16 de abril de 2018

Capítulo 37

EU ME OFERECI para fazer cinquenta cupcakes para a feirinha de doces da Associação de Pais e Mestres de Kitty. Fiz isso porque Margot se ofereceu nos últimos dois anos. Ela só fazia porque não queria que as pessoas pensassem que a família de Kitty não estava envolvida com a associação. Margot assou brownies nas duas vezes, mas escolhi fazer cupcakes porque achei que fariam mais sucesso. Comprei tipos diferentes de confeitos azuis e fiz bandeirinhas com palitos de dente e a inscrição BLUE MOUNTAIN ACADEMY. Achei que Kitty fosse se divertir me ajudando a decorá-los.
Mas agora estou percebendo que o jeito de Margot era mais fácil. Para fazer brownies, basta derramar a massa em uma assadeira, assar, cortar e pronto. Cupcakes dão bem mais trabalho. Preciso usar a mesma quantidade de massa cinquenta vezes, então esperar esfriar e depois colocar a cobertura e os confeitos.
Estou medindo minha oitava xícara de farinha quando a campainha toca.
— Kitty! — grito. — Atende a porta!
A campainha toca de novo.
— Kitty!
— Estou fazendo um experimento importante! — responde ela do andar de cima. Vou até a porta e abro sem me dar o trabalho de ver quem é.
É Peter. Ele cai na gargalhada.
— Você está com farinha no rosto todo — diz, limpando minhas bochechas com as costas da mão.
Eu desvio dele e limpo o rosto com o avental.
— O que você está fazendo aqui?
— Nós vamos ao jogo. Você não leu meu bilhete ontem?
— Ah, droga. Tive uma prova e esqueci. — Peter franze a testa, e eu acrescento: — Mas eu não vou poder ir de qualquer jeito, porque tenho que fazer cinquenta cupcakes até amanhã.
— Em uma noite de sexta?
— Bem... é.
— É para a feira da Associação de Pais e Mestres? — Peter passa por mim e começa a tirar os tênis. — Vocês não andam de sapato em casa, andam?
— Não — respondo, surpresa. — Sua mãe vai preparar alguma coisa?
— Barrinhas de flocos de arroz.
Outra escolha bem mais inteligente do que cinquenta cupcakes.
— Lamento você ter perdido tempo vindo até aqui. Talvez a gente possa ir ao jogo na próxima sexta — digo, esperando que ele volte a calçar os sapatos.
Mas ele não faz isso, vai até a cozinha e se senta em um banco.
Hã?
— Sua casa continua igualzinha — comenta, olhando ao redor. Ele aponta para a foto em um porta-retratos em que Margot e eu estamos tomando banho quando éramos bebês. — Que fofo.
Posso sentir as bochechas ficando quentes. Vou até lá e viro a foto.
— Quando você veio aqui?
— No sétimo ano. Lembra que a gente ficava na casa da árvore da sua vizinha? Precisei fazer xixi uma vez, e você me deixou usar o banheiro.
— Ah, é.
É engraçado ver um garoto que não é Josh na nossa cozinha. Por algum motivo, fico nervosa.
— Quanto tempo vai demorar? — pergunta ele, com as mãos nos bolsos.
— Horas, provavelmente.
Pego a xícara de novo. Não consigo me lembrar em que xícara eu estava.
Peter solta um grunhido.
— Por que não compra uns na padaria?
Começo a medir a farinha que já coloquei na tigela e a separá-la em montinhos.
— Você acha que as outras mães vão comprar comida pronta? Como isso ia ficar para a Kitty?
— Bem, se é por causa da Kitty, então ela deveria estar ajudando. — Peter se levanta do banco, chega perto de mim, passa as mãos pela minha cintura e tenta desamarrar o avental. — Cadê ela?
Fico olhando para ele.
— O que... O que você está fazendo?
Peter olha para mim como se eu fosse burra.
— Preciso de um avental também, se vou ajudar. Não quero que minhas roupas fiquem sujas.
— Não vamos acabar a tempo de assistir ao jogo — falo para ele.
— Então vamos só para a festa depois. — Peter me lança um olhar incrédulo. — Isso estava no bilhete que escrevi hoje!
Deus, por que me dou o trabalho?
— Eu estava muito ocupada — digo baixinho.
Estou me sentindo mal. Ele está cumprindo sua parte do acordo e me escreve religiosamente um bilhete por dia, e eu nem me dou o trabalho de ler todos.
— Não sei se posso ir à festa. Não sei se tenho permissão para sair tão tarde.
— Seu pai está em casa? Vou pedir para ele.
— Não, ele está no hospital. Além do mais, não posso deixar a Kitty aqui sozinha.
Eu pego a xícara de medida de novo.
— Que horas seu pai chega em casa?
— Não sei. Tarde. — Ou talvez daqui a uma hora. Mas a essa altura Peter já vai ter ido embora. — É melhor você ir. Não quero prender você.
Peter geme.
— Covey, eu preciso que você vá. A Gen ainda não falou nada sobre nós, e esse é o objetivo de tudo isso. E... talvez ela leve aquele babaca com quem está namorando. — Peter faz beicinho. — Vamos lá. Eu ajudei com o Josh, não foi?
— Foi — admito. — Mas, Peter, preciso fazer os cupcakes para a feira e...
Peter estica o braço.
— Então vou ajudar você. É só me dar um avental.
Eu me afasto e começo a procurar outro avental. Encontro um com estampa de cupcakes e entrego a ele. Peter faz uma careta e aponta para o meu.
— Quero o que você está usando.
— Mas este é meu! — É de guingão vermelho e branco com ursinhos marrons; minha avó comprou para mim na Coreia. — Eu sempre uso este. Coloca o outro e pronto.
Lentamente, Peter balança a cabeça e estica a mão.
— Me dá o seu. Você me deve uma por não ler meus bilhetes.
Desamarro o avental e o entrego para ele. Então me viro e volto a medir.
— Você é mais infantil do que a Kitty.
— Anda logo e me diz o que fazer — diz ele.
— Mas você sabe cozinhar? Porque só tenho os ingredientes exatos para cinquenta cupcakes. Não quero ter que recomeçar...
— Eu sei fazer doces!
— Tudo bem, então. Coloca esses tabletes de manteiga na tigela.
— E depois?
— Quando você terminar, eu passo a tarefa seguinte.
Peter revira os olhos, mas faz o que eu mando.
— Então é isso que você faz nas noites de sexta? Fica em casa de pijama e faz cupcakes?
— Eu faço outras coisas também — digo, enquanto prendo o cabelo em um rabo de cavalo apertado.
— Como o quê?
Ainda estou tão nervosa pelo aparecimento repentino de Peter que não consigo pensar.
— Hã, eu saio.
— Para onde?
— Meu Deus, não sei! Por acaso isso é um interrogatório? — Sopro a franja dos olhos. Está ficando quente aqui. É melhor eu desligar o forno, porque a chegada de Peter deixou tudo ainda mais lento. Nesse ritmo, vou ficar acordada a noite toda. — Você me fez perder a contagem da farinha. Vou ter que medir tudo de novo!
— Aqui, deixa que eu faço — diz Peter, se aproximando de mim.
Eu me afasto dele.
— Não, não, deixa que eu faço — recuso, mas ele balança a cabeça e tenta pegar a xícara da minha mão, mas eu resisto, e a farinha voa e se espalha no ar, sujando nós dois. Peter começa a rir, e eu solto um grito ultrajado. — Peter!
Ele está rindo demais e não consegue falar.
Eu cruzo os braços.
— É melhor eu ainda ter farinha suficiente.
— Você parece uma velhinha — diz ele, ainda rindo.
— Bem, você parece um velhinho — retruco.
Jogo a farinha que está na tigela de volta no saco.
— Na verdade, você parece muito a minha avó — diz Peter. — Odeia todo e qualquer tipo de palavrão. Gosta de fazer bolos. Fica em casa nas noites de sexta. Uau, estou namorando minha avó. Que nojo.
Eu começo a medir de novo. Uma xícara, duas.
— Eu não fico em casa todas as noites de sexta.
Três.
— Eu nunca vi você sair. Você não vai a festas. A gente andava junto, antigamente. Por que você parou de andar com a gente?
Quatro.
— Eu... não sei. Era diferente no fundamental.
O que ele quer que eu diga? Que Genevieve decidiu que eu não era legal o bastante para andar com eles? Por que ele é tão sem noção?
— Eu sempre quis saber por que você parou de sair com a gente.
Eu estava na cinco ou na seis?
— Peter! Você me fez perder a conta de novo!
— Eu tenho esse efeito nas mulheres.
Reviro os olhos, e ele sorri para mim, mas, antes que possa dizer qualquer outra coisa, eu grito:
— Kitty! Vem cá!
— Estou trabalhando...
— O Peter está aqui!
Sei que isso vai convencê-la.
Em cinco segundos, Kitty entra correndo na cozinha. Ela para de repente e fica tímida.
— Por que você está aqui? — pergunta ela.
— Vim buscar a Lara Jean. Por que você não está ajudando?
— Eu estava fazendo uma experiência. Quer me ajudar?
Eu respondo por ele.
— Claro, ele vai ajudar você. — Para Peter, eu digo: — Você está me distraindo. Vai ajudar a Kitty.
— Não sei se você quer a minha ajuda, Katherine. Sabe, eu sou uma distração para as mulheres. Faço elas perderem a conta. — Peter pisca para ela, e finjo que estou com ânsia de vômito. — Por que você não fica aqui embaixo e nos ajuda com os cupcakes?
— Cha-to!
Kitty dá meia-volta e sobe a escada correndo.
— Não ouse querer colocar coberturas ou confeito quando terminar! — grito. — Você não ganhou esse direito!
Estou batendo a manteiga e Peter está quebrando os ovos em uma saladeira lascada quando meu pai chega em casa.
— De quem é aquele carro lá fora? — pergunta ele, ao entrar na cozinha. Papai para na mesma hora. — Oi — diz, surpreso.
Está com uma sacola para viagem do restaurante chinês na mão.
— Oi, pai — cumprimento, como se fosse perfeitamente normal Peter Kavinsky estar na nossa cozinha. — Você parece cansado.
Peter endireita a postura.
— Oi, dr. Covey.
Meu pai coloca a sacola na bancada da cozinha.
— Ah, oi — diz ele, limpando a garganta. — É um prazer ver você. Você é Peter K., certo?
— Certo.
— Da galera antiga — diz meu pai, de modo jovial, e me encolho de vergonha.
— O que vocês estão fazendo?
— Estou fazendo cupcakes para a feira de doces da Associação de Pais e Mestres da Kitty e o Peter está ajudando.
Meu pai assente.
— Está com fome, Peter? Tem o bastante para todo mundo. — Ele levanta a bolsa. — Camarão lo mein, frango kung pao.
— Na verdade, Lara Jean e eu íamos passar na festa de um amigo nosso — diz Peter. — Tem problema? Prometo que a trago de volta cedo.
Antes que meu pai possa responder, eu digo para Peter:
— Eu já falei que tenho que terminar os cupcakes.
— A Kitty e eu terminamos — interrompe meu pai. — Vocês dois podem ir para a festa de aniversário.
Meu estômago fica embrulhado.
— Não tem problema, pai. Eu é que tenho que fazer, vou fazer uma decoração especial.
— Kitty e eu damos um jeito. Pode ir trocar de roupa. Vamos trabalhar nesses cupcakes.
Eu abro e fecho a boca como um peixe.
— Tudo bem, então.
Mas não me mexo, só fico ali de pé, porque tenho medo de deixar os dois sozinhos. Peter dá um sorriso largo para mim.
— Você ouviu seu pai. Está tudo sob controle.
E eu penso: Não aja com confiança demais, porque meu pai vai pensar que você é arrogante.

* * *

Há certas roupas que fazem a gente se sentir bem toda vez que as usamos, e há roupas de que gostamos tanto que as usamos várias vezes seguidas, e depois parecem ter saído do lixo. Estou olhando meu armário agora e tudo parece lixo. Minha ansiedade só aumenta por saber que Gen vai estar perfeita, porque tudo fica bem nela. E eu também tenho que usar a roupa certa. Peter não viria até aqui fazendo questão de ir à festa se não fosse importante para ele.
Coloco uma calça jeans e experimento algumas blusas: uma cor de pêssego com babados que de repente parece exagerada, um suéter comprido e felpudo com o desenho de um pinguim que parece infantil demais. Estou colocando um short cinza com suspensórios pretos quando alguém bate à porta. Fico imóvel e pego um suéter para me cobrir.
— Lara Jean.
É Peter.
— O quê?
— Você está pronta?
— Quase! Só... me espera lá embaixo. Desço daqui a pouco.
Ele solta um suspiro audível.
— Tudo bem. Vou ver o que a sua irmã está fazendo.
Quando ouço os passos dele se afastando, experimento uma blusa creme de bolinhas com o conjunto de short e suspensório. É bonitinho, mas será que está fofo demais? Exagerado? E devo colocar uma meia-calça preta ou meias pretas até os joelhos? Margot disse que essa roupa me faz parecer uma parisiense. Parisiense é bom. Sofisticado, romântico. Experimento uma boina só para ver o efeito, mas descarto na mesma hora. Fica exagerado.
Eu queria que Peter não tivesse aparecido assim. Preciso de tempo para me planejar, me preparar. Embora, para falar a verdade, se ele tivesse me convidado com antecedência, eu teria inventado uma desculpa para não ir. Uma coisa é ir à sorveteria depois da aula, mas uma festa com todos os amigos dele e, além de tudo, Genevieve?
Pulo pelo quarto em busca das meias até os joelhos e depois em busca do meu potinho de brilho labial de morango no formato de um morango. Caramba, preciso arrumar o quarto. Não consigo encontrar nada nessa bagunça.
Corro até o quarto de Margot para pegar o cardigã dela emprestado. Passo pela porta aberta de Kitty, e vejo Peter e ela deitados no chão, mexendo no kit de laboratório. Reviro a gaveta de suéteres de Margot, que agora só tem camisetas e shorts, porque ela levou a maioria dos casacos. Não acho cardigã nenhum. Mas, no fundo da gaveta, há um envelope. Uma carta de Josh.
Quero tanto abrir. Sei que é errado.
Com todo o cuidado do mundo, tiro a carta do envelope e a desdobro.

Querida Margot,
Você disse que tínhamos que terminar porque você não quer ir para a faculdade namorando, porque quer sua liberdade e não quer se sentir presa a nada. Mas você sabe e eu sei que esse não é o verdadeiro motivo. Na verdade, você terminou comigo porque nós transamos e você ficou com medo de ficarmos muito íntimos.

Eu paro de ler.
Não consigo acreditar. Chris estava certa, e eu, errada. Margot e Josh transaram. Parece que tudo que eu achava que sabia é mentira. Achei que conhecia Margot, mas, no fim das contas, não sei quem ela é.
Ouço Peter chamar meu nome.
— Lara Jean! Você já está pronta?
Mais do que depressa, dobro a carta e a enfio de volta no envelope. Coloco na gaveta e fecho.
— Estou indo!

9 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!