20 de abril de 2018

Capítulo 5

Arcturo fincou sua adaga em uma fenda na beira do caixote e alavancou. A madeira rangeu sob a pressão, então os pregos cederam e a tampa caiu no chão.
Um rosnado baixo veio de dentro antes de Sacarissa saltar para fora. Seus pelos estavam eriçados e ela rosnava, girando em círculo para inspecionar seus arredores. Foi somente quando avistou Arcturo que ela se acalmou, farejando seus pés antes de lamber a mão dele com a língua úmida e áspera.
— Está tudo bem, menina. Os Faversham não nos machucarão aqui. Não se eu puder evitar. — Arcturo ergueu sua adaga de modo que pudesse ver a lâmina, então a colocou de volta na bainha em sua bota.
Uma nuvem passou sobre a lua, lançando o pátio em uma mortalha de escuridão. Arcturo mal conseguia distinguir as portas, mas foi tropeçando escada acima mesmo assim, as mãos esticadas à frente. Sacarissa seguiu atrás dele, batendo em suas canelas na tentativa de se manter próxima.
Antes que ele pudesse bater nas portas, elas se abriram inesperadamente. O lado de dentro estava iluminado e ele protegeu os olhos enquanto uma figura saía pela porta, brandindo uma tocha. Arcturo engasgou quando seus olhos se ajustaram à claridade. Era um anão!
É claro, Arcturo já tinha ouvido falar nos anões, apesar de eles raramente serem vistos ao norte de Hominum, onde ele crescera. Este parecia quase exatamente como ele havia imaginado, parado ali na altura da sua cintura. O anão era robusto, como todos de seu povo, com cabelos longos e ruivos presos em um rabo de cavalo, bigode e barba trançados. Ele vestia um uniforme simples de criado — verde liso, com uma faixa vermelha no meio.
— Bem-vindo à Vocans, meu senhor — o anão disse em uma voz profunda e respeitosa. — Por favor, entre e saia do frio.
Arcturo fez como solicitado, sem falar nada. Sacarissa deu uma fungada suspeita no anão antes de entrar, então sentou protetoramente ao lado de Arcturo.
— Vejo que já tem um Canídeo. Uma bela espécie, se me importa dizer. — O anão ergueu um dedo fino e calejado para que o demônio cheirasse. Sacarissa rosnou desdenhosamente e balançou a cauda, então caminhou para dentro do castelo.
O cômodo em que eles estavam era um saguão enorme, com duas escadarias idênticas de cada lado. Elas tinham paradas em cada andar até chegar ao quinto, cada uma delas com um comprido terraço contornado por grades douradas de metal. O teto era sustentado por vigas gigantes de carvalho, e Arcturo podia ver uma cúpula de vidro bem no centro, permitindo que luz natural iluminasse o local durante o dia. Em volta havia tochas nas paredes lançando poças de luz tremulantes que faziam com que o chão de mármore se assemelhasse com o balanço das águas.
— Nós chamamos este cômodo de átrio. Lindo, não é mesmo? — o anão disse orgulhosamente.
— É sim — concordou Arcturo.
No final do saguão havia outro conjunto de portas, tão largas quanto aquelas atrás dele. Mas foi o arco acima delas que lhe tirou o fôlego, pois era elaboradamente esculpido com a mistura de centenas de demônios esculpidos. Seus olhos eram uma miríade de joias resplandecentes, e as sombras tremulantes das tochas faziam com que as criaturas parecessem vivas. Ele tentou avistar um Canídeo como Sacarissa entre eles, mas era quase impossível, dada as incontáveis espécies que estavam trabalhadas naquela pedra.
— Bem, vamos lá. Devo levá-los aos seus aposentos. A maioria dos outros nobres já está dormindo, mas você terá uma chance de encontrá-los pela manhã. Possui bagagem, meu senhor? — o anão perguntou.
— Nenhuma bagagem — Arcturo respondeu, se virando para mostrar ao anão sua mochila. — Mas espere um pouco, eu não sou...
— Siga-me. — O anão interrompeu, antes que Arcturo pudesse terminar.
O anão o guiou pela escada leste, erguendo a tocha para iluminar o caminho. Eles continuaram até o último andar, ainda que Arcturo conseguisse ter alguns vislumbres de tapeçarias e pinturas quando passavam em cada andar. Ele ficou decepcionado ao encontrar as paredes relativamente vazias quando finalmente saíram da escada e seguiram por um longo corredor, mas estava fascinado com as armaduras que enfileiravam o caminho. A presença esporádica de uma couraça quebrada ou um capacete amassado revelavam que eles haviam batalhado um dia, e ele percebeu, engolindo em seco, que ele poderia um dia encontrar as criaturas que haviam marcado as armaduras. Sacarissa sentiu seu medo e começou a choramingar, mas ele a acalmou coçando atrás de suas orelhas.
— Comunicarei o reitor sua chegada. Seu uniforme está na cama, apesar de eu saber que a maioria de vocês gosta que um alfaiate faça um novo. De qualquer maneira, está lá se precisar. Caso queira algo mais, chame por mim, Ulfr. Farei o meu melhor para atendê-lo. — Antes que Arcturo pudesse abrir a boca, Ulfr o colocou para dentro do quarto e fechou a porta atrás de si.
O quarto era enorme; quase do tamanho do estábulo em que Arcturo havia trabalhado, com o teto alto e um candelabro aceso com um círculo de velas finas. As paredes eram alinhadas com toldos vermelhos e dourados, e o carpete sob seus pés era felpudo, branco e macio, onde Sacarissa imediatamente começou a rolar, esfregando a cabeça contra o tecido.
A cama king size era com dossel, com um colchão tão grosso e macio que seria difícil subir nele. Arcturo não perdeu tempo em pular ali, deleitando-se com os lençóis sedosos de cetim.
— Suba, Sacarissa. Há lugar para nós dois — Arcturo riu, batendo no espaço ao seu lado. Sacarissa latiu de contentamento, subindo na cama com um salto fluído. Suas patas esbarraram no uniforme na ponta da cama, e Arcturo o ergueu para inspecioná-lo.
— Chique — Arcturo murmurou.
O casaco era trespassado, feito de um veludo azul escuro e com botões dourados e brilhantes. Parecia chamativo demais para ser um uniforme militar, mas Arcturo não era um especialista e as roupas de Elizabete eram somente um ornamento. Ele deixou que seus pés caíssem para fora da cama e se despiu, antes de colocar o uniforme. Ele ficou surpreso ao ver que lhe servia muito bem e que o material era tão macio quanto os lençóis da cama.
— Eu poderia me acostumar com isso — ele murmurou, coçando o queixo de Sacarissa. A vida não era tão má, afinal.
O eco de passos vindo do lado de fora interrompeu seus pensamentos, então a porta se abriu. Desta vez, não era um anão.
Um homem estava parado na porta, tão alto e musculoso que ele teve que se abaixar para entrar. Estava resplandecente em seu uniforme vermelho de general, com dragonas militares nos ombros e fileiras de medalhas no peito. Seu cabelo era loiro cacheado, caindo sobre os ombros como uma auréola capilar. O homem sorria quando entrava no quarto, mas assim que avistou Arcturo, ele congelou. Seu rosto era bonito, as feições pareciam esculpidas em pedra, com a mandíbula quadrada, mas se tornou feio enquanto se transformava em uma careta furiosa.
— Ulfr! — o homem gritou, fechando as mãos em punhos. — Venha aqui, imediatamente.
— O que houve, Lorde Forsyth? — Ulfr perguntou, correndo apressadamente até seu lado. Ele manteve seus olhos baixos e fez uma reverência quando Forsyth se virou para ele.
— Por que este plebeu está no quarto de Charles Faversham? — A voz de Forsyth era baixa e ameaçadora.
— Ele é... mas ele... — Ulfr gaguejou, seus olhos pulando nervosamente de Arcturo para Forsyth.
— Mas nada! — Forsyth rosnou, agarrando o anão pela barba e o erguendo até que ficasse na ponta dos pés.
— Espere um minuto — Arcturo interveio, ficando de pé. — Eu não disse a ele quem eu era...
— Lidarei com você em um minuto — Forsyth falou com rispidez, seus olhos cinzentos brilhando com raiva.
Arcturo ficou em silêncio, sem palavras. O veneno na voz do homem havia lhe deixado gelado por dentro.
— Meu senhor, foi um engano. O senhor me disse que Charles chegaria esta noite, então presumi... — sua voz foi diminuindo a intensidade.
— Você presumiu que este garoto de rua imundo era o filho e herdeiro de lorde e lady Faversham? — lorde Forsyth perguntou, erguendo ainda mais o anão.
Subitamente ele bateu na cabeça do anão, grunhindo com o esforço. Houve um barulho repugnante do punho contra o crânio e Ulfr se estatelou no carpete.
— Ei! — Arcturo gritou, correndo em direção a Ulfr.
O soco teria feito qualquer ser humano desmaiar, mas o anão só ficou atordoado por um instante, antes de baixar a cabeça em suas mãos.
— Um imbecil e um meio-homem. Apesar de as duas características geralmente andarem juntas. — Forsyth gargalhou, esfregando seus punhos. Arcturo reconheceu o termo racista “meio-homem” e se sentiu enojado. Sacarissa deu um rosnado baixo quando sentiu sua ira e foi em direção a Forsyth, mas Arcturo a acalmou com um pensamento. Ele não queria piorar a situação.
— Quando recuperar a consciência, se é que possui alguma, leve o plebeu para o cômodo vazio no topo da torre noroeste — Forsyth exigiu. Ele saiu do quarto sem olhar para trás.
— Você está bem? — Arcturo perguntou, tentando erguer Ulfr.
— Saia de perto de mim, humano — o anão ladrou. Arcturo o soltou como se tivesse sido picado. — E vocês se perguntam por que os anões se rebelam contra vocês com tanta frequência. — Ulfr murmurou amargamente, esfregando a testa. Um grande galo já começava a se formar ao lado de sua cabeça.
Arcturo entendia o ódio que os anões sentiam pelos humanos, porque até mesmo ele sabia como os humanos haviam derrotado os anões milênios atrás, reduzindo-os a cidadãos de segunda classe em sua própria terra.
— Eu não sou como ele — Arcturo murmurou.
— Não há ninguém como Obadiah Forsyth — Ulfr retrucou, erguendo-se do chão. — Mas ele é o negro para o seu cinza. No fim, todos vocês estão manchados com o mal que é a condição humana.
Arcturo engoliu uma resposta e começou a recolher suas coisas. Ulfr já estava saindo do quarto quando ele terminou.
— Espero que haja uma cama onde nós estamos indo — Arcturo falou, arrastando uma Sacarissa relutante atrás dele. Ela claramente não queria deixar o tapete macio do quarto de Charles.
— Tem todo o básico. É para onde o reitor manda os estudantes como punição caso não cumpram as regras. Confinamento solitário e tudo aquilo — Ulfr respondeu, subindo outro lance de escadas no final do corredor.
— O que é um reitor? — a voz de Arcturo ecoou pela escada.
— É como um diretor. Ele dirige a Academia, decide quem se forma e estabelece o programa de estudos. Pode-se dizer que ele é a maior autoridade em Vocans.
— Quando poderei conhecê-lo? — Arcturo perguntou.
Ulfr o ignorou e virou em uma câmara vazia com duas portas. Ele o levou até a da esquerda e eles entraram em um corredor estreito.
— Despensas — Ulfr grunhiu, apontando para as portas idênticas de cada lado. Ele abriu uma porta e mostrou a Arcturo um cômodo praticamente vazio, com uma cama estreita no canto, uma escrivaninha e um armário simples na parede oposta. Uma pequena fenda na parede permitia que uma rajada fria de vento entrasse no quarto e Arcturo sentiu o pelo em seus braços se arrepiar.
— Lar, doce lar. Se precisar de algo, guarde para si mesmo. Eu sou pago para servir os filhos dos nobres, não aberrações como você. Conjuradores plebeus. Não é natural! — Ulfr balançou sua cabeça e começou a se retirar.
— Eu quero contar ao Reitor quão miserável é o tratamento dos criados aqui. Quando vou conhecê-lo? — Arcturo perguntou novamente, com esperança de apaziguar a situação com o anão.
  Ulfr se virou e deu uma risada amarga.
— Você já o conheceu. O reitor é Obadiah Forsyth.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!