20 de abril de 2018

Capítulo 4

O mundo espalhava-se abaixo de Arcturo como uma colcha de retalhos, os campos de colheita dividindo a terra em quadrados verdes, amarelos e marrons. A cada batida de asas do Periton, o banco de nuvens brancas e felpudas acima deles se aproximava. Logo eles estavam na névoa, cercados por uma bruma do mais puro branco que Arcturo já vira. Ele se alegrou no ar frio, abrindo sua boca para capturar gotas em sua língua. Tudo acabou muito rápido, pois eles saíram do outro lado para a luz brilhante do sol momentos depois.
— Você tem um aperto forte aí, garoto! — Tenente Cavendish riu, antes de estalar a língua para Hubertus. O Periton desacelerou, até que eles ficaram suspensos sobre as nuvens, subindo e descendo com cada batida de asas.
— Desculpe — exalou Arcturo, percebendo que espremia o diafragma dela. Ele relaxou seu aperto e encarou a formação de nuvens ao seu redor. Era como se flutuassem acima de um mar de algodão, macio e acolhedor como um colchão de plumas. Ele tinha uma compulsão insana de mergulhar neles, mas uma fenda revelando o chão bem longe lá embaixo lembrou-o de onde estava.
— Você vai se acostumar — disse Tenente Cavendish por cima do ombro. — Na primeira vez que voei, vomitei pelo lado.
— Queria que não tivesse dito isso. — Arcturo gemeu, sentindo seu estômago embrulhando-se repentinamente. Ele não era o único se sentindo mal, podia sentir a náusea do demônio conforme sua caixa balançava para lá e para cá, e a fome que apertava sua barriga não ajudava.
A tenente se virou em seu assento e lançou um sorrisinho.
— Sabe, nós viajaremos juntos pelo resto do dia, podemos muito bem nos conhecer. Meu nome é Elizabete Cavendish, e o seu?
— Arcturo, é um prazer conhecê-la — disse Arcturo, estendendo a mão e balançando a dela desajeitadamente. Ele hesitou, e então perguntou. — Você é muito jovem para ser uma oficial, não é?
— Olha só, como é direto! — ela riu, tirando o cabelo do rosto. — Na verdade, eu acabei de me graduar na Vocans, então tenho vinte anos. Todos os graduados tornam-se oficiais, mas eu sou apenas uma Segunda Tenente, o posto mais baixo possível. Estou feliz com isso, para ser honesta, com o bebê a caminho. Quanto menos responsabilidade, melhor!
— Você vai ter um bebê? Não deveria estar descansando, em vez de lutando no exército? — perguntou Arcturo.
— Que besteira — ela zombou, dando um cutucão nele. — Talvez em alguns meses, irei para casa quando estiver boa e pronta, muito obrigada! É claro, a maioria dos nobres da minha idade tem filhos assim que se forma, se não antes, então o exército é bem compreensivo.
— Qual é a pressa? — perguntou Arcturo.
— Você não sabe de nada? — Elizabete deu um tapa na própria testa. — Eu fico esquecendo que você é apenas um plebeu. Um negócio muito estranho, você terá que me atualizar no caminho.
Arcturo eriçou-se na palavra “apenas”, mas a perdoou por isso quase instantaneamente. De todos os nobres que tinha conhecido, ela era de longe a mais legal, e não quis ofender.
— Nobres têm filhos cedo porque só os nossos primogênitos têm a garantia de herdar a habilidade de invocar, assim como a nossa propriedade. Se eu morresse em batalha amanhã, a linhagem Cavendish se extinguiria para sempre! Melhor deixar um sucessor, por via das dúvidas. Felizmente para mim, o Corpo Celeste é um trabalho bem seguro no momento. Nós fazemos um pouco de reconhecimento, mantemos um olho nas fronteiras de Hominum, evitamos os ocasionais dardos dos orcs aqui e ali. Coisa bem simples.
Fazia muito sentido, mas fez com que Arcturo quase sentisse pena dos nobres. Imagine ter que casar tão jovem, mesmo que não tenha conhecido a sua alma gêmea ainda!
Como se pudesse ler a sua mente, Elizabete sorriu e abriu um medalhão em formato de coração que estava pendurado em seu pescoço. Uma pequena pintura de um homem bonito, de cabelos claros, estava lá.
— Eu fui uma das sortudas. Encontrei o amor da minha vida bem cedo. Ele era um criado na Vocans e um plebeu, como você. Você é provavelmente a única pessoa que não vai me julgar por isso. É costume que os primogênitos nobres casem-se com o segundo ou terceiro filho de outra casa nobre. Já causou bastante controvérsia na academia, posso dizer. Acho que tenho sorte por você ir para Vocans agora. Talvez eles tenham outra coisa para fofocar.
Até onde Arcturo sabia, casamento com um plebeu não tinha precedentes. Por um lado ele estava feliz, pois significava que talvez nem todos os nobres vissem os plebeus como os Faversham. Ao mesmo tempo, a conversa de Elizabete sobre fofoca o deixou ansioso sobre como ele seria recebido na academia.
— Vamos lá, nós temos muito chão a cobrir se queremos chegar lá antes do pôr do sol. Você pode me contar a sua história no caminho.
Eles voaram e voaram, a infinita formação de nuvens quebradas por vislumbres do chão abaixo. Arcturo tentou não olhar para o chão, pois o balanço das asas do Periton fez seu estômago se agitar. Em vez disso, ele se distraiu contando sua história para Elizabete.
Ele se viu voltando até a sua infância, dos primeiros anos de fome e árduo trabalho no reformatório, as infinitas surras e abuso nas mãos do estalajadeiro.
Elizabete falou muito pouco, mas ele sabia que ela estava escutando porque ocasionalmente o interrompia para pedir que descrevesse algo mais detalhadamente. Ela estava tão fascinada pela vida dele quanto ele estava pela dela, e ele suspeitou que ela não estivesse ciente da difícil situação que os órfãos de Hominum encaravam, apesar de seu marido plebeu. Por um momento ele pensou ter visto uma lágrima escorrer por seu rosto, mas se era pelo vento severo que os atingia ou por suas palavras, ele não sabia.
Conforme o pôr do sol lançava um brilho róseo sobre o banco de nuvens e Hubertus começava a descer, Arcturo chegou ao fim de sua história. De alguma forma, foi bom ter botado tudo para fora. Ele percebeu que ela provavelmente sabia mais sobre ele que qualquer outro no mundo.
Ele estava prestes a perguntar onde Vocans ficava, mas sua boca se escancarou, sem palavras, quando a paisagem se tornou visível. Quatro torres com ameias se estendiam pelo céu em cada canto de um vasto e sombreado castelo. Era um quadrado perfeito, com um pátio em forma de crescente cercado por altas muralhas. Uma faixa de água turva e escura o cercava; um fosso que só podia ser cruzada por uma pesada ponte levadiça. Na fraca luz do crepúsculo, Arcturo podia ver centenas de luzes brilhando por trás de janelas estreitas. Era uma construção gigante, maior do que qualquer outra que ele já tinha visto, tão vasta e sólida quanto uma montanha.
Eles planaram habilmente no pátio, circulando até que pousaram nos paralelepípedos. Arcturo sentiu o alívio de seu demônio quando a caixa encostou no chão atrás deles.
Meia dúzia de degraus conduziam a um conjunto de grossas portas duplas de carvalho, maiores e mais largas que dez homens. Atrás deles, uma guarita arqueada agigantava-se, sombreando a ponte levadiça abaixo.
— Eu não posso ficar muito tempo, Arcturo — disse Elizabete, desamarrando a guia de couro da caixa do seu demônio. — Mas tenho alguns conselhos. Não confie em ninguém, nem mesmo em seus professores, porque eles são farinha do mesmo saco que os estudantes. Estude muito e tire vantagem de todas as oportunidades que tiver – os nobres o respeitarão apenas se você for melhor do que eles. E mesmo assim, alguns vão te odiar. Mas é melhor ser odiado e respeitado do que ser a presa deles.
— Farei isso, tenente Cavendish. — Disse Arcturo, abaixando sua cabeça em deferência.
Ela fez pouco caso do gesto e levantou seu queixo.
— Mantenha seu queixo erguido e trate as pessoas do mesmo modo como for tratado. Sua vida antiga acabou. Forje sua alma nos fogos da Academia Vocans.
Os olhos dela queimaram nos dele, e ele sabia que cada palavra era honesta. Ele endureceu sua mandíbula e acenou.
— Não deixarei que me pressionem. Eu tenho meu demônio agora.
— Qual é nome dela? — ela perguntou, apontando para caixa ao lado.
— Eu não pensei em um ainda.
— Bom, você vai precisar de um. Traz má sorte deixar um demônio sem nome por muito tempo.
Arcturo foi pego de surpresa. Ele quebrou a cabeça tentando pensar em um nome feminino para o seu demônio. As mulheres de sua vida raramente foram gentis com ele, pois as serventes da taverna tinham seus próprios problemas para lidar e a esposa do estalajadeiro era tão cruel quanto seu marido.
Mas tinha uma. Sacarissa uma menina de rua magricela, abandonada por seus pais quando eles não podiam mais sustentá-la. Arcturo a colocara debaixo de sua asa, ensinando as argúcias do reformatório. Eles passavam suas noites juntos, compartilhando calor corporal em suas camas congelantes e falando sobre as vidas que teriam quando estivessem mais velhos. Mas não era para ser. Ela havia morrido de pneumonia um ano depois.
— Sacarissa — Arcturo sussurrou. Ele sentiu o ardor de lágrimas em seus olhos, mas as limpou, furioso consigo mesmo.
— É um bom nome — disse Elizabete gentilmente. Ela o deixou ter um momento para organizar suas emoções, e então falou de novo. — Eu tenho uma sensação que você precisará de uma arma — ela disse, procurando em uma bolsa na parte de trás da cela. Ela tirou uma lâmina, ainda embainhada. A bainha era linda, a borda exterior incrustada com ouro e o couro gravado com espirais e símbolos de um conjurador. Ela se ajoelhou a seus pés e a prendeu na sua bota esquerda, pois vinha com duas faixas de couro anexadas. Arcturo ouviu o raspar de metal enquanto Elizabete sorria para ele e retirava a lâmina. Era longa demais para ser uma adaga e pequena demais para ser uma espada, mas era firme em seu aperto quando ela a entregou. Ele treinou um corte, sentindo o equilíbrio da arma.
— Isto é um punhal. Quando se batalha com um demônio órquico no céu, você precisa de uma lâmina grande o suficiente para causar dano, mas manobrável e com velocidade o bastante para se defender de todos os lados; um ataque pode vir de qualquer ângulo. Esta é a conciliação perfeita. Para um garoto jovem como você, servirá bem.
Ela montou em Hubertus e ele encarou sua arma. Era uma peça cara, bela em seu design e afiada o suficiente para cortar.
Ele só percebeu que ela estava indo embora quando sentiu a brisa das batidas de asas do Hubertus em seu rosto.
— Há grandeza em você, Arcturo — gritou Elizabete, sua voz quase tomada pelo vento. — Lembre-se do que eu lhe falei!
Arcturo assistiu enquanto ela desaparecia na escuridão do céu, desejando tê-la agradecido. Então ele firmou seu maxilar e se virou para as portas duplas.
— Bem — ele disse, colocando sua mão na caixa ao seu lado. — Vamos lá.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!