20 de abril de 2018

Capítulo 15

Capítulo 15
Um reflexo, tremendo na escuridão. Ele estava tão perto de desistir. Havia tanta dor. Seria tão, tão fácil cair no abismo.
A luz era implacável, movendo-se para frente e para trás para manter sua atenção. Ela queria que ele a seguisse.
— Ele está acordando.
A luz o puxava, insistente em sua necessidade. Ela a conhecia, essa luz. Era sua amiga.
— Isso aí, volte para nós, Arcturo. Você vai ficar bem.
Sacarissa estava chamando por ele. Ele podia sentir seu amor, puxando-o através da conexão que eles tinham. Ela era a luz na escuridão. O único ser que restava no mundo que se importava com ele. Ele lutou, avançando pelo vazio, apesar de se sentir pesado, como se os tentáculos de Anansi ainda o segurassem. Ele abriu os olhos.
Três rostos olhavam para ele. Elizabete. Cipião. Obadiah. Ele grunhiu quando viu o rosto do Reitor.
— Você não. Faça o que quiser, só não machuque Sacarissa — ele falou, agarrando o casaco de Obadiah.
— Ele está delirando. Acha que você é o Wendigo — Cipião disse, limpando a testa de Arcturo com a manga.
— O feitiço de cura não funcionou? — Elizabete perguntou, seus olhos cheios de preocupação.
— Funcionou perfeitamente, mas ele levou uma pancada na cabeça, — Obadiah ergueu as pálpebras de Arcturo e olhou de perto. — Não há nada que um feitiço de cura possa fazer quando se trata de uma concussão.
— Eu estou bem — Arcturo disse, batendo na mão de Obadiah e se sentando.
O quarto estava cheio de camas enfileiradas iguais a que ele estava deitado, mas pela alvenaria, ele soube que ainda estava em Vocans. Ataduras, roupas de cama e instrumentos médicos estavam empilhados em prateleiras ao redor. Elaine estava deitada na cama ao seu lado, mas ela parecia adormecida. Uma enfermaria, então.
Sacarissa estava enrolada no pé de sua cama, abrigada por um cobertor quente. Ele podia sentir uma dor aguda através da conexão, o que o permitiu saber que as costelas dela ainda estavam quebradas.
— Cure-a — ele ordenou, se arrastando para perto de Sacarissa e acariciando suas orelhas. — Cure-a e eu lhes conto tudo o que eu sei.
— O feitiço de cura não pode consertar ossos quebrados, Arcturo. — Elizabete falou gentilmente, colocando uma mão gentil em seu ombro. — Somente ferimentos na carne. Temos que deixar a natureza seguir seu curso. Ela precisa de descanso.
— Como eu cheguei aqui? — Arcturo perguntou, piscando com lágrimas em seus olhos. Sacarissa estava tão quieta, seu peito subindo e descendo com dificuldade. Como ele pôde deixar isso acontecer com ela?
— Ulfr nos acordou, disse que havia escutado sons inusitados vindos da sala de conjuração. Nós chegamos lá a tempo de repelir o Wendigo. Eu o deixei trancado na sala de conjuração enquanto cuidávamos de seus ferimentos. — Cipião olhava acusadoramente para o Reitor. — Obadiah chegou quando nós o estávamos arrastando de lá. Ele vai atrelar o Wendigo depois.
— O senhor vai fazer daquela coisa o seu demônio? — Arcturo exclamou. — Depois do que ele fez?
— É um demônio poderoso, fraco o suficiente para ser capturado. — Obadiah determinou, sem vergonha alguma. — Eu o submeterei à minha vontade e o usarei contra os orcs. Eu dei o meu Hydra para meu filho, Zacarias. Este demônio irá substituí-lo.
Arcturo se afastou dele, enojado. Que tipo de homem iria querer aquela monstruosidade como seu demônio, poderoso ou não? Como ele tinha sorte em ter Sacarissa!
— O que você quis dizer com “nos contar tudo o que você sabe”? — Elizabete perguntou, mudando de assunto com delicadeza. — É por isso que sua mochila está apinhada de coisas?
— Eu ouvi Charles falar que o Reitor estava retornando para me interrogar. Eu não ia ficar aqui para isso — Arcturo murmurou.
— Interrogar é uma palavra forte. Eu queria que você confirmasse minhas suspeitas, só isso. Imagino que seja por isso que Charles e Rook tentaram matá-lo. Eles pouco sabiam, enquanto eu já sabia a verdade. — O rosto de Obadiah escureceu com uma fúria repentina.
— Como o senhor sabe que eles estavam envolvidos? — Arcturo perguntou, estupefato.
— Ulfr os viu saindo da sala de conjuração — Obadiah falou. — É claro, a palavra de um anão nunca se sustentará em um tribunal, especialmente contra dois nobres, mas é o suficiente para mim. Os meio-homens são criaturinhas maldosas, mas este em particular não tem motivo para mentir. Os dois garotos serão expulsos da escola, para receberem educação em casa. É a punição mais severa que posso dar a eles.
Arcturo assentiu, sem saber se deveria se sentir grato ou bravo. Poderia ter sido muito pior – as ações deles poderiam nunca ter sido descobertas. Mas expulsão... era só isso? Mesmo tendo sido pego em flagrante, o nível social deles os havia protegido.
Ele sentiu um lampejo de gratidão por Ulfr. Se não fosse por ele, Arcturo teria sido lentamente digerido dentro do estômago do monstro. Como era injusto que Obadiah houvesse falado dele daquela maneira.
— Lady Faversham está lidando com eles agora — Obadiah falou, baixando sua voz e se aproximando. — É bom que ela não esteja aqui, pois o que vamos discutir nunca deve chegar aos ouvidos dela.
— O que você quer dizer? — Cipião perguntou. Até mesmo Elizabete parecia perplexa. Claramente, isso era novidade para todos eles.
— Assim que ouvi falar do misterioso incêndio que matou o estalajadeiro e sua esposa, eu suspeitei de um crime. Ainda mais por eles serem os únicos que sabiam de onde você viera. Eu já suspeitava que você fosse filho bastardo de Faversham, diabos, foi por isso que o rei me colocou no comando da investigação. Ele suspeita disso também.
— Ele é filho do Faversham? — Cipião murmurou, enterrando o rosto nas mãos. — Isto vai causar um tumulto. Lady Faversham vai ficar furio...
— Lady Faversham não saberá de nada. — Obadiah disse rispidamente. — Agora mantenha sua boca fechada até eu ter terminado de falar. O que estamos prestes a fazer equivale a alta traição, mas é a única coisa que podemos fazer para salvar centenas de vidas e impedir que o reino destrua a si mesmo.
Cipião ficou em silêncio, apesar de seu rosto ter ficado vermelho de raiva por ter sido tratado daquela maneira. Elizabete apertou seu ombro e assentiu com a cabeça para que Obadiah continuasse.
— Eu pesquisei sobre mortes misteriosas no âmbito local. Faversham não iria parar no estalajadeiro, ele tinha muito que conduzir. Então, quando descobri que o proprietário de um reformatório havia sido misteriosamente assassinado, eu sabia onde procurar.
— Esperto — Arcturo disse, mas balançou a cabeça com aversão.
— Mas isso não é tudo. Eu fui até o reformatório e descobri algo mais.
Ele se inclinou mais perto, sua voz mais que um sussurro.
— Havia outros. Como você. Mais da descendência de Faversham.
Arcturo estava aturdido. Lorde e lady Faversham estavam obviamente escondendo um casamento infeliz, se havia outros como ele.
— Eu os testei, da mesma maneira que fazemos com os filhos nobres que não são primogênitos, para o caso de eles terem herdado a habilidade de conjurar. Dois outros, e mais um em outro reformatório.
— Três irmãos — Arcturo murmurou.
— Dois irmãos e uma irmã, na verdade — Obadiah deu um riso abafado. — Mas isso não foi tudo. Veja, eu havia enviado meus oficiais mais confiáveis para testar outras crianças, para manter as aparências, entende. Eles voaram de vila em vila, enfileirando meninos e meninas e avaliando um por um. Eles fizeram isso em milhares, testando cada um. Foi somente no meu caminho até aqui que recebi uma mensagem. Há mais deles.
— O que isso quer dizer? — Elizabete perguntou. — Outras crianças ilegítimas?
— Não, não bastardos. — Obadiah determinou, escarnecendo enquanto Elizabete estremecia com o termo usado por ele. — Os oficiais confirmaram isso. A vila em que eles encontraram o primeiro conjurador fica a milhares de quilômetros da propriedade nobre mais próxima. A mãe é uma morena que nunca esteve a mais de um quilômetro longe de sua vila. O padeiro era o pai, e o garoto tem o cabelo ruivo e olhos verdes dele. Eles tinham até mesmo as mesmas alergias. Não havia dúvidas do paternidade ali.
— Então... não são somente crianças ilegítimas. Conjuradores estão manifestando a habilidade independentemente! — Cipião exclamou.
— Não tão alto — Obadiah falou apressado. — Sim, este é o caso... e essa é a história que contaremos ao rei. Ninguém deve saber que lorde Faversham traiu sua esposa. Haverá outros bastardos por aí, assim como Arcturo.  Vários deles. Talvez centenas.
Obadiah suava agora e, subitamente, Arcturo entendeu que talvez até o próprio Obadiah tivesse suas preocupações sobre filhos ilegítimos. Ele temia por seu casamento.
— Imagine o que aconteceria se a notícia de que os orfanatos ao redor do reino seriam testados imediatamente se espalhasse, prova de cada infidelidade através do território, revelada. Casais nobres se separariam, a aristocracia de Hominum seria despedaçada em um instante. Justo quando precisamos estar fortes!
Elizabete e Cipião assentiam, apesar de a maior parte disso passar despercebida a Arcturo. Tudo o que ele sabia é que eles manteriam sua origem em segredo.
— Os anões tramam outra rebelião nesse momento. Os ataques de orcs se tornam mais frequentes a cada dia. Até mesmo os plebeus estão ficando desencorajados, furiosos com a maneira como o rei arruinou a província. Há até mesmo conversas sobre o rei abrir mão do trono, para que o Príncipe Harold possa assumir seu lugar, para apaziguar o povo! Ele falou sobre isso comigo ainda ontem. Ele já está assumindo o controle da legislação de Hominum, dos Pinkertons e dos Inquisidores. Ele manterá o controle, governando através deles e de seu filho.
— Muito bem — Elizabete disse, erguendo suas mãos. — Eu concordo que devemos manter as crianças ilegítimas em segredo e dizer ao mundo que Arcturo simplesmente manifestou o dom independentemente, assim como os outros plebeus que você encontrou. Mas tenho duas perguntas para você. Como o manteremos a salvo? Enquanto Arcturo estiver aqui, lorde Faversham e Charles tentarão matá-lo, para se livrar da evidência. E também, como manteremos isso em segredo? Não podemos nos esquecer de que, se lady Faversham descobrir, matará Arcturo.
— Agora, preciso que vocês mantenham a calma — Obadiah falou cautelosamente, afastando-se. — Mas eu fiz um acordo com Charles, que o retransmitirá a seu pai.
— Você fez o quê? — Elizabete falou com rispidez, seus olhos brilhando de raiva. — Depois do que eles tentaram fazer com Arcturo?
— Eu disse para manterem a calma! — Obadiah rugiu de volta. — Isso tinha que ser feito, para manter o garoto em segurança. Em troca da segurança de Arcturo, eu prometi que continuaria no comando da busca pelos plebeus, pelo tempo que o rei permitir. Esconderei do mundo o grupo de plebeus encontrado nos reformatórios e nos orfanatos, e manter sigilo sobre o vergonhoso segredo de lorde Faversham. Eu iria fazer isso de qualquer maneira, então melhor conseguir a segurança de Arcturo em troca. Tudo o que preciso de vocês três é que mantenham suas bocas fechadas sobre tudo isso.
— Mas e se você morrer, ou o rei decidir colocá-lo em outro lugar? — Cipião perguntou. — E se ele criar uma grande inquisição para investigar o caso todo? Você mesmo disse que ele tem suas suspeitas!
— Até esse ponto, espero que Arcturo já esteja graduado como Mago de Batalha, capaz de cuidar de si mesmo e longe da ira de lady Faversham. Rezo para que nunca aconteça. Quem sabe, talvez se toda a verdade vier à tona, o império não desmorone. Mas o que eu sei é que é melhor não arriscar. Vocês concordam com o plano?
— Eu concordo — Arcturo disse, erguendo sua mão. — Só quero viver em paz.
— Assim como eu — Cipião concordou em uma voz baixa.
Elizabete fez uma pausa por um momento, então assentiu.
— Se for para manter Arcturo a salvo — ela concordou.
— Bom. Agora, vamos permitir que o garoto tenha seu descanso? — Obadiah bateu as mãos, encerrando a conversa. — Você deveria ficar feliz, Arcturo. Seu ano só está começando!
— Descanse — Elizabete disse, seguindo Cipião e Obadiah enquanto saíam da sala. — Trarei sua refeição pela manhã.
A porta bateu quando eles saíram, deixando Arcturo sentado em silêncio. Até mesmo Sacarissa estava adormecida, apesar da discussão que estava sendo travada acima de sua cabeça. Ele se deitou e tentou fazer o mesmo.
— Bem, pensei que eles nunca iriam embora!
Seus olhos se abriram rapidamente para ver uma Elaine sorridente, as madeixas de seu cabelo caindo sobre ele e fazendo cócegas em seu nariz.
— Pensei que você estivesse inconsciente! — ele falou de maneira atrapalhada, tirando o cabelo dela de seu rosto e se sentando.
— Eles também pensaram! — Elaine deu risadinhas, mostrando a língua para ele. — Professores idiotas.
O coração de Arcturo começou a martelar. Um segredo que poderia destruir o império, na cabeça de uma jovem impressionável.
— O que você ouviu, exatamente? — ele perguntou com cuidado.
— Eu não sei. Depois que eles falaram que Charles seria expulso, eu parei de ouvir. Muito confuso. — Ela balançou sua cabeça, então estremeceu e esfregou a parte de trás de seu crânio. — Ainda dói!
— Você recebeu o que mereceu por escutar as conversas de outras pessoas. Seria de se pensar que você teria aprendido a lição, depois daquele Wendigo quase tê-la matado — ele resmungou.
— Ah, por favor. Saca estava lá para me proteger, não estava, linda? — ela fez carinho no pescoço de Sacarissa, uma sensação que fez com que Arcturo ficasse vermelho.
— Pare com isso!
Ela tirou as mãos e cruzou os braços, dando a Arcturo um olhar zangado.
— Se nós vamos ser amigos, você não pode falar comigo dessa maneira! — ela disse altivamente, erguendo seu nariz. — Você tem que dizer “por favor”.
— Ok. Por favor, não faça isso. Não é educado.
— Bom — ela disse, perdoando-o instantaneamente. — Eu sou uma boa amiga, sabe, juro! Podemos conversar quando você quiser. Você não está mais sozinho!
Arcturo se arrastou para dar espaço para ela sentar ao seu lado. Ele sorriu quando ela furtivamente cutucou o rabo de Sacarissa.
Arcturo então pensou no risco que seus professores estavam correndo para mantê-lo a salvo. O sentimento de ser protegido era novo para ele. Sua mente se voltou para os irmãos e irmãs que ele poderia ter lá fora. Então, para os outros plebeus descobertos, legítima e aleatoriamente com o dom.
— Você está certa, Elaine. Não estou sozinho. Não mais!

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