20 de abril de 2018

Capítulo 10

Arcturo passou a maior parte do dia tentando melhorar as condições do seu quarto, pegando lençóis sobressalentes e móveis quebrados dos depósitos, criando um bloqueio provisório para a janela e adicionando outras camadas de tecido ao seu cobertor gasto. Ele estava exausto e faminto na hora do almoço, mas felizmente um petulante Ulfr lhe trouxe comida, largando a bandeja sem cerimônias no quarto e saindo sem falar uma palavra.
A comida era cordeiro cozido com batatas, obviamente preparado para os criados em vez para os nobres, mas era um cardápio bem melhor do que o Arcturo estava acostumado na estalagem e era ambrosia comparada à gororoba que ele comia no reformatório. Tinha até uma tigela de carne picada e frutas secas para Sacarissa, que ela engoliu com gosto e depois fuçou por mais.
Como instruído, ele foi procurar por Obadiah pela tarde, mas foi rapidamente mandando de volta para seu quarto por um dos criados anões. Aconteceu que Provost foi chamado mais cedo do que esperado, e não estava mais em Vocans. Estava tudo bem para Arcturo. Ele não tinha certeza se gostava do homem.
Eles passaram o resto da noite praticando o fogo-fátuo, deleitando-se com a maneira como flutuavam sem rumo pelo quarto, como se tivessem vida própria. Sacarissa ia para cima das esferas no ar, saltando e mergulhando para pegá-las enquanto Arcturo tentava cutucá-las para saírem do caminho. Sempre que ela conseguia encostar em uma, seu olhar de mistificação quando a luz desaparecia e a nada restava divertira Arcturo infinitamente.
Quando a noite caiu, seu quarto estava um pouco mais quente do que na noite anterior, sem o vento cortante para congelá-lo até os ossos. Ele foi embalado pelo subir e descer do peito de Sacarissa, pressionado contra ele junto com um emaranhado de cobertas.
— Acorde, você está atrasado!
A batida na porta sacudiu Arcturo de seu sono. O quarto ainda estava escuro, uma consequência de sua cortina improvisada. Ele não tinha ideia de que horas eram.
— O quê? — ele murmurou enquanto Sacarissa choramingava sobre o barulho.
— As aulas de conjuração começaram há cinco minutos. Levante-se, ou fique e encare as consequências! — a voz de Ulfr veio do lado de fora da porta. Seus passos ecoaram pelo corredor enquanto a mente mal desperta de Arcturo processava as palavras.
— Ah, não!
Arcturo ficou feliz de ter dormido de uniforme, pois ele estava passando como um raio por Ulfr e descendo as escadas dez segundos depois. Sacarissa corria na frente, pontuando cada salto a frente com um ofegar baixo.
Ele a encontrou farejando as portas da sala de conjuração, mas pausou e se recompôs antes de entrar.
— Não é uma primeira grande impressão para o lorde Cipião. E nós perdemos o café da manhã — lamentou Arcturo, preparando-se para o pior. Ele virou a maçaneta e entrou na sala.
Os outros estudantes estavam em um círculo, mas eles o ignoraram enquanto ele entrava na ponta dos pés. O grupo cercava uma mesa baixa e redonda, mas Arcturo não podia ver o que havia em cima. Os nobres não abriram espaço para ele, então ele olhou sobre o ombro de Elaine, que era a menor do grupo.
A mesa era feita de mármore branco puro, polida para ser lisa e arredondada como um seixo de rio, mas era o objeto encaixado no centro que tirou o fôlego de Arcturo: uma gema enorme, do tamanho de uma roda de carruagem grande e tão negra quanto tinta, que brilhou para ele como vidro vulcânico.
— Atencioso da sua parte juntar-se a nós, Arcturo — falou uma voz atrás dele.
Arcturo se virou, uma desculpa já se formando em seus lábios.
Um homem estava em pé no centro da sala. Ele era poderosamente construído, com costeletas e cabelo enrolado da cor de chocolate. Ele permaneceu com os braços cruzados, mas o sorriso em seu rosto mostrava que ele não se importou com o atraso de Arcturo, então ele segurou suas desculpas. Seu uniforme de oficial bordado com ouro não deixava dúvidas de quem ele era: lorde Cipião.
— Eu estava indo buscá-lo quando você passou correndo por mim — disse Cipião, antes de se voltar para a porta por onde tinha passado. Ele soltou um breve e agudo assovio. Os pelos do pescoço de Arcturo se arrepiaram quando ele ouviu o uivo do lado de fora, então um demônio passou pela porta, seu rabo chicoteando o ar.
Sacarissa rosnou, seus pelos eriçados ao ver o novo demônio. Parecia um leopardo-das-neves, com uma cobertura de manchas pretas em uma grossa pelagem branca. Tinha dois caninos longos que saiam das laterais de sua boca como sabres gêmeos, abaixo de um conjunto de quatro olhos verdes selvagens, pouco diferentes dos de Sacarissa. O mais estranho de tudo é que ele parecia andar como um chimpanzé, andando em duas pernas e apoiando-se nas patas dianteiras, quase bípede, mas não exatamente. Era ágil, pois se movia silenciosa e rapidamente pela sala, seus olhos nunca deixando Sacarissa.
— Acalme-se, Kali, parece que você nunca viu um Canídeo antes — Cipião riu quando o Felídeo arqueou suas costas e rosnou para Sacarissa. — Você vai ter que perdoá-la, Arcturo. Ela tem um pouco de medo deles.
Cipião piscou para Arcturo. Como se o tivesse entendido, Kali parou, então se sentou sobre as patas traseiras. Ela começou a lamber a pata, ignorando Sacarissa completamente.
Cipião andou até eles e estendeu uma mão para Sacarissa cheirar. Ela farejou superficialmente, então o lambeu uma vez com a língua rosa para mostrar sua aprovação.
— Canídeos e Felídeos, sempre houve um pouco de rivalidade ali. Deve ter algo a ver com competir por recursos alimentícios no éter.
— Éter? — perguntou Arcturo, sua curiosidade estimulada.
— Você não vai demorar para descobrir — disse Cipião, olhando para trás de Arcturo, para os outros. Eles estiveram assistindo a interação com interesse.
— Deem espaço para Arcturo, senhoras e senhores. Ele não deveria ter que se esticar sobre a cabeça da jovem Elaine. Charles, Damian, parece ter espaço entre vocês. Mexam-se — ordenou Cipião, os fazendo sair fazendo sinal de enxotar com as mãos.
Os dois meninos lançaram olhares afiados a Arcturo, que foi atabalhoadamente para frente e se posicionou entre eles. Eles se inclinaram para perto, empurrando seus ombros desconfortavelmente sobre os dele.
— Para o benefício de Elaine e Arcturo, passarei rapidamente pelo básico do que aprenderemos aqui ao longo do curso deste ano. Será uma boa atualização para aqueles que negligenciaram seus estudos desde a última vez que nos vimos.
Houve um lamento audível dos outros e Arcturo franziu a testa de modo culpado. Edmund falou sem emitir som “Tá tudo bem” para Arcturo e deu a ele um sorriso.
— Esta gema no centro é a maior pedra de visão já descoberta, conhecida como Oculus. Vocês estão cientes do que uma pedra de visão faz? — perguntou Cipião, passando entre as gêmeas Queensouth e apontando para a gema.
— Sim senhor, quando um demônio a toca, a pedra mostra tudo o que o demônio vê — disse Arcturo, lembrando de sua breve lição com Obadiah Forsyth. Elaine acenou em concordância.
— Muito bem. A pedra continuará mostrando por várias horas, ou até que a pedra de visão seja tocada novamente. Agora, a Kali aqui vai demonstr...
Antes que ele pudesse terminar de falar, um vento arrepiou os pelos da nuca de Arcturo quando o Felídeo pulou por cima dele. Ela pousou com as patas ao redor da pedra, antes de cutucá-la gentilmente com seu focinho.
— Aham... sim... muito bem, Kali — disse Cipião, quando a pedra começou a piscar com cores. Um momento depois, Arcturo encarava um close do rosto de Charles, pois era para onde Kali estava olhando. Os detalhes eram incríveis – Arcturo podia ver até mesmo os poros no nariz do menino. Não era uma visão bonita.
— Felídeos tem uma das melhores visões. A maior parte dos conjuradores prefere usar um Caruncho para reconhecimento no éter, mas Kali é rápida o suficiente para pular de volta se houver algum problema.
A curiosidade de Arcturo se estimulou à segunda menção do éter. Pular de volta por onde?
— E você sabe o que é infusão? — perguntou Cipião.
— Sim, senhor — respondeu Arcturo, ainda hipnotizado pela imagem conforme Kali mudava seu olhar de um rosto para o outro.
— Bom. Eu devo ensiná-lo como infundir talvez na próxima semana, seu demônio parece bem comportado o suficiente para não distraí-lo nas aulas.
— Obrigado, senhor — disse Arcturo. Ele se sentia bem mais seguro com Sacarissa ao seu lado, e sabia que se fosse ensinado a infundi-la, ela não teria permitida de ficar fora a maior parte do dia. Ainda assim, ele estava curioso sobre como seria ter o demônio dentro dele. Quase não acreditava que era possível.
— Agora eu devo usar um dos pentagramas chaveados no chão ao nosso lado. Quem pode me dizer o que é um pentagrama chaveado?
— Um pentagrama chaveado possui um símbolo em cada ponta da estrela. Eles agem como coordenadas que abrirão um portal para o éter — respondeu Baybars Saladin.
— Bom. Eu farei isso agora. Todos prestem atenção — disse Cipião, ajoelhando-se no chão.
Ele colocou suas mãos nas tábuas do assoalho, então grunhiu conforme as pontas de seus dedos começaram a brilhar em azul. Começou um zumbido baixo na sala, e lenta mas firmemente as linhas do pentagrama que Cipião encarava brilharam com a mesma luz elétrica. Os símbolos em cada ponta pulsaram. Uma faísca apareceu no ar, expandindo-se devagar em um orbe giratório do tamanho da cabeça de um homem. Ele ainda crescia, dobrando de tamanho de novo e de novo, até que estava maior do que a mesa que eles circulavam. O rosto de Cipião estava vermelho com o esforço, as veias em seu pescoço saltando. Ele levantou uma mão, fazendo com que o pentagrama crepitasse, antes de puxar uma estaca de madeira ligada a uma fita de couro do seu bolso traseiro. Ele a fincou nas tábuas, então parou, ofegante, a tira de couro segura firmemente em sua mão. As pontas de seus dedos permaneceram azuis, e Arcturo podia dizer que ele estava alimentando o pentagrama através da conexão.
— Deve ter um jeito melhor de fazer isso — Cipião resmungou, indo para trás em seu lugar à mesa. — Kali! Você sabe o que fazer.
O Felídeo uivou de excitação antes de saltar sobre suas cabeças novamente. Kali pousou agachada, então saltou no globo, desaparecendo tão rapidamente quanto um fogo-fátuo atrapalhado. Mas a atenção de Arcturo não permaneceu no globo por muito tempo. A imagem na pedra tinha mudado. Cipião sorriu para ele quando sua boca se escancarou.
— Bem-vindos... ao éter.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!