20 de abril de 2018

Capítulo 1


Arcturo se encolheu profundamente nas sombras do estábulo, esperando pelo cair da noite. A algazarra da taverna ao lado reduzira-se para um murmúrio baixo, mas não era seguro sair ainda.
Se tudo fosse conforme planejado, seu mestre tocaria o sino da meia-noite em breve, anunciando para a sua freguesia que estava na hora de pegar o caminho para casa ou, se estivessem com sorte, para um quarto na estalagem acima. Só então Arcturo entraria em ação.
Era um plano que levou dez anos de planejamento; quase dois terços da sua jovem vida. Ele escaparia das surras, das horas intermináveis de trabalho duro e das rações parcas que eram sua única recompensa.
Como órfão, seu valor era determinado pelo rendimento do seu trabalho em vez do seu caráter. O boi de criação na baia ao lado era mais bem alimentado do que ele, afinal; fora comprado por muitas vezes o preço que seu mestre tinha pago por ele no reformatório local.
Ele valia menos do que um burro de carga.
O sino badalou, despertando Arcturo de seus pensamentos. Houve um rangido quando a porta da taverna foi aberta, então o som de trituração de cascalho anunciou a saída dos bêbados, suas risadas grosseiras desaparecendo até que o silêncio reinou mais uma vez. Mesmo assim, passaram-se dez minutos inteiros antes que Arcturo saísse das sombras para o ar noturno. Ele cutucou sua mala e imaginou se tinha tudo o que precisava.
Escapar não era tão simples quanto fugir, algo que Arcturo sabia de amarga experiência. No começo, antes que ele fosse vendido para o estalajadeiro, crianças fugiam do reformatório o tempo todo. Elas sempre voltavam alguns dias depois, famintas, surradas ou pior.
Não havia trabalho para crianças esqueléticas e sem educação, e nem elas sabiam para onde ir. Arcturo sabia que se fugisse despreparado, acabaria implorando por restos antes de retornar humildemente para a estalagem. Provavelmente seria mandado de volta ao reformatório. De volta para o inferno na terra.
Arcturo se ajoelhou na palha e verificou sua mala mais uma vez. Quarenta e dois xelins: suas economias de gorjetas, moedas perdidas e esmolas. Durariam algumas semanas até que ele encontrasse uma nova fonte de renda. Uma pele grossa, descartada por um comerciante de passagem por causa da mancha de vinho que estampava o seu centro, mas ainda servia para os propósitos de Arcturo; ele não congelaria se precisasse acampar pela noite. Depois, uma faca serrilhada, roubada da cozinha da taverna sob grande risco. Ainda que não fosse bem uma arma contra um bandido, trazia-lhe paz de espírito. Duas velas, um pedaço de pão, carne de porco salgada e algumas poucas peças de roupa completavam seus suprimentos. Apenas o suficiente para dar a ele uma chance.
O relincho de um cavalo na escuridão o lembrou porque ele escolhera aquela noite. Uma oportunidade, diferente de qualquer outra que ele tinha visto. Um jovem nobre havia chegado apenas algumas horas atrás, exausto de um longo dia de cavalgada. Ele nem tinha se incomodado em esvaziar seus alforjes, simplesmente jogou as rédeas para Arcturo e arrastou-se para dentro da estalagem para reservar uma cama pela noite.
Arcturo sabia para onde o nobre ia. Quando eles atingiam a maioridade, crianças nobres eram mandadas para a Academia Vocans para aprender a arte de conjurar demônios. A academia ficava na capital, na cidade de Corcillum, do outro lado do Império Hominum. Com sorte, os alforjes conteriam tudo o que Arcturo poderia precisar para uma jornada similar, sem mencionar o fato que os pertences do rico e jovem nobre poderiam ser extremamente valiosos.
Ele se esgueirou até o cavalo, estalando a língua para acalmá-lo. Como cavalariço, ele tinha jeito com cavalos. Esse era diferente, focinhava a sua palma como se procurando por uma mão cheia de comida. Ele acariciou seu focinho e soltou os alforjes, deixando-os cair no chão.
Arcturo procurou em cada bolso, seu coração despencando ao descobrir que a maioria deles estava vazia. Não era de se admirar que o nobre tenha entrado sem eles.
Ainda assim, o corcel do nobre era o verdadeiro prêmio. Muitos cavalos passaram por ali, mas aquele era um excelente garanhão, com pernas longas, coxas musculosas e, claro, olhos inteligentes. Ele ultrapassaria qualquer cavaleiro que poderia segui-lo, fossem ladrões, bandidos, ou até mesmo Pinkertons, a força policial de Hominum. Não era estranho para eles perseguirem um órfão se a recompensa fosse alta o suficiente.
Arcturo procurou com afinco no último bolso e sorriu quando agarrou algo sólido. Era difícil de ver na luz fraca do estábulo, mas ele podia dizer pelo toque que era um couro enrolado. Ele abriu-o no chão e sentiu a textura seca de um pergaminho ali dentro.
Um estreito feixe de luz da lua atravessando as ripas do teto permitiu que Arcturo visse letras pretas estampadas na página. Ele ergueu-o para a luz e examinou as marcas mais de perto.
A habilidade de leitura de Arcturo era pobre; sua educação fora limitada a um ano de aprendizado no reformatório. Felizmente, os livros que os viajantes abandonavam em seus quartos frequentemente acabavam em sua posse, permitindo que ele praticasse ao longo dos anos. Sua leitura agora estava melhor no todo, mas ele ainda tinha que falar em voz alta enquanto lia.
— Do rah lo fah lo go... — Ele sussurrou as sílabas absurdas. Elas não faziam sentido nenhum, mas ele não podia parar, seus olhos grudados na página. Enquanto falava, uma sensação estranhamente familiar infundiu em seu corpo, começando como uma fraca ebriedade e gradualmente crescendo em intensidade enquanto palavra por palavra rolava de sua língua. Os tons de cinza do lugar pareciam se tornar mais claro, as cores se intensificando em sua visão.
— Sai lo go mai nei go... — As palavras continuavam, seus olhos indo de um lado para o outro na página como se tivessem consciência própria. O coração martelando, Arcturo podia sentir algo dentro dele se agitando. Havia uma centelha na escuridão. Debaixo de seus pés, o couro estendido lampejou com luz violeta, padrões brilhando pela sua superfície. Pelo canto do olho, Arcturo viu o contorno de um pentagrama, cercado por símbolos em cada ponta da estrela. O brilho pulsou como um coração batendo, acompanhado de um zumbido baixo.
Quando ele alcançou a última linha da página, uma bola giratória de luz se formou no ar, crescendo até um orbe brilhante que ofuscou sua visão. Seus ouvidos estalaram conforme o zumbido se tornou um rugido, ficando mais alto a cada segundo.
Arcturo falou as últimas palavras, então conseguiu desviar o olhar do pergaminho e mergulhar para o chão, apertando as mãos sobre as orelhas. Ele podia sentir um calor ardente passando por ele, como se estivesse deitado ao lado de uma grande fogueira. E então, tão repentino quanto um relâmpago, o mundo de Arcturo ficou quieto.
O novo silêncio caiu sobre o estábulo como uma capa, apenas interrompido pela respiração falhada e soluçante de Arcturo. Ele apertou as pálpebras, encolhendo-se em uma bola no chão. Sabia que deveria estar se mexendo, juntando suas coisas e cavalgando para longe antes que qualquer um chegasse. Porém a frieza glacial do medo tomara conta, deixando-o petrificado no chão gelado do estábulo.
Houve um estalo quando o cavalo do nobre estourou sua amarra, então o trovejar de cascos conforme ele corria para a noite. A luz, o calor e barulho haviam sido demais para a besta bem-treinada. Percebendo que sua última chance de escapar acabara de galopar porta afora, o terror de Arcturo transformou-se em desespero.
Palha farfalhou na escuridão, seguido por um baixo rosnado. Arcturo gelou e prendeu a respiração. Ele manteve seus olhos fechados e ficou totalmente parado. Se ele se fingisse de morto, talvez o que quer que estivesse ali seguiria em frente à procura de uma presa mais interessante.
O som se intensificou, chegando cada vez mais perto, até que ele pôde sentir a respiração quente e úmida da criatura em sua orelha. Uma língua deslizou pelo seu rosto, deixando um rastro de saliva enquanto sentia o seu gosto. Arcturo ficou tenso, sabendo que precisaria lutar.
Com um grito, ele saltou de pé, atacando com um punho cerrado, que encontrou um focinho peludo. Ele foi recompensado com um uivo conforme a criatura caía para trás. Encorajado, Arcturo atacou novamente, fazendo a criatura escorregar para as sombras. Ela era atrapalhada, caindo e tropeçando sobre si mesma enquanto corria.
Arcturo agarrou sua mala e correu para a porta. A estalagem estava silenciosa e escura, sem sinais de movimento. Ele sorriu de alívio, percebendo que ainda poderia ter uma chance de escapar. Se tivesse sorte, o cavalo não estaria longe.
Mas conforme ele começou a sair, um sentimento estranho recaiu sobre ele. Dor e... traição. Ele balançou a cabeça e deu outro passo, mas o sentimento se intensificou. Na beira de sua consciência, Arcturo sentiu algo se agitar. A criatura estava conectada a ele de alguma forma, como um cordão umbilical mental. Subitamente, Arcturo foi tomado por um sentimento enorme de solidão e abandono, emoções que não eram estranhas a ele.
Ele virou e encarou a escuridão dos estábulos. À luz da lua, a entrada se abria como uma boca de caverna, coberta por sombras. A criatura choramingava, como um cachorro que foi chutado pelo dono. Ele se sentiu culpado, porque o demônio estava apenas lambendo seu rosto. E era isso o que era, um demônio — o nobre estava a caminho para aprender a arte de convocá-los, afinal. Ele fizera isso? Conjurara um demônio? Mas isso era algo que apenas nobres podiam fazer... não era?
Como se pudesse sentir sua culpa, o demônio saiu do estábulo, piscando na luz da lua. Não era tão grande quanto ele pensava, apenas do tamanho de um cachorro. Na verdade, tinha a cabeça de um cachorro também, com um par de grandes olhos azuis, seguido por um par menor atrás deles. Era inteiramente preto, com uma crista de pelos desgrenhados ao longo de sua espinha. Essa crista continuava até uma cauda peluda como de uma raposa, que balançava para lá e para cá como um bichinho de estimação ansioso. O mais estranho de tudo era seu corpo, musculoso e com membros poderosos como os de um gato selvagem, garras afiadas e perigosas.
— O que você é? — Arcturo sussurrou, esticando uma mão devagar. Em sua mente, ele podia sentir o medo do demônio de dissipando, substituído por um ávido desejo de agradar. O demônio deu um passo cauteloso à frente, então lambeu sua mão com uma língua áspera e molhada.
Arcturo o examinou mais atentamente, acariciando sua cabeça. Apesar de seu tamanho, a criatura parecia jovem, com a cabeça grande demais e os membros grossos e desajeitados que davam um ar de filhote.
— Você quer vir comigo? — Arcturo perguntou, esfregando a criatura debaixo do queixo. Ela fechou seus quatro olhos e forçou de volta, ofegando de prazer. A cada coçada Arcturo sentiu um intenso senso de satisfação na beira de sua consciência.
— Aposto que qualquer bandido de passagem pensaria duas vezes antes de nos atacar, hein? — Arcturo murmurou, sorrindo. — Vamos apenas esperar que você não assuste o cavalo também. Precisaremos dele esta noite.
Ele se virou, apenas a tempo de ver um bastão vindo na direção de seu rosto. Dor. Então nada.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!