20 de abril de 2018

Capítulo 14

Arcturo foi empurrado para o chão, seu nariz batendo violentamente na superfície dura. A porta se abriu e o cômodo foi lançado em um breu enquanto o portal desaparecia, sua fonte de energia desaparecendo com Rook.
Sangue escorria do nariz de Arcturo e descia para sua boca e queixo enquanto ele lutava para se erguer, rasgando os fios enfraquecidos com toda a força que conseguia reunir. Quando a lâmina cortou a teia de energia, os fios se dissolveram em nada – nenhuma evidência para provar o que Charles havia feito. Eles haviam planejado bem o seu assassinato.
Tão silencioso quanto possível, Arcturo se arrastou para trás e começou a cortar os fios de Sacarissa, todo o tempo incutindo com sua mente a necessidade de silêncio. Ela mal respirava, pois a teia ainda brilhava, o suficiente para que o Wendigo os localizasse na escuridão.
Ele podia ouvi-lo agora, as garras deslizando e arranhando o chão. Arcturo se lembrava da maneira como as garras em forma de gancho haviam penetrado na terra para obter vantagem quando havia batalhado com o Minotauro. Era um animal feroz, completamente novo em uma superfície tão dura e lisa. Arcturo usaria isso a seu favor.
O último fio foi cortado e Arcturo ajudou Sacarissa a se erguer, agora em total escuridão. O Wendigo respirava profundamente, caçando-os pelo cheiro. Pela primeira vez, ele ficou feliz pelo fedor de madeira queimada que tomava o ar. Isso os ajudaria a permanecer vivos. Primeiro, Arcturo tentou abrir a porta. Estava trancada, mas ele podia sentir a fechadura, tão grande que ele conseguia colocar dois dedos dentro dela. O fecho era áspero e simples, uma relíquia dos dias antigos, de quando o castelo havia sido construído. Se tivesse sorte, um pouco de força com sua adaga poderia abrir a porta.
Enquanto seus olhos se ajustavam à escuridão, Arcturo viu que havia uma luz fraca por baixo da porta, o suficiente para ver os olhos de Sacarissa. Instintivamente, ele refez a conexão entre eles. A visão preto e branca de Sacarissa não faria muita diferença na escuridão do cômodo; a audição e o olfato seriam fundamentais.
O arranhar de garras contra a madeira era repugnante, como unhas contra um quadro negro. Mas não era nada comparado ao cheiro que exalava do Wendigo. Era como carne podre, pura e consumada no ar. Arcturo sentia que o odor fechava a sua garganta, tão forte o cheiro de morte. Em sua mente, ele podia sentir que o demônio vinha em sua direção cautelosamente. Arcturo supôs que ele não devia ter reconhecido o seu cheiro, já que os humanos não entravam no éter. O demônio estava com medo do desconhecido – no entanto, ele se aproximava.
— Afaste-se! — Arcturo gritou, lançando a adaga na fechadura, torcendo e arranhando o mecanismo.
Ele ouviu o deslizar de garras enquanto o Wendigo se afastava, como um pássaro assustado. Mesmo assim, foi só um momento até ele escutar o rastejar lento novamente. Estranhamente, não parecia estar se aproximando dele desta vez, ou pelo menos não que ele pudesse escutar. Ao invés disso, o Wendigo parecia ir em direção aos armários no outro lado da sala. Enquanto Arcturo focava sua atenção, ele podia sentir o odor de algo que ele não havia sentido antes: uma mistura de sabonete, suor e couro. Talvez ele e o Wendigo pudessem sentir o cheiro dos aventais lá dentro, e a criatura decidiu que os aventais eram uma presa mais fácil.
Arcturo não se importou, desde que o demônio continuasse se afastando dele. Ele podia sentir o fecho na porta estalando a cada movimento da adaga, até que, finalmente, um som pesado de metal fez com que ele soubesse que o trinco havia sido aberto. Com um último esforço, ele abriu a porta, caindo através dela com Sacarissa logo atrás.
Ele fechou a porta com força, colocou o trinco no lugar e pressionou suas costas contra a porta.
O Wendigo se chocava contra a porta, seus instintos predatórios dizendo que seguisse a presa que havia fugido. A porta tremeu, mas permaneceu firme contra o ataque do demônio. Talvez ela tivesse sido feita espessa e forte por essa razão.
Arcturo sentiu uma rajada de ar quente e úmido contra a parte de baixo de suas costas, enquanto o Wendigo farejava por baixo da porta, cheirando-o. Ele enfiou a adaga pela abertura e foi recompensado com um grunhido de dor. A ponta da lâmina retornou pegajosa com sangue negro. Então houve um ruído de garras enquanto o demônio fugia em busca de uma presa menos perigosa.
Tudo havia saído melhor do que ele esperava, afinal. Havia sangue no chão que escorria de seu nariz e Arcturo tinha certeza que, se não encontrassem nenhum corpo, Charles presumiria que o Wendigo o tinha comido por inteiro, então desaparecido no éter. Ele tinha, inadvertidamente, simulado sua própria morte. Era perfeito!
Sacarissa encostou o focinho na palma de sua mão e ele lhe deu um breve abraço. Ele só desejava ter tempo para tentar infundi-la dentro de si antes de desaparecer noite adentro. Ela já estava em perigo suficiente, e isso o pouparia de alimentá-la. Ela já estava com fome, pois Ulfr havia trazido somente uma magra porção de picadinho de carne à tarde.
Subitamente, ele ouviu um rugido de dentro da sala, como o último suspiro de um touro machucado. Então um grito, tão alto e cheio de pavor que adentrou toda sua alma. Não havia dúvida na mente de Arcturo sobre quem podia ser.
— Elaine! — ele engasgou.
Ele empurrou a porta, a escuridão do cômodo subitamente diminuída pela luz do átrio. Esferas de fogo-fátuo saíram de seus dedos, revelando a figura monstruosa do outro lado da sala.
Elaine estava deitada em posição fetal no chão em frente a um armário escancarado, cobrindo a cabeça com as mãos. O pequeno e corajoso Valens voava ao redor da cabeça do Wendigo, espetando os olhos do demônio com seu ferrão ainda não desenvolvido de todo. A cada pancada das garras do Wendigo, o Caruncho se esquivava para dentro do labirinto de chifres que assomava sobre a testa do monstro, de modo que os ataques acertavam os chifres de maneira ineficaz. Arcturo percebeu que Elaine deve ter ouvido Charles e ele, e então se escondido em um armário para assistir a briga.
— Elaine, saia daqui! — ele gritou.
Mas Elaine não se moveu. Ela estava imóvel, como um cordeiro recém-nascido.
— Pegue-a, Saca — Arcturo ordenou, correndo em direção ao Wendigo, sua adaga estendida. Sacarissa estava a seu lado, tentando se manter firme no chão liso.
Devia ter uns cinquenta metros para correr, mas pareceu um quilômetro enquanto o Wendigo deslizava suas garras pela sala, cada passo perigosamente mais perto da figura inerte de Elaine no chão.
Sacarissa a alcançou primeiro, agarrando Elaine pelo colarinho e arrastando-a para a porta aberta da sala de conjuração. Era uma ação lenta, e eles mal tinham feito algum progresso quando o Wendigo avistou seus dois novos oponentes.
Enraivecido pelo inseto com ferrão, ele rugiu um desafio para Sacarissa, fincando suas garras pelo chão e deixando marcas profundas nas tábuas. Sacarissa parou, baixando sua cabeça e se agachando contra o chão. Arcturo sentiu a intenção dela: enfrentar o Wendigo de cabeça erguida.
— Não, saia daqui! — ele gritou, ficando entre eles. — Eu o manterei ocupado.
Ele ergueu a adaga a sua frente, apunhalando o ar. Ela parecia pequena perto das garras compridas que o Wendigo erguia. Uma lâmina contra dez.
Um fogo-fátuo flutuou entre eles. Por um momento, os olhos do Wendigo ficaram petrificados, então ele se foi, flutuando para longe deles.
— Que tal isto? — Arcturo gritou, lançando um fogo-fátuo de seu dedo para rodopiar ao redor da cabeça do Wendigo. Ele piscou estupidamente, então bateu com suas garras contra ela, assim como havia feito com Valens. O fogo-fátuo se extinguiu, mas outros poucos segundos foram ganhos. Valens aproveitou a oportunidade para ferroar o Wendigo nos olhos novamente. O monstro bateu cegamente em seu próprio rosto e deixou um sulco de carne fresca em sua própria pele antes de o Caruncho ser forçado a se refugiar em seus chifres novamente.
— Toma isso, isso e isso! — Arcturo gritou, mandando um fogo-fátuo atrás do outra para circular a cabeça do Wendigo. O Wendigo vacilou, confuso, atacando-as como a moscas em um dia quente. Arcturo olhou para trás e viu que Sacarissa estava quase na porta. Esse foi seu erro.
O Wendigo se lançou, suas garras fatiando o ar na tentativa de acertar sua garganta. Foi apenas por mera sorte que Arcturo foi capaz de mergulhar de lado a tempo, mas uma garra ávida o cortou no quadril.
Ele mal estava de pé e correndo antes que a próxima garra viesse mordaz em sua direção. Desta vez, não havia tempo para desviar. Ao invés disso, Arcturo explodiu fogo-fátuo em um denso pulsar de energia, um feixe que deixou o Wendigo atordoado enquanto a luz atacava suas retinas feridas. A garra pegou Arcturo no ar, mas o baque foi amortecido pela mochila em suas costas. Mesmo assim, enquanto ele aterrissava no chão, podia sentir o sangue escorrendo pela sua coluna e uma camada de dor feroz atravessar sua escápula.
Então ele estava correndo de novo, impulsionado pela adrenalina e pelo medo enquanto o Wendigo urrava atrás dele. Valens apareceu sobre seu ombro, abandonando sua posição e retornando para sua mestra. Sacarissa estava bem perto da porta agora, mas Elaine lutava contra ela, batendo repetidamente no focinho do Canídeo com seus pequenos punhos.
Foi culpa do sangue. A poça de sangue que Arcturo havia deixado no chão, da ferida em seu nariz, úmida contra a superfície lisa das tábuas de carvalho. Sua bota escorregou, não mais do alguns passos da porta. A cabeça dele bateu contra o chão, sua visão escurecendo enquanto os sentidos eram tirados dele. Tão perto. Ele havia estado tão perto.
Ele podia sentir Sacarissa o arrastando, e as pesadas vibrações enquanto o Wendigo se aproximava do outro lado da sala. Houve um grunhido sufocado e a pressão em sua perna afrouxou. Então Sacarissa estava pulando sobre seu corpo, as garras expostas.
— Não — Arcturo sussurrou fracamente, forçando-se a ficar de joelhos.
Mas Sacarissa já estava lá, desviando por baixo das garras do Wendigo para morder sua perna. Ela fincou seus dentes na panturrilha do demônio e balançou a cabeça violentamente, rasgando a carne dura. Quando o Wendigo a atacou, ela já havia desaparecido por baixo de suas pernas, apenas para deslizar até suas coxas e enterrar as garras.
Mas justo quando Arcturo comemorava, o Wendigo chutou cegamente como uma mula, pegando Sacarissa no peito e atirando-a do outro lado da sala. Ela permaneceu deitada, quase incapaz de respirar. Arcturo sabia que as costelas dela estavam quebradas. O Wendigo avançou sobre ela, saliva pingando nas tábuas do chão, pronto para o golpe final. Ele ergueu as mãos para o alto, as garras apontando para baixo como um pianista louco pronto para tocar sua primeira nota.
Arcturo rugiu, pulando nas costas do demônio e enterrando a adaga até o cabo em sua coluna. O Wendigo guinchou como uma alma penada, girando e debatendo-se. Mas Arcturo estava bem posicionado, bem no meio de suas costas. Ele manteve o aperto no cabo da adaga, balançando de um lado para o outro conforme o demônio girava. Valens estava lá também, enterrando suas mandíbulas na orelha do Wendigo.
No entanto, aquilo não iria durar. O Wendigo se curvou, interrompendo o aperto de Arcturo e fazendo com que ele caísse no chão. Ele caiu sobre um emaranhado de membros bem em cima de Elaine. Ela choramingou embaixo dele, ainda congelada de medo. O fim estava próximo agora. Não havia mais nenhuma carta na manga. Ele mal tinha forças para andar, que dirá arrastar Elaine pela porta.
Ele se ergueu de maneira insegura e ergueu seus punhos. O Wendigo mancou em sua direção, as pernas retalhadas, rosnando de dor enquanto a adaga se retorcia em suas costas.
— Dói tanto — Elaine arquejou embaixo dele.
Ele então viu o sangue escorrendo de sua cabeça. Ela não estava paralisada de medo. O Wendigo a havia nocauteado.
— Saia daqui, Elaine. Eu vou segurá-lo...
A garra do Wendigo surgiu, arranhando-o no rosto. Ele mal conseguia enxergar, mas golpeou, acertando a pele dura e fria do peito do demônio. Ele podia ouvir Sacarissa uivando, então caiu quando outro golpe passou por cima de sua cabeça. Então um chute, como uma marreta em seu estômago. Ele vomitou.
Ele podia ver Sacarissa se arrastando até ele. Ela saltou, apesar da dor que a atravessou ao fazer isso fosse como uma faca no coração de Arcturo. O movimento não causou mais do que um cambalear no Wendigo. Então um rugido. Sangue pingando em seu rosto. Lampejos de luz.
Escuridão.

Um comentário:

  1. Quem acudiu ele?
    Se não fosse a Elaine ele não teria a cicatriz no rosto. Aff

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Boa leitura, E SEM SPOILER!