16 de abril de 2018

Capítulo 29


NAQUELA SEXTA, VOU ao primeiro jogo de futebol americano da minha vida. Eu nunca tinha tido o menor interesse nisso, e ainda não tenho. Estou sentada no alto da arquibancada com Peter e os amigos dele e, até onde sei, não há muito o que ver. O que acontece é muita espera, muita gente amontoada e pouca ação. Nem um pouco parecido com os jogos de futebol americano dos filmes e programas de tevê.
Às nove e meia, o jogo está quase acabando — eu espero —, e estou bocejando com a boca escondida na manga do casaco quando Peter de repente passa o braço por cima dos meus ombros. Eu quase engasgo no meio do bocejo.
Lá embaixo, Genevieve está torcendo com o restante da equipe. Está balançando e sacudindo os pompons. Ela olha para a arquibancada e, quando nos vê, para por meio segundo antes de reiniciar a coreografia, com os olhos soltando faíscas.
Olho para Peter, que exibe um sorrisinho satisfeito. Quando Genevieve volta para a lateral do campo, ele tira o braço e, de repente, parece lembrar que estou ali.
— O pessoal vai para a casa do Eli hoje. Quer ir?
Eu nem sei quem é Eli. Bocejo de novo, dessa vez com exagero, para ele ver.
— Hã... estou muito cansada. Então... não. Não, obrigada. Você pode me deixar em casa no caminho?
Peter me olha, mas não discute.
No caminho, passamos pela lanchonete, e Peter dispara:
— Estou com fome. Quer comer alguma coisa? — E então acrescenta: — Ou está cansada demais?
Eu ignoro a alfinetada.
— Claro, vamos comer.
Peter pega o retorno e estaciona na lanchonete. Escolhemos uma mesa bem na frente. Sempre que eu vinha para cá com Margot e Josh, nós nos sentávamos no fundo, perto do jukebox, para podermos colocar moedas. Na metade das vezes, o jukebox estava quebrado, mas mesmo assim gostávamos de nos sentar perto dele. É estranho estar aqui sem eles. Temos tantas tradições... Nós três pedíamos dois queijos quentes e cortávamos em quadrados, então pedíamos uma tigela de sopa de tomate para molhar os quadradinhos, depois Josh e eu dividíamos um waffle com porção extra de chantilly de sobremesa enquanto Margot comia pudim de tapioca. Nojento, eu sei. Tenho certeza de que só avós gostam de pudim de tapioca.
Nossa garçonete é Kelly, que está na faculdade. Ela passou o verão fora, mas pelo visto está de volta. Ela olha para Peter enquanto coloca nossos copos de água na mesa.
— Onde estão seus amigos? — pergunta para mim.
— A Margot foi para a Escócia, e o Josh... não está aqui — respondo.
Peter revira os olhos quando ouve isso.
Em seguida, ele pede panquecas de mirtilo, bacon e ovos mexidos. Peço um queijo quente com batatas fritas e refrigerante de cereja preta.
Quando Kelly sai com nossos pedidos, pergunto a ele:
— Por que você odeia tanto o Josh?
— Eu não odeio o Josh — retruca Peter, com deboche. — Nem conheço o cara direito.
— Ah, mas está na cara que você não gosta dele.
Peter me olha com raiva.
— Como eu poderia gostar? Ele me dedurou uma vez por colar no sétimo ano.
Peter colou? Meu estômago fica um pouco embrulhado.
— Que tipo de cola? No dever de casa?
— Não, em uma prova de espanhol. Eu escrevi as respostas na calculadora, e o cara me entregou. Quem faz esse tipo de coisa?
Observo o rosto dele em busca de algum sinal de constrangimento ou vergonha, mas não vejo nem sombra.
— Por que você está sendo tão arrogante? Foi você quem colou!
— Foi no sétimo ano!
— Bem, você ainda cola?
— Não. Quase nunca. Quer dizer, já colei. — Ele franze a testa para mim. — Quer parar de me olhar assim?
— Assim como?
— Como se estivesse me julgando. Olha, eu vou para a faculdade com uma bolsa de lacrosse, então que importância tem?
Tenho uma revelação repentina.
— Espera... você sabe ler? — pergunto baixinho.
Ele cai na gargalhada.
— Claro que sei ler! Caramba, Lara Jean. Nem tudo tem uma história por trás, tá? Só sou preguiçoso. — Ele ri com ironia. — Se sei ler? Escrevi vários bilhetes para você! Você é hilária.
Posso sentir meu rosto ficando vermelho.
— Não foi tão engraçado. — Eu olho para ele com olhos semicerrados. — Tudo é uma piada para você?
— Nem tudo, mas a maioria das coisas, sem dúvida.
Eu baixo o queixo.
— Então talvez esse seja um defeito no qual você deva trabalhar — digo. — Porque algumas coisas são importantes e precisam ser levadas a sério. Sinto muito se acha que estou julgando você.
— Está julgando mesmo. Acho que você gosta de julgar as pessoas. É um defeito no qual você devia trabalhar. Também acho que você devia aprender a relaxar e a se divertir.
Estou fazendo uma lista de todas as minhas formas de diversão (andar de bicicleta, que odeio, fazer bolos e biscoitos, ler; penso em dizer tricô, mas tenho certeza de que ele só vai rir da minha cara) quando Kelly traz nossa comida, e paro para poder morder meu sanduíche enquanto o queijo ainda está derretido.
Peter rouba uma batata frita.
— E então, quem mais?
— Quem mais o quê?
Com a boca cheia, ele diz:
— Quem mais recebeu uma carta?
— Hã, isso não é da sua conta.
Eu balanço a cabeça para ele como quem diz: Uau, que grosseria.
— O que foi? Só estou curioso. — Peter mergulha outra batata no meu potinho de ketchup. Com um sorrisinho, ele insiste: — Vamos lá, não seja tímida. Pode me contar. Sei que sou o número um, é claro. Mas quero saber quem mais conseguiu passar pelo seu crivo.
Ele está praticamente inflado de tão cheio de si. Tudo bem, se ele quer tanto saber, vou contar.
— Josh, você...
— Obviamente.
— Kenny.
Peter ri.
— Kenny? Quem é?
Apoio os cotovelos na mesa e o queixo nas mãos.
— Um garoto que conheci no acampamento da igreja. Era o melhor nadador entre os meninos. Salvou um garoto de se afogar, uma vez. Nadou até o meio do lago antes de os salva-vidas repararem que tinha alguma coisa errada.
— O que ele disse quando recebeu a carta?
— Nada. Foi devolvida ao remetente.
— Certo, quem mais?
Dou outra mordida no sanduíche.
— Lucas Krapf.
— Ele é gay — declara Peter.
— Ele não é gay!
— Cara, para de sonhar. O garoto é gay. Ontem foi de lenço no pescoço para a escola e tudo.
— Tenho certeza de que era uma ironia. Além do mais, usar lenços não torna alguém gay.
Olho para ele como quem diz Nossa, que homofóbico.
— Ei, não me olhe assim — protesta ele. — Meu tio favorito é gay pra caramba. Aposto cinquenta pratas que, se eu mostrasse a foto do Lucas para o meu tio Eddie, ele confirmaria em meio segundo.
— Não é porque Lucas aprecia moda que ele é gay. — Peter abre a boca para retrucar, mas levanto a mão para silenciá-lo. — Só significa que ele é um garoto da cidade no meio dessa... roça chata. Aposto que vai acabar indo para a Universidade de Nova York ou para alguma outra instituição por lá. Pode até virar ator de tevê. Ele tem o visual, sabe? Esbelto e com feições delicadas. Feições muito sensíveis. Ele parece... um anjo.
— E o que o Garoto Anjo disse sobre a carta?
— Nada... Tenho certeza de que foi porque ele é um cavalheiro e não quer me constranger tocando no assunto.
Encaro Peter com firmeza. Ao contrário de algumas pessoas é o que estou dizendo com o olhar.
Peter revira os olhos.
— Tudo bem, tudo bem. Tanto faz, não dou a mínima. — Ele se recosta e coloca o braço sobre o encosto da cadeira vazia ao lado. — Com ele são quatro. Quem mais?
Fico surpresa de ele estar contando.
— John Ambrose McClaren.
Peter arregala os olhos.
— McClaren? Quando você gostou dele?
— No oitavo ano.
— Pensei que você gostasse de mim no oitavo ano!
— Pode ter havido certa sobreposição. — Mexendo o canudo, eu continuo: — Teve uma vez na aula de educação física... Ele e eu tínhamos que recolher todas as bolas de futebol, e começou a chover... — Solto um suspiro. — Acho que foi a coisa mais romântica que já aconteceu comigo.
— Por que as garotas gostam tanto de chuva? — questiona Peter.
— Não sei... Acho que talvez seja porque tudo parece mais dramático na chuva — respondo, dando de ombros.
— Aconteceu alguma coisa de verdade entre vocês dois ou só ficaram catando bolas de futebol na chuva?
— Você nunca entenderia.
Uma pessoa como Peter jamais poderia entender.
Peter revira os olhos.
— E a carta do McClaren foi enviada para a casa antiga dele?
— Acho que sim. Não tive nenhuma notícia dele.
Tomo um longo gole de refrigerante.
— Por que você parece tão triste?
— Não estou!
Talvez esteja um pouco. Acho que John Ambrose McClaren é, de todos os garotos que já amei, o mais importante para mim, além de Josh. Havia algo de tão doce nele. Foi a promessa do talvez, talvez um dia. Acho que John Ambrose McClaren e eu poderíamos dar certo. Em voz alta, comento:
— Quer dizer, ou ele nunca recebeu minha carta, ou recebeu e... — Dou de ombro. — Eu sempre quis saber o que aconteceu com ele. Se ainda é o mesmo. Aposto que sim.
— Quer saber, acho que talvez ele tenha falado de você uma vez... — Lentamente, ele diz: — É, ele falou mesmo. Disse que achava você a garota mais bonita do nosso ano. Disse que o maior arrependimento que tinha do fundamental era não ter convidado você para o baile.
Meu corpo todo fica imóvel e acho que paro de respirar.
— Sério? — sussurro.
Peter explode em gargalhadas.
— Cara! Você é tão ingênua!
Meu estômago se contrai. Piscando, eu digo:
— Isso foi muita maldade! Por que você diria uma coisa dessas?
Peter para de rir.
— Ei, desculpa. Eu só estava brincando...
Estico a mão por cima da mesa e dou um soco forte no ombro dele.
— Seu babaca!
Peter massageia o ombro.
— Ai! Doeu!
— Você mereceu.
— Desculpa — pede ele de novo. Mas ainda há um brilho de divertimento em seus olhos, então viro o rosto. — Ei, para com isso. Não fica chateada. Quem sabe? Talvez ele gostasse de você. Vamos ligar para ele e descobrir.
Eu olho para ele.
— Você tem o número do celular dele? Tem o número de John Ambrose McClaren?
Peter pega o celular.
— Claro. Vamos ligar para ele.
— Não! — Tento arrancar o celular dele, mas Peter é mais rápido. Segura o aparelho acima da minha cabeça, e não consigo alcançar. — Não ouse ligar para ele!
— Por quê? Achei que você quisesse saber o que aconteceu com ele.
Balanço a cabeça vigorosamente.
— Do que tem tanto medo? De ele não se lembrar de você? — Alguma coisa muda no rosto dele, uma percepção repentina sobre mim. — Ou de ele se lembrar?
Eu balanço a cabeça de novo.
— É isso.
Peter assente para si mesmo, inclina a cadeira para trás e entrelaça as mãos atrás da cabeça. Não gosto do jeito como ele está olhando para mim. Como se achasse que já sabe tudo sobre mim. Estico a mão para ele com a palma para cima.
— Me dá o celular.
O queixo de Peter cai.
— Você vai ligar para ele? Agora?
Gosto do fato de tê-lo surpreendido. Faz eu me sentir como se tivesse reconquistado alguma coisa. Acho que pegar Peter de surpresa pode virar um hobby divertido para mim. Com uma voz imperativa que até hoje só usei com Kitty, eu digo:
— Me dá o celular.
Peter me entrega o celular e copio o número de John no meu.
— Vou ligar para ele quando eu tiver vontade, não porque você está com vontade.
Peter me lança um olhar de respeito ressentido. É claro que nunca vou ligar para John, mas Peter K. não precisa saber disso.

* * *

Naquela noite, fico deitada na cama, ainda pensando em John. É divertido imaginar o que poderia ter acontecido. Divertido, mas assustador. É como se eu achasse que essa porta estivesse fechada, mas aqui está ela, com uma frestinha aberta. E se?
Como teria sido, John Ambrose McClaren e eu? Se eu fechar os olhos, consigo quase visualizar.

3 comentários:

  1. Tá rolando um "clima" ou eu tô viajando msm??

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  2. Esses garotos q ela mandou a carta czt vão aparece certo no próximo livro 😰

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  3. Será que já posso shippar?!
    Já tenho dois shipps com a Lara Jean, mais um não faria a menor diferença!

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