20 de abril de 2018

Capítulo 13

Arcturo não dormiu. Sua mochila estava pronta, suas escassas posses na sacola e prontas para partir. Ele a carregaria consigo quando fosse à sala de conjuração. Assim que estivesse fora de Vocans, precisaria colocar suas roupas antigas. Seu uniforme militar seria muito suspeito. Por outro lado, com Sacarissa ao seu lado, não importaria realmente o que ele estivesse vestindo, eles chamariam muita atenção. Assim que estivessem longe o suficiente, ele teria que, de alguma maneira, aprender sozinho a infusão.
Por um tempo, ele ponderou se deveria manter a adaga presa à bota ou guardá-la na mochila para seu encontro com Charles. Ele a estava usando nos últimos dois dias, mas ninguém parecia se importar – afinal, ali era uma academia militar. Se houvesse uma luta, ele preferiria que não houvesse armas envolvidas. Ao mesmo tempo, se Charles planejava usar uma, não faria diferença se Arcturo estivesse visivelmente armado ou não.
— Prefiro ter a adaga e não precisar usar, do que precisar e não tê-la à mão — Arcturo comentou com Sacarissa, ouvindo o baixo som do segundo sino da manhã. Sua boca estava seca e a refeição noturna que Ulfr havia trazido para ele permanecia intocada ao lado de sua cama. Até mesmo Sacarissa se recusara a comer, apesar de ele achar que tinha a ver com o fato de ser uma salada. Arcturo suspeitava que, para ela, poderia muito bem ser uma pilha de grama.
O som do sino ecoou pelo corredor, deixando seu coração martelando enquanto ele se dava conta de que o momento havia chegado.
— Vamos, Saca — Arcturo murmurou, abrindo a porta. — Vamos ouvir o que ele tem para dizer e partir assim que possível. Vamos correr de volta até o quarto e nos trancarmos aqui por meia hora, então escapar quando a barra estiver limpa.
Eles se apressaram pelos corredores, guiando-se pela escuridão. Arcturo não arriscava acender uma luz, pois seria brilhante demais em contraste à escuridão total do interior do castelo. Se algum dos professores o pegasse fora do quarto durante a noite, suas chances de encontrar com Charles iriam por água abaixo, sem mencionar a possibilidade de fuga.
Parecia que havia passado uma eternidade até que ele chegasse ao átrio, e, por um momento, Arcturo ficou preocupado que houvesse chegado tarde demais. Foi somente quando viu uma luz brilhante por baixo da porta da sala de conjuração que ele percebeu que Charles o esperava lá dentro.
— Certo, Saca. É agora. — Ele respirou fundo e empurrou a porta pesada.
Por um momento, Arcturo não entendeu o que via. Após passar tanto tempo na escuridão, a luz de dentro da sala o cegou de tão brilhante.
Era um portal, a esfera azul pendendo no ar como uma miniatura do sol. Rook estava ajoelhado ao lado dela, enviando mana para dentro do pentagrama violeta abaixo da esfera. Isso não estava certo. Arcturo se virou para correr, mas Charles estava para na porta, um sorriso sórdido no rosto. Ele fechou a porta com um chute de calcanhar.
— O que está acontecendo aqui, Charles? — Arcturo rosnou, agarrando Sacarissa pela nuca. Ela estava se preparando para atacá-lo, movida por partes iguais de medo e fúria.
Mas antes que Charles pudesse responder, Arcturo sentiu algo úmido e pegajoso se enrolar ao redor de seu corpo, prendendo seus braços contra o peito. Sacarissa saltou, mas Charles já rolava para longe do perigo quando o ataque do Canídeo bateu contra a porta. Outro fio sibilou pelo ar, brilhando como um feitiço de proteção. Desta vez, ele se enrolou em volta das patas traseiras de Sacarissa.
— Atada como uma galinha, pronta para o forno, — Charles tagarelou enquanto mais fios saíam das sombras, enrolando Sacarissa enquanto ela arranhava o piso de carvalho. Outro fio se enrolou em volta do pescoço de Arcturo, mais apertado que um nó de forca.
Arcturo caiu no chão, trazendo os joelhos até o peito. Ele pegou a adaga em sua mão e a retirou da bainha enquanto ficava a cada instante mais preso pelas cordas mortais. Logo ele mal conseguiria se mover, somente observar enquanto Sacarissa uivava e batia nas estranhas fibras que a comprimiam. Alguns momentos depois, um último fio se enrolou em seu focinho e apertou, reduzindo seu barulho a um rosnado abafado.
— Muito bem, Anansi — Charles falou. — Você pode sair agora!
O Aracnídeo de Charles saiu de mansinho das sombras, o estranho fluído brilhante saindo da parte de trás de seu abdômen, sob um ferrão mortal. Era uma enorme aranha negra, com um corpo tão grande quanto a cabeça de uma pessoa e pernas longas e finas que se espalhavam ao longo do piso. Ela tinha um aglomerado de olhos brilhantes no centro da testa e um corpo inchado salpicado de pelos marrons. As mandíbulas que serviam de boca estalavam ameaçadoramente enquanto a aranha rodeava Arcturo para retornar a seu mestre.
— Sabe, acho que você me fez um favor, tratador de cavalos, tirando aquele Canídeo patético de mim — Charles zombou, se agachando para deixar seu rosto próximo do de Arcturo. — O Aracnídeo é um espécime glorioso, capaz de prender sua presa com uma teia de mana, introduzindo seu ferrão e consumindo-os sem pressa. Anansi pode até tirar seus pelos, que flutuam no ar para cegar e irritar suas vítimas... como seu dono, sou imune, é claro. Ele é versátil, ágil e mortal. Eu não poderia pedir um demônio melhor.
— Obrigado pela lição de demonologia — Arcturo disse sarcasticamente, apesar de o tremor em sua voz revelar seu medo. — Por que não me diz sobre o que se trata tudo isso? Você está correndo um grande risco, me prendendo dessa maneira. Quando o rei descobrir...
— O rei não irá descobrir — Charles interrompeu alegremente, batendo levemente no rosto de Arcturo. — Você não estará em condições de contar a ele, ou a qualquer outra pessoa, uma vez que estiver morto e tudo mais.
A cabeça de Arcturo se agitou enquanto os olhos de Charles o fitavam, a intenção homicida estampada neles, tão clara quanto as palavras que foram ditas. Torcendo as mãos por baixo da teia de fios, Arcturo começou a raspar gentilmente os fios com a lâmina da adaga. Era difícil dizer se estava surtindo algum efeito, mas ele não podia revelar sua arma para Charles. Sua única chance agora era o elemento surpresa. Ele tinha que manter o jovem nobre falando até que estivesse livre.
— Como está indo, Rook? — Charles perguntou, pois o pentagrama estava rodando e chiando atrás deles.
Arcturo virou o pescoço para ver a figura ajoelhada de Rook, gotas de suor descendo por sua testa.
— Mais cinco minutos. Eu achei o corpo do Minotauro. O Wendigo só levou o coração, fígado e rins. O couro deve ter sido muito resistente, ele ainda estará com fome. Há uma trilha de sangue.
Arcturo viu um fragmento da bola de cristal no chão entre as mãos de Rook, lampejos verdes refletidos na bola enquanto seu demônio caçava no éter. Por que diabos eles estavam caçando o Wendigo, e justo agora? Até mesmo Cipião tivera medo dele.
Arcturo virou de costas para Charles, que estava gentilmente batendo no abdômen do Aracnídeo.
— Por que eu estou aqui se te fiz um favor pegando a Saca? Eu não o ofendi de nenhuma outra maneira. — Arcturo sentiu o primeiro cordão de teias arrebentar, deixando mais espaço para ele manusear a lâmina.
— Não é o que você fez, mas o que você é. De mais que uma maneira. — Charles puxou um tufo de pelo de Anansi e raspou ao longo do braço nu de Arcturo. Um vergão vermelho surgiu enquanto ele salpicava a sua pele, como se ele estivesse sendo acariciado por uma agulha. — Plebeus não deveriam ser conjuradores. Isso contraria a ordem natural das coisas. Qualquer plebeu planejando uma rebelião contra as classes dominantes sabe que está fadado ao fracasso. Mas adicione plebeus conjuradores nesta mistura, e subitamente nossos feitiços e demônios não são mais tão aterrorizantes. Só isso já seria motivo suficiente para matá-lo. Mas não é o único motivo.
— Esclareça-me, então — Arcturo falou, rangendo seus dentes enquanto seu braço dolorido começava a latejar. Ele não queria imaginar o quanto doeria se um pelo entrasse em contato com seu olho.
— Você se lembra como o primogênito de um conjurador sempre herda o dom? — Charles perguntou, permitindo que o tufo de pelo caísse no chão.
— Lembro — Arcturo grunhiu.
— Bem, um conjurador pode ter diversos primogênitos com diferentes parceiros, desde que seja o primeiro filho daquele parceiro. Por exemplo, um homem pode ter diversos primogênitos com várias mulheres, se for o primeiro filho de cada mulher. Desde que um dos pais seja conjurador e um deles nunca tenha tido filhos antes, o filho herdará o dom.
— Eu entendo, ande logo com isso — Arcturo falou com rispidez, redobrando seus esforços com a adaga. A lâmina roçava contra sua pele dolorosamente, mas ele não se importava. Ele só tinha mais alguns minutos para escapar.
— Tão ansioso para morrer, Arcturo? — Charles gargalhou. — Não se preocupe, você escutará toda a história antes de estar morto.
Arcturo se perguntou o que faria quando seus braços estivessem livres. Haveria tempo para libertar Sacarissa, ou ele teria que matar o Aracnídeo antes? Sacarissa estava quieta agora, como se pudesse sentir o que ele planejava. Outra parte da teia se partiu, e Arcturo sentiu que ele poderia se libertar se tivesse tempo suficiente. Mas ele precisava ser rápido.
— Estou vendo! — Rook gritou por trás dele. — Não falta muito agora!
— Muito bem, parece que terei que ser rápido — Charles resmungou, agarrando um punhado do cabelo de Arcturo e o trazendo mais perto. Ele respirou fundo e começou a falar. — Eu não gosto dos boatos que estão correndo por aí.
— Que boatos? Eu não sei do que você está falando.
— Você não percebe, Arcturo. Você cresceu em Boreas, na mesma cidade em que meu pai mora. Nascido com o poder de conjurar. Abandonado quando criança em um orfanato. Você é a prova da infidelidade de meu pai. Você é o bastardo dele, e não demorará até que outra pessoa chegue à mesma conclusão.
— N-não. — Arcturo balbuciou, sua fuga esquecida enquanto o entendimento começava a se apossar dele. Poderia ser realmente verdade? Ele imaginou o homem de olhos brilhantes que o havia aprisionado naquela cela, sem comida e água por dias. Ele tremeu de horror. Ele sempre havia imaginado quem era seu pai...
— Sua mãe não era nada mais que uma vagabunda comum, que te pariu e abandonou para que o estado o criasse. Se ao menos ela tivesse te deixado lá fora nas intempéries para morrer. Mas não faz mal. Eu tirarei sua vida ao invés disso, antes que Obadiah tenha tempo de descobrir de onde você veio.
Sacarissa lutava agora, rosnando enquanto se contorcia contra as cordas que a apertavam. Suas garras arranhavam a madeira, mas tudo o que ela conseguia era se arrastar alguns centímetros mais perto deles.
— Você é meu irmão! — Arcturo gritou.
Charles deu uma joelhada em seu estômago e começou a girar sua cabeça. Arcturo sentiu sua coluna estalar sob a pressão, como se Charles estivesse tentando quebrar seu pescoço.
— Meio-irmão — Charles sibilou em seu ouvido, apontado para o globo flutuante. — Acho que esse fato faz disso um meio-fratricídio. Agora veja. Veja qual destino nós planejamos para você.
O portal girou no ar, crepitando com energia. Rook prendera uma tira de couro na extremidade do pentagrama e estava a apenas alguns passos deles agora. Ele parecia exausto, mas mesmo assim estava agachado em posição de corrida, como se estivesse preparado para correr para fora da sala a qualquer momento.
Subitamente, um demônio saiu violentamente do portal, deslizando para fora com uma agitação de asas. Parecia como uma coruja grande, de penas vermelhas e com quatro patas. Arcturo pegou um vislumbre de olhos pretos redondos antes que o demônio voasse sobre ele. Um borrifo de sangue acertou seu rosto, e ele percebeu que o pássaro devia ter atacado o Wendigo com suas garras antes de atravessar.
— Ele seguirá um Strix? Eles não são conhecidos por serem presas — Charles divagou em voz alta, enquanto o portal continuava girando.
— Se não seguir, não faz diferença. Vamos somente enfiar uma lâmina entre suas costelas e arremessá-lo através do portal. — Rook falou ofegante, sua respiração pesada pelo esforço de manter o portal aberto.
— É arriscado demais. Meu pai disse que deve parecer um acidente... é todo o propósito disso. Alguém pode achar o corpo dele se sair em uma caçada. Não é comum nesta época do ano, por causa dos Picanços, mas ainda assim é uma possibilidade.
— O Wendigo descartará o corpo. Que outra escolha nós temos? — Rook sibilou.
— Você tentará fazer parecer que eu tentei capturar um Wendigo sozinho e ele me matou? — Arcturo compreendeu com desgosto.
— Um demônio vivo que não está conectado a um conjurador retorna para o éter dentro de poucas horas — Rook gargalhou, olhando para Arcturo. — Eles nunca saberão o que o matou, mas terão suas suspeitas.
Enquanto ele falava, o Wendigo emergiu do portal com um som violento de garras e chifres, derramando sangue dos arranhões em sua cara.
— Tenha uma boa vida, irmão. Todos os trinta segundos dela — Charles sussurrou.

Um comentário:

  1. Eu já não gostava do Charles, agora o odeio

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Boa leitura, E SEM SPOILER!