16 de abril de 2018

Capítulo 40

NÃO SEI COMO me vestir para o jantar na casa de Peter. Na loja, a mãe dele está sempre tão elegante. Não quero conhecê-la e depois deixá-la pensando em como sou pior em comparação a Genevieve. Não entendo por que preciso conhecê-la.
Mas quero que ela goste de mim.
Reviro o armário e depois vou para o de Margot. Finalmente, escolho um suéter creme, uma blusa com gola Peter Pan e uma saia rodada de veludo mostarda. Também coloco meia-calça e sapatilhas. Passo um pouco de maquiagem, coisa que raramente uso. Aplico blush pêssego nas bochechas e experimento sombra nos olhos, mas acabo tirando tudo e recomeçando, dessa vez só com rímel e brilho labial.
Mostro o resultado para Kitty.
— Parece um uniforme — diz ela, por fim.
— De um jeito bom?
Kitty assente.
— Como se você trabalhasse em uma loja legal.
Antes que Peter chegue para me buscar, vou até o computador e pesquiso que garfo usar para quê, só por garantia.

* * *

É estranho. Sentada à mesa da cozinha de Peter, sinto como se estivesse vivendo a vida de outra pessoa. No fim das contas, a mãe dele fez pizza, então eu nem precisava me preocupar com os garfos. E a casa deles não é chique por dentro; é só uma casa normal e bonita. Tem um batedor de manteiga de verdade na cozinha, fotos de Peter e do irmão emolduradas nas paredes, e tudo é decorado em um padrão xadrez vermelho e branco.
Tem um monte de coberturas de pizza na bancada da cozinha; não só pepperoni, calabresa, cogumelos e pimentão, mas também corações de alcachofra, azeitonas gregas, mozarela fresca e dentes de alho inteiros.
A mãe de Peter é legal. Ela não para de colocar salada no meu prato durante o jantar, e eu não paro de comer apesar de estar satisfeita. Eu a vejo olhando para mim, e ela está com um sorrisinho no rosto. Quando sorri, ela fica parecida com Peter.
O irmão mais novo se chama Owen. Tem doze anos. É um Peter em miniatura, mas não fala tanto quanto ele. Nem tem o mesmo jeito tranquilo. Owen pega uma fatia de pizza e a enfia na boca, apesar de estar quente demais. Ele sopra ar quente e quase cospe um pedaço no guardanapo, mas a mãe diz:
— Não ouse, Owen. Temos visita.
— Me deixa em paz — murmura Owen.
— Peter disse que você tem duas irmãs — diz a sra. Kavinsky com um sorriso largo. Ela corta um pedaço de alface em pedaços menores. — Sua mãe deve amar ter três meninas.
Eu abro a boca para responder, mas, antes que consiga dizer qualquer coisa, Peter interrompe:
— A mãe da Lara Jean morreu quando ela era pequena.
Ele fala como se a mãe já devesse saber, e o rosto dela fica tomado de constrangimento.
— Sinto muito. Lembrei agora.
— Ela adorava mesmo ter três meninas — digo, mais do que depressa. — Eles tinham certeza de que minha irmã mais nova, Kitty, seria um menino. Minha mãe dizia que estava tão acostumada com meninas que ficava nervosa quando pensava no que ia fazer com um menino. Por isso, ela ficou muito aliviada quando a Kitty nasceu. Minha irmã Margot e eu também ficamos; nós rezávamos todas as noites para termos uma irmã e não um irmão.
— Qual é o problema com os meninos? — protesta Peter.
A sra. Kavinsky está sorrindo agora. Ela coloca outra fatia de pizza no prato de Owen e diz:
— Vocês são bárbaros. Animais selvagens. Aposto que Lara Jean e as irmãs dela são uns anjos.
Peter ri com deboche.
— Bem... A Kitty talvez seja um pouco selvagem — admito. — Mas eu e Margot, minha irmã mais velha, somos bem tranquilas.
A sra. Kavinsky pega o guardanapo e tenta limpar molho de tomate do rosto de Owen, mas ele afasta a mão dela.
— Mãe!
Quando ela se levanta para tirar outra pizza do forno, Peter diz para mim:
— Está vendo como minha mãe o trata como um bebê?
— Com você é muito pior — retruca Owen. Para mim, ele murmura: — O Peter não sabe nem fazer macarrão instantâneo.
Eu dou uma gargalhada.
— E você sabe?
— Claro, eu faço minha própria comida há anos — diz ele.
— Eu também gosto de cozinhar — digo, e tomo um gole de chá gelado. — Deveríamos dar uma aula de culinária para o Peter.
Owen me observa.
— Você usa mais maquiagem do que a Genevieve.
Eu me encolho como se tivesse levado um tapa. Só estou usando rímel! E um pouco de brilho labial! Sei que Genevieve usa bronzer, sombra e corretivo todos os dias. Além de rímel, delineador e batom! Mais do que depressa, Peter diz:
— Cala a boca, Owen.
Owen está rindo. Eu semicerro os olhos. O garoto é só um pouco mais velho do que Kitty ! Eu me inclino para a frente e passo a mão na frente do rosto.
— Isto tudo é natural. Mas obrigada pelo elogio, Owen.
— De nada — responde ele, igual ao irmão mais velho.

* * *

No caminho para casa, eu digo:
— Ei, Peter.
— O quê?
— Deixa pra lá.
— O quê? Pergunta logo.
— Bem... seus pais são separados, não é?
— É.
— E você tem contato com seu pai?
— Não muito.
— Ah, tá. Eu só queria saber.
Peter olha para mim com expectativa.
— O quê? — pergunto.
— Só estou esperando a próxima pergunta. Você nunca faz uma só.
— Você sente falta dele?
— De quem?
— Do seu pai!
— Ah. Não sei. Acho que sinto mais falta de como era quando ele estava com a gente. Ele e minha mãe, eu e Owen. Éramos uma equipe. Ele ia a todos os jogos de lacrosse. — Peter fica quieto por um instante. — Ele... cuidava das coisas.
— Acho que é isso que os pais fazem.
— É o que ele está fazendo pela família nova — diz Peter, sem amargura. — E você? Sente falta da sua mãe?
— Às vezes, quando penso nela. — Então, eu digo: — Sabe do que eu sinto falta? Da hora do banho. Sinto falta de quando ela lavava meu cabelo. Você não acha que alguém lavar seu cabelo é a melhor sensação do mundo? Água quente, bolhas e dedos no seu cabelo. É tão gostoso.
— É mesmo.
— Não penso nela o dia inteiro, mas... mas às vezes coisas do tipo “o que ela pensaria de mim agora?” me vêm à cabeça. Ela só me conheceu como uma menina, agora sou uma adolescente. E fico me perguntando: “Se ela me visse na rua, será que me reconheceria?”
— É claro que reconheceria. Ela é sua mãe.
— Eu sei, mas eu mudei muito.
Uma expressão de desconforto surge no rosto dele, e posso ver que está arrependido de reclamar do pai, porque pelo menos ele ainda está vivo. Como Peter está me olhando com pena, eu me empertigo e digo com voz altiva:
— Sou muito madura, sabe.
Ele está sorrindo agora.
— Ah, é?
— Ah, sim, sou muito refinada, Peter.
Quando Peter me deixa em casa, na hora em que vou sair, ele me para.
— Deu para ver que minha mãe gostou de você.
Isso me deixa secretamente feliz. Sempre foi importante para mim que as mães das outras pessoas gostassem de mim. Era a parte de que eu mais gostava quando ia na casa de Genevieve, passar o tempo com a mãe dela. Wendy era tão estilosa. Ela usava blusa de seda com uma calça bonita e um colar chamativo só para ficar em casa. Com o cabelo perfeito, sempre bem penteado e liso. Genevieve tem o mesmo cabelo, mas não tem o nariz perfeito e reto da mãe. O dela tem um calombinho na ponte que acho que só a deixa mais bonita.
— E com certeza você não usa mais maquiagem do que a Gen. Ela sempre sujava minhas camisas brancas de bronzer.
Para alguém que esqueceu Genevieve, Peter fala bastante sobre ela. Mas não é só ele. Eu também estava pensando nela. Mesmo quando não está aqui, ela está presente. Aquela garota tem um alcance e tanto.

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