22 de março de 2018

Epílogo

Fletcher achou que nunca tinha visto Lovett mais linda que quando Arcturo a conduziu pela rampa da igreja de Raleightown. O povo gritou vivas quando ele a levantou da cadeira e a carregou até a carruagem puxada por cavalos.
Ela ficava bem de branco. Ela ficava bem... casada.
Arcturo sorria de orelha a orelha, o rosto vermelho por conta do vinho que tinha tomado na recepção. Fletcher atirou mais um punhado de arroz no casal, e Sacarissa espirrou quando o arroz caiu a seu redor. Seu pelo tinha sido escovado e cacheado, e haviam amarrado um laçarote ao redor de seu pescoço, como uma gola. Ela olhava com ar sombrio para os festejadores, desafiando alguém a vir afagá-la. Fletcher não conteve um sorriso.
— Espere, espere — pediu Lovett, parando Arcturo.
Ele a virou, e ela segurou o rosto de Fletcher, depois lhe deu um beijo na bochecha.
— Obrigada por organizar esta festa — agradeceu ela, com o rosto brilhando de alegria.
— Não foi nada, eu devo mil vezes mais a vocês dois — disse Fletcher, levantando a voz para que ela pudesse ouvi-lo por sobre os gritos de alegria das pessoas.
Toda a cidade tinha comparecido, bem como a maioria dos funcionários e empregados da Vocans, um punhado de magos de batalha e algumas dúzias de anões. Até o rabugento do major Goodwin viera, embora agora estivesse dormindo embaixo do altar da igreja depois de tomar uma jarra inteira de cerveja. Fora uma comemoração memorável. Fletcher só lamentava que sua mãe não estivesse ali, mas ela continuava doente demais para sair do hospital, e Berdon também, pois tinha sido chamado para resolver um negócio urgente em Corcillum.
Os convidados tinham se reunido pelas ruas, esperando para gritar vivas aos noivos assim quem eles passassem por ali a caminho da capital, onde Harold tinha preparado um quarto para eles no palácio. Agora que Alfric estava morto, assassinado por um orc no campo de batalha, o jovem rei tinha total domínio do lugar.
— Fletcher, pare de distraí-los — comentou Otelo, abraçando o peito do amigo. — Senão eles vão se atrasar para o jantar com Harold.
Fletcher estremeceu de dor. Mesmo depois de um mês, suas costelas ainda estavam doloridas.
Sacarissa cutucou Arcturo com o focinho.
— Está bem, está bem — disse Arcturo, rindo, deixando que ela o empurrasse para a frente. — Nós voltaremos em breve para uma visita, Fletcher.
— É melhor mesmo! — gritou ele de volta, às costas dos dois, enquanto Arcturo carregava Lovett para a carruagem.
Fletcher sentiu um braço delicado enlaçar o seu enquanto ele acenava para se despedir do casal e as pessoas passaram por ele, correndo atrás da carruagem que seguia pelas ruas de calçamento de pedra.
— Como eles estavam felizes! — disse Sylva, sorrindo. — Quem diria, hein?
— Ah, eu tinha uma ideia — falou Fletcher.
— Seu mentiroso! — interrompeu Otelo, depois levantou a voz. — Cress, Fletcher disse que sabia que Arcturo e Lovett gostavam um do outro.
— Mentiroso! — gritou Cress, comendo um pedaço de bolo na porta da igreja.
Fletcher sorriu e começou a caminhar com Sylva pela rua.
— Vamos, eu ainda não mostrei a vocês — chamou ele, pedindo aos anões que o acompanhassem.
No caminho, Fletcher viu alguns gremlins espreitando nos limites da cidade, embora alguns tivessem reunido coragem para entrar e participar das festividades. Azul tinha montado uma nova colônia ao lado da Ponte Watford, onde a comida era abundante, e o solo, estável o suficiente para que cavassem um novo Viveiro. Eles vendiam seus peixes para o povo da cidade, e uma amizade tinha nascido entre os dois assentamentos. Apesar disso, a maioria dos gremlins era tímida e se limitou a assistir às comemorações da segurança da savana.
Os quatro passaram pela estátua que Fletcher tinha erigido na antiga passagem em frente à prefeitura. A estátua fora instalada naquela manhã, para grande admiração dos convidados. Um anão, um homem e um elfo, de pé lado a lado. E, embaixo, uma placa, com os nomes de todos os que haviam morrido em defesa de Raleighshire.
Nomes como os de Átila, Rory, Dália, Sir Caulder, Rotherham e mais de uma dúzia de outros. Nomes demais. Otelo parou diante da placa, e uma sombra de dor atravessou seu rosto.
— Eles morreram para que pudéssemos viver. — Foi tudo o que disse, correndo o dedo pelo nome de Átila.
— Heróis, todos eles — respondeu Fletcher solenemente. Olhou para o rosto do anão, e o rosto de Átila o olhou de volta.
— Seria legal se você tivesse colocado também uma estátua de Didric, quem sabe na frente das latrinas — disse Cress, chutando um montinho de terra. — Com uma placa contando tudo o que ele fez, para que sua covardia jamais fosse esquecida.
— Acho que a solução do rei foi bem mais eloquente — disse Otelo, com um discreto sorriso nos lábios.
A recusa de Didric de lutar não passara despercebida pelo rei Harold. Em sua nova posição de governante, ele punira não apenas Didric, como também o resto do Triunvirato. Multas elevadas foram aplicadas às três famílias, e o dinheiro arrecadado foi usado para reconstruir o que fora destruído pelos orcs.
Pelo que Fletcher ouvira falar, a família Cavell ficou sem um tostão e foi vista pela última vez em um navio rumo a Swazulu, carregando apenas a roupa do corpo. Melhor ainda, as montanhas do Dente de Urso, que cobriam metade das terras de lorde Faversham e todas as terras de Didric, foram presenteadas aos anões como uma compensação pelos crimes contra eles cometidos pelo Triunvirato. As colônias de anões já começavam a se espalhar pelos picos, com novos lares escavados dentro da rocha.
Quanto a lorde Forsyth e o Inquisidor Rook, os dois foram presos nas masmorras de Corcillum, onde passariam o resto da vida em cativeiro. Fletcher achou um fim apropriado para os dois, embora considerasse que era melhor do que ambos mereciam.
O sorriso de Otelo se transformou num risinho, e ele passou um braço em torno dos ombros de Fletcher enquanto eles caminhavam na direção do antigo campo de treinamento dos Raposas.
Porém, algo estava diferente agora, assomando da paisagem na frente do campo. As ruínas da mansão dos Raleigh tinham sido reformadas pelo povo de Raleighshire enquanto Fletcher se recuperava de seus ferimentos. Até os gramados tinham sido limpos, e os entulhos, todos retirados.
— Caramba, é bom ver como vive a outra metade, né, Otelo? — brincou Cress.
— Eu ainda nem entrei, na verdade — disse Fletcher.
— Por que não? — perguntou Sylva.
— Não parece certo — respondeu ele, encolhendo os ombros. — Pelo menos não ainda.
— Ele é maluco — disse Cress. — Eu fico com ela se você não quiser.
— Como melhor amigo dele, eu tenho direito primeiro — brincou Otelo.
— Ah, não — disse Cress. — Eu vou escolher meu quarto.
Fletcher sorriu quando Otelo e Cress saíram correndo na direção da antiga mansão.
— Melhor você se apressar, antes que eles peguem os melhores — brincou Fletcher, virando-se para Sylva.
Ela sorriu fracamente, com os olhos no horizonte.
— Sabe de uma coisa? É melhor eu ir andando — disse ela, desenrolando um pergaminho de conjuração retirado de um bolso de seu vestido. — Meu pai precisa de mim na fronteira sul. Os elfos vão ficar ali até que Hominum reconstrua o exército.
— Tão cedo? — perguntou Fletcher, com tristeza no coração. — Todo o exército orc fugiu quando viram o Dragão de Khan cair. Eles não acreditam mais na profecia.
— Eles começaram a tentar incursões de saque — respondeu Sylva, balançando a cabeça, arrependida. — Existe um exército de orcs sem líder na fronteira. Eles não sabem fazer mais nada, foram criados para lutar. Esta guerra ainda não terminou.
Ela percebeu a expressão arrasada de Fletcher e fez uma pausa. Inclinou-se para a frente e beijou seus lábios.
Fletcher ficou tão surpreso que não teve nem tempo de reagir. Logo Lisandro se materializou, e ela pulou sobre o lombo do Grifo com um salto ágil.
— Eu venho te visitar — disse ela, baixinho.
E então ela se foi, desaparecendo no céu.
Fletcher observou sua partida com tristeza, não se permitindo sentir esperanças, mas sorrindo mesmo assim. Ela era imprevisível, mas só o tempo iria dizer. Por enquanto, ele estava feliz por simplesmente estar vivo. Por estar livre de todo o peso do futuro de Hominum.
Um cavalo relinchou. Fletcher virou-se e viu uma carruagem passando pelo gramado, deixando sulcos profundos na grama bem aparada.
— Ah, isso vai deixar marca — resmungou Fletcher.
E saiu correndo até a carruagem.
— Você chegou tarde! — gritou para o cocheiro. — Se você andar depressa, talvez os alcance a caminho de Corcillum.
Ele apontava para a rua quando a porta da carruagem se abriu. Berdon saiu, com um sorriso tímido.
— Desculpe, filho — disse o ferreiro, dando-lhe um abraço simpático. — Esqueci que eles tinham reformado a casa.
— Não me importo com o gramado; eu me importo por você ter perdido a cerimônia — disse Fletcher. — Quer saber, seu negócio, seja lá o que era, podia ter esperado. Não sobrou nem bolo; Cress comeu tudo.
— Bem, aí é que está — começou Berdon, sorrindo para Fletcher. — Meu negócio não podia esperar. Tem alguém querendo te ver.
Fletcher, entretanto, não estava mais ouvindo. Porque uma mulher havia saído da carruagem.
Alice. Sua mãe.
Ele ficou olhando, sem entender. Os olhos dela. Era como se ela estivesse olhando diretamente para ele. Fletcher deu um passo hesitante para a frente.
— Fletcher? — disse ela, incerta.
— Vá, filho — disse Berdon, empurrando o garoto de leve.
Foi quando lágrimas começaram a correr pelo rosto de Fletcher, e ela estava ali, abraçando-o junto ao peito. Era como se uma represa tivesse explodido dentro de si, inundando-o de alegria. Depois de todos aqueles anos, de tudo o que ele havia passado... agora tinha a mãe de volta.
— Sinto muito — desculpou-se ela, soluçando. — Sinto muito mesmo.
Fletcher afastou-se para olhá-la. Tocou sua bochecha, mal acreditando que ela era real.
— Não precisa se desculpar — disse ele. — Eu estou aqui agora. Você está aqui agora.
Ela sorriu por entre as lágrimas.
— Venha — disse ela, puxando-o pela mão.
Eles caminharam na direção da mansão, Berdon acenando para ele, incentivando-o com uma gargalhada ribombante que preenchia o ar.
Fletcher nunca se sentira tão feliz.
Porque, finalmente, ele estava em casa.

19 comentários:

  1. Até que enfimmmmmmmmmmmmm...boas notícias nessa história...pensei que os bandidos iriam continuar livres...

    ResponderExcluir
  2. Vou Choraaaar :`(


    Amei o final mais nao queria que acabasse

    ResponderExcluir
  3. QUE HISTÓRIA ❤❤

    ResponderExcluir
  4. Queria saber o que aconteceu com tarquin e Isadora...

    ResponderExcluir
  5. Eu queria a Sylva e o Fletcher juntos.

    ResponderExcluir
  6. Aaaa que final...

    _ jeancvf

    ResponderExcluir
  7. Ja não era sem tempo pra tudo oque aconteceu nesse epilogo

    ResponderExcluir
  8. Eu queria saber se em algum momento vão comemorar o aniversario do fletcher? Se as minhas contas estiverem certas então ou ele esta perto de completar 18 anos ou já completou

    ResponderExcluir
  9. Aí emocionante amei a história S2

    ResponderExcluir
  10. Que lindo, lindo, lindolindolindolindo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    ResponderExcluir
  11. Que bom que aquele estorvo foi punido 😒

    Gostei do final xD Apesar de querer saber o que aconteceu com os outros .-. E isso que a Sylva falou dos orcs, é indicação para um próximo livro xD?

    ResponderExcluir
  12. É por isso que eu amo os epílogos!!!

    ResponderExcluir
  13. Eu amei o final, Alice e Fletcher juntos. CRESS e Otelo brigando pelo melhor quarto. Adorei!!

    ResponderExcluir
  14. Acabou? Tipo o último livro do Fletcher, é só uma trilogia??


    Milly

    ResponderExcluir
  15. Espero que tenha um quarto livro! Achei que o autor deu um desfecho muito apressado!

    ResponderExcluir
  16. leide fazvechame kkkkk

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!