16 de abril de 2018

Capítulo 16

AS AULAS COMEÇARAM oficialmente e encontraram seu próprio ritmo. Os primeiros dias de aula são sempre perdidos com distribuição de livros, das ementas das matérias e decisões sobre onde e com quem você vai sentar. Agora é que a escola começa de verdade.
Na educação física, o treinador White nos deixa ao ar livre para aproveitarmos os últimos dias de sol quente. Chris e eu estamos andando pela pista de atletismo. Chris me conta sobre uma festa à qual foi no feriado do Dia do Trabalho.
— Quase caí no tapa com uma garota que ficava dizendo que eu uso aplique. Não é minha culpa se meu cabelo é incrível.
Quando já estamos na terceira volta, vejo Peter Kavinsky me olhando. Achei que estivesse imaginando coisas quando o notei me observando, mas já é a terceira vez. Ele está jogando frisbee com alguns garotos. Quando passamos por eles, Peter corre até nós.
— Posso falar com você um minuto?
Chris e eu nos entreolhamos.
— Comigo ou com ela? — pergunta ela.
— Com Lara Jean.
Chris passa os braços de forma protetora ao redor dos meus ombros.
— Vai em frente. Estamos ouvindo.
Peter revira os olhos.
— Quero falar com ela em particular.
— Que seja — dispara Chris, e sai andando.
Por cima do ombro, ela arregala os olhos para mim, como quem diz O que ele quer? Dou de ombros como quem diz Não faço ideia!
Com a voz baixa e discreta, Peter começa:
— Só para você saber, eu não tenho herpes.
O quê? Fico olhando para ele, boquiaberta.
— Eu nunca disse que você tinha herpes!
A voz dele ainda está baixa, mas realmente furiosa.
— Também não pego sempre o último pedaço da pizza.
— Do que você está falando?
— Foi o que você disse. Na sua carta. Que eu sou um cara egoísta que anda por aí passando doenças para as garotas. Lembra?
— Que carta? Eu não escrevi carta nenhuma!
Espera. Escrevi sim. Eu escrevi uma carta para ele há um milhão de anos. Mas não é dessa carta que ele está falando. Não pode ser.
— Escreveu, sim. Estava endereçada a mim e assinada por você.
Ah, Deus. Não. Não. Isso não está acontecendo. Isso não é real. Estou sonhando. Estou no meu quarto e estou sonhando e Peter Kavinsky está no meu sonho, olhando com raiva para mim. Eu fecho os olhos. Estou sonhando? Isso é real?
— Lara Jean.
Abro os olhos. Não estou sonhando e isso é real. É um pesadelo. Peter Kavinsky está segurando minha carta. É minha letra, meu envelope, meu tudo.
— Onde... onde você conseguiu isso?
— Chegou pelo correio ontem. — Peter suspira, irritado. — Olha, não é nada de mais. Só não saia por aí dizendo para as pessoas...
— Chegou pelo correio? Na sua casa?
— É.
Acho que vou desmaiar. Acho que vou desmaiar de verdade. Que eu desmaie agora, porque, se eu desmaiar, não vou mais estar aqui, neste momento. Vai ser como nos filmes, quando a mocinha desmaia por causa do choque e toda a briga acontece enquanto ela está apagada, e ela acorda em uma cama de hospital com um hematoma ou dois, mas perdeu toda a parte ruim. Eu queria que a minha vida fosse assim, e não esse pesadelo.
Consigo sentir que estou começando a suar.
— Você precisa entender que escrevi essa carta muito tempo atrás.
— Tudo bem.
— Tipo, anos atrás. Muitos anos atrás. Eu nem me lembro do que escrevi. — De perto, seu rosto não era exatamente bonito, mas angelical. — Sério, essa carta é do fundamental. Eu nem sei quem pode ter mandado. Posso ver?
Estico a mão enquanto tento ficar calma e não parecer desesperada. Ele hesita, e abre um de seus sorrisos perfeitos.
— Não, eu quero ficar com ela. Nunca recebi uma carta assim.
Dou um pulo e, rápida como um gato, arranco a carta da mão dele. Peter dá uma gargalhada e levanta as mãos em sinal de rendição.
— Tudo bem, vai, pode ficar com ela. Caramba.
— Obrigada.
Começo a me afastar dele. O envelope treme nas minhas mãos.
— Espera. — Ele hesita. — Olha, eu não queria roubar seu primeiro beijo nem nada disso. Quer dizer, não foi minha intenção...
Dou uma gargalhada, uma gargalhada forçada e falsa que me faz parecer uma louca. As pessoas se viram e olham para nós.
— Pedido de desculpas aceito! É passado!
E saio correndo. Corro mais rápido do que já corri na vida. Até o vestiário feminino.
Como foi que isso aconteceu?
Eu me sento no chão. Já tive o sonho de ir para a escola pelada. Já tive o sonho combinado de ir para a escola pelada tendo me esquecido de estudar para uma prova de uma matéria da qual nunca tinha ouvido falar e o sonho de estar pelada no dia da prova com alguém tentando me matar. Isso é tudo isso vezes infinito.
E então, como não há mais nada a fazer, eu tiro a carta do envelope e leio.

Querido Peter K,
Antes de tudo, me recuso a chamar você de Kavinsky. Você deve ter achado o máximo quando as pessoas começaram a chamá-lo pelo sobrenome do nada, não é? Quer saber? Kavinsky soa como o nome de um velho com a barba branca e comprida. Quando me beijou, sabia que eu ia me apaixonar por você? Às vezes acho que sim. Definitivamente sim. Sabe por quê? Porque você acha que TODO MUNDO ama você, Peter. É isso que odeio em você. Porque todo mundo ama mesmo você. Inclusive eu. Eu amava. Não mais.
Aqui estão todos os seus piores defeitos:
Você arrota e não pede desculpas. Apenas supõe que todo mundo vai achar fofo. E, se as pessoas não acharem, quem se importa, certo? Errado! Você se importa. Você se importa muito com a opinião alheia.
Você sempre pega o último pedaço de pizza. Nunca pergunta se mais alguém quer. Isso é falta de educação.
Você é tão bom em tudo. Bom demais. Você poderia dar a outros garotos a chance de serem bons, mas nunca dá.
Você me beijou sem motivo. Apesar de eu saber que você gostava da Gen e de você saber que gostava da Gen e de a Gen saber que você gostava dela. Mas você me beijou mesmo assim. Só porque podia. Eu quero saber a verdade: por que você fez isso comigo? Meu primeiro beijo era para ser especial. Já li sobre esse tipo de coisa, sobre como é para ser a sensação: fogos de artifício e faíscas e o som de ondas quebrando nos seus ouvidos. Eu não senti nada disso. Graças a você, foi tão “não especial” quanto um beijo pode ser.
O pior de tudo é que aquele beijo estúpido e sem sentido me fez começar a gostar de você como nunca gostei antes. Eu nunca tinha pensado em você. Gen sempre disse que você é o garoto mais bonito do nosso ano, e eu concordava, porque claro que você é.
Mas eu não via nada de especial em você. Muitas pessoas são bonitas. Isso não as torna interessantes, intrigantes ou legais. Talvez tenha sido por isso que você me beijou. Para ter controle mental sobre mim, para me fazer ver você desse jeito. Funcionou. Seu truquezinho funcionou. A partir daquele dia, eu passei a enxergar você. De perto, seu rosto não era exatamente bonito, mas angelical. Quantos garotos angelicais você já viu? Para mim, só havia um. Você. Acho que tem muito a ver com seus cílios. Você tem cílios bem longos. Injustamente longos.
Apesar de não merecer, tudo bem, vou falar sobre todas as coisas de que gosto (gostava) em você:
Uma vez, na aula de ciências, ninguém queria fazer dupla com Jeffrey Suttleman porque ele tem cecê, e você se ofereceu como se não fosse nada de mais. De repente, todo mundo passou a achar que Jeffrey não era tão ruim.
Você ainda está no coral, apesar de todos os outros garotos terem debandado para a banda ou para a orquestra. Até canta solos. E dança, e não fica com vergonha.
Você foi o último garoto a ficar alto. E agora é o mais alto, mas é como se você merecesse. Além disso, quando você era baixinho, ninguém ligava de você ser baixo, as garotas ainda gostavam de você e os garotos ainda escolhiam você primeiro para o time de basquete na educação física.
Depois que você me beijou, eu gostei de você pelo resto do sétimo ano e pela maior parte do oitavo. Não foi fácil ver você com a Gen, de mãos dadas e se beijando no ônibus. Você deve fazer com que ela se sinta especial. Porque esse é seu talento, certo?
Você é bom em fazer as pessoas se sentirem especiais.
Você sabe como é gostar tanto de alguém que é insuportável saber que essa pessoa nunca vai sentir a mesma coisa por você? Provavelmente não. Pessoas como você não precisam sofrer por esse tipo de coisa. Ficou mais fácil depois que a Gen se mudou e nós deixamos de ser amigas. Pelo menos eu não precisava mais ouvir sobre vocês.
E agora que o ano está quase acabando, sei com certeza que já deixei de gostar de você. Estou imune, Peter. Tenho orgulho de dizer que sou a única garota nesta escola que está imunizada contra os encantos de Peter Kavinsky. Tudo porque tive uma overdose de você no sétimo ano e em boa parte do oitavo. Agora, nunca mais vou precisar me preocupar em ser contaminada de novo. Que alívio! Aposto que, se um dia nos beijássemos de novo, eu pegaria alguma coisa, e não seria amor. Seria herpes!
Lara Jean Song

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