16 de abril de 2018

Capítulo 20


A FORMA COMO tudo acontece é um tipo estranho de serendipidade. Como um desastre de trem em câmera lenta. Para que uma coisa dê errado de um jeito tão colossal e terrível, tudo precisa acontecer na ordem certa e no momento certo, ou, nesse caso, no momento errado.
Se o motorista do ônibus não tivesse se atrapalhado ao dar a ré no beco, demorando assim quatro minutos a mais para chegar à escola, eu jamais teria dado de cara com Josh.
Se o carro de Josh tivesse pegado de primeira e ele não tivesse precisado da ajuda do pai para recarregar a bateria, ele não estaria passando pelo meu armário.
E se Peter não estivesse indo se encontrar com a srta. Wooten na orientação, não entraria naquele mesmo corredor dez segundos depois. E talvez essa coisa toda não tivesse acontecido. Mas aconteceu.

* * *

Estou em frente ao meu armário; a porta está emperrada e estou tentando abri-la. Quando finalmente consigo soltá-la, dou de cara com Josh.
— Lara Jean... — Ele está com uma expressão chocada e confusa. — Estou tentando falar com você desde ontem à noite. Passei na sua casa, mas ninguém conseguiu encontrar você... — Ele estende a mão com a minha carta. — Não entendo. O que é isso?
— Não sei...
É o que me ouço responder. Minha voz parece distante. É como se eu estivesse fora do meu corpo, vendo tudo aquilo acontecer com outra pessoa.
— Quer dizer, foi você que escreveu, não foi?
— Ah. — Eu respiro fundo e pego a carta. Luto contra a vontade de rasgá-la em pedacinhos. — Onde você conseguiu isso?
— Chegou pelo correio. — Josh enfia as mãos nos bolsos. — Quando você escreveu isso?
— Tipo, muito tempo atrás. — Dou uma risadinha falsa. — Nem lembro quando. Talvez tenha sido no ensino fundamental.
Bom trabalho, Lara Jean. Continue assim.
— Certo... mas você fala sobre ir ao cinema com Margot, Mike e Ben. Isso foi há uns dois anos.
Eu mordo o lábio inferior.
— É verdade. Quer dizer, foi mais ou menos há muito tempo. No grande esquema das coisas.
Posso sentir as lágrimas se formando e sei que, se me desconcentrar por um segundo que seja, se hesitar, vou chorar, e isso vai tornar a coisa toda pior, se é que é possível. Preciso ficar tranquila e distante agora. Lágrimas estragariam essa imagem.
Josh está me encarando de um jeito tão intenso que preciso desviar o olhar.
— Então... você sente... ou sentia alguma coisa por mim...?
— Quer dizer, sim, claro, eu tive uma quedinha por você em um determinado ponto, bem antes de você e Margot começarem a namorar. Um milhão de anos atrás.
— Por que você nunca disse nada? Porque, Lara Jean... Deus. Não sei. — Os olhos dele estão grudados em mim, e ele parece confuso, mas tem alguma outra coisa também. — Isso é loucura. Fui meio pego de surpresa.
A forma como ele está me olhando agora me lembra um dia de verão em que eu tinha catorze anos, e ele, quinze, e estávamos voltando a pé para casa de algum lugar. Ele estava olhando para mim com tanta intensidade que eu tive certeza de que ia me beijar. Fiquei nervosa, então arrumei uma briga qualquer com ele, e Josh nunca mais olhou para mim daquele jeito.
Até agora.
Não. Por favor, não.
Seja lá o que for que ele está pensando, seja lá o que for que ele quer dizer, eu não quero ouvir. Faria qualquer coisa, literalmente qualquer coisa, para não ouvir.
Por isso, antes que ele possa falar, eu digo:
— Estou namorando.
O queixo de Josh cai.
— O quê?
O quê?
— É. Estou namorando uma pessoa, uma pessoa de quem gosto muito, muito mesmo, então não se preocupe com isso. — Balanço a carta como se fosse só um papel, um pedaço de lixo, como se no passado eu não tivesse derramado meus sentimentos naquelas páginas. Enfio a carta na bolsa. — Eu estava muito confusa quando escrevi; nem sei como essa carta foi enviada. Sinceramente, não vale a pena conversar sobre isso. Então, por favor, por favor, não conte nada para Margot.
Ele assente, mas isso não basta. Preciso de um compromisso verbal. Preciso ouvir as palavras saírem da boca dele.
— Você jura? Pela sua vida? Se Margot descobrisse... eu iria querer morrer.
— Tudo bem, eu juro. Nós nem nos falamos desde que ela foi embora.
Eu expiro profundamente.
— Ótimo. Obrigada.
Estou quase indo embora, mas Josh me impede.
— Quem é o cara?
— Que cara?
— O cara que você está namorando?
É nessa hora que o vejo. Peter Kavinsky está andando pelo corredor. Como mágica. O lindo Peter de cabelo escuro. Ele merece uma trilha sonora, de tão lindo que é.
— Peter Kavinsky. Peter Kavinsky! — O sinal toca e passo por Josh. — Tenho que ir! A gente se fala mais tarde!
— Espera! — grita Josh.
Corro até Peter e me jogo nos braços dele como um tiro de canhão. Abraço o pescoço dele e minhas pernas envolvem sua cintura, e nem sei como meu corpo sabe fazer isso, porque nunca toquei um garoto assim na vida. É como se estivéssemos em um filme, e a música estivesse aumentando e as ondas do mar estivessem quebrando ao nosso redor. Exceto pelo fato de a expressão de Peter ser de puro choque e descrença e talvez um toque de divertimento, porque Peter gosta de achar graça. Ele ergue as sobrancelhas.
— Lara Jean? Mas o quê...?
Eu não respondo. Apenas o beijo.
Meu primeiro pensamento é: ainda me lembro dos lábios dele.
O segundo pensamento é: espero que Josh esteja assistindo. Ele precisa estar assistindo, senão tudo isso vai ter sido em vão.
Meu coração está batendo com tanta força que me esqueço de ter medo de estar fazendo algo errado. Porque, por cerca de três segundos, ele me beija também. Peter Kavinsky, o garoto dos sonhos de todas as meninas, está me beijando.
Não beijei tantos garotos assim na vida. Peter Kavinsky, John Ambrose McClaren, o primo de Allie Feldman com o olho esquisito e agora Peter de novo.
Abro os olhos, e Peter está me olhando com aquela mesma expressão no rosto.
Com sinceridade, eu digo:
— Obrigada.
Ele responde:
— De nada.
Eu me afasto e saio correndo na direção oposta.

* * *

Preciso de toda a aula de história e a maior parte da aula de inglês para fazer o coração desacelerar. Eu beijei Peter Kavinsky. No corredor, na frente de todo mundo. Na frente do Josh.
Eu não planejei nada disso, obviamente. É o que Margot diria, incluindo, com ênfase, a palavra “obviamente”. Se eu tivesse planejado, teria inventado um namorado, não escolhido uma pessoa de verdade.
Mais especificamente, não teria escolhido Peter K. Ele é literalmente a pior pessoa que eu poderia ter escolhido, porque todo mundo o conhece. Ele é Peter Kavinsky, caramba. Kavinsky de “Gen e Kavinsky”. Não importa que eles tenham terminado. Eles são uma instituição nesta instituição.
Passo o restante do dia me escondendo. Até almoço no banheiro feminino. Minha última aula do dia é educação física. Com Peter. O treinador White faz uma reapresentação da sala de musculação, e temos que treinar usando os aparelhos. Peter e os amigos já sabem usar, então se separam do restante do grupo e fazem uma competição de lançamentos livres, e não tenho oportunidade de falar com ele. Em determinado momento, ele me vê olhando e pisca, o que me faz querer morrer.
Depois que a aula acaba, espero Peter do lado de fora do vestiário masculino enquanto planejo como vou explicar tudo. Vou começar com “Então, sobre hoje de manhã...”, então vou dar uma risadinha, para mostrar o quanto aquilo foi hilário!
Peter é o último a sair. Ele deve ter tomado banho, pois o cabelo está molhado. É estranho os garotos tomarem banho na escola, porque as garotas nunca tomam. Eu me pergunto se têm cabines lá dentro ou só um monte de chuveiros juntos, sem privacidade.
— Oi — diz ele, quando me vê, mas continua seguindo pelo corredor.
Vou atrás dele.
— Então, sobre hoje de manhã... — começo a dizer, e dou uma risada.
Peter se vira para mim.
— Ah, é. O que foi tudo aquilo?
— Foi uma brincadeira idiota.
Peter cruza os braços e se recosta nos armários.
— Teve alguma coisa a ver com aquela carta que você mandou?
— Não. Quer dizer, sim. Mais ou menos.
— Olha — diz ele com gentileza. — Você até que é bonita. De um jeito peculiar. Mas a Gen e eu acabamos de terminar, e não estou a fim de namorar ninguém. Então...
Meu queixo cai. Peter Kavinsky está me dando um fora! Eu nem gosto dele, e ele está me dando um fora.
E “peculiar”? Como sou “peculiar”? “Bonita de um jeito peculiar” é um insulto. Um grande insulto!
Ele ainda está falando, ainda está me olhando com gentileza.
— É claro que fico lisonjeado. O fato de você ter gostado de mim esse tempo todo... é legal, sabe?
Basta. Isso é demais.
— Eu não gosto de você — digo em voz alta. — Então você não tem motivo para se sentir lisonjeado.
Agora é a vez de Peter parecer surpreso. Ele olha ao redor para ver se alguém ouviu. Inclina-se para a frente e sussurra:
— Então por que você me beijou?
— Eu beijei você porque não gosto de você — explico, como se fosse óbvio. — As minhas cartas foram enviadas por alguém, entendeu? Não por mim.
— Espera um minuto. “Cartas?” Quantos de nós existem?
— Cinco. E o cara de quem eu realmente gosto também recebeu uma...
Peter franze a testa.
— Quem?
Por que devo contar alguma coisa a ele?
— Isso é... pessoal.
— Ei, acho que tenho o direito de saber, já que você me envolveu nesse pequeno drama — diz Peter, com uma expressão séria. — Se é que tem mesmo um cara.
— Claro que existe um cara! É Josh Sanderson.
— Ele não namora a sua irmã?
Eu assinto. Estou surpresa por ele saber isso. Eu não achava que Josh e Margot estivessem no radar dele.
— Eles terminaram. Mas não quero que Josh saiba que ainda sinto alguma coisa por ele... por motivos óbvios. Então... eu disse para ele que você é meu namorado.
— Então você me usou para manter a dignidade?
— Tipo isso.
Precisamente.
— Você é engraçada.
Primeiro, sou bonita de um jeito peculiar; agora, sou engraçada. Sei o que isso quer dizer.
— De qualquer modo, obrigada por me ajudar, Peter. — Abro o que espero ser um sorriso convincente e dou meia-volta para ir embora. — Até mais!
Peter estica a mão e me segura pela mochila.
— Espera... Então o Sanderson acha que sou seu namorado, não é? O que você vai dizer para ele?
Tento me livrar dele, mas Peter não solta.
— Ainda não pensei nessa parte. Mas vou dar um jeito. — Eu levanto o queixo. — Sou peculiar assim.
Peter ri alto, com a boca bem aberta.
— Você é mesmo engraçada, Lara Jean.

13 comentários:

  1. Ai, já estou apaixonada pelo livro e lendo como se não houvesse amanhã... no serviço ;O

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    1. Eu tambemmm! Agr ta ficando mais interessante e parece q eu fico com vergonha com a personagem slaa

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  2. Gente,juro que eu tava sentindo vergonha de tudo aquilo junto com a Lara Jean. Kkkkkkkkjj essa garota é peculiar kkk

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  3. Kkkkkkkkkk psé, estou sentindo vergonha alheia, q ideia a dela.. De beijar bem O PETER!!! MDSSSSSS 😂😂😂

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    1. Tô lendo os comentários só pra saber o q vc disse kkkkk tipo mto u tbm beijaria ele mas não me apaixonaria pelo Josh de jeirj nenhum bom tvz hehehe

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  4. Nossa,me envolvi tanto na história que esqueci de respirar por uns segundos.

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  5. Mandy Nerd K-Otaku17 de junho de 2018 11:17

    Gente, eu to sentindo tanta vergonha que parece até que foi comigo! Apaixonada por esse livro e por essa personagem Kkkkkk

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  6. NEM CHEGUEI NA METADE DO CAPITULO E JA TO MORRENDO DE VERGONHA ALHEIA CM PD LARA JEAN TU CONSEGUE SER PIOR Q EU

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  7. É 5h e eu tô a que, ainda nem dormi e nem to com sono de tão bom que tá o livro,o alarme já tocou eu acho que nem vou a escola hoje.

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  8. Que livro maravilhoso, obrigado Karina gente chocado com as atitudes da lara Jean kkkk ela me surpreendeu muito nesse capitulo kkkk MARAVILHOSAAA...

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  9. Essa nega é muito é doida KKKKKK ela solta os segredos dela muito facilmente, e ainda por cima levou um fora tadinha

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  10. Achei que não iria conseguir chegar ao final de tanta vergonha alheia!!!!
    Agora to confusa, eu achava qe o Josh e a Margot fossem da mesma idade, mas se ele ainda ta escola ele é mais novo que ela?

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  11. gente, é engraçado né, as vezes nós nem sabemos como reagir em algumas situações antes de pensar muiiiito, e muita gente acaba não tomando a decisão certa. Parece óbvio o que ela deveria fazer: pegar a carta no correio de Josh, e evitar tudo isso, ou simplismente dizer que gosta dele mas que acima de tudo, vem a irmã. Mas se a gente tivesse no lugar dela, dificilmente faria isso. Obgg pelo livro

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Boa leitura, E SEM SPOILER!