16 de abril de 2018

Capítulo 52

O FESTIVAL DE biscoitos de Natal começa no dia primeiro de dezembro.
Pegamos todos os livros e revistas de receitas de mamãe, os espalhamos no chão da sala e colocamos o CD de Natal do Charlie Brown para tocar. Nenhuma música natalina é permitida na nossa casa antes do mês de dezembro. Não lembro quem inventou essa regra, mas sempre a seguimos. Kitty tem uma lista de biscoitos que vamos fazer com certeza e outros que talvez façamos. Alguns são recorrentes. Meu pai adora meias-luas de noz-pecã, então temos que fazer esse. Biscoitos amanteigados, porque no Natal esses não podem faltar. Biscoitos de canela para Kitty, biscoitos de melado para Margot, biscoitos de gotas de chocolate para mim. De chocolate branco com cranberry é o favorito de Josh. Mas acho que este ano deveríamos fazer diferente e escolher outros biscoitos. Não completamente, mas com pelo menos alguns novos.
Peter está aqui; ele veio depois da aula para estudar química. Nós já terminamos há horas, e ele ainda está aqui. Ele, Kitty e eu estamos na sala vendo os livros de receitas. Meu pai está na cozinha ouvindo as notícias no rádio e preparando o almoço de amanhã.
— Por favor, chega de sanduíches de peru — grito.
Peter cutuca minha meia e diz, apenas com movimentos labiais: mimadas. Ele aponta para mim e para Kitty e balança o dedo.
— Nem ligo. Sua mãe faz seu almoço todos os dias, então cala a boca — sussurro.
— Ei, também estou cansado de sobras, mas o que vamos fazer? Jogar fora? — responde meu pai da cozinha.
Kitty e eu nos entreolhamos.
— Exatamente.
Meu pai tem um problema com desperdício de comida. Eu me pergunto se ele repararia se eu fosse escondida até a cozinha durante a noite e jogasse tudo fora. Provavelmente sim.
— Se tivéssemos um cachorro — fala Kitty em voz alta —, não haveria mais sobras.
Ela pisca para mim.
— Que raça de cachorro você quer? — pergunta Peter.
— Não dê esperanças a ela — digo, mas Peter faz sinal para eu não interferir.
Na mesma hora, Kitty diz:
— Um akita. Com pelo marrom-claro e rabo feito um pãozinho de canela. Ou um pastor alemão, que posso treinar para que seja cão-guia.
— Mas você não é cega — diz Peter.
— Mas posso ficar.
Sorrindo, Peter balança a cabeça. Ele me cutuca de novo e, com admiração, diz:
— Não dá para discutir com essa garota.
— É inútil, mesmo. — Eu ergo uma revista para mostrar a Kitty. — O que você acha? Biscoito recheado com creme?
Kitty anota na lista dos “talvez”.
— Ei, e esse?
Peter empurra um livro para o meu colo. Está aberto em uma receita de biscoito de frutas cristalizadas.
Eu finjo ânsia de vômito.
— Você está de brincadeira? Está, não está? Biscoito de frutas cristalizadas? É nojento.
— Quando preparado direito, fica delicioso — defende Peter. — Minha tia-avó Trish fazia um bolo de frutas cristalizadas, colocava sorvete em cima e ficava incrível.
— Qualquer coisa fica boa com sorvete em cima — interrompe Kitty.
— Não dá para discutir com essa garota — digo, e Peter e eu trocamos sorrisos por cima da cabeça de Kitty.
— É verdade, mas esse não era um bolo de frutas cristalizadas qualquer. Não é como um pão molhado cheio de jujubas néon. Tem noz-pecã, cerejas e mirtilos secos e coisas gostosas. Acho que ela chamava o bolo de “Memória de Natal”.
— Adoro essa história! — exclamo. — É minha favorita. É tão boa, mas tão triste. — Peter e Kitty parecem intrigados, então explico: — “Memória de Natal” é um conto de Truman Capote. É sobre um garoto chamado Buddy e sua prima mais velha, que cuidava dele quando ele era pequeno. Eles guardavam dinheiro o ano todo para fazer um bolo de frutas cristalizadas no Natal, depois mandavam de presente para os amigos, mas também para gente importante, como o presidente.
— E por que é tão triste? — pergunta Kitty.
— Porque eles eram melhores amigos e se amavam mais do que tudo, mas, no fim, acabam sendo separados, porque a família achava que ela não cuidava dele direito. E talvez não cuidasse mesmo, mas isso não importa, porque ela era a alma gêmea dele. A menina morre no fim, e Buddy nem pôde se despedir dela. É baseado em uma história real.
— Que deprimente — diz Peter. — Esquece os biscoitos de frutas cristalizadas.
Kitty risca os biscoitos da lista.
Estou folheando uma edição velha da revista Good Housekeeping quando a campainha toca. Kitty se levanta e corre para atender.
— Veja quem é antes de abrir!
Ela sempre esquece.
— Josh! — Eu a ouço gritar.
Peter levanta a cabeça.
— Ele veio ver a Kitty — digo para ele.
— Ah, sei.
Josh entra na sala com Kitty pendurada no pescoço como um macaco.
— Oi — diz, olhando para Peter.
— E aí, cara — cumprimenta Peter, com o máximo de simpatia que consegue. — Senta aí.
Olho para ele de um jeito estranho. Um segundo atrás, ele estava resmungando, agora está todo simpático. Não entendo os garotos.
Josh levanta uma sacola de plástico.
— Trouxe de volta a caçarola.
— Josh? É você? — grita meu pai, da cozinha. — Quer um lanchinho? Um sanduíche de peru?
Tenho certeza de que ele vai dizer não, porque já deve ter comido tantos sanduíches de peru na casa dele quanto nós aqui, mas ele responde:
— Claro!
Josh se solta de Kitty e se senta no sofá.
— Festival de biscoitos de Natal? — pergunta para mim.
— Festival de biscoitos de Natal — confirmo.
— Você vai fazer meu favorito, não é?
Josh faz a cara de cachorro pidão que sempre me faz sorrir por não combinar nada com ele.
— Você é muito bobo — digo, balançando a cabeça.
— Qual é seu favorito? — pergunta Peter. — Porque acho que a lista está fechada.
— Tenho quase certeza de que já está na lista — diz Josh.
Eu olho de Josh para Peter. Não consigo dizer se eles estão brincando ou não. Peter estica a mão e faz cócegas nos pés de Kitty.
— Leia a lista, Katherine.
Kitty ri e rola até o bloco. Em seguida, fica de pé e declama cheia de pompa:
— Biscoitos de M&M, sim. Biscoitos de cappuccino, talvez. Biscoitos de creme, talvez. Biscoitos de frutas cristalizadas, de jeito nenhum...
— Espera um minuto, eu também faço parte desse conselho — protesta Peter — e vocês descartaram meu biscoito de frutas cristalizadas sem pensar duas vezes.
— Você disse para esquecer os biscoitos de frutas cristalizadas, tipo, cinco minutos atrás! — exclamo.
— Ah, mas agora quero que voltem a ser considerados.
— Lamento, mas você é voto vencido — respondo. — Kitty e eu votamos que não, então são dois contra um.
A cabeça de meu pai aparece na sala.
— Pode contar meu voto como sim para os biscoitos de frutas cristalizadas.
A cabeça dele volta a desaparecer na cozinha.
— Obrigado, dr. Covey. — Peter me puxa mais para perto. — Está vendo, eu sabia que seu pai estava do meu lado.
Eu dou uma gargalhada.
— Você é tão puxa-saco!
Nessa hora, olho para Josh, que está nos observando com uma expressão engraçada, como se se sentisse excluído. Isso faz eu me sentir mal. Eu me afasto de Peter e começo a folhear os livros de novo.
— A lista ainda está em construção — digo para Josh. — O conselho dos biscoitos vai considerar com carinho seus biscoitos de chocolate branco com cranberry.
— Agradeço profundamente — responde ele. — O Natal não é Natal sem seus biscoitos de chocolate branco com cranberry.
— Ei, Josh, você também é puxa-saco! — exclama Kitty, alegre.
Josh a agarra e faz cócegas até ela ficar com lágrimas nos olhos de tanto rir.

* * *

Depois que Josh vai embora e Kitty sobe as escadas para ver tevê, arrumo a sala, e Peter fica deitado no sofá me olhando.
Fico achando que ele vai embora, mas ele não vai.
— Você se lembra do Halloween, quando você estava fantasiada de Cho Chang e o Sanderson de Harry Potter? — comenta Peter, do nada. — Aposto que não foi coincidência. Aposto um milhão de dólares que ele mandou a Kitty descobrir sua fantasia e correu para comprar uma de Harry Potter. O cara está a fim de você.
Fico paralisada.
— Não está. Ele ama minha irmã. Sempre amou e sempre vai amar.
Peter balança a mão, como se isso não tivesse importância.
— Espere só. Assim que terminarmos, ele vai armar uma situação brega, tipo, uma serenata, para confessar o amor que sente por você. Acredite em mim, sei como os caras pensam.
Arranco a almofada na qual ele está apoiado e coloco na espreguiçadeira.
— Minha irmã vem para casa no Natal. Eu aposto um milhão de dólares que eles vão voltar.
Peter estica a mão para eu apertar e, quando a seguro, ele me puxa para o sofá. Sento ao seu lado, e nossas pernas se tocam.
Ele está com um brilho malicioso nos olhos, e penso que talvez vá me beijar, e fico com medo, mas também ansiosa. Mas ouço Kitty descendo as escadas, e o momento passa.

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