempre sozinhos, porque Margot estagiava na fazenda Montpelier três vezes por semana.
Nós nadamos muito. Eu estava com um bronzeado lindo. Então, por uma fração de segundo, achei que ele ia dizer meu nome.
Mas vi o jeito como ele corou, notei seu olhar sonhador, e soube que não era eu. Fiz uma lista mental de garotas de quem ele poderia estar gostando. Era uma lista curta. Josh não andava com muitas garotas; ele tinha um melhor amigo, Jersey Mike, que se mudara de Nova Jersey no ensino fundamental, e seu outro melhor amigo, Ben, e só.
Podia ser Ashley, aluna do segundo ano, do time de vôlei. Ele já tinha dito que ela era a garota mais bonita do segundo ano.
Em defesa de Josh, fui eu que o obriguei a fazer isso: perguntei quem era a garota mais bonita de cada ano. Como mais bonita do primeiro ano, ele escolheu Genevieve. Não fiquei surpresa, mas senti uma pontada no coração.
Podia ser Jodie, a universitária da livraria. Josh estava sempre dizendo como ela era inteligente, como era culta porque tinha estudado na Índia e agora era budista. Rá! Eu sou descendente de coreanos; fui eu que ensinei Josh a comer com hashis. Ele comeu kimchi pela primeira vez na minha casa.
Eu estava prestes a perguntar quem era a garota quando a bibliotecária se aproximou e ralhou com a gente para que fizéssemos silêncio, então voltamos ao dever, e Josh não tocou mais no assunto, e eu não perguntei. Na verdade, acho que nem queria saber. Não era eu, e para mim nada mais importava.
Não pensei nem por um segundo que a garota de quem ele gostava fosse Margot. Não porque eu não a visse como uma garota desejável. Ela já tinha sido convidada para sair por caras de um certo tipo: garotos inteligentes que fariam dupla com ela na aula de química e competiriam com ela para presidente do corpo estudantil. Em retrospecto, não era tão surpreendente Josh gostar de Margot. Ele também era esse tipo de cara.
Se alguém me pedisse para descrever Josh, eu diria que ele é normal. Parece o tipo de cara de quem se esperaria que fosse bom com computadores, o tipo de cara que chama quadrinhos de graphic novels. Tem cabelo castanho. Não um castanho especial, só castanho. Olhos verdes que ficam meio castanhos no meio. Josh é magro, mas forte. Sei porque torci o tornozelo uma vez perto do antigo campo de beisebol e ele me carregou até em casa. Ele tem sardas, o que o faz parecer mais novo do que realmente é. E uma covinha na bochecha esquerda. Sempre gostei daquela covinha. Deixa o rosto dele menos sério.
O que me surpreendeu, o que me chocou, foi Margot gostar dele também. Não por causa de quem ele era, mas por causa dela. Eu nunca tinha ouvido Margot falar sobre garotos, nem uma vez. Eu era a irmã leviana, a tagarela, como minha avó paterna diria. Não Margot. Minha irmã estava acima disso tudo. Existia em um plano superior onde essas coisas (garotos, maquiagem, roupas) não importavam.
E foi bem repentino. Margot chegou tarde da escola naquele dia, em outubro; com as bochechas rosadas do ar frio e montanhoso da Virgínia, o cabelo preso em uma trança, e um cachecol enrolado no pescoço. Margot ficara trabalhando em um projeto na escola, era hora do jantar e eu tinha feito frango ao parmesão e espaguete com molho de tomate.
Ela entrou na cozinha e anunciou:
— Tenho uma coisa para contar para vocês.
Os olhos dela estavam brilhando muito; eu me lembro dela desenrolando o cachecol do pescoço. Kitty fazia o dever de casa na mesa da cozinha, papai estava a caminho e eu cozinhava o molho de tomate.
— O quê? — Kitty e eu perguntamos.
— O Josh gosta de mim.
Margot deu de ombros, satisfeita; os ombros quase chegaram às orelhas.
Fiquei paralisada. Em seguida, soltei a colher de pau.
— Que Josh? Nosso Josh?
Eu não conseguia nem olhar para ela. Estava com medo de ela perceber.
— É. Ele me esperou depois da aula hoje para poder me contar. Ele disse... — Margot riu com pesar. — Ele disse que eu sou a garota dos sonhos dele. Dá para acreditar?
— Uau — falei, e tentei demonstrar felicidade, mas não sei se consegui. Tudo que eu sentia era desespero. E ciúme. Um ciúme tão denso e negro que achei que ia sufocar. Então, tentei de novo, dessa vez com um sorriso. — Uau, Margot!
— Uau! — repetiu Kitty. — Então vocês estão namorando?
Eu prendi a respiração enquanto esperava a resposta.
Margot pegou um pouco de parmesão com os dedos e colocou na boca.
— É, acho que sim.
Então sorriu, e seus olhos ficaram calorosos e brilhantes. Foi quando entendi que ela também gostava dele. Muito.
Naquela noite, escrevi minha carta para Josh.
Querido Josh...
Chorei muito. De repente, acabou. Acabou antes mesmo de eu ter uma chance.
O importante não era Josh ter escolhido Margot. Era Margot tê-lo escolhido.
E foi isso que aconteceu. Chorei até meus olhos ficarem inchados; escrevi a carta; deixei a história toda para trás. Não penso nele desse jeito desde então. Ele e Margot são almas gêmeas. Foram feitos um para o outro.

* * *

Ainda estou acordada quando Margot volta para a cama, mas fecho os olhos e finjo dormir. Kitty está aconchegada ao meu lado.
Ouço alguém fungar e espio Margot com um olho. Ela está de costas para nós; os ombros tremendo. Ela está chorando.
Margot nunca chora.
Agora que vi Margot chorar por ele, acredito mais do que nunca: ainda não acabou.

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