16 de abril de 2018

Capítulo 45

SE EU NÃO for ao mercado hoje, teremos que comer ovos mexidos no jantar.
De novo.
O carro de Margot chegou do conserto e está parado na entrada da garagem há algumas semanas. Eu poderia ir ao mercado se quisesse. E quero. Mas não quero dirigir. Se eu já ficava nervosa antes, o acidente só deixou tudo pior. Por que eu tenho que me meter a ficar atrás de um volante? E se eu machucar alguém? E se machucar Kitty ? Não deviam dar carteira de habilitação com tanta facilidade. Um carro é uma coisa muito perigosa. É praticamente uma arma.
Mas o mercado fica a menos de dez minutos. Eu nem preciso pegar a rodovia. E realmente não quero comer ovos mexidos no jantar de novo. Além do mais... se Peter e Genevieve voltarem, ele não vai mais me dar carona. Preciso fazer isso sozinha.
Não posso ficar dependendo de outras pessoas.
— Vamos ao mercado, Kitty — digo.
Ela está deitada no chão em frente à tevê, apoiada nos cotovelos. Seu corpo parece mais comprido a cada dia. Em pouco tempo, ela vai estar mais alta do que eu. Kitty não afasta o olhar da televisão.
— Não quero ir. Quero ver tevê.
— Se você vier, deixo escolher o sabor do sorvete.
Kitty fica de pé.
No caminho, vou tão devagar que Kitty fica me dizendo qual é o limite de velocidade.
— Eles dão multa para quem anda muito abaixo do limite também, sabe.
— Quem falou isso?
— Ninguém. Eu sei. Aposto que vou dirigir melhor do que você, Lara Jean.
Seguro o volante com mais força.
— Aposto que vai.
Pestinha. Quando Kitty tirar a carteira, provavelmente vai andar em alta velocidade por aí, sem a menor preocupação com os outros. Mas é possível que, mesmo assim, dirija melhor do que eu. Um motorista descuidado é melhor do que um apavorado. Pode perguntar para qualquer um.
— Não tenho medo de tudo que nem você.
Eu ajusto o retrovisor.
— Você é muito orgulhosa.
— Só estou dizendo.
— Tem um carro vindo? Posso mudar de faixa?
Kitty vira a cabeça.
— Pode ir, mas vai logo.
— Quanto tempo eu tenho?
— Agora não dá mais. Espera... pode ir. Vai!
Passo para a pista da esquerda e olho no retrovisor.
— Bom trabalho, Kitty. Continue sendo meu segundo par de olhos.
Enquanto empurramos o carrinho pelo mercado, fico pensando na volta para casa e em ter que dirigir de novo. Meu coração ainda está disparado, mesmo quando estou tentando decidir se devíamos comer abobrinha ou vagem no jantar. Quando chegamos ao corredor de laticínios, Kitty já está reclamando.
— Você pode ir mais rápido? Não quero perder o próximo programa!
Para acalmá-la, digo:
— Vá pegar o sorvete.
Kitty sai correndo na direção da seção de congelados.

* * *

No caminho para casa, fico na pista da direita por vários quarteirões para não precisar trocar de faixa. O carro na minha frente é de uma senhora idosa, e ela se desloca na velocidade de uma lesma, o que para mim está ótimo. Kitty implora para trocarmos de faixa, mas eu a ignoro e continuo meu caminho. Minhas mãos apertam o volante com tanta força que os nós dos dedos estão brancos.
— O sorvete já vai ter derretido quando chegarmos em casa — reclama Kitty. — E perdi todos os meus programas. Você pode fazer o favor de ir para a pista rápida?
— Kitty! — grito. — Quer me deixar dirigir?
— Então dirija!
Eu me inclino para dar um tapa na cabeça dela, mas ela chega para perto da janela e não consigo alcançá-la.
— Você não consegue me tocar — cantarola com alegria.
— Pare de brincar e me ajude.
Um carro se aproxima pela direita, vindo disparado de uma saída da rodovia. Vai ter que entrar na minha pista daqui a pouco. Rapidamente, olho por cima do ombro na direção do ponto cego, para ver se posso mudar de faixa. Cada vez que preciso tirar os olhos da rua, mesmo que por um segundo, sinto um pânico intenso no peito. Mas não tenho escolha. Prendo a respiração e mudo de pista. Nada de ruim acontece. Expiro.
Meu coração fica acelerado durante todo o percurso. Mas conseguimos chegar em casa sem acidentes e sem ficarem buzinando para mim, o que já é uma pequena vitória. E o sorvete está ótimo, só um pouco derretido na parte de cima. Vai ficar cada vez mais fácil, acho. Eu espero. Só preciso continuar tentando.
Não posso suportar a ideia de Kitty debochando de mim. Sou a irmã mais velha. Tenho que ser alguém que ela admira, da mesma forma que admiro Margot. Como Kitty pode me admirar se eu for fraca?
Naquela noite, faço meu almoço e o de Kitty. Preparo o que nossa mãe preparava para nós às vezes, quando fazíamos piquenique na vinícola em Keswick. Corto uma cenoura e uma cebola em cubinhos e refogo com óleo de gergelim e um pouco de vinagre, depois acrescento o arroz de sushi. Quando fica pronto, enrolo porções de arroz em casca de tofu. São como bolinhos de arroz dentro de bolsinhas. Não tenho uma receita exata para seguir, mas o gosto fica bom. Quando termino, pego uma escada e procuro os bentôs que minha mãe usava. Encontro-os no fundo do armário, em meio a potes de plástico.
Não sei se Kitty vai se lembrar de ter comido os bolinhos de arroz da mamãe, mas espero que o coração dela se lembre.

8 comentários:

  1. Chorei Lara jean é tão parecida comigo cheia de insegurança é muti dificil ser assim

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  2. Na hora q elas tava brincando dentro do carro eu só pensei "MANO ELAS VÃO BATER"

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  3. Ain q fofa essa última parte...
    "Não sei se Kitty vai se lembrar de ter comido os bolinhos de arroz da mamãe, mas espero que o coração dela se lembre."

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  4. Eu quando comecei a dirigir era assim tambem hahahaha Depois melhora, grazadeusa

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  5. A Lara Jean dirigindo é tão medrosa quanto eu pilotando!

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  6. Eu sou igualzinha a ela, tirei a carteira mas não me sinto bem dirigindo, tenho muito medo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!