16 de abril de 2018

Capítulo 43

AS OPÇÕES PARA garotas orientais no Halloween são muito limitadas. Eu já me vesti de Velma do Scooby-Doo, mas as pessoas ficavam me perguntando se eu era um personagem de mangá. Eu até botei peruca! Então agora estou decidida a só me vestir de personagens asiáticos.
Margot nunca se veste de pessoa; ela sempre escolhe um objeto inanimado ou alguma espécie de conceito. Ano passado, ela foi de “desculpa formal”: usou um vestido longo que encontramos por dez dólares no brechó e pendurou um cartaz no pescoço escrito Me desculpe. A fantasia dela ficou em segundo lugar no concurso da escola. O primeiro foi para um alienígena rastafári.
Kitty vai de ninja, o que fica em sintonia com minha ideia de fantasia oriental. Este ano, vou me vestir de Cho Chang, de Harry Potter. Estou usando um cachecol da Corvinal, uma veste preta de coral velha que encontrei no eBay, uma gravata do meu pai e uma varinha. Não vou ganhar nenhum concurso, mas pelo menos as pessoas vão saber quem sou. Eu queria nunca mais ter que responder a pergunta De quem você está fantasiada?

* * *

Estou esperando a carona de Peter para a escola e mexendo nas meias longas, que não consigo deixar esticadas.
— Lara Jean!
Automaticamente, respondo:
— Josh!
É nossa versão de Marco Polo.
Levanto o rosto. Lá está Josh, de pé na frente do carro. Com a roupa completa de Harry Potter. Vestes pretas, óculos, cicatriz em forma de raio na testa, varinha.
Nós dois caímos na gargalhada. Dentre tantas fantasias!
— O pessoal do clube de quadrinhos vai como personagens de livros de fantasia — diz Josh, com pesar. — Eu ia como Drogo, de Guerra dos Tronos, porque, você sabe, tenho o físico perfeito para isso, mas...
Dou uma risadinha enquanto tento imaginar Josh de delineador, trança comprida e sem camisa. É uma imagem engraçada. Eu não chamaria Josh exatamente de magrelo, mas...
— Ei, não precisa rir tanto — protesta ele. — Não foi tão engraçado. — Ele balança a chave. — Precisa de carona, Cho?
Olho para o celular. Peter está cinco minutos atrasado, como sempre. Não que eu possa reclamar, porque é carona de graça para a escola e eu poderia estar pegando o ônibus. Mas, se eu for com Josh, não vou precisar correr para a aula, posso passar no meu armário, posso ir ao banheiro, posso comprar um suco na máquina. Mas ele já deve estar quase chegando.
— Obrigada, mas vou esperar o Peter.
Josh assente.
— Ah, é... certo.
Ele começa a entrar no carro.
— Expelliarmus! — grito.
Josh gira e responde:
— Finite!
Nós sorrimos um para o outro como dois bobos.
Ele sai dirigindo, e eu abraço os joelhos. Josh e eu lemos Harry Potter na mesma época, quando eu estava no sexto ano, e ele, no sétimo. Margot já tinha lido. Nenhum de nós consegue ler tão rápido quanto ela. Minha irmã ficou maluca esperando que chegássemos ao terceiro livro para podermos conversar sobre ele.
Quanto mais tempo espero Peter, mais irritada fico. Tiro a veste e coloco de volta algumas vezes. É de poliéster, um tecido que não deixa a pele respirar, e bem desconfortável. Quando ele chega, corro até o carro e entro sem dizer oi. Espalho a veste no colo como se fosse um cobertor, porque a saia é muito curta.
Os olhos dele estão arregalados.
— Você está ótima — diz ele, parecendo surpreso. — Está vestida de quê? Algum personagem de anime?
— Não — digo em tom cortante. — Sou Cho Chang. — Peter continua com a expressão vazia, então acrescento: — De Harry Potter.
— Ah, tá. Legal.
Eu olho para ele. Ele está usando uma camisa normal de botão e calça jeans.
— Cadê sua fantasia?
— Meus amigos e eu vamos mudar de roupa antes do concurso. O efeito é melhor se aparecermos todos ao mesmo tempo.
Sei que ele quer que eu pergunte qual é a fantasia, mas não estou com vontade de falar com ele, então fico lá sentada, sem dizer nada, olhando pela janela. Fico esperando que me pergunte qual é o problema, mas ele fica calado. Está tão distraído, acho que nem reparou que fiquei irritada.
— Eu gostaria que você não chegasse sempre atrasado — disparo.
Peter franze a testa.
— Caramba, desculpa. Eu estava tentando arrumar minha fantasia.
— Hoje você estava tentando arrumar a fantasia. Mas você se atrasa todas as vezes.
— Eu não me atraso todas as vezes!
— Você chegou atrasado hoje e ontem e na quinta passada. — Eu fico olhando pela janela. As folhas secas de outono já estão caindo. — Se você não vai chegar na hora, prefiro não pegar mais carona com você.
Não preciso olhar, posso senti-lo me olhando com raiva.
— Tudo bem. Isso quer dizer que posso dormir mais cinco minutos, então acho ótimo.
— Que bom.

* * *

Durante o concurso, Chris e eu ficamos sentadas no balcão do teatro. Chris está vestida de Courtney Love. Está usando um vestidinho rosa, meias até os joelhos furadas e muita maquiagem borrada ao redor dos olhos.
— Você também devia ir lá para baixo — digo. — Aposto que ganharia alguma coisa.
— As pessoas desta escola nem saberiam quem ela é — responde Chris com desprezo. Mas consigo perceber que na verdade ela quer muito ir lá.
Os amigos de Peter estão todos vestidos de super-heróis. Tem o Batman, o Super-Homem, o Homem de Ferro, o Incrível Hulk, com vários níveis de qualidade. Peter fez o melhor possível. É claro que ele foi de Peter Parker. Que outra fantasia Kavinsky usaria? A fantasia dele de Homem-Aranha é autêntica: máscara com olhos de papel laminado amarelo, luvas e botas.
Ele age com o maior exagero no palco. Todos os garotos estão correndo de um lado para o outro com as capas voando, fingindo lutar uns contra os outros. Peter tenta escalar uma coluna, mas o sr. Yelznik o impede antes que ele consiga subir muito. Eu comemoro quando o grupo vence como melhor fantasia em conjunto.
Genevieve está vestida de Mulher-Gato. Está usando uma legging imitando couro, um bustiê e orelhas pretas de gato. Eu me pergunto se ela sabia do tema de super-heróis, se Peter contou a ela ou se ela teve a ideia sozinha. Todos os garotos do auditório ficam loucos quando ela sobe no palco para concorrer à melhor fantasia do segundo ano.
— Que piranha — diz Chris. Seu tom de voz é quase melancólico.
Genevieve vence, é claro. Olho discretamente para Peter, e ele está assobiando e batendo com os pés no chão junto com os amigos.
Depois do concurso, estou pegando meu livro de química no armário quando Peter se aproxima e se encosta no armário ao lado do meu. Ele ainda está com a máscara.
— Oi.
— Oi.
Ele não diz mais nada, só fica ali. Eu fecho a porta do armário e giro a tranca.
— Parabéns por ter ganhado como melhor fantasia em grupo.
— Só isso? É só o que você vai dizer?
Hã?
— O que mais eu devo dizer?
Nessa hora, Josh passa com Jersey Mike, que está vestido de hobbit, com pés peludos e tudo. Andando de costas, Josh aponta a varinha para mim.
— Expelliarmus!
Automaticamente, aponto a varinha para ele e digo:
— Avada Kedavra!
Josh leva a mão ao peito como se tivesse levado um tiro.
— Pegou pesado! — grita ele, e desaparece no corredor.
— Hã... você não acha estranho minha suposta namorada usar fantasia de casal com outro cara? — pergunta Peter.
Eu reviro os olhos. Ainda estou com raiva dele por causa do que aconteceu de manhã.
— Desculpa. Não posso falar com você enquanto você estiver vestido assim. Como posso ter uma conversa séria com uma pessoa usando lycra dos pés à cabeça?
Peter tira a máscara.
— Estou falando sério! Como você acha que isso fica para mim?
— Primeiro de tudo, nós não combinamos as fantasias. E segundo, ninguém liga para isso! Quem repararia em uma coisa dessas?
— As pessoas reparam. — Peter bufa. — Eu reparei.
— Ah, desculpa. Lamento muito por uma coincidência dessas ter acontecido.
— Duvido muito que tenha sido coincidência — murmura Peter.
— O que você quer que eu faça? Quer que eu passe na loja de Halloween na hora do almoço para comprar uma peruca ruiva de Mary Jane?
Com a voz mais calma, Peter diz:
— Você pode fazer isso? Seria legal.
— Não, eu não posso. Quer saber por quê? Porque sou oriental, e as pessoas vão pensar que sou um personagem de mangá. — Entrego a varinha para ele. — Segura isso.
Eu me inclino e puxo a barra da veste para poder ajeitar a meia.
Ele franze a testa.
— Eu poderia ter me fantasiado de alguém do livro, se você tivesse me avisado.
— É verdade, hoje você faria uma ótima Murta Que Geme.
Peter me olha sem entender e, sem acreditar, eu digo:
— Espera um minuto... você nunca leu Harry Potter?
— Li os dois primeiros livros.
— Então você deveria saber quem é a Murta Que Geme!
— Faz muito tempo — diz Peter. — Ela era uma daquelas pessoas nos quadros?
— Não! E como você conseguiu parar em A câmara secreta? O terceiro é o melhor da série toda, isso é loucura. — Eu observo o rosto dele. — Você não tem alma?
— Sinto muito não ter lido todos os livros do Harry Potter! Sinto muito se tenho uma vida e não participo do clube de Final Fantasy ou seja lá como se chama aquele clube nerd...
Pego a varinha da mão dele e balanço na frente do rosto.
— Silencio!
Peter cruza os braços. Com um sorrisinho, ele diz:
— Seja lá qual foi o feitiço que você tentou lançar em mim, não deu certo, então acho que você precisa voltar para Hogwarts. — Ele parece tão orgulhoso da referência a Hogwarts que quase chega a ser fofo.
Rápida como um gato, puxo a máscara e coloco a mão sobre a boca dele. Com a outra mão, balanço a varinha de novo.
— Silencio!
Peter tenta dizer alguma coisa, mas aperto a mão com mais força.
— O quê? O que foi? Não consigo ouvir você, Peter Parker.
Peter estica a mão e faz cócegas em mim, e dou uma gargalhada tão intensa que quase largo a varinha. Saio correndo para longe dele, mas Peter corre atrás de mim e finge lançar teias nos meus pés.
Rindo, eu fujo dele pelo corredor, desviando de grupos de alunos. Ele me persegue até a aula de química. Um professor grita para pararmos de correr. Obedecemos, mas, assim que dobramos a esquina, saio correndo de novo, e ele também.
Estou sem fôlego quando chego ao meu lugar. Peter se vira e lança uma teia na minha direção, e explodo em gargalhadas de novo. O sr. Mey ers me olha com irritação.
— Acalmem-se — diz ele, e eu assinto, obediente.
Assim que ele vira as costas, escondo o rosto na manga e dou risadinhas. Ainda quero estar com raiva de Peter, mas não adianta.
Na metade da aula, ele me manda um bilhete. Tem teias de aranhas desenhadas nos cantos. Está escrito: Vou chegar na hora amanhã. Dou um sorriso enquanto leio. Guardo na mochila, dentro do livro de francês, para o papel não amassar. Quero guardar para, quando tudo isso acabar, eu ter alguma coisa para olhar e lembrar como era ser namorada de Peter Kavinsky.
Mesmo que seja de mentirinha.

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