16 de abril de 2018

Capítulo 17


SE EU PUDESSE me enterrar em um buraco e passar o resto dos meus dias ali, bem, é exatamente o que eu faria. Por que eu tinha que falar naquele beijo? Por quê?
Ainda me lembro de tudo que aconteceu naquele dia na casa de John Ambrose McClaren. Estávamos no porão, que cheirava a mofo e sabão em pó. Eu estava vestindo um short branco e uma blusa bordada frente única branca e azul que roubei do armário de Margot. Era a primeira vez que usava um sutiã tomara que caia na vida. Peguei emprestado da Chris, e ficava ajeitando ele toda hora porque era meio desconfortável. Foi uma das nossas primeiras reuniões de meninos e meninas em um fim de semana à noite. Foi meio estranho, porque parecia que tínhamos feito de propósito. Não foi igual a ir para a casa de Allie depois da aula e os garotos estarem lá com o irmão gêmeo dela. Também não foi como ir ao fliperama no shopping sabendo que provavelmente encontraríamos meninos.
Isso envolvia planejamento, ir até lá, usar um sutiã diferente, tudo em um sábado à noite. E sem a supervisão dos pais, era só a gente no porão ultraparticular de John. O irmão mais velho dele ia ficar tomando conta de nós, mas John pagou dez dólares para ele ficar no quarto dele.
Não que tenha acontecido alguma coisa empolgante, como um jogo improvisado de verdade ou consequência ou de sete minutos no paraíso, duas possibilidades para as quais nós, garotas, havíamos nos preparado com chicletes e brilho labial. A única coisa que aconteceu foram os garotos jogando videogame e as garotas assistindo, jogando nos celulares e cochichando umas com as outras. E então nossos pais apareceram para nos buscar, o que foi muito anticlimático, depois de tanto planejamento e expectativa. Achei decepcionante, não porque eu gostasse de alguém, mas porque adorava romance e drama e estava torcendo para alguma coisa empolgante acontecer.
E uma coisa aconteceu.
Comigo!
Peter e eu estávamos lá embaixo sozinhos, as duas últimas pessoas esperando os pais. Estávamos sentados no sofá. Eu ficava mandando mensagens de texto para o meu pai: Cadê vc???? Peter estava jogando um jogo no celular. E então, do nada, ele disse:
— Seu cabelo tem cheiro de coco.
Nós nem estávamos sentados tão perto.
— Sério? Você consegue sentir o cheiro daí?
Ele chegou mais perto, cheirou e assentiu.
— Consigo, lembra o Havaí ou algo assim.
— Obrigada! — Eu não tinha certeza se era um elogio, mas parecia com um o bastante para eu agradecer. — Estou alternando entre um xampu de coco e o xampu de bebê da minha irmã, para descobrir qual deixa meu cabelo mais macio...
Então Peter Kavinsky se inclinou e me beijou, e eu fiquei paralisada.
Eu nunca tinha pensado nele antes daquele beijo. Ele era bonito demais, bajulador demais. Não era meu tipo. Mas, depois que me beijou, eu só consegui pensar nele e em mais nada por meses.

* * *

E se Peter for só o começo? E se... e se as outras cartas também foram enviadas? Para John Ambrose McClaren. Kenny do acampamento. Lucas Krapf. Josh.
Ah, meu Deus, Josh.
Eu me levanto. Tenho que encontrar a caixa de chapéu. Tenho que encontrar aquelas cartas.
Eu volto para a pista de atletismo. Não vejo Chris em lugar algum, então concluo que ela deve estar fumando atrás da quadra coberta. Vou direto até o treinador, que está sentado na arquibancada mexendo no celular.
— Não consigo parar de vomitar. — Eu me inclino para a frente e cruzo os braços sobre a barriga. — Posso ir para a enfermaria?
O treinador nem desvia os olhos do telefone.
— Claro.
Assim que estou fora do campo de visão dele, saio correndo. Educação física é minha última aula do dia, e minha casa fica a uns três quilômetros da escola. Eu corro como o vento. Acho que nunca corri tão rápido e com tanta intensidade na vida, e provavelmente nunca vou correr de novo. Corro tanto que tenho que parar algumas vezes porque sinto que vou vomitar de verdade. Então me lembro das cartas, de Josh e de De perto, seu rosto não era exatamente bonito, mas angelical, e volto a correr.
Assim que chego em casa, subo a escada e abro meu armário em busca da caixa. Não está na prateleira mais alta, onde costuma ficar. Não está no chão, nem atrás da pilha de jogos de tabuleiro. Não está em lugar algum. Fico de quatro e começo a vasculhar em pilhas de suéteres, caixas de sapato e material de artesanato. Olho em lugares onde não poderia estar porque é uma caixa de chapéu grande, mas olho mesmo assim. Minha caixa de chapéu não está em lugar algum.
Eu desabo no chão. Estou em um filme de terror. Minha vida virou um filme de terror. Ao meu lado, meu celular vibra. É Josh.
Cadê você? Pegou carona com a Chris?
Eu desligo o celular, vou até a cozinha e ligo para Margot do telefone fixo. Ainda é meu primeiro impulso procurá-la quando as coisas ficam complicadas. Vou só deixar de fora a parte sobre Josh e me concentrar em Peter. Ela vai saber o que fazer; ela sempre sabe o que fazer. Estou pronta para explodir: Gogo, sinto tanto sua falta e tudo está uma confusão sem você, mas, quando ela atende o telefone, parece sonolenta, e percebo que a acordei.
— Você estava dormindo?
— Não, eu só estava deitada — mente ela.
— Você estava dormindo! Gogo, não são nem dez horas aí! Espera, é isso mesmo? Ou calculei errado de novo?
— Não, você está certa. Só estou cansada. Estou acordada desde as cinco porque... — Ela para de falar. — O que aconteceu?
Eu hesito. Talvez seja melhor não preocupar Margot com tudo isso. Afinal, ela acabou de começar a faculdade. Foi para isso que se esforçou tanto, é o sonho dela virando realidade. Ela deveria estar se divertindo, e não se preocupando com como as coisas estão em casa sem ela. Além do mais, o que eu ia dizer? Escrevi um bando de cartas de amor, e elas foram enviadas pelo correio, inclusive a que escrevi para o seu namorado?
— Não aconteceu nada — respondo.
Estou fazendo o que Margot faria: tentando resolver isso sozinha.
— Definitivamente parece que aconteceu alguma coisa — diz Margot, bocejando. — Me conta.
— Volte a dormir, Gogo.
— Tudo bem — responde ela, bocejando de novo.
Nós desligamos, e eu preparo um sundae direto no pote de sorvete: calda de chocolate, chantilly, nozes picadas. Serviço completo. Levo para o quarto e como deitada. Coloco na boca como remédio até ter comido tudo, até a última gota.

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