16 de abril de 2018

Capítulo 51

NO DIA DE Ação de Graças, papai limpa o peru para mim e sai para buscar nossa avó coreana, que mora a uma hora de distância, em uma comunidade de aposentados com um monte de outras avós coreanas. A mãe de meu pai, Nana, vai passar o dia com a família do namorado. Não me importo, porque sei que ela não teria nada de bom para dizer sobre a comida.
Faço um prato de vagem com raspas de laranja e dill, em um esforço sincero para ser moderna e criativa. Nomeio Kitty como experimentadora, e ela come um pedaço de vagem e diz que está com gosto de picles de laranja.
— Por que não podemos comer caçarola de vagem com anéis de cebola fritos? — pondera Kitty.
Ela está cortando penas coloridas para os jogos americanos no formato de peru que vai fazer.
— Porque estou tentando ser moderna e criativa — digo enquanto coloco uma lata de molho na frigideira.
— Mesmo assim vamos ter caçarola de brócolis? — pergunta Kitty, em dúvida. — As pessoas gostam disso.
— Você está vendo brócolis em algum lugar da cozinha? — pergunto. — Não, o verde desta refeição é a vagem.
— E purê de batata? Ainda vamos ter purê de batata, não é?
Purê de batata. Dou uma olhada na despensa. Esqueci as batatas. Comprei leite integral, manteiga e até um pouco de cebolinha para jogar por cima, como Margot sempre faz. Mas me esqueci das batatas.
— Liga para o papai e pede para ele comprar batatas no caminho de casa — digo enquanto fecho a porta da despensa.
— Não posso acreditar que você se esqueceu das batatas — diz Kitty, e balança a cabeça.
Eu olho para ela com irritação.
— Concentre-se no seu jogo americano.
— Não, porque se eu não tivesse perguntado sobre o purê de batata, a refeição estaria arruinada, então você deveria me agradecer.
Kitty se levanta a fim de ligar para papai.
— A propósito, esses perus mais parecem o logo de pavão da NBC do que perus de verdade! — grito.
Kitty não se deixa afetar, e como um pedaço de vagem. Está mesmo com gosto de picles de laranja.

* * *

Acabo assando o peru de cabeça para baixo. Além disso, Kitty ficou enchendo o saco por causa de salmonela, porque viu um vídeo sobre isso na aula de ciências, então acabo deixando-o no forno por tempo demais. O purê de batata fica bom, mas tem uns pedaços meio duros aqui e ali porque cozinhei as batatas em cima da hora.
Estamos sentados à mesa de jantar, e os jogos americanos de Kitty dão um toque especial.
Vovó está comendo um monte de vagem, e lanço um olhar triunfante para Kitty. Está vendo? Alguém gostou.
Depois que mamãe morreu, houve um tempo em que vovó veio morar conosco para ajudar a tomar conta das netas. Houve até uma conversa sobre ela ficar indefinidamente. Ela achava que papai não ia dar conta de nós três sozinho.
— Então, Danny — começa vovó.
Kitty e eu trocamos um olhar por cima da mesa porque sabemos o que vem em seguida.
— Você anda saindo com alguém? Tem encontros?
Meu pai fica vermelho.
— Er... não muito. Meu trabalho me deixa muito ocupado...
Vovó estala a língua.
— Não é bom para um homem ficar sozinho, Danny.
— Tenho minhas garotas para me fazer companhia — responde meu pai, tentando parecer jovial, e não tenso.
Vovó lança um olhar gelado para ele.
— Não é isso que quero dizer.
Quando estamos lavando a louça, vovó me pergunta:
— Lara Jean, você se importaria se seu pai tivesse uma namorada?
É uma coisa que Margot e eu discutimos muitas vezes ao longo dos anos, quase sempre no escuro, tarde da noite. Se papai arrumasse uma namorada, com que tipo de mulher gostaríamos de vê-lo? Alguém com senso de humor, de coração gentil, todas as coisas de sempre. Alguém que fosse firme com Kitty, mas não a sufocasse tanto que acabasse reprimindo tudo que ela tem de especial. Mas também alguém que não tentasse ser nossa mãe; nesse ponto Margot era mais firme. Kitty precisa de uma mãe, mas ela diz que nós somos velhas o bastante e que não precisamos mais.
De nós três, Margot era a mais crítica. Ela é incrivelmente leal à memória de mamãe. Não que eu não seja, mas houve ocasiões ao longo dos anos em que pensei no quanto seria legal ter alguém. Alguém mais velho, uma mulher, que soubesse certas coisas, tipo o jeito certo de passar blush ou como jogar charme para se livrar de uma multa por excesso de velocidade.
Coisas para o futuro. Mas nunca aconteceu. Papai saiu com algumas mulheres, mas não teve nenhuma namorada firme a ponto de apresentá-la para nós. E isso sempre foi uma espécie de alívio, mas, agora que estou ficando mais velha, fico pensando em como vai ser quando eu for embora e só ficarem Kitty e papai e, depois de um tempo, só papai. Não quero que ele fique completamente sozinho.
— Não — digo. — Eu não me importaria nem um pouco.
Vovó me olha com aprovação.
— Boa menina — diz ela, e me sinto feliz e acalorada por dentro, como eu me sentia depois de uma xícara do chá que minha mãe fazia quando eu não conseguia pegar no sono. Papai já fez isso algumas vezes, mas o gosto nunca foi igual, e nunca tive coragem de dizer a ele.

6 comentários:

  1. Acho q vai dar muita treta quando o pai dela arrumar uma namorada..

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  2. Só falta agr o pai dela começar a sair com a mãe do Peter ou rolar algo entre ele e a mãe do Josh, já sinto o drama familiar digno do 'Casos de Família' só de imaginar.

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  3. Credo a mãe do Josh é casada prefiro a do Peter

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    Respostas
    1. Também tinha pensado nisso qdo vi que a mãe dele era sozinha, mas aí os dois seriam praticamente "irmãos" e não seria legal eles ficarem juntos...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!