16 de abril de 2018

Capítulo 35

ESTOU NA AULA de francês, olhando pela janela como sempre faço, e vejo Josh andando na direção das arquibancadas perto da pista de atletismo. Está levando o almoço para lá, sozinho. Por que vai comer sozinho? Ele tem o grupo dos quadrinhos, tem Jersey Mike.
Mas acho que ele e Jersey Mike não andaram muito juntos no ano passado. Josh estava sempre com Margot e comigo. O trio. E agora não somos sequer uma dupla, e ele está sozinho. Em parte, é culpa de Margot, por ter ido embora, mas também tenho uma parcela de culpa; se eu não tivesse começado a gostar dele, não ia precisar inventar essa história toda de Peter K., e poderia continuar sendo a boa e velha amiga Lara Jean.
Talvez seja por isso que mamãe falou para Margot não ir para a faculdade namorando. Quando se está namorando, você só quer ficar com essa pessoa, esquece todas as outras, e depois, quando o relacionamento acaba, não tem nenhum amigo. Eles estavam se divertindo sem você.
Só posso dizer que Josh é uma figura solitária comendo o sanduíche no alto da arquibancada.

* * *

Pego o ônibus para voltar para casa, porque Peter teve que sair mais cedo para um jogo de lacrosse. Estou pegando a correspondência na caixa de correio quando Josh estaciona na entrada da garagem dele.
— Oi! — grita ele.
Josh sai do carro e corre até mim, com a mochila pendurada no ombro.
— Eu vi você no ônibus — diz ele. — Eu acenei, mas você estava sonhando acordada. Quanto tempo seu carro vai ficar na oficina?
— Não sei. A data muda toda hora. Tiveram que encomendar uma peça vinda de longe, acho que de Indiana.
Josh me olha com desconfiança.
— E você está secretamente aliviada, não está?
— Não! Por que eu ficaria aliviada?
— Pare com isso. Eu conheço você. Odeia dirigir. Deve estar feliz por ter uma desculpa para não precisar fazer isso.
Começo a protestar, mas paro. Não faz sentido. Josh me conhece muito bem.
— Bem, talvez eu esteja um pouquinho aliviada.
— Se precisar de carona, sabe que pode me ligar, né?
Eu assinto. Eu sei. Não ligaria por mim, mas ligaria por Kitty, em uma emergência.
— Sei que você tem o Kavinsky agora, mas eu moro aqui do lado. É bem mais conveniente eu dar carona para você do que ele. É até mais responsável com o meio ambiente. — Eu não respondo, e Josh coça a nuca. — Quero dizer uma coisa para você, mas é esquisito tocar nesse assunto. O que também é estranho, porque antes nós podíamos conversar sobre tudo.
— Ainda podemos — digo. — Nada mudou.
Essa é a maior mentira que já contei para ele, maior até do que a vez em que contei a ele sobre minha suposta irmã gêmea morta, Marcella. Até dois anos atrás, Josh achava que eu tinha uma irmã gêmea que morreu de leucemia.
— Tudo bem. Eu sinto... sinto que você tem me evitado desde que...
Ele vai dizer. Vai realmente dizer. Eu encaro o chão.
— Desde que a Margot terminou comigo.
Eu levanto a cabeça. É isso que ele pensa? Que o estou evitando por causa de Margot? Minha carta provocou um impacto tão pequeno assim? Tento manter o rosto sério e inexpressivo.
— Eu não estou evitando você. Só ando ocupada.
— Com o Kavinsky. Eu sei. Você e eu nos conhecemos há muito tempo. Você é uma das minhas melhores amigas, Lara Jean. Não quero perder você também.
É o “também” que estraga tudo. É o “também” que me faz parar. É o que me irrita. Porque, se ele não tivesse dito “também”, aquela conversa teria sido sobre mim e ele. Não sobre mim, ele e Margot.
— Aquela carta que você escreveu...
Tarde demais. Não quero mais falar sobre a carta. Antes que ele possa dizer qualquer outra coisa, eu disparo:
— Sempre serei sua amiga, Josh.
E abro um sorriso, o que exige muito esforço. Esforço demais. Mas, se eu não sorrir, vou chorar.
Josh assente.
— Tudo bem. Ótimo. Então... podemos voltar a nos ver?
— Claro.
Josh estica a mão e belisca meu queixo.
— Quer carona para a escola amanhã?
— Quero.
Afinal, não foi esse o motivo de tudo? Poder andar com Josh de novo sem aquela carta pairando sobre nossas cabeças? Ser apenas a boa e velha amiga Lara Jean outra vez?

* * *

Depois do jantar, ensino Kitty a lavar roupa. Ela resiste no começo, mas digo que é uma tarefa que vamos dividir de agora em diante e que é melhor ela aceitar.
— Quando o bipe tocar, isso quer dizer que acabou e você tem que dobrar logo, para a roupa não ficar amassada.
Para nossa surpresa, Kitty gosta de cuidar das roupas. O motivo principal é que ela pode se sentar na frente da tevê e dobrar enquanto vê os programas de que gosta sossegada.
— Da próxima vez, vou ensinar a passar roupa.
— Passar também? Por acaso sou a Cinderela?
Eu a ignoro.
— Você vai gostar de passar roupa. Você adora coisas precisas e linhas retas. Vai fazer isso até melhor do que eu.
Isso desperta a atenção dela.
— É, pode ser. As que você passa sempre ficam meio amassadas mesmo.
Depois que terminamos com as tarefas, Kitty e eu vamos nos refrescar no banheiro que dividimos. Ele tem duas pias; Margot ficava com a da esquerda, e Kitty e eu disputávamos para decidir quem era a dona da pia da direita. Agora é dela.
Kitty escova os dentes, e eu passo uma máscara de pepino e aloé no rosto.
— Você acha que, se eu pedisse, Peter nos levaria ao McDonald’s amanhã, no caminho da escola? — pergunta Kitty.
Passo mais um pouco da máscara facial verde nas bochechas.
— Não quero que você se acostume a pegar carona com o Peter. Você vai de ônibus de agora em diante, tá?
Kitty faz beicinho.
— Por quê?
— Porque sim. Além do mais, Peter não vai me dar carona amanhã. Vou com o Josh.
— Mas Peter não vai ficar com raiva?
Meu rosto está ficando rígido conforme a máscara seca. Respondo entredentes:
— Não. Ele não é ciumento.
— Então quem é o ciumento?
Não tenho uma boa resposta para isso. Quem é o ciumento? Estou pensando nisso quando Kitty começa a rir, olhando para mim pelo espelho.
— Você parece um zumbi.
Estico as mãos para seu rosto, mas ela desvia. Faço minha melhor voz de zumbi:
— Quero comer seu cérebro.
Kitty sai correndo, gritando.
Quando volto para o quarto, mando uma mensagem de texto para Peter avisando que não preciso de carona amanhã. Não digo que Josh vai me dar carona. Só por precaução.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!