16 de abril de 2018

Capítulo 23

QUANDO MEU PAI tira o dia de folga, faz comida coreana. Não é exatamente autêntica, às vezes ele apenas vai até o mercado coreano e compra acompanhamentos prontos e carne marinada, mas de vez em quando liga para nossa avó pedindo uma receita e tenta fazer. Esta é a questão: papai tenta. Ele não diz nada, mas sei que é porque não quer que a gente perca nossa ligação com o lado coreano da família, e a comida é a única forma que ele tem de contribuir. Depois que mamãe morreu, ele tentava nos fazer ir brincar com outras crianças coreanas, mas era sempre constrangedor e forçado. A não ser quando eu tive aquela quedinha por Edward Kim. Graças a Deus que isso nunca evoluiu para um amor intenso, senão eu também teria escrito uma carta para ele e precisaria evitar mais uma pessoa.
Meu pai fez bo ssam, que é paleta de porco fatiada e enrolada em alface. Ele colocou a carne em salmoura na noite anterior com açúcar e sal, e ela ficou no forno o dia todo. Kitty e eu ficamos vigiando; o cheiro é muito bom.
Quando finalmente chega a hora do jantar, meu pai arrumou tudo na mesa. Está lindo. Tem uma tigela prateada com folhas de alface lisa recém-lavadas, ainda úmidas; uma tigela de vidro com kimchi, que ele comprou no mercado; uma tigelinha com pasta de pimenta; molho shoyu com cebolinha e gengibre.
Meu pai está tirando fotos artísticas da mesa.
— Vou mandar uma foto para a Margot ver.
— Que horas são por lá? — pergunto a ele.
O dia está agradável; são quase seis da tarde e ainda estou de pijama. Abraço os joelhos, sentada na cadeira da sala de jantar que tem apoio para os braços.
— Onze. Tenho certeza de que ela ainda está acordada — diz meu pai enquanto tira as fotos. — Por que você não convida o Josh? Vamos precisar de ajuda para acabar com toda essa comida.
— Ele deve estar ocupado — respondo na mesma hora.
Ainda não decidi o que vou dizer para ele sobre mim e Peter, muito menos sobre mim e ele.
— Por que não tenta mesmo assim? Ele adora comida coreana. — Meu pai muda a paleta de lugar, colocando-a no centro da mesa. — Anda logo, antes que meu bo ssam esfrie!
Finjo mandar uma mensagem de texto. Fico me sentindo um pouco culpada por mentir, mas papai entenderia se soubesse de todos os fatos.
— Não entendo por que vocês, adolescentes, mandam mensagem de texto em vez de apenas ligar. Você receberia uma resposta imediata, não precisaria esperar.
— Você é tão velho, pai. — Olho para o celular. — Josh não pode vir. Vamos comer. Kitty! Hora do jantar!
— Estou indo! — grita Kitty do andar de cima.
— Talvez ele passe aqui mais tarde e pegue um pouco do que sobrar — diz meu pai.
— Pai, Josh tem vida própria. Por que ele viria se Margot não está aqui? Além do mais, eles nem estão mais juntos, lembra?
Papai faz uma expressão confusa.
— O quê? Não estão?
Acho que Margot acabou não contando para ele. Mas era de se imaginar que ele tivesse percebido isso quando Josh não foi com a gente ao aeroporto se despedir de Margot. Por que os pais não sabem de nada? Ele não tem olhos e ouvidos?
— Não, não estão. A propósito, Margot está na faculdade na Escócia. E meu nome é Lara Jean.
— Entendi, seu pai não sabe de nada. Não precisa esfregar na minha cara. — Ele coça o queixo. — Caramba, eu poderia jurar que a Margot não chegou a comentar...
Kitty entra correndo na sala de jantar.
— Hum, hum, hum.
Ela se senta com tudo e começa a colocar a paleta de porco no prato.
— Kitty, temos que fazer a oração primeiro — diz meu pai, sentando-se na cadeira.
Só oramos quando comemos na sala de jantar, e só comemos na sala de jantar quando papai faz comida coreana ou no Dia de Ação de Graças e no Natal. Mamãe nos levava à igreja quando éramos pequenas, e, depois que ela morreu, papai tentou manter a tradição, mas ele às vezes tem plantão aos domingos e nós acabamos indo lá cada vez menos.
— Obrigado, Deus, por essa comida com a qual fomos abençoados. Obrigado pelas minhas filhas lindas e, por favor, cuide da Margot. Em nome de Jesus, amém.
— Amém — Kitty e eu ecoamos.
— Parece ótimo, não é? — Papai está sorrindo enquanto monta uma folha de alface com carne de porco, arroz e kimchi. — Kitty, você sabe fazer, não sabe? É como um pequeno taco.
Kitty assente e o imita.
Faço meu próprio taco de folha de alface e quase cuspo tudo fora. A carne de porco está muito, muito salgada. Tão salgada que dá vontade de chorar. Mas continuo mastigando; do outro lado da mesa, Kitty faz uma careta para mim, mas faço um gesto para ela não falar nada. Papai ainda não experimentou o dele; está tirando uma foto do prato.
— Está tão bom, pai — digo. — Igual ao do restaurante.
— Obrigado, Lara Jean. Ficou igual à foto. Não consigo acreditar em como a parte de cima está linda e crocante. — Meu pai finalmente dá uma mordida e franze a testa. — Está muito salgado para vocês?
— Não muito — minto.
Ele dá outra mordida.
— Está muito salgado. Kitty, o que você acha?
Kitty está bebendo água.
— Não, está gostoso, papai.
Faço um sinal de positivo escondido para ela.
— Hum, não, está realmente salgado. — Ele engole. — Segui a receita ao pé da letra... Será que usei o tipo de sal errado para a salmoura? Lara Jean, experimente de novo.
Dou uma mordida minúscula e tento esconder minha reação colocando a alface na frente do rosto.
— Humm.
— Talvez, se eu cortar mais do meio...
Meu celular vibra na mesa. É uma mensagem de Josh. Estava voltando de uma corrida e vi a luz acesa na sala de jantar. Uma mensagem de texto normal, como se ontem não tivesse acontecido. Comida coreana??
Josh tem uma espécie de sexto sentido para quando meu pai está fazendo comida coreana, porque sempre chega bem na hora em que nos sentamos para comer. Ele ama comida coreana. Quando minha avó vem visitar, ele não sai do lado dela. Até vê novelas coreanas com ela. Vovó corta pedaços de maçã e descasca tangerinas para ele como se Josh fosse um bebê. Minha avó gosta mais de garotos do que de garotas.
Agora que estou pensando melhor, todas as mulheres da minha família amam Josh. Exceto minha mãe, que não o conheceu. Mas tenho certeza de que ela também o amaria. Mamãe amaria qualquer um que fosse tão bom para Margot quanto Josh é... era.
Kitty estica o pescoço para olhar meu celular.
— É o Josh? Ele vem?
— Não!
Coloco o celular na mesa, e ele vibra de novo.
Posso ir aí?
— Ele está perguntando se pode vir! — exclama Kitty.
Meu pai se anima.
— Diga para ele vir! Quero a opinião dele sobre o bo ssam.
— Escutem, todo mundo nessa família precisa aceitar que Josh não faz mais parte dela. Ele e Margot não são mais... — Eu hesito. Kitty ainda não sabe? Não consigo lembrar se é para ser segredo. — Quer dizer, agora que Margot está na faculdade e eles estão distantes...
— Eu sei que eles terminaram — diz Kitty, enrolando apenas arroz na alface. — A Margot me contou pelo computador.
Do outro lado da mesa, meu pai faz uma cara triste e coloca um pedaço de alface na boca.
— Só não entendo por que não podemos ser amigos dele — continua ela, com a boca cheia. — Ele é nosso amigo também. Não é, papai?
— É — concorda ele. — E olhem, os relacionamentos são incrivelmente amorfos. Eles podem voltar. Podem ficar amigos. Quem pode dizer o que vai acontecer no futuro? Eu acho que não devemos excluir Josh ainda.
Quando estamos quase terminando o jantar, recebo outra mensagem de Josh.
Deixa pra lá.

* * *

Somos obrigados a comer a paleta de porco salgada durante o restante do fim de semana. Na manhã seguinte, meu pai faz bolinhos de arroz, corta a carne de porco em pedacinhos e diz para “fingirmos que é bacon”. No jantar, testo essa teoria misturando com macarrão com queijo, mas acabo jogando tudo fora porque fica com gosto de gororoba.
— Se tivéssemos um cachorro... — Kitty fica dizendo.
Acabo fazendo uma porção de macarrão comum.
Depois do jantar, levo Sadie para dar uma volta; ela é um golden retriever que mora na nossa rua. Os Shah vão passar a noite fora da cidade e me pediram para dar comida para Sadie e passear com ela. Normalmente, Kitty imploraria para fazer isso, mas ela quer ver um filme que vai passar na tevê.
Sadie e eu estamos fazendo o caminho de sempre até a rua sem saída quando Josh corre até nós usando roupas de ginástica.
Ao se agachar e fazer carinho em Sadie, ele pergunta:
— E aí, como estão as coisas com o Kavinsky?
Engraçado você mencionar isso, Josh. Porque tenho uma história na ponta da língua. Peter e eu tivemos uma briga pelo telefone hoje de manhã (caso Josh tenha reparado que não saí de casa o fim de semana todo) e terminamos, e estou arrasada porque amo Peter Kavinsky desde o sétimo ano, mas c’est la vie.
— Na verdade, nós terminamos hoje de manhã. — Eu mordo o lábio e tento parecer triste. — É muito difícil, sabe? Depois de gostar dele por tanto tempo, Peter finalmente estava gostando de mim também. Mas não era para ser. Acho que ele ainda não superou a Genevieve, talvez ela ainda tenha uma influência muito forte sobre o Peter. Não deve ter sobrado espaço no coração dele para mim.
Josh me olha de um jeito estranho.
— Não foi o que ele disse hoje na McCalls.
Que diabos Peter K. estava fazendo em uma livraria? Ele não é do tipo que frequenta livrarias.
— O que ele disse?
Eu tento parecer casual, mas meu coração bate com tanta força que tenho certeza de que Sadie pode ouvir.
Josh continua fazendo carinho na cadela.
— O que ele disse? — Agora estou apenas tentando não parecer histérica. — Tipo, o que ele disse exatamente?
— Quando estava fechando a compra, perguntei a ele quando vocês começaram a sair, e Peter disse que foi recentemente. E que gostava muito de você.
O quê...
Devo parecer tão chocada quanto me sinto, porque Josh se levanta e diz:
— Eu fiquei meio surpreso também.
— Você ficou surpreso por ele gostar de mim?
— É, mais ou menos. O Kavinsky não é do tipo que namoraria uma garota como você. — Fico olhando para ele com uma expressão fechada e séria, e Josh tenta consertar na mesma hora. — Quer dizer, porque você não é, sabe...
— Não sou o quê? Bonita como a Genevieve?
— Não! Não é isso que quero dizer. Você é uma garota doce e inocente que gosta de passar o tempo com a família e, sei lá, acho que o Kavinsky não parece o tipo de cara que ia gostar disso.
Antes que ele possa falar qualquer outra coisa, tiro o celular do bolso da jaqueta.
— É o Peter me ligando, então acho que ele gosta sim de garotas caseiras.
— Eu não disse caseira! Eu disse que você gosta de ficar em casa!
— Tchau, Josh. — Eu saio andando rápido, arrastando Sadie comigo. Ao celular, digo: — Oi, Peter.

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