9 de março de 2018

Epílogo - Matriarca

Devo ter dormido no barco por muito tempo, porque, quando acordei, estava na cama da fazenda da minha avó. Amon ocupava uma cadeira de vime ali perto, cabeceando enquanto cochilava, os pés cruzados e apoiados na cama ao meu lado. Ele se agitou quando afastei as cobertas.
— Lily? — perguntou. — Como você está?
— Como se tivesse sido torcida e pendurada no varal para secar.
— Eu também — disse ele, coçando a lateral do pescoço.
— Há quanto tempo estamos aqui?
— Hassan nos deixou ontem à noite. Carreguei você para dentro. Antes de sair, ele me deu esta bolsa cheia de documentos e fotos.
— Posso ver?
Ele me entregou a bolsa e dentro encontrei uma certidão de nascimento, um passaporte, uma carteira de motorista, registros escolares, documentos de cidadania de vários países, inclusive o Egito. Junto com isso, havia uma lista de contas em bancos ao redor do mundo. Arquejei quando seus amados instrumentos de arqueologia caíram na cama também.


Fazia uma semana que estávamos na fazenda, pensando num modo de contar aos meus pais como eu tinha conhecido um lindo rapaz egípcio em Iowa, quando tive um sonho. O luar se derramava sobre a cama e, respirando acelerado, eu me sentei. A voz de Amon me acalmou:
— O que foi? — perguntou.
— Asten, acho. Ele me mostrou um sonho.
Passei a hora seguinte descrevendo o que tinha visto. Ísis e Néftis invocaram os grandes deuses que tinham alinhado o Cosmo e Wasret e Nekheny apareceram com sorrisos satisfeitos. Nekheny cumprimentou a mãe calorosamente.
— O que podemos fazer por vocês? — perguntou ele.
— Osíris e eu reviramos o mundo dos mortos. Sem a Devoradora, pudemos compelir os cães do inferno a nos ajudar. Os ceifadores também ofereceram ajuda.
— Sim? — perguntou Wasret, paciente.
— Encontramos o cabelo dela — disse Ísis, empolgada. — Alguns fios ficaram presos na casca da árvore das fadas queimada.
Ela entregou os fios ruivos a Nekheny.
— E eu trouxe os restos de uma menina egípcia natimorta — explicou Osíris, pondo no chão uma figura minúscula enrolada em panos. — Revirei o além e não a encontrei. Pensei que talvez vocês pudessem refazê-la.
Wasret e Nekheny se entreolharam e chegaram a um acordo.
— Faremos o que vocês pedem — disseram em uníssono.
Os dois pegaram as oferendas e reapareceram na superfície das Águas do Caos. Então teceram um encantamento e disseram:
— Tiaret, invocamos sua força vital e fazemos um novo corpo para você a partir do corpo de alguém que não chegou a viver. Ashleigh, invocamos sua força vital e pedimos que entre em seu novo corpo.
Uma luz se amalgamou e subiu das recém-expandidas Águas do Caos. A serpente Tharu olhava com curiosidade enquanto eles trabalhavam. Quando as duas mulheres abriram os olhos, entreolharam-se e deram um sorriso largo, abraçando-se e rindo. Os deuses as acompanharam até o além e as colocaram no Salão do Julgamento. Quando os guardiões foram invocados, Wasret perguntou se eles ainda guardavam os escaravelhos do coração que tinham recebido. Assentindo, eles os puxaram do peito e ficaram atônitos ao sentir as batidas do coração de suas amadas. As jovens recém-criadas foram então reunidas aos homens que guardavam o coração de cada uma.
Ahmose abraçou uma mulher linda de cabelos ruivos encaracolados que desciam até a cintura. O nariz dela era salpicado de sardas e seu vestido verde realçava o brilho verde dos olhos. Atrás dela, duas asas diáfanas tremiam de empolgação.
Depois de se abraçarem, Ahmose e Ashleigh se viraram para a deusa.
— Ashleigh, você foi refeita — disse Wasret. — A partir de agora será chamada de Luna, a esposa do deus da Lua. Que seu nome novo seja gravado em seu coração. Juntos vocês serão unificados no desejo de servir ao Cosmo. Seu papel será de cultivadores de novos reinos e guardiões do horizonte oriental. Você terá o poder de seu companheiro, de andar pelo Caminho dos Ontens e dos Amanhãs. Como este é o seu desejo, o laço entre os dois é agora inviolável, como o de Ísis e Osíris. A partir de agora nada irá separá-los.
Em seguida Asten aproximou-se com uma princesa lindíssima. Ela caminhava com passos confiantes das longas pernas que se estendiam por quilômetros e mantinha a cabeça erguida e orgulhosa. Sua pele era lisa e escura. As linhas dos malares e do maxilar eram proeminentes, e a boca e o corpo eram curvilíneos e exuberantes. No pescoço esguio havia um grosso colar de bronze queimado. Era uma verdadeira deusa. Quando olhou para Asten, dirigiu-lhe um sorriso maroto, os olhos dourados brilhando enquanto o cumprimentava com a cabeça. Um canto de sua boca subiu enquanto ele sussurrava alguma coisa em seu ouvido.
— Tiaret — disse Nekheny —, de agora em diante você será chamada de Naledi, a esposa do deus das estrelas.
Asten murmurou baixinho:
— Minha estrelinha.
— Shh, Asten — disse a mulher em voz baixa, mas com um sorriso feliz.
A voz era ligeiramente diferente da que eu recordava, mas, olhando para a mulher, eu podia ver facilmente a leoa me encarando. Mesmo que não fosse pela massa de cabelos castanhos que envolvia o rosto lindo como um halo dourado, eu saberia que era Tia. A única coisa que faltava era a cauda balançando de um lado para outro.
— Que seu nome seja gravado em seu coração. Seu papel será de caçadora do céu. Guardiã do horizonte ocidental. Você e seu companheiro terão a capacidade de andar pelo Caminho dos Ontens e dos Amanhãs. Como este é o seu desejo, agora o laço entre vocês é inviolável, como o de Ísis e Osíris. A partir de agora nada irá separá-los.
— Não sou uma grande caçadora sem garras — disse a ousada deusa leoa.
Wasret sorriu.
— Então talvez isto seja mais útil para você do que para mim.
Ela sacou as facas-lanças das costas e as entregou a Tia. A leoa transformada em deusa passou a mão por elas, praticamente ronronando de contentamento.
— Fizemos por vocês o que pudemos — disse Wasret — e esperamos que encontrem a felicidade. Só mais uma coisa antes de os deixarmos.
Os quatro deuses se entreolharam, confusos.
Nekheny sorriu para eles.
— Apesar de não terem mais necessidade de alinhar o Sol, a Lua e as estrelas, seus novos poderes lhes concedem a capacidade de deixar seus deveres no além quando houver uma trégua em seu trabalho. Se optarem por visitar o reino mortal ou qualquer outro reino do Cosmo, podem fazer isso, mas talvez precisem da ajuda de um mortal para servir como guia durante as estadas na Terra.
Nekheny se virou no meu sonho e olhou diretamente para mim.
— Há um precedente para chamar um grão-vizir para esse serviço. Nós escolhemos um. Amon, de agora em diante você está convocado a servir aos deuses como grão-vizir de uma nova ordem chamada de Sacerdotes de Aton. Nós lhe concedemos o conhecimento necessário para isso e você será conhecido para nós por seu nome verdadeiro, Amset. Você receberá os poderes inerentes ao cargo, inclusive a capacidade de fazer encantamentos, um discernimento elevado do funcionamento do Cosmo, sensibilidade para o sobrenatural e vida longa. Dentre seus deveres estarão cuidar dos negócios dos deuses e fornecer alimentação mortal e ajuda necessária para os deuses que visitarem seu reino.
Ele continuou:
— Lily Young, você está convocada a servir como matriarca da Ordem da Esfinge. De agora em diante será conhecida como Nebthet, a deusa mítica. Receberá os poderes inerentes ao cargo, inclusive força física, visão e audição aumentadas e vida longa. Receberá as flechas de Ísis para usar como achar adequado e servirá ao lado de seu esposo e companheiro, o grão-vizir. Você é a primeira esposa de Amon.
E concluiu:
— Como este é o seu desejo, e apesar do fato de serem mortais, o elo entre vocês dois é agora inviolável, como o de Ísis e Osíris. A partir deste momento, nada irá separá-los. Nós a honramos e lhe damos as Joias Daquela Que Derrotou a Esfinge. Você já pôs os olhos nesse tesouro. Está escondido no templo onde conheceu Ísis. Além disso, é herdeira da sala dourada escondida no templo de Hatshepsut. Invoque o barqueiro e ele irá instruí-la melhor quanto à localização.
Ele me jogou uma moeda de ouro que me pareceu familiar. Peguei-a e a virei na mão. A única diferença estava no chapéu que o barqueiro usava.


— Assim que ele disse isso, eu acordei — contei a Amon. — Você acha que foi real?
— Acho que foi. — Pegando minha mão, ele a encostou nos lábios e depois colocou uma moeda de ouro na minha palma e a envolveu com meus dedos.
— Encontrei isso no seu travesseiro.
— Amset — disse eu. — Seu nome verdadeiro. É a palavra que você me sussurrou na pirâmide quando me deu seu escaravelho do coração.
— É. O Olho me revelou meu nome verdadeiro muito antes que os deuses o dessem.
— E você o confiou a mim? Osíris me disse que nem Ísis sabe o nome verdadeiro dele.
— Osíris mentiu. Ele e a esposa revelaram um ao outro seus nomes verdadeiros quando trocaram os corações. Era uma parte necessária do encantamento. Sei porque vi isso acontecer, através do Olho. Além disso, eu confiaria qualquer coisa a você, jovem Lily — disse ele, prendendo um fio de cabelo atrás da minha orelha. — Sabe, eu também tive um sonho.
— E qual foi? — perguntei, envolvendo seu pescoço com os braços e puxando-o mais para perto.
Senti a batida de seu escaravelho do coração no meu peito e soube que reagíamos um ao outro da mesma forma.
Amon me puxou para o colo, com os braços em volta da minha cintura, e se curvou, provocando meus lábios com um beijo suave. Quando eu fiquei sem fôlego, ele levantou a cabeça.
— No meu sonho, um unicórnio que nós dois conhecemos cutucou meu ombro.
Arquejei.
— Nebu?
— Ele estava no além. Uma princesa linda estava montada nele e ele balançou a crina com orgulho enquanto se empinava, exibindo-a, com o alicórnio brilhando quando deu meia-volta. Quando partia para galopar pelas colinas, ele disse: A prece secreta de sua mãe foi finalmente atendida, Amon. Você encontrou o que todos nós buscamos. Em seguida, partiu a galope, gritando: Você ainda me deve uma.
Nós rimos juntos e Amon capturou meus lábios de novo.
Quando nos separamos, perguntei:
— Qual era o desejo secreto de sua mãe? Que você se tornasse mortal de novo?
Amon balançou a cabeça.
— Ela queria que eu encontrasse o amor. Que fosse feliz.
— E você é? — perguntei, provocando-o.
Ele inclinou a cabeça, como se pensasse seriamente na pergunta.
— Seria mais feliz se tivéssemos uns bolinhos com recheio de geleia de frutas. — Soquei seu braço e ele ficou sério. — Você está feliz, Nehabet?
— Está brincando? Eu ganhei o Sol de presente.
Ele me beijou com ternura e logo estávamos tão perdidos um no outro que nem ouvimos o pio do pássaro chamando a companheira no telhado da casa da fazenda.
Se tivéssemos nos dado ao trabalho de olhar, veríamos uma ave de rapina, um milhafre, levantar voo e encontrar um pássaro Benu no ar. Os dois voaram em direção ao horizonte, os corpos emoldurados pela luz da lua que se punha.

24 comentários:

  1. Final que ao mesmo tempo eu esperava mas que também foi bem diferente, não sei...

    E não sei como a autora teve tanta criatividade para criar todos esses nomes e histórias e etc, porque não é só romance, é mitologia egípcia... deve ser mais difícil ainda.

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  2. Maravilhoso, no final ... 😍😎👁🐴

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  3. Amei esse final

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  4. Muito bom... me parece que ainda teria muita história para contar...

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  5. Senti que a autora só acrescentou esse epílogo para acalentar nossos corações

    funcionou *--*

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  6. Não sei pq mas eu sempre penso que os finais tem que ter um bebê...

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    1. Mary Gray: conjuradora das trevas, bruxa no último ano em Horgwarts, vampira(melhor amiga do Jacob Black), peculiar, filha de Poseidon,sanguenova, caçadora de sombras, protegida de durga, divergente,tordo, anjo caido,narniana,esfinge, Hobbit ( e outros títulos intermináveis) u.u3 de agosto de 2018 15:01

      Meio difícil se ela é virgem 😶

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  7. Meu Deus mano... Que final maravilhoso😍

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  8. Tbm tive a impressão que ainda teria muito pra contar! Gostei do final. Esperava mais do livro como um todo, os outros dois são mais envolventes, eu gostei mais deles. Esse teve um momento muito parado, eu realmente me empolguei no começo e no final.

    Flávia

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  9. Gostei do final :3 Imaginava já também que seria algo do tipo e que bom que foi *-*

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  10. Final incrivel 😍😍❤❤

    -Maria Eduarda

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  11. BRUNA OLEGARIO GARCIA13 de abril de 2018 23:24

    Não podia ter sido melhor ❤️ eu amo a collen,tem horas que a gente quer jogar o livro na cabeça dela, mas no final focs tudo bem. Depois de ler essa trilogia vou tatuar o sol, a lua e umas 3 estrelinhas ❤️❤️❤️❤️

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  12. Gostei muito do final de cada uma. Fiquei feliz por Amon e Lily finalmente ficarem juntos.

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  13. Tbm fiquei cm a sensação de que teria mais.
    Ta valendo, gostei do livro. Quero um Amon pra mim tbm. 💕😍😍

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  14. Série muito boa, mas eu esperava mais sem dúvida, do segundo e principalmente do terceiro, meio que deixou um vácuo, pelo menos ao meu ver.. o primeiro livro foi excepcional..

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  15. Gostei muito do final. A unica coisa que ficou mal explicada foi essa coisa da vó da Lili virar deusa. Eles ficarm esquecidos a historia toda e final aparecem no além.

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  16. Achei maravilhoso as duas também mereciam o amor pq todas se arriscaram

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  17. Achei o final muito bom pq as duas também mereciam o amor pois se arriscaram muito entregando suas proprias essencias

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  18. Amei a serie... Porém os vácuos foram a avó de Lili ser "enterrada" no Egito, como se explica?? E qto aos pais dela?? O que ela vai fazer? Vai pra faculdade com o Amon???

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  19. Maravilhoso esse final.Todos com seus companheiros. Menos Anúbis, pois Maat se foi.

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  20. Mary Gray: conjuradora das trevas, bruxa no último ano em Horgwarts, vampira(melhor amiga do Jacob Black), peculiar, filha de Poseidon,sanguenova, caçadora de sombras, protegida de durga, divergente,tordo, anjo caido,narniana,esfinge, Hobbit ( e outros títulos intermináveis) u.u3 de agosto de 2018 15:05

    Aaaahhh agora siiiiimmm!!!
    Perfeito, qchei que a Collen ia me decepcionar, mas é looogico que não, ela só queria cortar meu coração antes de colar com amor!!! (Gostei bem mais da maldição do tigre, afinal, eu entendi bem mais coisa lá, mas daqui alguns anos vou reler essa trilogia e vou ter outra visão!! )

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  21. Adorei o final, bem que a autora poderia fazer uma continuação. Vou rezar por isso.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!