16 de abril de 2018

Capítulo 27

— A MARGOT LIGOU quando você estava na rua — diz meu pai, durante o jantar.
Estamos comendo salada. Salada para mim e para papai e cereal para Kitty. Era para ser peito de frango, mas esqueci de tirar do freezer de manhã, então só tem alface, cenoura e molho de vinagre balsâmico. Papai está incrementando a dele com dois ovos cozidos, e eu, com uma torrada amanteigada. Que jantar. Cereal e alface. Preciso ir ao mercado logo.
Desde que Margot foi embora, só falei com ela duas vezes, e uma delas foi com todos nós reunidos ao redor do meu laptop. Não consegui perguntar sobre as coisas boas, a vida de verdade, as aventuras que ela tem vivido e as pessoas que está conhecendo. Acho que ouvi falar que os escoceses bebem absinto nos pubs. Eu me pergunto se ela já experimentou. Mandei vários e-mails para Margot, mas só recebi uma resposta até agora. Entendo que ela está ocupada, mas o mínimo que ela podia fazer é responder uma vez por dia. Até onde ela sabe, eu poderia estar morta em uma vala.
— O que ela disse? — pergunto enquanto corto minha cenoura em pedacinhos pequenos.
— Ela está pensando em entrar para o time de shinty — diz papai, limpando molho de salada do queixo.
— O que é shinty? — Kitty me pergunta, e eu dou de ombros.
— É um esporte escocês parecido com hóquei na grama — explica papai. — Começou como um treino seguro de lutas com espada na Escócia medieval.
Chato. Antes que papai possa começar a falar mais sobre a Escócia medieval, eu digo:
— Que tal mandarmos um pacote especial para a Gogo? Com coisas que ela não encontra por lá.
— Vamos! — exclama Kitty com alegria.
— O que podemos mandar? — pergunto. — Acho que todos devemos contribuir com alguma coisa.
Papai mastiga e bate com o dedo no queixo.
— Vou mandar umas vitaminas — diz ele. — E Advil. Acho que ela só levou um vidro pequeno, e vocês sabem que ela tem enxaqueca às vezes.
— Concordo. — Aponto para Kitty com o garfo. — E você?
— Tem uma coisa que quero mandar — fala Kitty. — Posso ir pegar?
Papai e eu nos entreolhamos e damos de ombros.
— Claro.
Kitty volta correndo com um desenho que fez de Margot. Fazendo carinho em um cachorro da mesma raça que Kitty quer. Um akita. Não consigo segurar uma gargalhada.
Kitty franze a testa.
— Qual é a graça?
— Nada.
— Você acha que ficou bom? — pergunta ela. — Bom o bastante para ela pendurar na parede?
— Sem dúvida — respondo.
— Não, quero que você olhe de verdade. Que faça uma crítica. Sempre posso fazer melhor. A Margot não vai querer se não for meu melhor trabalho.
— Kitty, não tenho dúvida de que é — digo. — Por que eu mentiria?
Ela suspira.
— Só não sei se já está terminado.
— Só o artista sabe — comenta papai, assentindo com sabedoria.
— O que você acha do cachorro? — pergunta Kitty para ele. — Não é fofo?
Papai pega o desenho da minha mão e olha com atenção.
— Sim, o cachorro é mesmo bonito.
— Eu também sou oriental — diz ela.
Kitty volta a se sentar, come uma colherada de cereal e tenta não sorrir. Ela está usando a estratégia de plantar associações positivas sobre cachorros na cabeça de papai. Ela é incansável. Está sempre tentando uma abordagem nova.
— O que mais vai entrar no pacote? — Kitty quer saber.
Começo a falar e a contar nos dedos.
— Absorventes internos, porque não sei se tem a marca que a gente gosta na Escócia, um pijama de flanela, meias grossas, biscoitos das escoteiras...
— Onde vamos conseguir biscoitos das escoteiras nessa época do ano? — pergunta papai.
— Tenho uma caixa de biscoitos de chocolate com menta escondida no freezer.
Ele me olha com mágoa.
— Escondida de quem?
Chocolate com menta é o sabor favorito dele. Se houver biscoito sabor chocolate com menta em casa, pode esquecer. Papai é o monstro dos biscoitos de chocolate com menta.
Dou de ombros, sem responder.
— Também vou mandar a caneta favorita da Margot e... acho que só.
— Não se esqueça das botas marrons dela — lembra papai. — Ela pediu para enviarmos os coturnos marrons.
— Pediu? — Eu estava torcendo para Margot não ter reparado que as deixou em casa. — Quando ela disse isso?
— Ela me mandou um e-mail ontem.
— Vou ver se consigo encontrar.
— Você não usou no fim de semana? — pergunta papai.
— Estão no seu armário — comenta Kitty, na mesma hora.
Eu levanto as mãos.
— Tudo bem, tudo bem!
— Se você montar a caixa hoje, posso deixá-la no correio amanhã de manhã quando estiver indo para o trabalho — oferece papai.
Eu balanço a cabeça.
— Quero mandar o cachecol que estou tricotando, e não vai ficar pronto a tempo. Talvez daqui a uma ou duas semanas.
Enquanto toma o leite, Kitty balança a mão e aconselha:
— Desiste logo do cachecol. Tricô não é seu forte.
Abro a boca para discutir, mas fecho. Talvez ela esteja certa. Se esperarmos meu cachecol ficar pronto para mandar a caixa, Margot provavelmente já vai ter terminado a faculdade.
— Tudo bem — concordo. — Vamos mandar a caixa sem o cachecol. Mas não estou dizendo que vou desistir do tricô. Vou continuar tricotando para o cachecol ser seu presente de Natal, Kitty. — Dou um sorriso doce para ela. — É rosa. Sua cor favorita.
Kitty arregala os olhos, horrorizada.
— Ou para Margot. Você pode dar para a Margot.

* * *

Kitty enfia um pedaço de papel por baixo da minha porta naquela noite. É a lista de Natal dela. Estamos em setembro, ainda faltam meses para o Natal! “Filhote” está escrito no alto em letras de forma. Ela também quer uma colônia de formigas, um skate e uma tevê no quarto dela. É, a tevê não vai rolar. Mas posso comprar a colônia. Ou talvez possa convencer papai a comprar o cachorrinho. Ela não disse nada, mas acho que sente muita falta de Margot. De certa forma, Margot é a única mãe que ela conheceu. Deve ser difícil para Kitty estar tão longe dela. Vou ter que me lembrar de ser mais paciente, mais atenciosa. Ela precisa de mim agora.
Vou até o quarto dela e deito na cama. Ela acabou de apagar a luz, mas já está bem sonolenta.
— Que tal um gatinho? — sussurro.
Ela abre os olhos.
— De jeito nenhum.
— Você não acha que nossa família combina mais com um gatinho? — Em um tom sonhador, acrescento: — Um gatinho cinza e branco peludo com rabo bem fofinho. Poderíamos dar o nome de Príncipe se for macho. Ah, ou Gandalf, o Cinzento! Não seria fofo? Ou, se for fêmea, talvez Agatha. Ou Tilly. Ou Boss. Depende muito da personalidade dela.
— Para. Não vamos ter um gato. Gatos são chatos. Também são muito manipuladores.
Impressionada, eu pergunto:
— Onde você aprendeu essa palavra?
— Na tevê.
— Um cachorrinho é muita responsabilidade. Quem vai dar comida, levar para passear e treinar a fazer as necessidades fora de casa?
— Eu. Eu faço tudo. Sou responsável o bastante para cuidar dele sozinha.
Eu me aconchego mais nela. Adoro o cheiro do cabelo de Kitty depois que ela toma banho.
— Rá! Você nem lava a louça. Nunca. Nem arruma seu quarto. E quando foi que ajudou a dobrar a roupa lavada na vida? Falando sério, se você não faz nenhuma dessas coisas, como pode ser responsável por uma criatura viva?
Kitty me empurra.
— Então vou ajudar mais!
— Só acredito vendo.
— Se eu ajudar mais, você me ajuda a convencer o papai sobre o cachorro?
— Ajudo — concordo. — Se puder provar para mim que não é mais um bebê. — Kitty vai fazer dez anos em janeiro. É idade suficiente para ajudar mais em casa. Margot a mima demais. — Você vai ficar responsável por esvaziar as latas de lixo do segundo andar uma vez por semana. E ajudar com as roupas.
— Então... vou ter aumento na mesada?
— Não. Seu incentivo é eu ajudar você a convencer papai de ter um cachorro e você provar que não é mais um bebê. — Eu afofo o travesseiro. — Aliás, vou dormir aqui hoje.
Kitty me dá um chute, e eu quase caio da cama.
— Você que é um bebê, não eu, Lara Jean.
— Me deixa dormir aqui!
— Você rouba todas as cobertas.
Kitty tenta me chutar de novo, mas deixo o corpo pesado e finjo que já estou dormindo. Em pouco tempo, nós duas adormecemos de verdade.

* * *

Na noite de domingo, estou fazendo o dever de casa na cama quando recebo uma ligação de um número desconhecido.
— Alô?
— Oi. O que você está fazendo?
— Hã... desculpa, mas quem é?
— É o Peter!
— Ah. Como conseguiu meu número?
— Não importa.
Há um silêncio meio longo. É agonizante cada milissegundo que passa sem nenhum de nós falar nada, mas não sei o que dizer.
— Então, o que você queria?
Peter ri.
— Você é tão estranha, Covey. Seu carro está na oficina, não é? Que tal uma carona para a escola?
— Tudo bem.
— Sete e meia.
— Tudo bem.
— Tu-do bem...
— Tchau — digo, e desligo.

10 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!