16 de abril de 2018

Capítulo 10

MARGOT DIZ QUE o segundo ano é o mais importante, o mais trabalhoso, um ano tão crucial que tudo mais na vida depende dele. Portanto, concluo que é melhor eu aproveitar ao máximo o prazer da leitura antes do início das aulas, na semana que vem, quando o segundo ano começa oficialmente. Estou sentada nos degraus da frente, lendo um romance de espionagem britânico dos anos 1980 que comprei por setenta e cinco centavos na liquidação do sebo.
Estou chegando na parte boa (Cressida precisa seduzir Nigel para conseguir os códigos de espionagem!) quando Josh sai de casa para pegar a correspondência. Ele também me vê; levanta a mão como se fosse só acenar, mas acaba decidindo vir falar comigo.
— Ei, macacão legal — diz ele, ao se aproximar pela entrada da garagem.
É azul-claro desbotado com girassóis e de amarrar no pescoço. Comprei em um brechó com setenta e cinco por cento de desconto. E não é um macacão.
— Isto é um macaquinho — corrijo Josh, voltando a ler.
Tento esconder a capa com a mão de forma discreta. A última coisa de que preciso é Josh pegando no meu pé por ler um livro ruim quando estou apenas tentando aproveitar uma tarde relaxante.
Posso senti-lo me observando, de braços cruzados, esperando alguma coisa. Eu levanto o rosto.
— O que foi?
— Quer ir ao cinema hoje? Tem um filme da Pixar passando. Podemos levar a Kitty.
— Tudo bem, me manda uma mensagem de texto quando for passar aqui — respondo, virando a página do livro.
Nigel está desabotoando a blusa de Cressida, que se pergunta quando o sonífero que ela colocou no vinho dele vai fazer efeito, mas ao mesmo tempo deseja que não seja rápido demais, porque Nigel beija muito bem.
Josh estica a mão e tenta ver o que estou lendo. Dou um tapa na mão dele, mas é tarde demais.
— O coração de Cressida disparou quando Nigel passou a mão em sua coxa coberta pela meia-calça. — Josh dá uma gargalhada. — Que diabos você está lendo?
Minhas bochechas ardem.
— Ah, não enche.
Rindo, Josh se afasta.
— Vou deixar você com Cressida e Noel então.
Ele já virou de costas quando eu grito:
— Ei! O nome dele é Nigel!

* * *

Kitty fica feliz da vida de sair com Josh. Quando ele pede à atendente da bombonière para colocar a manteiga na pipoca em camadas (embaixo, no meio e no topo), nós duas assentimos em aprovação.
Kitty se senta entre nós, e ri tanto nas partes engraçadas que balança as pernas. Ela é tão leve que o assento fica fechando. Josh e eu trocamos sorrisos por cima da cabeça dela.
Sempre que Josh, Margot e eu íamos ao cinema, Margot também se sentava no meio. Assim podia cochichar com nós dois. Ela não queria que eu me sentisse excluída porque tinha namorado, e eu, não.
Minha irmã se preocupava tanto com isso que no começo eu ficava com medo de ela ter percebido alguma coisa. Mas ela não é de guardar nada nem enfeitar a verdade. Só é uma irmã mais velha muito boa. A melhor.
Houve ocasiões em que me senti de fora de qualquer jeito. Não de uma forma romântica, mas como amiga. Josh e eu sempre fomos amigos. Mas, quando ele abraçava Margot pela cintura na fila da pipoca, ou quando conversavam baixinho no carro, eu me sentia como a criança no banco de trás que não consegue ouvir o que os adultos estão dizendo, como se eu fosse invisível.
Eles me faziam desejar ter alguém com quem sussurrar no banco de trás. É estranho estar no banco da frente. A vista não é tão diferente do banco de trás. Na verdade, tudo parece bom e normal e igual, o que é um consolo.

* * *

Chris me liga mais tarde, quando estou pintando as unhas do pé de tons diferentes de rosa. O som ao fundo está tão alto que ela precisa gritar.
— Adivinha!
— O quê? Não consigo ouvir!
Estou pintando o dedinho de um tom pêssego chamado “Puro poema”.
— Espera. — Posso ouvir Chris indo para outro lugar, porque tudo fica mais tranquilo. — Consegue me ouvir agora?
— Consigo, bem melhor.
— Adivinha quem terminou com quem.
Passei para um tom de rosa da moda que parece corretor branco com uma gota de vermelho misturada.
— Quem?
— A Gen e o Kavinsky! Ela deu um pé na bunda nele.
Arregalo os olhos.
— Nossa! Por quê?
— Parece que conheceu um universitário naquele emprego de recepcionista que ela arrumou. Aposto que estava traindo Kavinsky o verão todo. — Um garoto chama o nome de Chris, que se despede: — Tenho que ir. É a minha vez na bocha.
Chris desliga sem dizer tchau, o que é bem a cara dela.
Conheci Chris por meio de Genevieve. Elas são primas por parte de mãe. Chris costumava ir para a casa dela quando éramos pequenas, mas ela e Gen já não se davam bem desde aquela época. Brigavam por causa de qual Barbie tinha direito a ficar com o Ken, porque só tinha um Ken. Eu nem tentava brigar pelo Ken, embora ele, tecnicamente, fosse meu. Bem, de Margot. Na escola, algumas pessoas não sabem que Gen e Chris são primas. Elas não se parecem nem um pouco. Gen é pequena e tem braços torneados e cabelo louro cor de margarina. Chris também é loura, mas oxigenada, e é mais alta e tem ombros largos de nadadora. Mesmo assim, há uma similaridade entre elas.
Chris ficou bem louca durante o primeiro ano do ensino médio. Ia a todas as festas, se embebedava, ficava com garotos mais velhos. Naquele ano, um garoto do segundo ano do time de lacrosse contou para todo mundo que fez sexo com Chris no vestiário masculino, e nem era verdade. Genevieve obrigou Peter a ameaçar dar uma surra nele se ele não contasse a verdade para todo mundo. Eu achei uma atitude bem legal, mas Chris insistiu que Gen só fez isso para as pessoas não acharem que ela era parente de uma vagabunda. Depois desse dia, Chris parou de andar com a gente e começou a sair com um pessoal de outra escola.
Ela ainda tem aquela reputação do primeiro ano. Ela age como se não se importasse, mas sei que se importa, pelo menos um pouco.

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