16 de abril de 2018

Capítulo 28

NA MANHÃ SEGUINTE, acordo Kitty cedo para ela fazer uma trança no meu cabelo.
— Me deixa em paz — diz ela, rolando para o lado. — Estou dormindo.
— Por favor, por favor, por favor, você faz uma coroa trançada? — peço, me agachando ao lado da cama.
— Não. Vou fazer uma trança lateral e pronto.
Kitty trança meu cabelo depressa e volta a dormir, e eu saio para decidir que roupa usar. Agora que Peter e eu estamos oficialmente juntos, as pessoas vão reparar mais em mim, então tenho que me preocupar com minha aparência. Experimento o vestido de bolinhas e manga bufante com uma meia-calça, mas não fica bom. Nem meu suéter favorito de coração com pompons. Tudo de repente parece tão infantil. Finalmente, me decido por um vestidinho floral que comprei em um site japonês de moda de rua, e combino com uma bota de cano curto. É um visual meio Londres dos anos 1970.
Quando desço a escada, às 7h25, Kitty está me esperando sentada à mesa da cozinha usando uma jaqueta jeans.
— Por que você já está aqui embaixo?
O ônibus dela só passa às oito.
— Tenho excursão hoje, então tenho que chegar mais cedo na escola. Lembra?
Eu corro e dou uma olhada no calendário na geladeira. Lá está, com minha letra: Excursão da Kitty. Droga.
Eu tinha que levá-la de carro, mas isso foi antes do acidente. Papai trabalhou no turno da noite no hospital e ainda não chegou em casa, então não tenho carro.
— Uma das mães não pode vir buscar você?
— Não dá mais tempo. O ônibus sai às 7h40. — O rosto de Kitty está ficando vermelho, e seu queixo começa a tremer. — Não posso perder o ônibus, Lara Jean!
— Calma, não precisa ficar chateada. Vamos pegar uma carona que já está a caminho. Não se preocupa, tá? — Tiro uma banana esverdeada do cacho. — Vamos esperar lá fora.
— Quem?
— Vem logo.

* * *

Kitty e eu estamos esperando nos degraus da varanda enquanto dividimos a banana meio verde. Nós duas preferimos a banana antes de amadurecer, ainda meio verde, a quando ela fica manchada de marrom. É Margot que gosta das manchadas. Eu tento guardar para fazer pão de banana, mas Margot come todas, até mesmo as partes moles e amassadas. Eu me arrepio só de pensar.
O ar está meio frio, apesar de estarmos em setembro e praticamente ainda ser verão. Kitty esfrega as pernas para se aquecer. Ela disse que vai usar short até outubro; esse é o plano dela.
Já passa de sete e meia e nada de Peter chegar. Estou começando a ficar nervosa, mas não quero que Kitty se preocupe.
Decido que, se ele não chegar em exatamente dois minutos, vou até a casa ao lado pedir ao Josh para levar Kitty à escola.
Do outro lado da rua, nossa vizinha, a sra. Rothschild, acena para nós enquanto tranca a porta da frente com um grande copo de café na mão. Ela corre para o carro.
— Bom dia, sra. Rothschild! — nós duas falamos em coro. Cutuco Kitty com o cotovelo e acrescento, baixinho: — Cinco, quatro, três, dois...
— Droga! — grita a sra. Rothschild.
Ela derramou café na mão. Faz isso pelo menos duas vezes por semana. Não sei por que não vai mais devagar, ou coloca uma tampa no copo, ou não o enche tanto.
Nesse momento, Peter aparece, e o Audi preto brilha ainda mais sob a luz do sol. Eu me levanto.
— Vem, Kitty.
Ela me segue.
— Quem é esse? — ouço-a sussurrar.
As janelas estão abertas. Chego perto do lado do passageiro e coloco a cabeça dentro do carro.
— Tudo bem se a gente for deixar minha irmã na escola? — pergunto. — Ela tem que chegar cedo hoje para uma excursão.
Peter parece irritado.
— Por que você não falou ontem?
— Eu não sabia ontem!
Atrás de mim, posso sentir mais do que ouvir a impaciência de Kitty.
— É um carro de dois lugares — diz Peter, como se eu não pudesse ver com meus próprios olhos.
— Eu sei. Vou colocar Kitty no colo e passar o cinto de segurança por nós duas.
Meu pai me mataria se soubesse, mas não vou contar, e Kitty também não.
— É, porque isso parece bem seguro.
Ele está sendo sarcástico. Odeio quando as pessoas são sarcásticas. É tão baixo.
— São três quilômetros!
Ele suspira.
— Tudo bem. Entrem.
Abro a porta, entro e coloco a bolsa no chão.
— Entra, Kitty. — Abro espaço entre as pernas, e ela se senta. Coloco o cinto e fico com os braços ao redor dela. — Não conte para papai.
— Dã — diz ela.
— Oi. Qual é o seu nome? — pergunta Peter.
Kitty hesita. Isso acontece cada vez mais. Com pessoas novas, ela precisa decidir se vai ser Kitty ou Katherine.
— Katherine.
— Mas todo mundo chama você de Kitty?
— Todo mundo que me conhece — responde Kitty. — Você pode me chamar de Katherine.
Os olhos de Peter se iluminam.
— Você é durona — comenta, admirado.
Kitty ignora, mas fica espiando Peter. Ele tem esse efeito sobre as pessoas. Sobre as garotas. Mulheres, até.
Seguimos pelo bairro em silêncio.
— Quem é você, afinal? — pergunta Kitty, por fim.
Olho para ele, que está olhando para a frente.
— Sou Peter. Sou, hã, namorado da sua irmã.
Meu queixo cai. Nunca falei nada sobre mentir para nossas famílias! Achei que seria só na escola.
Kitty fica imóvel nos meus braços. Em seguida, se vira para olhar para mim.
— Ele é seu namorado? Desde quando?
— Desde a semana passada.
Pelo menos isso é verdade. Mais ou menos.
— Mas você não falou nada! Nem uma maldita palavra, Lara Jean!
— Não diga “maldita” — repreendo automaticamente.
— Nem uma maldita palavra — repete Kitty enquanto balança a cabeça.
Peter dá uma gargalhada, e olho para ele com cara feia.
— Tudo aconteceu muito rápido — diz ele. — Quase não tivemos tempo de contar para as pessoas...
— Por acaso eu estava falando com você? — corta Kitty. — Não, acho que não. Eu estava falando com a minha irmã.
Peter arregala os olhos, e posso ver que está tentando manter o rosto sério.
— A Margot sabe? — ela me pergunta.
— Ainda não, e não quero que você conte antes que eu tenha a oportunidade de fazer isso.
— Humpf.
Isso parece acalmar Kitty um pouco. Saber de alguma coisa primeiro, antes de Margot, é importante.
Mas logo chegamos à escola, e graças a Deus o ônibus ainda está no estacionamento. Todas as crianças estão enfileiradas na frente dele. Solto a respiração que estava prendendo durante todo o caminho, e Kitty já está se soltando de mim e saindo do carro.
— Divirta-se na excursão! — grito.
Ela se vira e aponta um dedo acusatório para mim.
— Quero ouvir a história inteira quando chegar em casa!
Com esse decreto, ela sai correndo na direção do ônibus.
Eu recoloco o cinto.
— Hã, não me lembro de termos decidido dizer para nossas famílias que éramos namorados.
— Ela ia acabar descobrindo se eu for ficar levando vocês de carro por aí.
— Você não precisava dizer “namorado”. Podia ter dito “amigo”.
Estamos chegando perto da escola agora, só faltam dois sinais de trânsito. Dou um puxão nervoso na trança.
— Você já falou com a Genevieve?
Peter franze a testa.
— Não.
— Ela não comentou nada com você?
— Não. Mas tenho certeza de que vai comentar em breve.
Peter entra ainda correndo no estacionamento e para em uma vaga. Quando saímos do carro e seguimos para a entrada, ele entrelaça os dedos com os meus. Acho que ele vai me levar até meu armário como fez antes, mas ele me leva na direção oposta.
— Aonde estamos indo?
— Para o refeitório.
Estou prestes a protestar, mas, antes que eu possa falar, ele diz:
— Precisamos começar a aparecer juntos em público. O refeitório é onde vamos provocar o maior efeito.
Josh não vai estar no refeitório — isso é coisa de gente popular —, mas sei quem quase certamente vai estar lá: Genevieve.
Quando entramos, ela já está sentada à mesa de sempre com sua corte: Emily Nussbaum e Gabe e Darrell, do time de lacrosse. Estão todos comendo e bebendo café. Ela deve ter um sexto sentido em relação a Peter, porque lança um olhar ferino para nós na mesma hora. Começo a andar mais devagar, o que Peter não parece perceber. Ele vai direto para a mesa, mas no último segundo eu amarelo. Puxo a mão dele e digo:
— Vamos sentar ali.
E aponto para uma mesa vazia na linha de visão deles.
— Por quê?
— É que... Por favor. — Eu penso rápido. — Porque, sabe, seria muita babaquice sua levar outra garota para a mesa depois de ter terminado com ela há, sei lá, um minuto. E assim Genevieve pode observar de longe e se questionar um pouco mais.
Além disso, estou apavorada.
Enquanto arrasto Peter até a mesa, ele acena para os amigos e dá de ombros como quem diz Fazer o quê?. Eu me sento e Peter se senta ao meu lado. Ele puxa minha cadeira para mais perto da dele e ergue as sobrancelhas.
— Você tem tanto medo dela assim?
— Não.
Sim.
— Você vai ter que enfrentar a Gen em algum momento.
Peter se inclina para a frente, segura minha mão e começa a passar o dedo nas linhas da palma.
— Para — digo. — Está me dando nervoso.
Ele me lança um olhar magoado.
— As garotas adoram quando eu faço isso.
— Não, a Genevieve adora. Ou finge que adora. Sabe, agora que estou pensando no assunto, você não tem tanta experiência assim quando o assunto é garotas. Só uma. — Eu tiro a mão da dele e a coloco sobre a mesa. — Todo mundo acha você um grande Don Juan, mas na verdade você só ficou com a Genevieve e com a Jamila por, tipo, um mês...
— Tá, tá. Entendi. Já chega. Estão olhando para a gente.
— Quem? Sua mesa?
Peter dá de ombros.
— Todo mundo.
Olho rapidamente ao redor. Ele está certo. Todo mundo está nos encarando. Peter está acostumado com as pessoas olhando para ele, mas eu não. A sensação é estranha, como um suéter novo que dá coceira. Porque ninguém nunca olha para mim. É como estar em um palco. E o engraçado, o que é realmente estranho, é que não é tão desagradável quanto imaginei.
Estou pensando nisso quando meu olhar encontra o de Genevieve. Há um breve momento de reconhecimento, do tipo eu conheço você. Em seguida, ela vira o rosto e sussurra alguma coisa para Emily.
Genevieve está olhando para mim como se eu fosse uma comida apetitosa e ela fosse me devorar viva e cuspir os ossos. E então, com a mesma rapidez, o olhar some e ela sorri.
Eu sinto um calafrio. A verdade é que Genevieve me dava medo mesmo quando éramos pequenas. Uma vez, eu estava brincando na casa dela e Margot ligou me chamando para ir almoçar, mas Genevieve disse que eu não estava lá. Ela não queria me deixar ir embora porque queria continuar brincando de boneca. E ficou bloqueando a porta. Precisei chamar a mãe dela.
O relógio marca 8h05. O sinal vai tocar daqui a pouco.
— É melhor a gente ir — digo, e meus joelhos estão bambos quando me levanto. — Pronto?
Peter está distraído porque estava olhando para a mesa onde estão seus amigos.
— Sim, claro.
Ele se levanta e me leva para a porta; fica o tempo todo com uma das mãos nas minhas costas. Com a outra, acena para os amigos.
— Sorria — sussurra para mim, e eu sorrio.
Tenho que admitir que a sensação de ter um garoto me acompanhando pela multidão não é ruim. É a sensação de que alguém se preocupa com você. É meio como andar em um sonho. Ainda sou eu, e Peter ainda é Peter, mas tudo ao meu redor parece embaçado e irreal, como a vez em que Margot e eu roubamos champanhe no Ano-Novo.
Eu não tinha percebido, mas acho que talvez tenha sido invisível todos esses anos. Era só uma pessoa que estava ali. Agora que todos acham que sou namorada de Peter Kavinsky, estão curiosos, se perguntando: por quê? O que fez Peter gostar de mim? O que eu tenho? O que me torna tão especial? Eu também estaria me perguntando essas mesmas coisas.
Agora sou uma Garota Misteriosa. Antes, era só uma Garota Quieta. Mas virar namorada de Peter me elevou ao posto de Garota Misteriosa.
Pego o ônibus para voltar para casa porque Peter tem treino de lacrosse. Eu me sento na frente, como sempre fiz, mas hoje as pessoas têm perguntas para mim. Na maioria, alunos do nono ano do fundamental ou do primeiro do ensino médio, porque quase nenhum do último ano pega o ônibus.
— O que está rolando entre você e o Kavinsky? — pergunta uma garota do primeiro ano chamada Manda.
Finjo que não escutei.
O que faço é afundar no assento e abrir o bilhete que Peter deixou no meu armário.

Querida Lara Jean,
Ótimo trabalho hoje.
Peter

Começo a sorrir, mas ouço Manda sussurrar para a amiga:
— É tão estranho o Kavinsky gostar dela. Afinal... olha para ela e olha para a Genevieve.
Posso me sentir encolhendo. É isso que todo mundo pensa? Talvez eu não seja a Garota Misteriosa. Talvez eu seja a Garota que Não é Boa o Bastante.
Quando chego em casa, vou direto para o quarto, coloco uma camisola macia e solto a trança. É um doce alívio soltar o cabelo. Meu couro cabeludo formiga de gratidão. Em seguida, deito na cama e olho pela janela até escurecer. Meu celular fica vibrando, e tenho certeza de que é Chris, mas não levanto a cabeça para olhar.
Em algum momento, Kitty invade o quarto.
— Você está doente? Por que ainda está deitada na cama como se tivesse câncer, como a mãe da Brielle?
— Preciso de paz. — Fecho os olhos. — Preciso me reabastecer de paz.
— Bem... então o que vamos comer no jantar?
Abro os olhos. É verdade. Hoje é segunda-feira. Estou encarregada do jantar às segundas. Margot, onde você está? Já está escuro, não dá tempo de descongelar nada. Talvez as segundas devessem ser as noites de pizza, de agora em diante. Olho para ela.
— Você tem dinheiro?
Nós duas recebemos mesada; Kitty recebe cinco dólares por semana e eu recebo vinte, mas minha irmã sempre tem mais dinheiro do que eu. Ela guarda tudo como um esquilinho esperto. Não sei onde, porque Kitty tranca a porta sempre que vai pegar sua mesada. E ela empresta, mas cobra juros. Margot tem um cartão de crédito que pode usar para comprar comida e gasolina, mas o levou consigo. Eu devia pedir para meu pai me dar um igual, agora que sou a irmã mais velha.
— Por que você precisa de dinheiro?
— Porque quero pedir pizza para o jantar. — Kitty abre a boca para negociar, mas, antes que ela consiga falar, eu completo:
— Papai vai pagar quando chegar em casa, então nem pense em me cobrar juros. A pizza é para você também, sabe. Vinte dólares já devem dar.
Kitty cruza os braços.
— Eu dou o dinheiro, mas primeiro você precisa me contar sobre aquele garoto de hoje de manhã. Seu namorado.
Solto um gemido.
— O que você quer saber?
— Quero saber como vocês ficaram juntos.
— Nós éramos amigos no fundamental, lembra? Às vezes a gente se reunia na casa da árvore dos Pearce.
Kitty dá de ombros.
— Lembra aquele dia que bati com o carro? — Kitty assente. — Bem, Peter estava passando e parou para me ajudar. E nós... nos aproximamos. Foi o destino.
Na verdade, contar a história para Kitty é um bom treino. Vou contar a mesma história para Chris, hoje à noite.
— É só isso? Essa é a história toda?
— Ei, é uma ótima história — digo. — Um acidente de carro é uma coisa bem dramática, além de nossa história juntos.
Kitty só diz “Sei” e deixa por isso mesmo.
Pedimos pizza de calabresa e champignon para o jantar e, quando dou a ideia das Segundas de Pizza, papai não demora a concordar. Acho que está se lembrando do meu macarrão com queijo e bo ssam.
É um alívio Kitty passar a maior parte do jantar falando sobre o passeio, de forma que tudo que preciso fazer é mastigar a pizza. Ainda estou pensando no que Manda disse e me perguntando se isso foi mesmo uma boa ideia.
Quando Kitty faz uma pausa para engolir, papai se vira para mim e pergunta:
— Aconteceu alguma coisa interessante com você, hoje?
Engulo meu pedaço de pizza.
— Hã... não.
Mais tarde, preparo um banho de espuma e passo tanto tempo na banheira que Kitty bate na porta duas vezes para ver se não peguei no sono. Em uma delas, eu já estava quase dormindo.
Meu celular começa a vibrar na hora em que pego no sono. É Chris. Aperto o botão de ignorar chamada, mas ele volta a vibrar e vibrar e vibrar. Acabo decidindo atender.
— É verdade? — grita ela.
Seguro o telefone longe do ouvido.
— É.
— Ah, meu Deus. Me conta tudo.
— Amanhã, Chris. Conto tudo amanhã. Boa noite.
— Espera...
— Boa noite!

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