20 de abril de 2018

Capítulo 3

O Pinkerton foi chamado para levá-lo, apesar de Arcturo precisar de pouco encorajamento. Os dois homens o assustaram de um jeito que ninguém mais fizera. Não era crueldade ou sadismo que os tornava diferentes; ele havia encontrado homens e mulheres mais do que o suficiente com essas qualidades. Não, foi sua completa falta de empatia que o horrorizou, seu detalhado exame clínico e olhos calculistas. Era como se ele nem fosse uma pessoa para eles, mas uma mercadoria para ser usada, ou jogada de lado.
Ele foi jogado de volta à cela escura, mas dessa vez com um balde de água e um pouco de pão fresco. Arcturo o devorou como um animal raivoso, aproveitando a textura morna e mastigável. Por outro lado, não foi dada tal sustância para o demônio, e sua sede e fome o martelavam por horas sem fim. Ele bateu na porta e exigiu que ele fosse alimentado e hidratado, mas recebeu nada além de xingamentos do Pinkerton, então silêncio.
Finalmente, quando o balde de água estava vazio e a fome começou a bater no estômago mais uma vez, Arcturo foi arrastado de sua cela, então levado por uma porta lateral e para dentro do pátio.
Dessa vez, o rei não estava lá, mas Lorde Faversham e seu filho esperavam por ele, suas faces obscuras e pensativas com mau humor. Uma grande caixa estava no chão ao lado deles, com um estranho arreio de couro cobrindo-a.
Conforme Arcturo caminhava lentamente na direção deles, ele absorveu seus arredores, procurando por uma rota de escape. O pátio era cercado por uma parede de pedra, cheia de heras. Um arco elaborado dava para a entrada, porém era bloqueado por um pesado portão de ferro.
— Ainda vivo — Charles disse, chutando o cascalho no chão, mal-humorado. — Eu esperava que você tivesse morrido no...
— Não, Charles — Lorde Faversham cortou-o. — O rei fez... arranjos para o garoto, como você bem sabe. Nenhum mal cairá sobre ele enquanto ele estiver sob nossos cuidados, está entendido?
— Sim, pai — suspirou Charles.
Arcturo permaneceu em silêncio, olhando para os próprios pés. Ele podia sentir seu demônio agora, tão perto que podia quase sentir seu cheiro. A caixa ao lado dele estremeceu. Arcturo virou seus olhos em direção a ela e arquejou. Seu demônio estava preso ali dentro! Ele se ajoelhou e colocou a mão sobre a madeira, mandando sensações de calma e segurança, apesar de suas apreensões sobre o futuro. Lentamente, o tremor parou. O som de lambidas lhe deu algum alívio, conforme ele percebia que eles finalmente haviam lhe dado água. Parecia que, por enquanto, os Faversham queriam ambos vivos.
— Eles estão aqui — disse Charles, apontando para o céu.
Dois pontos pairaram nos céus, como pássaros circulando sobre um milharal. Lentamente mas com certeza, eles cresceram em tamanho, até que duas bestas aladas pousaram diante deles em um clarão de penas e pele.
Arcturo teve que dar um passo para trás enquanto eles batiam e dobravam suas asas gigantes, as penas escuras sendo agitadas no vento. Eles pareciam veados alados do tamanho de cavalos, com majestosos chifres ramificando-se de suas testas. Suas pernas dianteiras terminavam em cascos, mas as traseiras eram como as de um falcão, completas com garras curvas mortais que se cravaram no chão. Em vez da pelagem que todo cervo tinha, essas criaturas tinham longas e elegantes caudas de penas.
Ambos eram encimados por selas de couro polidas, nos quais dois cavaleiros se equilibravam, resplandecentes em uniformes azul-marinho que tinham ombreiras douradas e brilhantes botões de ouro. Eles removeram seus capuzes de couro e óculos escuros de proteção e sacudiram seus cabelos com audíveis suspiros de alívio.
Um dos cavaleiros desmontou e abraçou Charles, beijando-o na testa. Ela era linda, com cabelos dourados que caíam sobre o rosto. Arcturo estremeceu conforme percebia que era a mãe de Charles, Lady Faversham. Quando ela se virou para Arcturo, sua expressão era dura, seu belo rosto tão frio e cruel quanto o inverno.
— Ele é a razão pela qual estamos aqui? — ela estreitou seus olhos para ele. — Nós voamos através da noite.
— O garoto, e o fato de que Charles não consegue viajar meio dia de cavalgada daqui sem perder seu demônio! — grunhiu Lorde Faversham. — Ele precisa voar para Vocans já que não se pode confiar nele sozinho, e já está atrasado começando o ano como está. Você terá que provê-lo com um novo pergaminho de conjuração, ou sua participação não será permitida. É uma pena que não possa presenteá-lo seu Periton, você precisa para o Corpo Celeste. Terá que ser o outro.
— Você perdeu o seu Canídeo? Tem ideia do que o seu pai arriscou para capturá-la para você? — Lady Faversham sibilou, prendendo Charles pela orelha, sua raiva tão repentina quanto sua chegada. — Agora terei que te dar minha Arach, e eu a peguei há apenas algumas semanas.
Charles gemeu como um bebê, puxando a mão da mãe até que ela o soltou com um grunhido de nojo.
Arcturo absorveu a informação, tomando notas dos nomes das diversas espécies de demônio, e o fato de que o seu era fêmea. Parecia que demônios podiam de algum jeito ser presenteados através de pergaminhos, e precisavam ser capturados primeiro. Se ele pretendia sobreviver às próximas semanas, precisaria aprender tudo o que pudesse.
Seu entendimento do mundo de conjuração era, na melhor das hipóteses, vago, dado que ele viveu tão longe ao norte das selvas na fronteira meridional de Hominum onde a maioria dos conflitos acontecia. Apesar de eles não estarem oficialmente em guerra com as diversas tribos órquicas que lá habitavam, os nobres, seus séquitos e o exército do rei patrulhavam ao longo de suas fronteiras, mantendo Hominum segura de ataques surpresa dos orcs. Boreas, a cidade em que Arcturo morava, ficava bem distante a norte, perto da fronteira com os elfos.
O outro cavaleiro desmontou, uma morena com longas madeixas que chegavam a sua cintura. Ela acenou respeitosamente para Lorde Faversham, então se virou para prender a caixa a uma guia de couro antes de amarrá-la na parte de baixo de sua montaria. Ela riu da expressão desconfiada de Arcturo e deu uma piscadela. Ele respondeu com um sorriso hesitante, que foi rapidamente embora quando Lady Faversham estalou seus dedos para ele.
— Você, garoto. Se o rei não tivesse tanto interesse em você, eu o teria pendurado na forca em um segundo! Ninguém rouba dos Faversham, especialmente um cavalariço sujo.
Charles sorriu odiosamente para Arcturo atrás dela, passando um dedo por sua garganta. Arcturo respondeu com um fixo olhar gélido, mas gavinhas de terror apertaram seu coração. Dessa vez, foi o demônio que o acalmou. Ondas de encorajamento e apoio fluíram pela conexão mental deles quando ela sentiu seu desconforto.
— Fique esperto, garoto — disse Lady Faversham, sem se impressionar pela aparente falta de medo de Arcturo.
Um criado passou por eles, arrastando um baú pesado e prendendo-o ao Periton de Lady Faversham.
— Tome cuidado com isso — Charles ordenou, andando até ele para verificar as amarras. — Não quero as minhas roupas todas amassadas porque você fez errado.
O criado fez uma mesura, uma faísca de medo passando pelo seu rosto. Ele era pouco mais velho que Arcturo, e parecia meio faminto. Arcturo se sentiu afortunado por não precisar trabalhar nessa residência.
— Ofélia, você tem certeza que o Periton da Tenente Cavendish pode carregar o Canídeo? — Lorde Faversham perguntou a sua esposa.
— É apenas um filhote — respondeu Lady Faversham. — Se ela estivesse crescida, poderia ser difícil em uma distância tão longa, mas felizmente você a pegou jovem.
— Ora, Hubertus é tão forte quanto um boi! — Tenente Cavendish falou, fazendo um último nó na grossa guia de couro que agora se ligava à jaula do demônio. Ela piscou para Arcturo de novo, e ele maravilhou-se com o quão jovem ela era. Ela não podia ter mais que dezoito anos, e ainda assim vestia o uniforme de um oficial. A tenente pulou em sua montaria em um salto fluido, então deu tapinhas na sela atrás dela.
— É melhor irmos, se queremos chegar a Vocans antes do anoitecer. Já que a minha carga é um pouco mais pesada do que a sua, iremos antes, tudo bem, Capitã Faversham? — ela perguntou, esfregando o pescoço de Hubertus.
Lady Faversham respondeu com um curto aceno e então, com um último olhar duro a Arcturo, entrou no solar. Arcturo hesitou antes de andar até o Periton e erguer sua mão. Tenente Cavendish agarrou-a firmemente e o puxou para cima e para trás dela com uma facilidade surpreendente. Ele podia sentir os músculos de Hubertus se movendo debaixo de suas pernas, conforme o demônio desdobrava suas asas.
— Segure firme — ela murmurou, pegando as mãos dele e colocando-as em sua cintura. — Espero que você tenha estômago forte.
As asas bateram uma vez. Duas.
E eles estavam voando.

Um comentário:

  1. A mãe do Rufus parece tão legal! pena que teve um fim trágico.Pensando bem os dois tiveram

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Boa leitura, E SEM SPOILER!