20 de abril de 2018

Capítulo 2

Arcturo acordou na escuridão. Por segundos agonizantes, pensou que o ataque o cegara. Foi apenas o estreito feixe luz na ponta da sala que lhe disse o contrário.
O ar era velho e pesado, como se não tivesse sido arejado por um bom tempo. A pedra debaixo dele era fria, desprovida de qualquer calor ou conforto. Pontadas de dor atravessavam seu crânio a cada virada de sua cabeça, e uma apalpada em sua têmpora revelou um calombo do tamanho de um ovo de ganso.
Ele deitou na escuridão, preparando-se para levantar e explorar seus limites. Talvez se engatinhasse para a luz, poderia chamar por ajuda. Ele tentou falar, mas tudo o que saiu foi um som rouco. Uma sede que ele nunca tinha sentido rugia dentro dele, deixando sua língua inchada colada no céu da sua boca como um pedaço de carne seca.
 Passos, altos e com propósito, ecoaram da fonte de luz. A porta — porque era isso o que era — foi aberta, cegando-o com o brilho de uma tocha. Ele piscou à nova claridade, fazendo sombra em seus olhos com uma mão.
— Já está acordado? — uma voz fria estalou, levantando mais a chama.
Arcturo apertou os olhos, descobrindo assim botões de bronze em um manto preto; o uniforme de um Pinkerton. O homem era bonito, mas seus olhos eram cruéis e vazios de empatia. Ele se aproximou de Arcturo e se agachou para examiná-lo.
Arcturo vislumbrou uma caneca de água na mão do homem e a agarrou, todo o senso de decoro esquecido. Ele tomou goles profundos e pulsantes, enchendo sua barriga até que o líquido espirrou dentro dele como uma cabaça meio vazia. O homem riu e o levantou. Seu aperto era perverso no ombro de Arcturo.
— Obrigado pela água — Arcturo arquejou, tonto por levantar tão de repente.
— Não era para beber. Era para jogar em você para despertar sua carcaça preguiçosa. Dois dias entrando e saindo de consciência. Aquele nobre deve tê-lo acertado com força. — O Pinkerton riu de novo, então empurrou Arcturo para fora da cela e para baixo de um corredor estreito.
— Aonde estamos indo? — Arcturo gaguejou.
Disparos de dor se espalharam por seu cérebro a cada sacudida como se seu crânio estivesse cheio de relâmpagos. Ele sentiu o demônio nos limites de sua consciência, inundado de confusão e terror. Arcturo preferia os seus próprios sentimentos. Com dor ele estava acostumado, pois seu mestre o surrava quando tomado pelo mau-humor. Era o medo que ele não podia aguentar, apesar de ter alguns lampejos dele enquanto o Pinkerton ignorava suas perguntas, arrastando-o lances de escada acima.
As escadas devam num pequeno corredor, e ao final dele erguiam-se portas duplas de carvalho escuro, talhadas com a insígnia de uma casa nobre. Elas falavam de riqueza e poder, do tipo antigo que era passado de geração em geração. Pinturas revestiam as paredes: retratos de homens velhos com olhos redondos que pareciam segui-lo enquanto passavam.
— Você vai entrar sozinho. Seja rápido. Não se pode deixar um rei esperando — o Pinkerton estalou, depois riu do choque no rosto de Arcturo. — Isso mesmo, garoto. Você está com problemas desse tamanho.
Ele empurrou Arcturo pelas portas, então as fechou com força atrás dele.
Arcturo tropeçou e desabou no chão, indo de encontro a um tapete macio de pele de urso. Prateleiras de livros preenchiam as paredes, interrompidas apenas pela porta atrás dele e por uma lareira crepitante em frente. Estava desconfortavelmente quente na sala, como se um homem doente estivesse sendo purificado em uma sauna.
Havia duas poltronas e um banquinho próximos à lareira. O jovem nobre estava no assento menor, olhando para Arcturo com um sobressalto. Atrás dele estavam sentados dois homens de meia-idade, ambos com manchas grisalhas nas têmporas contra os cabelos pretos. Um assemelhava-se com os retratos, seus olhos arredondados com um nariz adunco. Ele tinha alguns traços em comum com o jovem nobre, e Arcturo percebeu que era o pai dele.
O outro usava uma coroa aberta sobre a cabeça e uma carranca, retorcendo um rosto outrora belo em uma expressão selvagem. Ele só podia ser o Rei Alfric, líder de Hominum. Os três vestiam roupas caras, tudo em veludo, seda e renda de cores metálicas.
— Conte-nos exatamente o que aconteceu, Charles — grunhiu Rei Alfric, sua voz baixa e irritada. — Não deixe nada de fora.
— Eu já falei. Deixei o pergaminho e o couro de conjuração em meus alforjes e dormi em uma estalagem imunda próxima a Boreas. Acordei com um imenso barulho do lado de fora, então fui investigar. A próxima coisa que vi foi esse... criminoso... acariciando o meu demônio! — Charles apontou um dedo vacilante para Arcturo, cuspindo enquanto falava. — Eu o golpeei com o meu bastão e fiz o estalajadeiro chamar os Pinkertons enquanto eu prendia a besta no estábulo. Não é a mim que o senhor deveria interrogar. Questione o delinquente.
— Você falará com o seu rei com respeito! — o pai vociferou, levantando-se e dando um tapa na cara de Charles. Ele abaixou a cabeça e curvou-se para o rei, que acenou uma mão lânguida em aceitação.
— Acalme-se, Royce. Nós temos coisas mais importantes para nos preocupar do que sutilezas mesquinhas. — O rei se virou para Arcturo e deu um sorriso forçado, tentando relaxá-lo. Teve o efeito oposto. — Ouça atentamente, cavalariço. Você é a única testemunha do roubo do demônio de Lorde Faversham... ou eu deveria dizer, do demônio do filho dele. O pergaminho e o couro que Charles mencionou são uma maneira de transferir um demônio de um nobre para outro, geralmente de pai para filho. Agora, quero que pense com muito cuidado. Quem pegou os itens da bolsa e conjurou o demônio no estábulo? Você viu uma insígnia em suas roupas, ou talvez uma cor distintiva?
Rei Alfric se virou para Lorde Faversham antes que Arcturo pudesse responder, o que era bom. Sua mente ainda vacilava.
— Lorde Lovett foi abençoado com quatro filhos adeptos, em vez do habitual primogênito. Sua filha mais nova está entrando na Academia Vocans este ano, assim como Charles. Providenciar um quarto demônio para ela seria difícil, especialmente para um conjurador fraco como ele. Você não acha que...?
— Meu Rei, ele não ousaria. Os Lovetts são governadores de Calgary, um feudo pobre no fim das contas. Não é nada mais do que algumas fazendas e rios. Seria um risco grande demais para ele. Se ele fosse pego, meus guardas iriam como uma tempestade até Calgary e tomar de volta o que é nosso, e mais além disso. Com a Vossa permissão, é claro. — Lorde Faversham inclinou sua cabeça respeitosamente.
— É claro. — Alfric concordou, seus olhos pousando em Arcturo mais uma vez.
— Quem foi então? — Charles perguntou, sua voz baixa e ameaçadora, a impressão da mão de seu pai flamejando vermelha em seu rosto. — Quem roubou o meu demônio de mim?
Arcturo emudeceu, incapaz de responder. Mentir parecia ser a melhor opção. Culpar uma figura misteriosa, algum nobre sem rosto que veio na calada da noite. A questão era, eles o deixariam viver, à perspectiva do que ele sabia? E mesmo se deixassem, o que aconteceria? De volta ao reformatório, para morrer de fome com outras crianças de que ninguém gostava.
Talvez fosse melhor tentar a sorte, ver o que a verdade traria. Um plebeu ser capaz de conjurar um demônio era algo sem precedentes – poderia virar sua vida de cabeça para baixo. Mas quando se estava no fundo do poço, fazia sentido reestruturar a base.
— Fui eu — ele anunciou, sua voz tão confiante quanto possível. — Eu conjurei o demônio. Posso senti-lo agora.
Houve uma passa, então gargalhadas quando o rei e Lorde Faversham explodiram em risadas. Até Charles bufou, mas a malícia nunca deixou seus olhos. Arcturo ficou em silêncio, trincando a mandíbula.
O rei levantou a mão, interrompendo as risadas. Seu riso reduziu-se a um cenho franzido.
— Charles, venha aqui. — Ele chamou o jovem nobre, então se inclinou e sussurrou em sua orelha. Charles hesitou, então saiu da sala, batendo a porta atrás de si.
O rei uniu as pontas dos dedos, travando o olhar com Arcturo. Seus olhos cinza não revelavam nada, mas Lorde Faversham tamborilou os dedos no descanso de braço, revelando um súbito nervosismo. Apesar do calor, Arcturo estremeceu sob o exame detalhado.
— Você está jogando um jogo perigoso aqui — disse Lorde Faversham, estreitando os olhos para Arcturo. — Eles te pagaram para nos alimentar com essa história mentirosa e convencida? Porque se pensa por um momento que poderá mentir e sair deste castelo vivo, você está muito enganado.
— É verdade — respondeu Arcturo, amaldiçoando sua voz trêmula. — Eu li o pergaminho em voz alta e o demônio apareceu.
— Plebeus não podem conjurar demônios — o rei estalou, a impaciência levando a melhor. — O dom é transmitido pelo sangue, sempre para o primogênito e algumas vezes para os outros filhos. As casas nobres têm sido as únicas conjuradoras em Hominum por duzentos anos. Agora, eu darei mais uma chance. Se me disser a verdade e identificar o ladrão, eu lhe darei quatrocentos xelins e oferecerei transporte para Corcillum. Não posso ser mais justo que isso. — Mas Arcturo podia sentir algo novo, raspando nele como unhas em uma lousa. Era dor, distante mas feroz, emanando do fio que o ligava ao demônio. Uma pulsação nova o fez cair de joelhos, apertando sua cabeça. A sensação dupla dessa dor fresca e de que suas lesões eram quase demais para suportar.
— Você o está machucando! — ele chorou, enterrando a cabeça no tapete de pele de urso.
— Quando vai acabar com essa farsa? — grunhiu Lorde Faversham, chutando Arcturo.
Mas o rei levantou um dedo ossudo, antes de apontar para a entrada da biblioteca.
— Enquanto falamos, seu filho está chicoteando o demônio no andar debaixo conforme instruí. Eu estava esperando apenas causar ao ladrão algum desconforto. Em vez disso, parece que nós o revelamos. — O rei sorriu enquanto Arcturo lamuriava-se em agonia.
Ele mal podia compreender as palavras, ondas frescas de dor tirando todos os seus sentidos.
— Quem é você, garoto? — rosnou Lorde Faversham, levantando Arcturo do chão pelo colarinho e segurando-o no ar. — Seu disfarce de cavalariço foi descoberto, nos diga a qual casa você pertence agora e talvez sua punição seja menos severa. Você é um Sinclair? Um Fitzroy?
— Nenhuma... casa... — engasgou Arcturo.
— Coloque-o no chão, Royce — o rei ordenou, tirando Arcturo do aperto de Lorde Faversham antes que seu comando pudesse ter sido obedecido. — Esse garoto não é impostor. Você não pode notar por seu sotaque, sua conduta? Apenas o odor de seu corpo cheira a criação comum.
— O que você o senhor dizendo? — perguntou Lorde Faversham, respirando pesadamente. — Que esse garoto está dizendo a verdade?
— Estou dizendo — o rei murmurou, batendo em seu queixo com um longo dedo — que esse menino é... algo novo.

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