20 de abril de 2018

Capítulo 12

Eles saíram da sala em silêncio, deixando Cipião para se recompor. O príncipe Harold produziu alguns fogos-fátuos por cima dos ombros pelos corredores, permitindo que Arcturo tivesse um vislumbre do professor abraçando Kali com força, os olhos fechados. Ele entendia o sentimento – se Sacarissa tivesse quase se perdido no éter, ele estaria às lágrimas.
— Então, bafo de cão. Ficará escondido em seu quarto, como ontem? — Charles perguntou, parando na frente de Arcturo. Rook e Zacarias o ladearam, mas ele os ignorou e encontrou o olhar duro de Charles com mais confiança do que realmente sentia.
— Eu não estava escondido — ele respondeu, erguendo o queixo. — Mas você não parece gostar da minha companhia, então eu escolho evitá-lo. Talvez você esteja com medo de mim.
— Nós somos de origens diferentes, você e eu. Um puro-sangue e um vira-latas. Sangue azul e caipira. Nata da sociedade e ralé.  Não é para nós nos misturarmos — Charles escarneceu.
Arcturo resistiu à vontade de enfiar o punho na cara convencida dele, o que foi bom, já que o peito de Sacarissa vibrava com um profundo rosnado.
— Ah, deixe o garoto em paz — Príncipe Harold falou em uma voz monótona. — Zacarias, você não tem coisas melhores para fazer? Edmund e eu iremos a Corcillum. Quer se juntar a nós?
Zacarias enterrou o cotovelo nas costelas de Arcturo antes de seguir o príncipe e Edmund através das portas de entrada do átrio. Os outros logo faziam seu caminho escadas acima, exceto por Elaine, que assistia a troca de farpas com curiosidade.
— Não foi convidado? — Arcturo perguntou inocentemente, notando o olhar desapontado de Charles.
— Cala a boca — Charles disse entredentes, apontando um dedo no rosto de Arcturo. — O príncipe gosta de mim o suficiente. Zac e Edmund são seus amigos de infância, assim como meu pai e o rei eram. Se eu fosse um pouco mais velho e não vivesse tão ao norte, as coisas seriam diferentes.
— Soa como se eu tivesse acertado um ponto sensível — Arcturo comentou, provocando. Não podia evitar, e Charles já o odiava de qualquer maneira, parecia bom.
— Eu lhe socarei em um minuto — Rook ameaçou, agarrando Arcturo pelo colarinho e erguendo o punho. Um aviso vindo detrás dele, de Sacarissa, foi o suficiente para impedi-lo de continuar.
— Não se preocupe, Rook. Esta é minha briga — Charles grunhiu, pousando uma mão no ombro do amigo.
— Sim, fale para o seu cachorrinho ficar calmo — Arcturo disse, sorrindo para Rook. O rosto do garoto avermelhou-se com fúria, mas ele obedeceu Faversham sem questionar, soltando o colarinho e dando um passo para trás.
— E que tal isso, Arcturo? Esta noite, apenas eu e você. Nós podemos nos encontrar bem aqui, na sala de conjuração. Ninguém nos ouvirá.
Arcturo sabia que estava sendo provocado para uma armação, mas podia sentir a ansiedade de Sacarissa para brigar alimentando a sua própria. Ele se lembrou do novo demônio de Charles que era a segunda escolha da família Faversham, um Aracnídeo. Certamente Sacarissa era mais poderosa, certo? E este era o primeiro ano de Charles em Vocans, também. Ele apenas teve a primeira lição de feitiços de batalha, então era pouco provável que soubesse usá-los direito. Eles estariam no mesmo nível.
— Que horas? — Arcturo perguntou, cerrando os punhos.
— Quando o segundo sino da manhã soar, abra a porta da sala de conjuração, — Charles falou, batendo em seu ombro quando ele e Rook se afastavam. — Não se atrase. De novo.
Arcturo esperou dez minutos antes de segui-los escada acima. Ele gostaria de ter ido antes, mas Elaine levou o que pareceu uma eternidade para sair, vagueando pelo átrio até que ele fingiu ir em direção ao banheiro. Ele se perguntou se ela teria escutado o que eles discutiam, mas deixou para lá. Que diferença faria se ela tivesse escutado?
Ele sabia onde ficava o quarto de Charles. Não demorou muito para chegar até a porta. Eles com certeza estavam lá dentro, pois ele podia ouvir vozes abafadas atrás da porta. Abafadas demais. Ele fez uma careta de frustração e pressionou o ouvido contra a madeira, mas mesmo assim as vozes continuavam indistintas. Ele não havia previsto aquilo. Sempre havia a possibilidade de que Charles trapacearia. Que talvez Rook o atacasse pelas costas assim que ele pisasse na sala. Talvez eles simplesmente o atacassem juntos. Se este fosse o caso, havia uma boa chance de eles estarem discutindo isso naquele momento.
Sacarissa farejou embaixo da porta como se pudesse sentir o cheiro do carpete felpudo do qual havia gostado dois dias atrás.
— Eu me pergunto se você consegue escutar o que eles estão dizendo — Arcturo falou. — Você parece me entender bem.
Ela lambeu sua mão, então virou a cabeça de lado. Arcturo sabia que ela não o compreendia realmente. Ela podia simplesmente sentir suas intenções. Mesmo assim, seu farejar lhe deu uma ideia.
— Olhe para mim, Saca — Arcturo murmurou, erguendo a cabeça dela com a mão. Ele olhou dentro de seus olhos azuis, tentando captar aquele breve momento que eles haviam compartilhado no corredor. Na luz fraca das tochas, seus olhos brilhavam como fragmentos de gelo azul, nunca vacilando.
O mundo começou a oscilar, o azul se transformando em cinza, o laranja tremulante substituído por sombras pálidas. Ele podia sentir o cheiro do óleo nos lampiões, subitamente amargo e pungente em suas narinas. Mas o mais importante, as vozes no quarto se tornaram claras como dia, como se ele estivesse ao lado dos garotos.
— ... ele descobrirá logo. Precisamos nos livrar da evidência, ou tudo estará perdido. Meu pai passou anos ganhando a simpatia do rei. Nosso futuro nunca foi tão ameaçado.
Era a voz de Charles, baixa e rápida. Arcturo podia até ouvir sua respiração em pânico.
— Há outros? — Rook perguntou.
— Como eu vou saber? Deve haver! — Charles retrucou. — O que isso trará de bom, se houver outros?
— Eles não saberão onde procurá-los... ainda. Meu pai já cuidou do estalajadeiro e de sua esposa... eles eram os únicos que sabiam de onde o moleque veio, antes de ser um tratador de cavalos. Meu pai avisou que o reitor Forsyth retornará amanhã para interrogar o menino. Não podemos permitir que isso aconteça. Algumas palavras dele e tudo poderá estar perdido.
Tratador de cavalos? Eles tinham que estar falando sobre ele. Enquanto tentava compreender aquilo, a concentração de Arcturo falhou e o mundo se tornou colorido novamente. Ele apertou os dentes e segurou a cabeça de Sacarissa em suas mãos, forçando a conexão. Ele tinha que saber mais.
— Esta noite. Vou dizer ao bafo de cão o que ele é antes de começarmos. Quero ver o a expressão no rosto dele — Charles falou, seguido pelo som de dedos estralando.
— Há uma chance de ele vencer, você sabe disso não é? — Rook advertiu. — Seu demônio é do mesmo nível que o dele e nenhum de vocês sabe lançar feitiços.
Charles gargalhou com desdém.
— Não se preocupe com isso. A batalha que presenciamos hoje me deu uma idei...
Sacarissa choramingou. Arcturo percebeu que estava agarrando a cabeça dela, seus dedos apertando-a como uma prensa enquanto ele se concentrava na conexão. Subitamente, ele podia sentir a dor dela, o aperto feroz que ela havia suportado estoicamente.
— O que foi isso? — Rook sibilou. Houve o som de passos batendo no chão.
Arcturo soltou Sacarissa enquanto eles corriam para longe, virando na esquina bem a tempo. A porta se abriu, o barulho ecoando pelo corredor.
— Ninguém aqui — Rook grunhiu.
— Bem, então feche a porta, está congelando aí fora — Charlie respondeu. A porta se fechou e Arcturo respirou com tranquilidade mais uma vez. Ele se deixou deslizar pela parede, até que estava sentado no pavimento frio do chão.
— Eu sinto muito, minha querida — Arcturo sussurrou, gentilmente acariciando as costas de Sacarissa. — Eu não quis te machucar.
Ela olhou para ele com dor nos olhos, mas lambeu sua mão, como se dissesse que ainda o amava.
— Eu não tinha certeza se eu iria esta noite. Se eu for, isso nos colocará em um perigo desnecessário. Mas agora eu sei que tenho que ir. Lorde Forsyth me interrogará amanhã, e nós já sabemos como isso funciona. — Ele se lembrou da dor quando Sacarissa foi chicoteada. A escuridão da cela.
— Charles disse que me contaria o que eu sou antes do duelo. Eu não irei lutar, só vou escutar o que ele tem a dizer e então nós partiremos de Vocans. Talvez consigamos chegar até a terra dos elfos. Será mais seguro que este lugar.
Sacarissa bocejou e descansou a cabeça em seu colo. Arcturo riu quando ela começou a roncar, fechando seus olhos.
— Você está certa, sua preguiçosa. Vamos voltar ao quarto, fazer nossas malas e descansar. Temos que estar prontos à segunda badalada, e o mais longe possível de Vocans na primeira luz do dia.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!