16 de abril de 2018

Capítulo 25

NA MANHÃ SEGUINTE, Peter está me esperando no estacionamento quando desço do ônibus.
— Oi — diz ele. — Você vai mesmo pegar o ônibus todos os dias?
— Meu carro está no conserto, lembra? A batida?
Peter suspira como se o fato de eu pegar o ônibus para ir à escola fosse ofensivo para ele. Em seguida, segura minha mão, e andamos juntos para a escola.
É a primeira vez que ando pelo corredor do colégio de mãos dadas com um garoto. Devia parecer importante, especial, mas não parece, porque não é real. Na verdade, não sinto nada.
Emily Nussbaum fica nos encarando quando passamos. Emily é a melhor amiga de Gen. Ela olha tão intensamente que fico surpresa de não tirar uma foto com o celular para mandar para ela.
Peter diz oi para as pessoas, e eu fico ali sorrindo como se fosse a coisa mais natural do mundo. Eu e Peter Kavinsky.
Em determinado momento, tento soltar a mão da dele, porque minha palma está começando a ficar suada, mas ele aperta mais.
— Sua mão é quente demais — sussurro.
— Não, a sua que é — responde Peter entredentes.
Tenho certeza de que as mãos de Genevieve nunca suam. Ela provavelmente poderia ficar de mãos dadas durante dias sem que elas ficassem quentes.
Quando chegamos ao meu armário, finalmente soltamos as mãos para eu deixar os livros lá dentro. Estou fechando a porta quando Peter se inclina para me beijar na boca. Levo um susto tão grande que viro a cabeça e batemos as testas.
— Ai!
Peter massageia a testa e olha para mim com irritação.
— Por que chegou assim de fininho?!
Minha testa também está doendo. Batemos com força, como címbalos. Se erguesse o olhar agora, eu veria passarinhos azuis de desenho animado.
— Fale baixo, pateta — resmunga ele.
— Não me chame de pateta, pateta — respondo, também sussurrando.
Peter dá um grande suspiro, como se estivesse muito bravo. Estou prestes a dizer que é culpa dele, não minha, quando vejo Genevieve vindo pelo corredor.
— Tenho que ir — digo, e saio correndo na direção oposta.
— Espere! — grita Peter.
Mas continuo correndo.

* * *

Estou deitada na cama com o travesseiro no rosto, revivendo aquela terrível tentativa de beijo. Fico tentando bloquear a lembrança, mas ela não para de voltar.
Coloco a mão na testa. Acho que não consigo fazer isso. É tudo tão... O beijo, as mãos suadas, todo mundo olhando. É demais.
Vou ter que dizer para ele que mudei de ideia e não quero mais fazer isso e pronto. Não tenho o número do celular dele e não quero falar sobre isso por e-mail. Vou ter que ir até a casa dele. Não é longe, ainda lembro o caminho.
Desço a escada correndo e passo por Kitty, que está equilibrando um prato com biscoitos recheados e um copo de leite em uma bandeja.
— Vou pegar sua bicicleta emprestada! — grito ao passar correndo por ela. — Volto logo!
— Não quero ver nenhum arranhão nela! — grita Kitty em resposta.
Pego o capacete e a bicicleta de Kitty e saio em disparada pelo quintal, pedalando o mais rápido que posso. Meus joelhos estão quase na altura do peito, mas não sou tão mais alta do que Kitty, então não é tão desconfortável. Peter mora a dois bairros de distância. Demoro menos de vinte minutos para chegar lá. Quando chego, não tem nenhum carro na entrada da garagem. Peter não está em casa. Meu coração despenca. O que vou fazer agora? Esperar sentada na varanda como se fosse uma stalker? E se a mãe dele chegar primeiro?
Tiro o capacete e me sento por um minuto para descansar. Meu cabelo está úmido e suado do exercício, e estou exausta. Tento ajeitá-lo com os dedos. É uma causa perdida.
Quando decido mandar uma mensagem de texto para Chris para ver se ela pode me buscar, o carro de Peter surge na rua e entra na garagem. Derrubo o celular e me abaixo para pegar, desajeitada.
Peter sai do carro e ergue as sobrancelhas para mim.
— Vejam quem está aqui. Minha querida namorada.
Eu me levanto e aceno para ele.
— Posso falar com você um minuto?
Ele coloca a mochila no ombro e se aproxima devagar. Senta-se no degrau da frente como um príncipe no trono, e eu fico de pé diante dele, com o capacete em uma das mãos e o celular na outra.
— E aí? — diz ele. — Deixa eu adivinhar. Você quer dar para trás, certo?
Ele é tão arrogante, tão convencido. Não quero dar a ele a satisfação de estar certo.
— Eu só queria conversar sobre o plano — digo, me sentando. — Combinar nossa história antes que as pessoas comecem a fazer perguntas.
Ele ergue as sobrancelhas.
— Ah. Tudo bem. Faz sentido. E como foi que ficamos juntos?
Eu junto as mãos na frente do corpo e recito:
— Quando me envolvi naquele acidente semana passada, você estava passando de carro por acaso e esperou o reboque comigo, depois me levou para casa. Você ficou nervoso o tempo todo porque tinha uma queda por mim desde o fundamental. Seu primeiro beijo foi comigo. Essa era sua grande chance...
— Meu primeiro beijo foi com você? — interrompe ele. — Que tal o seu primeiro beijo foi comigo? É bem mais crível.
Eu o ignoro e continuo:
— Essa era sua grande chance. Você decidiu aproveitar: me convidou para sair naquele mesmo dia, e, a partir de então, passamos a nos ver sempre, somos basicamente um casal.
— Acho que a Gen não vai cair nessa — diz ele, balançando a cabeça.
— Peter — falo com a voz mais paciente do mundo —, as mentiras mais críveis são as que têm pelo menos um pouco de verdade. Eu sofri mesmo o acidente de carro; você realmente parou e me fez companhia; nós nos beijamos no ensino fundamental.
— Não é isso.
— Então o que é?
— Gen e eu ficamos juntos naquele dia, depois que me encontrei com você.
Eu suspiro.
— Tudo bem. Me poupe dos detalhes. Mas minha história ainda funciona. Depois do acidente, você não conseguiu me tirar da cabeça, então me chamou para sair assim que a Genevieve chutou... quer dizer, assim que vocês terminaram. — Eu pigarreio. — E já que estamos falando nisso, eu também gostaria de estabelecer umas regras.
— Que tipo de regras? — pergunta ele, se inclinando.
Eu comprimo os lábios e respiro fundo.
— Bem... não quero que você tente me beijar de novo.
Peter dá um meio sorriso.
— Pode acreditar, eu também não quero. Minha testa está doendo desde hoje de manhã. Acho que estou com um hematoma. — Ele tira a franja da testa. — Você está vendo um hematoma?
— Não, mas vejo um indício de calvície.
— O quê?
Rá. Eu sabia que isso ia deixá-lo preocupado. Peter é tão vaidoso.
— Calma, só estou brincando. Você tem papel e caneta?
— Você vai escrever?
— Vai nos ajudar a lembrar — explico, com presunção.
Peter revira os olhos, enfia a mão na mochila, tira um caderno e o entrega para mim. Abro em uma página em branco, escrevo no topo Contrato e, logo abaixo, Nada de beijo.
— As pessoas vão mesmo acreditar se nunca nos tocarmos em público? — pergunta Peter com uma expressão cética.
— Acredito que relacionamentos não se resumem à parte física. Há várias formas de mostrar que você gosta de alguém sem usar os lábios. — Peter está sorrindo e parece prestes a fazer uma piadinha, então acrescento rapidamente: — Ou qualquer outra parte do corpo.
Ele resmunga.
— Você tem que me dar alguma coisa para trabalhar, Lara Jean. Tenho uma reputação. Nenhum dos meus amigos vai acreditar que de repente virei um padre para namorar você. Posso pelo menos botar a mão no bolso de trás da sua calça? Vai ser puramente profissional, prometo.
Não falo o que estou pensando, que ele se importa demais com o que as pessoas pensam dele. Só concordo e escrevo: Peter tem permissão para colocar a mão no bolso de trás da calça de Lara Jean.
— Mas nada de beijo — insisto, com a cabeça abaixada para ele não me ver corar.
— Foi você que começou — ele me lembra. — Além disso, não tenho herpes. Não precisa se preocupar.
— Eu não acho que você tem herpes. — Eu olho para ele. — A questão é que... eu nunca tive namorado. Nunca saí com um garoto, nem andei de mãos dadas pelo corredor. Isso tudo é novidade para mim, então peço desculpas pela testa hoje de manhã. Eu só... queria que todas essas coisas estivessem acontecendo pela primeira vez de verdade, e não com você.
Peter parece pensar no assunto.
— Tudo bem. Vamos deixar algumas coisas de lado, então.
— Sério?
— Claro. Vamos deixar algumas coisas para você fazer quando for para valer, não fingimento.
Fico sensibilizada. Quem poderia imaginar que Peter seria tão atencioso e generoso?
— Por exemplo, não vou pagar nada para você. Vou deixar isso para um cara que goste de você de verdade.
Meu sorriso some.
— Eu não estava esperando que você pagasse nada!
Peter pega o embalo.
— E não vou levar você até a sala de aula nem comprar flores.
— Já entendi. — Parece que Peter está mais preocupado com a carteira dele do que comigo. Ele é tão pão-duro. — Quando você estava com a Genevieve, que tipo de coisas ela gostava que você fizesse?
Fico com medo de ele aproveitar a oportunidade para fazer uma piada, mas ele só olha para o nada e diz:
— Ela sempre ficava me enchendo o saco para escrever bilhetes.
— Bilhetes?
— É, na escola. Eu não entendia por que não podia simplesmente mandar uma mensagem de texto. É imediato, eficiente. Por que não usar a tecnologia disponível para isso?
Isso eu entendia perfeitamente. Genevieve não queria bilhetes. Ela queria cartas. Cartas de verdade, escritas à mão em papel, que ela pudesse segurar e guardar e reler sempre que desse vontade. Eram provas sólidas e tangíveis de que alguém estava pensando nela.
— Vou escrever um bilhete para você todos os dias — diz Peter de repente, empolgado. — Isso vai deixar a Genevieve louca.
Eu anoto Peter vai escrever um bilhete para Lara Jean todos os dias.
— Anota aí que você precisa ir a algumas festas comigo. E nada de comédias românticas.
— Quem falou sobre comédias românticas? Nem toda garota gosta de comédias românticas.
— Dá para perceber que você é o tipo de garota que gosta.
Fico irritada por ele ter essa percepção de mim, e ainda mais irritada por ele estar certo. Escrevo NADA DE FILMES DE AÇÃO IDIOTAS.
— O que sobrou, então? — pergunta Peter.
— Filmes de super-herói, filmes de terror, filmes de época, documentários, filmes estrangeiros...
Peter faz uma careta, pega a caneta e o papel da minha mão e escreve NADA DE FILMES ESTRANGEIROS. E depois Lara Jean vai botar a foto de Peter como papel de parede do celular.
— E vice-versa! — Eu viro o celular para ele. — Sorria.
Peter sorri, e, argh, como a beleza dele é irritante. Ele pega o celular, mas eu o impeço.
— Agora não. Meu cabelo está suado e nojento.
— Tem razão — concorda Peter, e tenho vontade de dar um soco nele.
— Anote aí também que nenhum de nós pode falar a verdade sob nenhuma circunstância — peço a ele.
— A primeira regra do Clube da Luta.
— Nunca vi esse filme.
— Claro que não — comenta ele, e faço uma careta.
Além disso: nota mental, ver Clube da Luta.
Peter escreve, e eu me sento ao lado dele e pego a caneta para sublinhar “sob nenhuma circunstância” duas vezes.
— E o prazo? — pergunto de repente.
— Como assim?
— Por quanto tempo vamos fazer isso? Duas semanas? Um mês?
Peter dá de ombros.
— Pelo tempo que der vontade.
— Mas... você não acha que deveríamos ter alguma coisa combinada...
Ele me interrompe:
— Você precisa relaxar, Lara Jean. A vida não precisa ser tão planejada. Deixe rolar e veja o que acontece.
Eu suspiro.
— Palavras de sabedoria do grande Kavinsky. — Peter ergue as sobrancelhas para mim. — Desde que acabe antes de a minha irmã voltar para o Natal. Ela sempre sabe quando estou mentindo.
— Ah, com certeza isso já vai ter terminado até lá — assegura ele.
— Que bom — digo, e assino o papel.
Ele também assina, e temos nosso contrato.
Sou orgulhosa demais para pedir carona, e Peter não oferece, então coloco o capacete e volto com a bicicleta de Kitty para casa. Estou na metade do caminho quando me dou conta de que não trocamos números de celular. Eu nem sei o número do celular do meu suposto namorado.

8 comentários:

  1. Kkkkkkkk esses dois vão se apaixonar tenho quase certeza

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    1. Tô shipando ela com o Josh (por ele gostar dela) e ela com o Peter(pq acho que eles vão se apaixonar só nessa brincadeira) ,estou dividida

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  2. Não acho que seria legal um relacionamento dela com o josh, ela é mais a cara do peter.

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  3. Mas foi Josh que chamou o reboque, Josh que levou ela em casa, se o intuito era enganar oJosh eles nunca conseguiriam ele saberia na mesma hora, ainda bem que Peter pediu para mudar a história. Lara Jean não pode ficar com o Josh é vacilo com Margot, e ela é romântica demais para alguém como Peter, a ñ ser que ele mude, dizem que as pessoas mudam por amor

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  4. Eu acho é que ela vai se apaixonar pelos os dois ��

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  5. NÃÃÃÃÃOO! VC FOI A CASA DELE PARA TERMINAR, LAURA JEAN!

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