20 de abril de 2018

Capítulo 11

Arcturo nunca tinha visto tanto verde. O chão estava coberto com uma grossa grama verde-acinzentada, com troncos cobertos de musgo ao redor deles. Milhares de metros acima, folhagem iridescente filtrava luz do céu, salpicando as sombras com verde.
— Todos os demônios se originaram do éter. O mundo deles tem a forma de um disco gigante, com um deserto conhecido como “terras mortas” nas beiradas, e selvas e florestas no círculo externo. O centro é mais montanhoso e perigoso, cheio dos demônios mais poderosos, vulcões, grandes extensões de água e quem sabe o que mais. Ninguém se afastou mais do que alguns quilômetros da área em que nós caçamos, mas se você voasse alto o bastante, isso é o que veria. — Cipião falava para o benefício de Arcturo, pois até mesmo Elaine não parecia surpresa pelas imagens que passavam pela pedra.
— Usando minha mente e o que vejo no Oculus, ou outra pedra de visão semelhante, sou capaz de controlar os movimentos de Kali.
Os olhos de Kali piscaram para o tronco de árvore mais próximo, então suas garras ficaram à vista quando ela começou a escalar. Um pequeno Caruncho, quase tão pequeno quanto um besouro normal, rastejou debaixo da casca da árvore. Elaine arquejou quando Kali o empalou com uma longa presa antes de colocá-lo na boca. A imagem tremeu conforme o Felídeo mastigava ruidosamente.
— Sim, o éter é um lugar bruto. É comer ou ser comido, e poucos Carunchos estão na base da cadeia alimentar. Um Caruncho Escaravelho, como o seu, não está. Eu a alimento bem, mas Kali curte um gostinho de sua antiga dieta — brincou Cipião, mas a expressão de Elaine se manteve cruel e desafiante.
— Fique longe de Valens — ela sibilou para a pedra.
Kali continuou sua escalada, ocasionalmente olhando os arredores para se certificar de que estava segura. Arcturo percebeu uma criatura tão grande e poderosa tão cautelosa com os seus arredores, e ele se perguntou que tipos de demônios poderiam ser uma ameaça para um Felídeo.
Ele não teve que esperar muito. Kali passou pela cobertura, a imagem do Oculus piscou brevemente enquanto os olhos do Felídeo se ajustavam à nova luz.
A linha de árvores parecia se estender infinitamente a frente, quebrada apenas por montanhas pontudas e ocasionais clareiras, como recifes e planícies num mar de verde. Cada topo de montanha queimava, mandando lentas colunas de fumaça para os céus antes de se dissiparem em uma mortalha de cinzas que enchia o céu sem nuvens. Arcturo não via nenhum sol, ou lua, falando nisso, só um brilho alaranjado que o lembrava do crepúsculo em um dia de verão.
Conforme os olhos de Kali se ajustavam mais longe, Arcturo podia ver enxames de criaturas, longe demais para chegarem até ali, unindo-se e distanciando-se no céu, enquanto pontos maiores pairavam acima deles, esperando uma oportunidade para atacar. Um Caruncho Escaravelho, sua carapaça azul-cerúleo, passou voando por Kali.
À distância, Arcturo viu uma horda de criaturas fazendo o seu caminho pelas árvores. Elas tinham o mesmo pescoço longo e corpos largos que as girafas, mas com coxas mais grossas e uma cabeça que fez Arcturo lembrar de um cavalo ou um camelo. Seus pelos curtos eram cinza, manchados com preto.
— Parece que as manadas de Indriks estão se movendo — disse Cipião, apontando para eles na pedra. — Grandes demais para serem práticos como um demônio de um conjurador, mas eu sempre gostei de vê-los.
Eles assistiram por mais um momento, enquanto os Indriks eram escondidos pelas árvores ao redor deles. Julgando pelo tamanho das árvores, eles deviam ser tão altos quanto dez homens um em cima do outro.
— Nós não podemos ficar por muito tempo. Alguém pode me dizer por quê? — perguntou Cipião.
— Não se pode ficar muito tempo no éter — disse Edmund, confiante. — Existem outros demônios lá além do seu próprio. Não importa quão poderoso ele seja, sempre há algo mais em cima na cadeia alimentar. E há o fato de que o seu nível de mana está caindo a cada segundo em que mantém o portal aberto. Se ele acabar ou você perder a concentração, o portal fechará e o seu demônio estará perdido para sempre.
Arcturo viu Zacarias revirar os olhos, e então sussurrar no ouvido de Josephine Queensouth. Ela deu uma risadinha e o rosto de Edmund ficou vermelho.
— Muito bom, Edmund. Você está absolutamente certo, mas não é aonde eu queria chegar. Alguém mais? — perguntou Cipião, olhando ao redor da mesa.
Houve silêncio, então Príncipe Harold levantou a mão.
— Os Picanços? — ele sugeriu, incerto.
— Correto! — Cipião sorriu, parabenizando o príncipe com um aceno. Ele virou para Arcturo e Elaine. — Picanços viajam em grupos, liderados por sua matriarca, a fêmea dominante. Durante as primeiras semanas do ano acadêmico, eles migram pelos nossos campos de caça. Eles são pássaros perigosos, duas vezes maiores que uma águia e muito mais perversos. Ali estão eles, voando sobre os enxames de Carunchos menores ao longe. Eles caçam sozinhos por presas menores, mas por Kali, atacariam com um grupo de dez ou mais. Depois que eles fazem a matança, empalam suas vítimas em galhos de árvore, para segurá-las no lugar enquanto se alimentam. Para nossa sorte, parece que perdemos o pior.
Arcturo se arrepiou. Ele não iria querer mandar Sacarissa para o éter, mas teria adorado ter capturado um Caruncho sozinho. Ela passaria a maior parte de sua vida lá... com certeza não deveria ser tão ruim.
— Certo, acho que isso é o suficiente por um dia. O primeiro e segundo ano praticarão controle demoníaco e infusão pelo resto do dia. Para o restante de vocês, sugiro praticar abrir e fechar portais, certificando-se de manter distância. Como vocês sabem, o ar no éter é altamente tóxico para humanos. Os demônios não podem entrar sob nenhuma circunstân...
Cipião congelou, seus olhos procurando pela pedra, mas tudo o que Arcturo podia ver eram troncos de árvores.
— Algo está vindo. Kali pode ouvir. Sentir o cheiro — falou Cipião.
O pentagrama atrás dele crepitou quando sua concentração escorregou, mas ele grunhiu e o brilho estável retornou. O fedor acre de madeira queimada permeou a sala, e Arcturo podia ver as tábuas nas beiradas do pentagrama chamuscando preto.
— Outro. Dois deles. Mas não o mesmo. Melhor ficar nas árvores — ele estava murmurando para si, a aula momentaneamente esquecida.
Os olhos de Kali viraram para o chão pela primeira vez. Outro globo, idêntico àquele flutuando no centro da sala de conjuração, pendia no ar, girando gentilmente. Deve ter sido de onde Kali saiu, e para onde precisaria retornar se quisesse deixar o éter.
Eles estavam acima de uma espécie de clareira, a área ao redor era desigual, distribuída com ramos enredados e pedras cheias de líquens. Mas na vegetação havia uma perturbação, folhas balançando conforme algo fazia o seu caminho na direção deles. Apesar de Arcturo apenas poder ver o que acontecia, ele podia imaginar o som de galhos se partindo conforme uma besta irrompia pela folhagem.
Do outro lado, algo ainda maior quase alcançara a clareira, pois Arcturo podia ver chifres saindo da vegetação rasteira. O que quer que fosse, era enorme, talvez com mais de dois metros de altura.
— Vai acontecer uma briga — sussurrou Fergus, colocando os braços ao redor de sua irmã mais nova.
Elaine o ignorou, e retirou Valens do bolso para que ele pudesse assistir.
Uma criatura careca e desengonçada emergiu na clareira. Tinha membros longos e esqueléticos, com garras alongadas e pés espalhados. Andava parecido com Kali, mas era mais curva e tinha pernas arqueadas, com braços compridos que acertavam o chão a cada passo.
Chifres retorcidos ramificavam de uma testa marcante, acima de um focinho de algo entre um cavalo e um lobo. Seus olhos pretos fizeram uma varredura do terreno a frente e resfolegava o ar enquanto procurava o cheiro de seu oponente.
— Um Wendigo — sussurrou Cipião, sua voz tingida com algo entre admiração e horror. — Eu nunca tinha visto um na selva. Eles são raros nos nossos campos de caça, na verdade, quase não se ouve sobre eles. Só os xamãs órquicos mais poderosos os usam, e raramente. Ele tem a plenitude de um nível treze.
Arcturo sentiu seu estômago revirar, assistindo enquanto a aberração de pele cinza contornava o orbe. Com apenas um salto, ele poderia entrar pelo portal e na sala de conjuração.
— Senhor, não deveríamos pedir ajuda? Ele... ele pode atravessar — gaguejou Arcturo.
Cipião estava suando muito agora, seu rosto foi do vermelho de esforço para o pálido branco de exaustão. Ele respondeu Arcturo sem tirar os olhos do Oculus.
— Não se preocupe, garoto. Demônios selvagens não gostam de ir para perto de portais. É estranho o suficiente que o Wendigo tenha chegado perto. Deve estar faminto, por isso vagava por nossos campos de caça. Ainda assim, se estiver tão desesperado, nós não podemos arriscar trazer Kali de volta até que ele tenha ido embora. Ele pode pular atrás dela.
— Você pode manter o portal por tempo o suficiente? Como estão os seus níveis de mana? — perguntou o Príncipe Harold.
— Se eu puder manter o fluxo de energia estável, talvez outros dez minutos ou mais — respondeu Cipião, assistindo enquanto a segunda criatura se aproximava da clareira. — Eu esgotei a maior parte da minha energia no campo de batalha ontem. Se o pior acontecer, posso trazer Kali quando o Wendigo estiver distraído. Vamos ver o que é o outro demônio primeiro.
Quando Cipião terminou de falar, a segunda criatura emergiu dos arbustos com um rugido gutural. Mas quando viu o Wendigo, a criatura começou a se afastar, como se estivesse surpresa ao vê-lo.
— Parece que ele não sabia o que estava rastreando — disse Príncipe Harold, inclinando-se sobre a mesa para ter uma vista melhor.
— Minotauro. Nível onze — exalou Rook ao lado de Arcturo, sua voz com um toque de admiração e ansiedade. — Meu pai tem um desses.
Arcturo examinou a criatura conforme os dois demônios se circulavam. O Minotauro era uma besta enorme, um pouco mais alta que o Wendigo, mas só porque andava reto em vez de curvado. Ele tinha a cabeça de um touro, com sinistros olhos vermelhos e um par de chifres longos e curvados que diminuía seu oponente. Um tapete peludo de pele preta cobria sua forma, sobre grossas faixas de músculo duro. Ele pateou o chão, preparando-se para investir, as garras curvas em suas mãos se esticando.
— Esses são dois demônios que raramente aparecem em nossas terras — disse Cipião, pensando alto. — Deve ser por causa dos Picanços, eles os estão seguindo para comer suas sobras. Mas não há comida suficiente para ambos.
— É melhor eles pararem com essa exibição se Kali quiser sair a tempo — murmurou Edmund, enquanto as criaturas continuavam a se encarar, fazendo avanços falsos. E então, como se incitados pelas palavras de Edmund, eles se encontraram num emaranhado de garras e dentes.
Os chifres do Wendigo se travaram com os do Minotauro conforme eles giravam e circulavam, cuspindo e golpeando um ao outro. Foi imediatamente óbvio que o Wendigo tinha a vantagem. O comprimento de seus braços lhe permitia dilacerar o peito e ombros do Minotauro, deixando ferimentos profundos e sangrentos na carne. Enquanto isso, o alcance do Minotauro era muito curto; seus chifres estavam presos e mantidos à distância. Então, o Minotauro agarrou os pulsos do Wendigo até que ele conseguiu vantagem. Eles lutaram, forçando um em cima do outro, conforme do sangue do Minotauro pingava na grama alta.
— Eu vou fazer uma tentativa — arquejou Cipião, quando o pentagrama começou a crepitar. As tábuas de madeira agora soltavam fumaça, conforme a conexão instável gerava muito calor. — Agora! — ele gritou.
Kali deu um salto mortal da árvore, mergulhando na direção do portal. Houve uma breve imagem dos dois predadores, seus olhos virando para o surgimento repentino de um Felídeo. Então ela tinha passado, caindo no chão abaixo do portal da sala de conjuração. Cipião soltou a tira de couro e desmoronou. O globo se encolheu em nada e o pentagrama desvaneceu, deixando um contorno de madeira carbonizada. A sala foi jogada na escuridão enquanto os fogos-fátuos se apagavam, um por um.
Houve silêncio, então Cipião falou, com uma voz irregular nas sombras.
— Que isso sirva de lição para vocês. O éter é um lugar perigoso e imprevisível. Sala dispensada.

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