24 de março de 2018

Otelo




Otelo não queria partir. O sol estava se pondo, e o bairro dos anões estava mais bonito do que nunca. A grama havia acabado de ser cortada, deixando um aroma inebriante no ar. Ele se misturava com o cheiro doce das urzes de inverno recém-florescidas, as flores roxas balançando com a brisa gelada enquanto ele caminhava sozinho através das grandes tendas de seu povo.
Construções assomavam acima dele — e Otelo soube que chegara à beira do assentamento. Ele se virou e absorveu a vista uma última vez. Um rei humano havia forçado os anões a viverem nas favelas da cidade, cheias de prédios desmoronando e ruínas sem janelas. Mesmo assim, os anões haviam aberto espaço ali, erguendo suas tendas e seus jardins e abrindo passagens subterrâneas para abrigar os milhares que haviam sido obrigados a viver no pequeno gueto. Otelo sentiu uma onda de orgulho. A despeito das probabilidades impossíveis, eles haviam transformado o lugar em um paraíso.
Ele sentiria falta terrivelmente dali. De dormir em seu quarto nas profundezas da terra, envolto pelo silêncio frio do solo. De ajudar seu pai na oficina, transpirando no brilho dourado das chamas e do metal cintilante. De passear nos jardins com sua mãe e sua irmã, ouvindo as antigas histórias de seus ancestrais.
Otelo suspirou e caminhou penosamente para longe, desaparecendo nas ruas em ruínas que cercavam seu lar. Estava na hora.
  O céu estava escuro quando ele chegou ao centro da cidade, que abrigava o mercado de cavalos. Apesar da hora, as barracas estavam agitadas com atividade, e as ruas estavam bloqueadas por cavalos e carroças. Os humanos estavam amontoados ombro a ombro, dando lances em cavalos pomposos, exibidos em um palco elevado de madeira.
Havia somente uma maneira de atravessar, e Otelo não hesitou. Ele se abaixou e se lançou por baixo das barrigas dos cavalos, agradecido por sua baixa estatura. Em alguns instantes ele havia atravessado a multidão até onde seu transporte o aguardava.
Escondida em uma rua lateral, estava uma carroça puxada por uma mula, carregada de batatas. Um homem com cara de fuinha estava sentado na parte da frente, com um semblante irritado no rosto.
— Olá — disse Otelo. — Eu sou...
— Cai fora, nanico — o homem falou rispidamente, erguendo seu dedão por cima do ombro. — Afaste-se daqui. Não vou comprar nada de você hoje. Estou esperando por um cliente.
— Eu sou o seu cliente, me disseram para encontrá-lo aqui — Otelo resmungou, apontando para o nome da rua acima deles. — Rua Pennyworth, na sexta badalada do sino?
Enquanto ele falava, um sino começou a soar ali perto, anunciando a hora. Otelo cruzou os braços e esperou o soar do sino de bronze terminar.
— Não — o condutor disse, um olhar de confusão em seu rosto. — Eu devo pegar um conjurador de Vocans. Agora, eu sabia que seria um plebeu, porque um rico iria em uma carruagem chique ou algo assim. Mas certamente não um meio-homem.
— Sou um conjurador — Otelo falou, ignorando o termo racista... não valia a pena discutir. — Se não partirmos agora, irei me atrasar.
— Onde está o seu demônio, então? — o condutor perguntou, erguendo a cabeça desafiadoramente.
— Estou indo para lá agora para conseguir um — Otelo respondeu, exasperado. Pelo menos, ele esperava conseguir um.
— Qual é a jogada? — o home perguntou, inclinando-se para frente e espiando Otelo.  Ele olhou por sobre o ombro furtivamente, como se um grupo de anões pudesse estar espreitando-o. — Nunca ouvi falar de um anão conjurador — o homem continuou, torcendo o nariz.
— Sem jogadas. Olhe, aqui está um pouco de prata — Otelo ofereceu, tirando um punhado de moedas de prata de seu bolso. — Isso fará com que me leve até lá?
O condutor havia sido contratado por Vocans, então Otelo não deveria ter que pagar nada, mas não queria se atrasar. Primeiras impressões eram muito importantes, e Otelo sabia que, sendo um anão, ele já teria uma luta árdua.
— Tudo bem — o motorista disse, arrancando o dinheiro da mão de Otelo antes que ele pudesse mudar de ideia. — Mas fique longe das batatas. Elas são para o exército, não para anões malandros.
Otelo olhou para as batatas. Elas estavam em condição deplorável. Metade delas já brotava e estava coberta com estrume fresco. Elas fediam mais que as carroças noturnas que esvaziavam as latrinas públicas.
— Você tem a minha palavra — Otelo disse, balançando sua cabeça.
O homem resmungou e foi para o lado, deixando espaço para Otelo empoleirar-se no banco. Resmungando, ele estalou seu chicote e a mula relinchou e começou a trotar pelas ruas pavimentadas. Não demorou muito até que eles saíssem dos subúrbios de Corcillum e fossem para a estrada – e para Vocans.
Particularmente, Otelo regozijava-se e lamentava. Ele nunca havia passado mais que poucas horas longe de sua família. Agora, poderiam ser semanas.
Ele se distraiu, tentando imaginar que tipo de demônio dariam a ele. Sua experiência era bastante limitada. Ele vira demônios com seus conjuradores antes, geralmente magos de batalha, os oficiais graduados de Vocans.
Besouros que zumbiam, com carapaças chamejantes e ferrões assustadores. Cães do tamanho de cavalos, com quatro olhos, garras espantosas e pelagem espessa ao longo de sua coluna. Felinos bípedes com presas afiadas como espadas. Ele não conseguia se imaginar com nenhum deles.
— Então, digamos que eu acredite em você — o carroceiro falou, interrompendo os pensamentos de Otelo. — Você é o único anão conjurador?
— Sim — Otelo suspirou.
Mas não era verdade, tecnicamente. Seu irmão gêmeo, Átila, também tinha a habilidade de conjurar. Ele se lembrava do Inquisidor de rosto amarelo — Rook, era seu nome. Como ele havia colocado as mãos nas deles, e sentira o poder dentro deles.
Como Átila fugira quando eles souberam. Como chamara Otelo quando ele aceitou seu lugar em Vocans e Átila não.
Traidor.
Seu estômago revirou com culpa. Ele voltou seus pensamentos para a mãe. A irmã. Seu pai.
Era o seu amor pela família e por seu povo que tornava a partida do lar tão difícil. Mesmo assim, era por eles que ele ia. Os anões eram cidadãos de segunda classe. Bem, isso não era verdade, eles não eram nem considerados cidadãos... o novo rei, Harold, oferecia alguma esperança. Ele era diferente.
Ele convidara os anões a lutar e ganhar sua cidadania. Para se tornarem recrutas em seu exército, e juntarem-se à guerra deles contra os orcs das florestas do sul. Otelo seria o primeiro anão conjurador e oficial. Ele teria poder real, e conviveria com os líderes mais poderosos da terra. E, por fim, ganharia o respeito deles... e liberdade para o seu povo.
Não havia iluminação na estrada em que eles viajavam, e a lua pouco clareava o caminho deles. Ao invés disso, o carroceiro acendera um lampião sujo, que continha uma vela que crepitava e que permitia a Otelo ver as espigas de milho que balançavam ao lado deles.
Estava tão escuro que foi uma surpresa para Otelo quando eles subitamente fizeram uma curva entrando em uma ponte de madeira e o castelo se ergueu acima deles, a silhueta de um monólito no céu sombreado.
— Chegamos — o condutor resmungou. — Dê o fora daqui.
Otelo saltou da carroça com um empurrão prestativo do carroceiro. Ele estremeceu enquanto o sangue corria para as suas pernas, e se afastou da carroça mal cheirosa.
Momentos depois ele estava sozinho, o pátio silencioso a não ser pelo barulho das rodas da carroça que se afastava.
— Então... — Otelo murmurou, movimentando a mão na frente do rosto. Ele mal conseguia enxergar. — Que ótima recepção.
Ele se moveu para frente até que seus pés encontraram uma pequena elevação de pedras. Era o começo de uma escada. Então, quando ele fez sua primeira tentativa para subir o degrau, um feixe quadrado de luz apareceu acima dele enquanto um par de enormes portas de madeira era aberto.
— É o Otelo? — uma mulher gritou.
Uma esfera de luz azul se materializou, flutuando em sua direção. Ela girava, um globo brilhante suspenso no ar, bem na sua frente. De alguma maneira, Otelo pensou que a esfera seria quente como uma chama, mas, quando esticou a mão, ele não sentiu nada, a não ser o arrepio frio do ar ao seu redor.
— Suba — a mulher convidou.
Otelo subiu a escada rapidamente, ansioso por sair do frio.
Ele se encontrou encarando uma mulher de cabelos muito escuros, com olhos cinza penetrantes e uma tez clara. Ela vestia um uniforme azul de oficial.
— Seja bem-vindo a Vocans, Otelo — ela disse, sorrindo. — Vamos começar.


Tradução: Thays

3 comentários:

  1. Karina e só este capitulo?????

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  2. — Então... — Otelo murmurou, movimentando a mão na frente do rosto. Ele mal conseguia enxergar. — Que ótima recepção.

    kkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!