16 de abril de 2018

Capítulo 38

ESTAMOS NA PORTA da frente da mansão de Steve Bledell. Steve é do time de futebol americano, mas é mais conhecido por ter um padrasto rico dono de um jatinho.
— Pronta? — pergunta Peter.
Eu seco as palmas das mãos no short. Queria ter tido tempo de arrumar melhor o cabelo.
— Na verdade, não.
— Então vamos conversar sobre nossa estratégia. Você só precisa agir como se estivesse apaixonada por mim. Não deve ser muito difícil.
Reviro os olhos.
— Você é a pessoa mais convencida que já conheci.
Peter sorri e dá de ombros. Ele segura a maçaneta, mas para.
— Espera — diz ele, depois puxa o elástico do meu cabelo e joga no jardim.
— Ei!
— Fica melhor solto. Confie em mim.
Peter passa os dedos pelo meu cabelo, ajeitando-o, e bato na mão dele. Em seguida, ele pega o celular no bolso de trás da calça jeans e tira uma foto minha.
Eu olho para ele sem entender.
— Para o caso de a Gen olhar meu celular — explica Peter.
Vejo-o colocar a foto como papel de parede.
— Podemos tirar outra? Não gostei de como meu cabelo ficou.
— Não, eu gostei. Você está bonita.
Ele só deve ter dito isso para podermos entrar logo, mas eu me sinto melhor.
Entro na festa com Peter Kavinsky e não consigo deixar de sentir uma onda repentina de orgulho. Ele está aqui comigo. Ou sou eu que estou aqui com ele?
Eu a vejo assim que entramos; Gen está sentada no sofá com as amigas, todas segurando copos vermelhos. Não há namorado por perto. Ela ergue as sobrancelhas para mim e sussurra alguma coisa para Emily Nussbaum.
— Eeeei, Lara Jean — grita Emily, me chamando com o dedo. — Venha se sentar aqui com a gente.
Começo a andar na direção delas achando que Peter está ao meu lado, mas ele não está. Ele parou para cumprimentar alguém. Eu o encaro com expressão de pânico, mas ele faz sinal para eu ir em frente e diz apenas com movimentos labiais: É com você.
Atravessar a sala sozinha é como atravessar um continente com Gen e as amigas me observando.
— Oi, pessoal — digo, e minha voz sai aguda e meio infantil.
Não há espaço para mim no sofá, então me empoleiro em um dos braços, como um pássaro no fio telefônico. Fico com os olhos grudados nas costas de Peter, que está do outro lado da sala com uns caras do time de lacrosse. Deve ser legal ser ele. Tão tranquilo, tão à vontade consigo mesmo, sabendo que as pessoas o estão esperando, tipo Peter está aqui então agora a festa pode começar de verdade. Olho ao redor só para ter alguma coisa a fazer e vejo Gabe e Darrell. Eles acenam para mim com simpatia, mas não se aproximam. Parece que todo mundo está esperando e observando — esperando e observando para ver o que Genevieve vai fazer.
Estou arrependida de ter vindo.
Emily se inclina para a frente.
— Estamos todas doidas para saber... Qual é a história entre você e o Kavinsky?
Sei que foi Gen quem a mandou perguntar. Gen toma goles de sua bebida com toda a naturalidade do mundo, mas está esperando minha resposta. Será que já está bêbada? Por tudo que ouvi sobre Gen, ela fica mal-humorada quando bebe. Não que eu tenha visto, mas ouvi os boatos.
Umedeço os lábios.
— Peter já deve ter contado...
Emily faz um gesto que indica que o que Peter diz não conta.
— Queremos saber de você. Afinal, é tão surpreendente. Como foi que isso aconteceu?
Ela se inclina mais para perto, como se fôssemos melhores amigas. Quando hesito e desvio o olhar para Genevieve, ela sorri e revira os olhos.
— Está tudo bem, pode falar, Lara Jean. Peter e eu terminamos. Não sei se ele contou, mas fui eu que terminei com ele.
Eu assinto.
— Foi o que ele disse.
Não foi o que ele disse, mas é o que eu já sabia.
— E quando vocês começaram a sair?
Ela tenta parecer indiferente, mas sei que minha resposta é importante. Ela está me testando.
— Faz pouco tempo — digo.
— Quanto tempo? — insiste ela.
Engulo em seco.
— Logo antes do início das aulas.
Não foi essa a história que Peter e eu combinamos?
Os olhos de Genevieve brilham, e meu coração despenca. Falei a coisa errada, mas é tarde demais. É difícil não ficar preso no feitiço dela. Ela é o tipo de pessoa que você quer que goste de você. Você sabe que ela pode ser cruel; já a viu sendo cruel.
Mas, quando Gen está olhando para você e prestando atenção, quer que isso dure. Em parte é por causa de sua beleza, mas tem mais alguma coisa, algum tipo de magnetismo. Acho que é a transparência: tudo que ela pensa ou sente está escrito em sua cara e, mesmo quando não está, ela diria de qualquer jeito, porque Gen diz o que pensa sem parar para medir nas consequências.
Consigo entender por que Peter foi apaixonado por ela por tanto tempo.
— Acho adorável — diz Genevieve, e as garotas começam a conversar sobre um show para o qual estão tentando conseguir ingressos, e eu fico sentada ali, feliz por não precisar falar, me perguntando como estão as coisas com os cupcakes lá em casa.
Espero que meu pai não os asse por tempo demais. Não tem nada pior do que um cupcake seco.
As garotas passam a falar de fantasias de Halloween, então me levanto para ir ao banheiro. Quando volto, encontro Peter sentado em uma poltrona de couro, bebendo cerveja e conversando com Gabe.
Não tem lugar para mim; o braço do sofá foi ocupado. E agora?
Fico ali de pé por um segundo, mas preciso decidir rápido: preciso fazer o que uma garota apaixonada faria. Faço o que Genevieve faria. Vou até Peter e me sento no colo dele como se fosse meu lugar de direito.
Peter dá um gritinho de surpresa.
— Oi — diz, engasgando com a cerveja.
— Oi.
Em seguida, aperto de leve o nariz dele como vi uma garota fazer em um filme em preto e branco.
Peter se ajeita na poltrona e me olha como se estivesse segurando o riso, e fico nervosa; apertar o nariz de um garoto é romântico, não é? Então, pelo canto do olho, consigo ver Genevieve nos encarando. Ela sussurra alguma coisa para Emily e sai da sala.
Sucesso!

* * *

Mais tarde, vou pegar refrigerante e vejo Genevieve e Peter conversando na cozinha. Ela está falando com a voz baixa e urgente, estica a mão e toca no braço dele. Peter tenta afastar a mão dela, mas Gen não solta.
Estou tão hipnotizada que não reparo quando Lucas Krapf se aproxima de mim enquanto abre uma garrafa de cerveja.
— Oi, Lara Jean.
— Oi!
Fico aliviada em ver um rosto familiar.
Ele fica de pé ao meu lado, com as costas apoiadas na parede da sala de jantar.
— Por que eles estão brigando?
— Nem faço ideia — respondo.
Dou um sorriso discreto. Com sorte, é por minha causa. Peter vai ficar feliz de ver que nosso plano está finalmente dando certo.
Lucas faz sinal para eu chegar mais perto.
— Uma briga não é um bom sinal, Lara Jean — sussurra ele. — Quer dizer que alguém ali ainda gosta do outro.
O hálito dele tem cheiro de cerveja.
Humm. Genevieve obviamente ainda gosta dele. Peter deve gostar dela também.
Lucas dá tapinhas na minha cabeça.
— Só tome cuidado.
— Obrigada.
Peter sai da cozinha.
— Está pronta para ir embora?
Ele não espera minha resposta, apenas sai andando com os ombros tensos.
Dou de ombros para Lucas.
— A gente se vê na segunda!
E saio correndo atrás de Peter.
Ele ainda está com raiva, consigo perceber pela forma como enfia a chave na ignição.
— Meu Deus, ela me deixa louco! — Peter está tão nervoso que calor emana dele em ondas. — O que você disse para ela?
Eu me remexo no banco, nervosa.
— Ela me perguntou quando começamos a sair. Falei que foi logo antes de as aulas começarem.
Peter dá um gemido profundo.
— Nós ficamos naquele primeiro fim de semana.
— Mas... vocês já tinham terminado.
— É, bem. — Peter dá de ombros. — Tanto faz. O que está feito está feito.
Aliviada, coloco o cinto de segurança e tiro os sapatos.
— Por que vocês estavam brigando, afinal?
— Não precisa se preocupar com isso. Você fez um bom trabalho, aliás. Ela está morrendo de ciúmes.
— Eba — comemoro. Desde que ela não me mate.
Ficamos em silêncio por um tempo.
— Peter... como você soube que amava a Genevieve?
— Meu Deus, Lara Jean. De onde você tira essas perguntas?
— Sou uma pessoa curiosa por natureza. — Eu viro o para-sol para me olhar no espelho e começo a fazer uma trança embutida. — E talvez a pergunta que você deveria estar se fazendo agora é por que está com tanto medo da resposta?
— Eu não estou com medo!
— Então por que não me responde?
Peter fica em silêncio, e tenho certeza de que não vai responder, mas, depois de uma longa pausa, ele diz:
— Não sei se amei Genevieve. Como eu poderia saber? Tenho dezessete anos, caramba.
— Você tem dezessete, não é tão jovem. Cem anos atrás, as pessoas se casavam quando tinham praticamente a sua idade.
— É, isso foi antes da eletricidade e da internet. Cem anos atrás, caras de dezoito anos lutavam em guerras com baionetas e tinham a vida de outras pessoas nas mãos! Eles já tinham vivido muito quando chegavam à nossa idade. O que o pessoal da nossa idade sabe sobre o amor e a vida?
Eu nunca o ouvi falar assim, como se realmente se importasse com alguma coisa. Acho que ainda está nervoso por causa da briga com Genevieve.
Faço um coque e prendo com um elástico.
— Sabe quem você parece? Meu avô — digo. — E acho que está enrolando porque não quer responder a pergunta.
— Eu já respondi, você que não gostou da resposta.
Paramos na frente da minha casa. Peter desliga o motor, o que ele faz sempre que quer conversar um pouco mais. Por isso, não saio logo do carro, coloco a bolsa no colo e procuro a chave, embora as luzes estejam acesas no andar de cima. Caramba. Estou sentada no banco do passageiro do Audi preto de Peter Kavinsky. Não é o que toda garota sempre quis? Não Peter Kavinsky especificamente... ou sim, talvez Peter Kavinsky especificamente.
Ele apoia a cabeça no banco e fecha os olhos.
— Você sabia que, quando as pessoas brigam, isso quer dizer que ainda gostam uma da outra? — Como Peter não responde, eu continuo: — A Genevieve deve mesmo ter você na palma da mão.
Espero que ele negue, mas não. Em vez disso, diz:
— É, mas eu queria que não fosse assim. Não quero que ninguém seja dono de mim. Não quero pertencer a ninguém.
Margot diria que pertence a si mesma. Kitty diria que não pertence a ninguém. E acho que eu diria que pertenço às minhas irmãs e ao meu pai, mas isso nem sempre será verdade. Pertencer a alguém... Eu não tinha percebido, mas, agora que estou pensando no assunto, parece que é tudo que eu sempre quis. Ser de alguém de verdade, e que essa pessoa fosse minha.
— Então esse é o motivo por que você está fazendo isso. — Em parte, é uma pergunta, mas na verdade já sei a resposta. — Para provar que não pertence a ela. E que seu lugar não é com ela. — Eu hesito. — Você acha que tem diferença? Entre pertencer a alguém e estar com alguém?
— Claro. Um implica escolha, o outro, não.
— Você deve amar muito a Genevieve para se dar todo esse trabalho.
Peter faz um som de desdém.
— Você é romântica demais.
— Obrigada — digo, apesar de saber que ele não falou como elogio. Respondo só para irritá-lo.
Sei que consegui quando ele pergunta com expressão azeda:
— O que você sabe sobre o amor, Lara Jean? Você nunca namorou.
Fico tentada a inventar alguém, um garoto do acampamento, de outra cidade, de qualquer lugar. O nome dele é Clint está na ponta da minha língua. Mas seria humilhante demais, porque ele saberia que é mentira; já contei a ele que nunca namorei. E, mesmo que não tivesse falado, é bem mais patético inventar um namorado do que apenas admitir a verdade.
— Não, eu nunca namorei. Mas muitas pessoas que conheço namoraram e não se apaixonaram nem uma vez. Eu já me apaixonei. É por isso que estou fazendo isso.
Peter dá uma risada debochada.
— Por quem? Josh Sanderson? Aquele idiota?
— Ele não é idiota — defendo-o, franzindo a testa. — Você nem o conhece. Não sabe do que está falando.
— Qualquer pessoa com meio cérebro consegue perceber o quão idiota aquele cara é.
— Você está chamando minha irmã de burra? — pergunto.
Se ele disser uma coisa ruim que seja sobre minha irmã, é o fim. Essa coisa toda vai acabar. Não preciso dele tanto assim.
Peter ri.
— Não. Estou dizendo que você é!
— Quer saber? Não precisa mais responder. Está claro que você nunca amou ninguém além de si mesmo.
Tento abrir a porta do passageiro, mas está trancada.
— Lara Jean, eu só estava brincando. Para com isso.
— A gente se vê na segunda.
— Espera, espera. Primeiro me responde uma coisa. — Peter se recosta no banco. — Por que você nunca namorou ninguém?
Eu dou de ombros.
— Não sei... Talvez porque ninguém tenha me convidado para sair?
— Mentira. Eu sei que o Martinez convidou você para o baile, e você disse não.
Fico surpresa por ele saber disso.
— Por que vocês, garotos, ficam se chamando pelos sobrenomes? — pergunto para ele. — É tão... — eu me esforço para encontrar a palavra certa — ... falso?
— Não mude de assunto.
— Acho que eu disse não porque fiquei com medo.
Eu olho pela janela e passo o dedo no vidro, desenhando um de Martinez.
— Do Tommy?
— Não. Eu gosto do Tommy. Não é isso. É assustador quando é real. Quando não é só na sua imaginação, mas, tipo, ter uma pessoa de verdade na sua frente, com, sei lá, expectativas. E vontades.
Eu finalmente olho para Peter, e fico surpresa com o quanto ele está prestando atenção; seus olhos estão alertas e concentrados como se ele estivesse realmente interessado no que estou dizendo.
— Mesmo quando gostei muito de alguém, amei até, eu preferia ficar com minhas irmãs, porque é o meu lugar — continuo.
— Espera. E agora?
— Agora? Ah, não gosto de você assim, então...
— Que bom — diz Peter. — Vê se não se apaixona por mim de novo, tá? Não dá para ter mais garotas apaixonadas por mim. É muito cansativo.
Dou uma gargalhada alta.
— Você é tão metido.
— Estou brincando — protesta ele, mas sei que não está. — O que você viu em mim, afinal?
Ele abre um sorriso, já arrogante de novo, convencido do próprio charme.
— Sinceramente? Eu não saberia dizer.
O sorriso enfraquece, mas se recompõe rápido, só que agora Peter não está mais tão seguro de si.
— Você disse que era porque eu faço as pessoas se sentirem especiais. Você... você disse que era porque danço bem e fiz dupla na aula de ciências com Jeffrey Suttleman!
— Uau, você decorou mesmo cada palavra daquela carta, hein? — provoco. Sinto uma pequena onda de satisfação ao ver o sorriso de Peter sumir completamente. Essa onda vem seguida de remorso, porque feri os sentimentos dele sem nenhum motivo. O que deu em mim para fazer isso? Querendo consertar as coisas, acrescento: — Não, é verdade. Você tinha mesmo algo de especial na época.
Acho que só piorei a situação, porque ele faz uma careta.
Não sei mais o que dizer, então abro a porta do carro e saio.
— Obrigada pela carona, Peter.
Quando entro em casa, passo primeiro na cozinha para checar os cupcakes. Estão organizados em potes plásticos. A cobertura está meio desajeitada, e os confeitos, irregulares, mas de um modo geral parecem muito bons. Isso é um alívio. Pelo menos Kitty não vai passar vergonha na feira por minha causa!

De: Margot Covey (mcovey@st-andrews.ac.uk)
Para: Lara Jean Covey (larajeansong@gmail.com)
Como está indo a escola? Entrou para algum clube? Acho que você deveria considerar a revista literária ou o projeto das Nações Unidas. E não esqueça que este fim de semana é o Dia de Ação de Graças coreano e você tem que ligar para a vovó, senão ela vai ficar triste! Estou com saudades.
P.S.: Por favor, mande biscoitos recheados! Sinto falta das nossas competições de comilança.
Com amor, M

De: Lara Jean Covey (larajeansong@gmail.com)
Para: Margot Covey (mcovey @st-andrews.ac.uk)
Está tudo bem na escola. Ainda não estou em nenhum clube novo, mas vamos ver. Já anotei na agenda que tenho que ligar para a vovó. Não se preocupe, está tudo sob controle!
Beijos

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