16 de abril de 2018

Capítulo 2

NA MANHÃ SEGUINTE, Margot está fazendo o café e eu estou colocando o cereal nas tigelas, então digo a coisa em que passei a manhã toda pensando.
— Você sabe que papai e Kitty vão ficar muito chateados, não sabe?
Quando Kitty e eu estávamos escovando os dentes, pouco antes, fiquei tentada a contar tudo, mas ela ainda estava com raiva de mim pelo que eu disse ontem, então fiquei quieta. Ela nem mencionou os biscoitos, embora eu saiba que os comeu, porque só sobraram migalhas no prato.
Margot solta um suspiro profundo.
— Então devo ficar com Josh por causa de você, do papai e da Kitty?
— Não, só estou avisando.
— Ele não viria muito aqui, depois que eu fosse embora.
Eu franzo a testa. Não passou pela minha cabeça que Josh pararia de vir aqui em casa depois que Margot viajasse. Ele já tinha o costume de vir bem antes de eles virarem um casal, não vejo por que iria parar.
— Talvez ele venha — digo. — Ele adora a Kitty.
Ela aperta o botão para ligar a cafeteira. Eu a observo com muita atenção, porque Margot sempre fez o café, e, agora que ela vai embora (só faltam seis dias), é melhor eu aprender. De costas para mim, ela responde:
— Talvez eu nem conte para eles.
— Hã, acho que eles vão perceber quando ele não aparecer no aeroporto, Gogo. — Gogo é meu apelido para Margot. — Quantas xícaras de água você botou aí? E quantas colheradas de pó de café?
— Vou anotar tudo para você — garante Margot. — No caderno.
Temos um caderno ao lado da geladeira. Foi ideia de Margot, claro. Nele estão todos os números importantes, os horários do nosso pai e das caronas de Kitty.
— Não se esqueça de colocar o número da nova tinturaria.
— Já coloquei. — Margot corta uma banana para colocar no cereal; cada fatia é perfeitamente fina. — Além do mais, Josh não iria ao aeroporto com a gente. Você sabe o que eu acho de despedidas.
Margot faz uma careta como quem diz: Argh, emoções.
Eu sei.

* * *

Quando Margot decidiu fazer faculdade na Escócia, eu me senti traída. Apesar de saber que isso ia acontecer, porque é claro que ela faria faculdade em algum lugar distante. E é claro que ela faria faculdade na Escócia e estudaria antropologia, porque ela é Margot, a garota dos mapas, dos livros de viagem e dos planos. É claro que ela nos deixaria um dia.
Ainda estou com raiva, ao menos um pouco. Só um pouquinho. Obviamente, sei que não é culpa dela. Mas ela vai para tão longe, e sempre dissemos que seríamos as irmãs Song para sempre. Margot primeiro, eu no meio e Kitty por último. Na certidão de nascimento, ela é Katherine; para nós, é só Kitty.
Somos as três irmãs Song. Éramos as quatro garotas Song com minha mãe, Eve Song. Evie para meu pai, mamãe para nós, Eve para o resto do mundo. Song é, era, o sobrenome dela. Nosso sobrenome é Covey, com a sílaba tônica no final. Mas o motivo de sermos as irmãs Song, e não as irmãs Covey, é que minha mãe dizia que seria uma garota Song para o resto da vida, e Margot acredita que nós também deveríamos ser. Todas temos Song como nome do meio, e nossa aparência é mais de Song do que de Covey, de qualquer modo, mais coreana do que caucasiana. Pelo menos, Margot e eu; Kitty se parece mais com nosso pai, tem o mesmo cabelo castanho-claro. As pessoas dizem que eu me pareço mais com ela, mas acho que é Margot, com as maçãs do rosto altas e os olhos escuros, quem se parece mais. Faz quase seis anos, e às vezes parece que ela estava aqui ontem. Às vezes parece que só existiu nos meus sonhos.
Ela havia encerado o piso naquela manhã; estava brilhando, e a casa cheirava a limão e limpeza. O telefone começou a tocar na cozinha, ela foi correndo atender e escorregou. Bateu a cabeça no chão e ficou inconsciente, mas depois acordou e disse que estava bem. Foi o intervalo lúcido. É assim que chamam. Pouco tempo depois, reclamou de dor de cabeça, foi se deitar no sofá e não acordou mais.
Foi Margot quem a encontrou. Ela só tinha doze anos, mas cuidou de tudo: ligou para a emergência, ligou para nosso pai e me deixou cuidando de Kitty, que só tinha três anos. Eu liguei a televisão para Kitty, no quarto de brinquedos, e fiquei com ela. Foi tudo o que fiz. Não sei o que teria feito se Margot não estivesse lá. Apesar de ela ser só dois anos mais velha do que eu, eu a admiro mais do que a qualquer outra pessoa.
Quando descobrem que meu pai é viúvo e tem três filhas, as pessoas balançam a cabeça, admiradas, como se dissessem: Como ele consegue? Como cuida de tudo sozinho? A resposta: Margot. Ela é organizada por natureza, com suas etiquetas, seus planejamentos e suas divisões em fileiras regulares e perfeitas.
Margot é uma boa garota, e acho que Kitty e eu estamos seguindo seu exemplo. Nunca colei, nem fiquei bêbada, nem fumei um cigarro, nem mesmo tive um namorado. Nós brincamos com papai e dizemos o quanto ele tem sorte de sermos tão boas, mas a verdade é que nós é que tivemos sorte. Ele é um ótimo pai. E se esforça muito. Nem sempre nos entende, mas tenta, e é isso que importa. As três irmãs Song têm um pacto silencioso: tornar a vida o mais fácil possível para nosso pai. Por outro lado, talvez não seja tão silencioso assim, porque quantas vezes já ouvi Margot dizer: “Shhh, fique quieta, papai está cochilando antes de ter que voltar para o hospital” ou “Não incomode papai com isso, você não consegue resolver sozinha?”.
Já perguntei a Margot como ela acha que seriam as coisas se nossa mãe não tivesse morrido. Será que passaríamos mais tempo com o lado coreano da família, e não só o Dia de Ação de Graças e o Ano-Novo? Ou...
Margot acha que não faz sentido ficar imaginando. Nossa vida é essa; especular não vai mudar nada. Ninguém pode nos dar respostas. Eu tento, tento muito, mas é difícil aceitar esse jeito de pensar. Estou sempre imaginando e especulando sobre outros caminhos.

* * *

Nosso pai e Kitty descem na mesma hora. Margot serve uma xícara de café para ele, e eu coloco leite no cereal de Kitty. Ponho a tigela na frente dela, mas Kitty me ignora, pega um iogurte na geladeira e o leva para a sala, para comer vendo tevê.
Ela ainda está chateada.
— Vou ao mercado mais tarde, então façam uma lista do que precisarem — pede papai, tomando um grande gole de café. — Acho que vou comprar uns bifes para o jantar. Podemos usar a grelha do quintal. Compro um para Josh também?
Olho para Margot. Ela abre a boca, depois a fecha.
— Não, compre só o suficiente para nós quatro — diz, por fim.
Lanço para ela um olhar de reprovação, mas ela me ignora. Nunca vi Margot perder a coragem antes, mas acho que, nas questões do coração, não dá para prever como uma pessoa vai se comportar.

7 comentários:

  1. FIRST AMANDO O LIVRO... *-*

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  2. Aii que livrinho mais delicinha de ler *-*

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  3. Nss q triste 😢 fiquei com um "leve" trauma agr... 😫

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  4. Tô gostando aaaaaaa

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  5. É. A vida pode ser bem difícil as vezes. Só quem perdeu a mãe cedo sabe!!!
    Acho a postura delas ótimas!!!
    A vida segue... Que bom q são unidas!
    Amando o livro! 💕

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Boa leitura, E SEM SPOILER!